Parecia apenas um susto o que Niklas Süle atravessou no mês passado, numa partida frente ao Hoffenheim, a contar para a 30.ª jornada da Bundesliga. O atleta caiu no relvado do PreZero Arena agarrado ao joelho. O que afinal era só um susto tornou-se no princípio do fim da carreira este verão do defesa central do B. Dortmund, anunciou o clube esta quinta-feira.
Aos 37 minutos, o jogador alemão, na tentativa de bloquear um remate, escorregou e ficou deitado, queixoso, no relvado depois de se tentar apoiar no joelho. Süle pensou que era a terceira rutura do ligamento cruzado a bater-lhe à porta. O médico e o fisioterapeuta do clube, inicialmente, também acharam o mesmo – um primeiro teste apontava para esse diagnóstico.
Mas a boa notícia do dia seguinte em nada fazia prever o que o central alemão estava prestes a decidir. Uma ressonância ao joelho do jogador afastou a hipótese de rutura do ligamento cruzado. Niklas Süle podia prosseguir com a sua carreira. Foi depois desse diagnóstico que decidiu, no entanto, que “era o fim” da sua carreira. “Quando fiz a ressonância magnética no dia seguinte e recebi a boa notícia, ficou 1.000% claro para mim que era o fim“, afirmou em declarações ao clube.
“Não conseguia imaginar nada pior do que estar ansioso pelo que viria a seguir – ser independente, ir de férias, passar tempo com os meus filhos –, para depois ter de lidar com a minha terceira rutura do ligamento cruzado anterior”, acrescentou. Não foi preciso uma lesão para acabar com a carreira. A ansiedade já estava a fazê-lo e o susto terá servido de empurrão.
Os primeiros passos, as primeiras lesões, uma Champions e o excesso de peso
Foi precisamente no Hoffenheim que Niklas Süle deu os seus primeiros passos no futebol profissional. A época 2012/2013 foi só o início na sua longa jornada na Bundesliga. Em 2014, o jovem defesa atravessou a primeira grande lesão. Na altura, Süle era totalista no clube alemão. 16 jogos, 1.440 minutos. As contas são fáceis: o defesa cumpriu todos os minutos dos primeiros 16 jogos do Hoffenheim. A infelicidade chegou ao 17.º. Para Süle, essa partida não acabou aos 90 minutos. Acabou aos dez, por conta da sua primeira rutura do ligamento cruzado.
A recuperação veio na temporada seguinte. O ritmo habitual de Süle, também. Em 2015/2016, o central voltou a jogar do primeiro ao último minuto em todos os jogos do clube. Chegou também a seleção alemã. E, mais tarde, o Bayern, na época 2017/2018. Os bávaros pagaram 20 milhões de euros ao Hoffenheim pelo passe do central nesse verão. Seguiam-se cinco épocas a representar o conjunto de Munique. Foi numa dessas épocas – a de 2019/2020 – que o jogador voltou a lesionar-se no ligamento cruzado do joelho. O ritmo, até essa lesão, era o mesmo. De 990 minutos possíveis nos primeiros 11 jogos, Süle jogou 989. Ao 12.º minuto do 12.º encontro, uma rutura no ligamento cruzado travou, uma vez mais, a época do central. Ainda conseguiu voltar a tempo de ajudar o Bayern a conquistar a Liga dos Campeões no Estádio da Luz, tendo participado nos quatro jogos a eliminar.
Cerca de três temporadas depois, o central chegou a Dortmund e protagonizou uma troca que normalmente acontece em sentido contrário no futebol alemão. Süle rumou ao Borussia com quase tudo o que havia para ganhar. Faltava ganhar o coração da parede amarela. Foi isso que fez, quando ajudou a equipa a chegar à final da Liga dos Campeões diante do vencedor Real Madrid (2-0). No entanto não participou na final. Uma das razões poderá ter sido o excesso de peso com que se apresentou dias antes do derradeiro jogo da prova milionária.
Pizza seis vezes por semana, kebab mais oito e uma transformação no verão
Mais uma questão de ordem física voltava a travar o central. Mas não era a primeira vez. Markus Babbel, treinador que orientava o Hoffenheim na época de estreia de Süle, afirmou que o atleta era “bom, mas não muito bom”, meses antes da final em Wembley. “Acho que ele tem dificuldade em manter a disciplina necessária para fazer tudo como deve ser. Quando se carrega mais três ou quatro quilos, isso nota-se a este nível. Também se falou do facto de ele comer pizza seis vezes por semana e kebab oito vezes. Isso não funciona. Não quer dizer que ele não deva fazê-lo de todo. Às vezes é preciso dar-se um mimo, e isso não faz mal nenhum. Mas não se pode fazer isso todos os dias”, afirmou ao Sport1.
Sobre a forma como Süle se apresentou no treino aberto em Dortmund a dias da final da Liga dos Campeões, em maio de 2024, Sebastian Kehl, então diretor desportivo do clube, na altura afirmou que era “preciso tempo para interiorizar os problemas”, mas que o atleta estava “disposto a trabalhar nisso”. A situação, revelou o dirigente, “chegou a um ponto de frustração”, mas “em breve” haveria “um clique”.
Esse “clique” chegou em pouco tempo. Em julho do mesmo ano, a transformação de Niklas Süle já era visível. “Pensei: meu Deus, temos um novo jogador! É admirável a forma como ele conseguiu isto”, disse Hans-Joachim Watzke, CEO do Borussia Dortmund, citado pelo jornalista italiano Fabrizio Romano.
????⚫️ Borussia Dortmund CEO Watzke on Niklas Süle: “I was thinking: my god, we've got a new player! It's admirable how he's managed that”.
“He’s in excellent shape and I prefer it a thousand times better when someone realises a mistake and makes the appropriate deductions”. pic.twitter.com/JwLH0YkUIx
— Fabrizio Romano (@FabrizioRomano) July 12, 2024
A boa forma física voltou, o antigo Niklas nem por isso
Süle voltou à melhor forma, mas nunca mais voltou a ser o mesmo. O totalismo passou a ser um vestígio do que o defesa central já tinha sido. Niklas Süle nunca mais conseguiu os minutos que tinha alcançado noutras épocas. A época 2024/2025 (25 jogos) antecipava atual temporada, com ainda menos jogos disputados: 12. Em apenas uma partida esta época conseguiu cumprir algo que fazia todos os fins de semana noutros tempos: 90 minutos seguidos.
Agora a janela do futebol fecha-se para Niklas Süle. Ganhou quase tudo o que havia para ganhar na Alemanha. A carreira pode ter acabado relativamente cedo, mas o atleta leva para o seu museu cinco títulos da Bundesliga, quatro Supertaças alemãs e duas Taças da Alemanha. A nível internacional, Süle venceu uma Liga dos Campeões, um Mundial de Clubes, uma Supertaça Europeia e ainda a edição de 2017 da Taça das Confederações.
Na hora de despedida dos relvados, o atleta, que já não contava para época 2026/2027 do Borussia (que anunciou em março a sua saída no verão, depois de não renovar), disse que, ao fim de quatro anos em Dortmund, “houve muitos momentos” que o marcaram. “As brincadeiras no balneário, no estádio – estamos a falar de 80 000 pessoas. Os adeptos receberam-me sempre de braços abertos. Vou sentir muitas saudades desta época. Sentia-me aqui como em casa. No meu primeiro dia, percebi como são as pessoas em Dortmund: abertas, calorosas, sinceras. Senti uma enorme ligação com isso. Os meus filhos frequentam a creche aqui. É muito difícil para nós partir“, acrescentou.
O último jogo em que Niklas Süle participou foi precisamente frente à sua primeira equipa no futebol profissional. No entanto, o B. Dortmund ainda tem pela frente dois duelos: diante do Eintracht Frankfurt, esta sexta-feira, e frente ao Werder Bremen, no dia 16 de maio. Um destes encontros poderá marcar a despedida dos relvados, agora planeada, do defesa central alemão.