Depois de um dia de defesa, um esboço de ataque. Afonso Eulálio manteve a camisola rosa na etapa que tinha o temível Blockhaus no final mesmo perdendo tempo para o vencedor Jonas Vingegaard mas cumpriu o que estava na cabeça antes da etapa, com uma diferença de três minutos que se encontrava nos “planos”. Logo de seguida, e quando todos esperavam essa mesmo postura em mais uma tirada a chegar em alto em Fermo, deu mostras de uma outra face. Mais: atacou. Jhonatan Narváez ganhou pela segunda vez este ano, continuando a dar pequenas alegrias a uma UAE Team Emirates que teve uma grande desilusão com a desistência de Adam Yates logo nos primeiros dias, mas o português reforçou aquilo que também consegue fazer.

Afonso continuou sem limites no dia em que Jhonatan voltou a tocar o céu: Eulálio meteu favoritos em sentido e segue de rosa

Essa iniciativa nos últimos quilómetros deixou uma mensagem forte à concorrência. Existe uma corrida em paralelo neste Giro que, em condições normais, deverá colocar Jonas Vingegaard na frente e a fazer história tendo Felix Gall como principal adversário nesse objetivo. Depois, segue-se o “resto”. E é nesse resto que se encontra Afonso Eulálio, que ganhou a camisola rosa num dia de loucos em que também foi ao asfalto e tem agora uma nova ambição que elevar a fasquia, procurando defender uma posição no top 10. Os 3.15 minutos de vantagem sobre o dinamarquês eram “artificiais”, os 5.11 de avanço sobre Michael Storer, que à entrada para a etapa deste domingo ocupava a décima posição, eram “reais”. E iam ter agora um novo desafio.

Jonas venceu a primeira batalha diante de um Afonso que sofreu para manter a honra: Vingegaard vence no dia em que Eulálio segurou a rosa

“Foi uma etapa dura mas não houve uma fuga numerosa e a equipa controlou bem a corrida. Talvez, em alguns momentos durante a etapa, nos tenhamos entusiasmado demasiado quando estávamos a puxar na frente, mas isso também demonstra que a equipa estava feliz por estar nessa posição O Afonso fez uma grande subida. Talvez tenha ido muito ao limite e quando descolou já estava no vermelho. Se tivesse seguido ao seu próprio ritmo um pouco antes, talvez a diferença teria sido um pouco menor, mas ainda assim estamos contentes. Ele ainda é novato neste tipo de corridas, a correr com a camisola de líder, e penso que aprendeu muito para os próximos dias”, frisara Franco Pellizotti, diretor desportivo da Bahrain, a meio do início deste período com três etapas com chegada no alto que podiam trazer mudanças na prova.

Por mim, chegava a Roma com esta maglia mas é bastante impossível. Gosto de correr assim. Às vezes não o posso fazer, porque não tenho as melhores pernas, mas estes dias são os meus dias, são como uma clássica. Não gosto assim tanto de subidas muito longas, provavelmente não estou preparado para elas, mas estes dias são os dias de que eu gosto”, comentara Eulálio após a etapa de sábado, entre a convicção de que podia chegar na liderança ao dia de descanso.

Era esse o grande objetivo do português, que sabia também as dificuldades que poderia enfrentar logo no arranque da segunda semana com um contrarrelógio mais longo com 42 quilómetros entre Viareggio e Massa que faria mexer mais uma vez os lugares da frente. Antes, as principais mexidas foram na frente, com Edward Planckaert, Lorenzo Milesi e Davide Ballerini a formarem o primeiro grupo na fuga, Einer Rubio depois a juntar-se para dar outra força à Movistar e o trio Giulio Ciccone, Toon Aerts e Diego Ulissi a juntar mais tarde na frente para colocar a fuga numa tentativa de seis corredores antes do acelerar de ritmo do pelotão, onde Afonso Eulálio continuava a andar de forma discreta à espera da última subida da etapa. A pouco mais de 20 quilómetros da meta, a distância ainda era ligeiramente superior aos dois minutos.

A 11 quilómetros da meta, quando a subida começou a inclinar mais, Ciccone saiu e apenas Rubio conseguiu aguentar o ritmo do italiano. Aguentou, aguentou, ambos acabaram por ver o esforço extra ser anulado nos últimos 3.000 metros, com a Jumbo Visma a preparar mais um ataque de Jonas Vingegaard mas também com a Decathlon a trabalhar para Felix Gall conseguir surpreender. Só mesmo no final, quando alguns nomes fortes como Giulio Pellizzari e Enric Mas já tinham cedido, é que Afonso Eulálio acabou por ficar no grupo que quebrou, mantendo ainda assim um ritmo interessante que permitiu não “afundar” mais. O português foi de novo inteligente: evitou ir ao choque, ficou perto de corredores que poderiam aguentar uma cadência mais a seu jeito sobretudo na parte mais íngreme e foi tentando apenas reduzir o avanço que Vingegaard voltou a ganhar, partindo a 800 metros para a vitória que Felix Gall só conseguiu mesmo assistir de perto.

O dinamarquês ganhou a segunda etapa nesta edição do Giro com 12 segundos de avanço em relação a Gall (mais bonificações), Davide Piganzoli e Thymen Arensman ficaram nos lugares seguintes. Depois, qual bala ao virar da última curva para a meta na transmissão, Afonso Eulálio surgiu no limite para fechar o top 5 da etapa, resultado que não só impressionou tudo e todos como reforçou o sonho de fechar a edição entre os dez primeiros da classificação geral. Contas feitas, o português ficou com uma vantagem de 2.24 na classificação geral em relação a Vingegaard e 2.59 para Felix Gall, que surge como maior adversário do dinamarquês. Seguem-se Jai Hindley (4.32), Christian Scaroni (4.43), Thymen Arensman (5.00), Mathys Rondel (5.01), Ben O’Connor (5.01), Giulio Pellizari (5.03) e Michael Strorer, que está em décimo (5.15).