Era uma comparação que não se podia fazer, nem por isso deixavam de ser histórias com os seus pontos de contacto. Quando o Benfica subiu ao primeiro escalão do futebol feminino e foi mesmo campeão qual rolo compressor a marcar 365 golos em 28 jogos consentido apenas um, teve ainda o acrescento de chegar à final da Taça de Portugal e conquistar o primeiro dos muitos troféus que se seguiriam, goleando então o Valadares Gaia por 4-0 em 2019. Sete anos depois, era o FC Porto que assumia esse estatuto. Sendo hegemónico nessa caminhada que culminou com a subida ao primeiro escalão sendo campeão sem “esmagar” as adversárias (e com outra competitividade), chegando também ao Jamor após surpreender Marítimo e V. Guimarães. Só havia depois uma diferença – a que fazia toda a diferença. Enquanto as encarnadas encontraram uma equipa com a qual podiam disputar o encontro, as azuis e brancas tinham pela frente… as hexacampeãs.

Quando não falta a inspiração, elas brindam ao novo hexacampeão: Benfica vence em Braga e volta a sagrar-se campeão nacional no feminino

“Não nos escondemos da responsabilidade que temos, estamos habituados a isso desde o primeiro dia em que entramos neste clube. Também sabemos que isso, por si só, não ganha jogos. É tudo teoria, o favoritismo é meramente teórico. Não posso falar dessa final do Benfica, quando estava na Segunda Divisão e venceu. Aqui, a questão é que o favoritismo é apenas teórico. Assumimo-lo sem problema nenhum mas sabemos que, na prática, vamos ter de trabalhar, suar e correr para conseguirmos aquilo que queremos. Estamos a falar de jogadoras muito experientes, de um grupo muito experiente, que já passou por muito e que não cai nesse tipo de situações. É um grupo muito preparado para dar uma boa resposta, sabendo que do outro lado está uma equipa que também vem para competir e vencer”, apontara Ivan Baptista, técnico das encarnadas.

“É a cereja no topo de bolo, não só desta época mas de duas épocas fantásticas da nossa equipa. É também sinónimo do crescimento que temos vindo a ter. Já é uma vitória cá estar. Sabíamos que chegar a esta final acrescentaria o brilhantismo que queríamos a estas duas épocas, e agora queremos que seja um encontro que dê brilhantismo ao futebol feminino. Falamos de um adversário que tem a hegemonia do futebol feminino neste momento, com o maior investimento a nível nacional, uma equipa que conta com nove internacionais da Seleção, além das da Noruega e Dinamarca. Somos uma equipa jovem, ambiciosa e com muita vontade de competir. Esse é o maior desafio que temos. Preparamo-nos há mais de um ano para chegar a jogos como este e sermos muito competitivos de forma a competirmos com equipas deste nível. Era aqui que queríamos chegar, é aqui que nos temos de habituar a estar. É o início de uma caminhada certamente vencedora do nosso clube no futuro do futebol feminino”, salientara Daniel Chaves, treinador das portistas.

Os dados estavam lançados. Os objetivos principais das respetivas temporadas estavam mais do que feitos, a Taça de Portugal surgia quase como prémio final para as carreiras ao longo da época. Ao mesmo tempo, era no Jamor que haveria um primeiro retrato da nova realidade que irá arrancar no futebol feminino a partir de 2026/27, com o FC Porto a juntar-se a Benfica, Sporting e Sp. Braga entre o lote de equipas com aspirações a lutar por títulos nacionais. No entanto, e nesta fase, a diferença entre ambos era tão grande como natural. E, claro, fez-se notar: com uma entrada forte e o primeiro golo logo nos minutos iniciais, o Benfica conquistou a terceira Taça de Portugal da história (igualando o Sporting e ficando apenas atrás do 1.º Dezembro, com sete) e fez mais uma dobradinha no plano nacional depois da vitória no Campeonato, numa partida que entra também na história por ter batido o recorde de assistências da competição (22.258).

O encontro, com muita gente no Jamor, começou da forma que todos esperavam: o Benfica a apertar com tudo com muito jogo em velocidade pelos corredores e zonas de pressão altas para recuperar rápido a bola, o FC Porto a tentar ser fiel aos seus princípios de sair a jogar a partir de trás mas a ter de bater muitas vezes na frente pela falta de soluções na primeira fase de construção. O jogo tinha sentido único, o jogo foi ganhando ainda mais um sentido único depois do golo inaugural das encarnadas, com Caroline Möller a surgir sozinha na área depois de uma insistência a desviar para a baliza num lance inicialmente anulado pela posição de Pauleta mas que foi depois validado no VAR (4′). Cora Brendle ainda tirou mais um golo a Nycole Raysla na área pouco depois mas o jogo começava depois a entrar numa toada mais lenta, fator aproveitado pelas azuis e brancas para dividir um pouco mais a posse e ir tentando chegar também ao último terço.

Em jogo organizado, e quando conseguia saltar a primeira linha das portistas, o Benfica era melhor, chegava com perigo às zonas de definição e deixava sempre sensação de perigo quando o último passe entrada. Nas saídas rápidas e nas bolas colocadas na profundidade, o FC Porto tentava encontrar oportunidades para dar outro equilíbrio à partida, com Eliza Turner a ter o primeiro remate mas que saiu muito por cima da baliza de Lena Pauels. No entanto, a superioridade das encarnadas nunca chegou verdadeiramente a ser colocada em causa, com o segundo golo a surgir ainda antes do intervalo na sequência de um canto de Anna Gasper, com primeiro desvio de Diana Silva antes do bis de Möller (40′). O jogo sem história estava de vez escrito.

Foi isso que marcou também a segunda parte, com menos motivos de interesse mas um primeiro remate enquadrado das portistas pela inevitável Eliza Turner, que obrigou Lena Pauels a defender com dificuldade (58′). Vivia-se já um clima de pré-festa pela conquista da Taça pelas encarnadas, com muitos adeptos nas bancadas incluindo a internacional Kika Nazareth, atual jogadora do Barcelona, e até as chegadas menos frequentes do Benfica ao último terço acabaram por ser bem resolvidas por Cora Brendle, principal destaque das azuis e brancas a parte de Turner. Apesar da derrota sem discussão no primeiro clássico de sempre no futebol feminino, o FC Porto conseguiu deixar uma boa imagem em campo antes de uma nova fase do projeto desportivo com a equipa a preparar um plantel mais forte que possa competir no primeiro escalão.