“Quero ser claro, limpo e honesto. Ele vai jogar se merecer jogar. Temos treino e o relvado vai dizer se vai jogar”. Foi assim que Carlo Ancelotti, selecionador do Brasil, explicou, na última segunda-feira às 17h (Brasília), a presença de Neymar no Mundial-2026. “Tenho uma ideia da equipa que será titular e vamos decidir. O Neymar tem o mesmo papel que os outros jogadores. Acho importante não colocar toda a expectativa num só jogador. Temos uma responsabilidade comum: ajudar a seleção a ganhar o Mundial”, esclareceu.
“Escolhemos o Neymar não porque pensamos que vai ser um bom suplente. Escolhemos o Neymar porque pensamos que pode contribuir com as suas qualidades para a equipa. Quer jogue um minuto, quer jogue cinco, quer não jogue ou jogue 90 minutos, ou marque um penálti“, revelou Ancelotti. Para o técnico italiano, não havia grandes questões. Se Neymar estivesse apto, contava. Para os brasileiros, no entanto, não é assim tão claro: um inquérito citado pelo The Guardian revelou que 53% dos brasileiros queriam Neymar no Mundial, enquanto 34% não queriam e 13% estavam indecisos.
“Recebi muitos conselhos, muitos. Jornalistas, comentadores, influencers, cantores, jogadores, ex-jogadores, em toda a parte do mundo. Fui à Europa de avião e o piloto disse-me ‘Quem vai convocar?“, comentou, entre risos, na conferência de imprensa de convocatória.
Agora essa questão está esclarecida. O técnico italiano chamou para o Mundial, a realizar-se nos EUA, México e Canadá, Alisson (Liverpool), Ederson (Fenerbahçe), Weverton (Grémio), Alex Sandro (Flamengo), Bremer (Juventus), Danilo (Flamengo), Douglas Santos (Zenit), Gabriel Magalhães (Arsenal), Ibañez (Al-Ahli), Leo Pereira (Flamengo), Marquinhos (PSG) e Wesley (Roma). Para o meio-campo, convocou Bruno Guimarães (Newcastle), Casemiro (Manchester United), Danilo (Botafogo), Fabinho (Al-Ittihad) e Lucas Paquetá (Flamengo). Para o ataque, elegeu Endrick (Lyon), Gabriel Martinelli (Arsenal), Igor Thiago (Brentford), Luiz Henrique (Zenit), Matheus Cunha (Manchester United), Raphinha (Barcelona), Rayan (Bournemouth), Vinícius Jr. (Real Madrid) e Neymar (Santos).
“Não é a lista perfeita, tenho a certeza disso. Tenho de dizer que não vai ganhar o Mundial a equipa perfeita. A equipa perfeita não existe. Acho que pode ganhar a equipa mais resiliente. Queremos ser a equipa mais resiliente do mundo”, antecipou, antes de garantir que não tem “medo de dizer” que a seleção brasileira quer “ganhar o Mundial, porque há uma expetativa alta”.
Neymar não cumpre um jogo na seleção brasileira desde outubro de 2023, mas o técnico italiano nunca o colocou fora dos seus planos. A prova disso é precisamente esta chamada para o escrete. Na altura em que falou ao The Guardian, sobre a possível chamada do jogador do Santos, há cerca de uma semana, disse que tudo dependia do atleta e nada do treinador. “Depende dele, não de mim”, garantiu. Agora continua a depender de Neymar – só joga “se merecer” –, cuja experiência faz com que “não precise de ser testado”. Isso poderá ter justificado a apreensão quanto a uma potencial chamada à seleção, e as lágrimas que o avançado não conteve quando ouviu o seu nome da boca de Carlo Ancelotti. Antes, uma convocação de Neymar para a canarinha não era novidade. Entretanto, muita coisa mudou na seleção e na carreira do avançado, que escreveu nas redes sociais que a última segunda-feira foi “um dos dias mais emocionantes e felizes” da sua vida.
Ancelotti debruçou-se ainda sobre o que o convenceu a colocar o camisola 10 na lista de selecionados. Era o talento, que o próprio disse logo que Neymar tinha. O sobre Neymar era exclusivamente “físico”. “O seu talento é inquestionável”, afirmou ao jornal britânico. Agora, no dia em que anunciou quem escolheu para ir consigo tentar conquistar o sexto Campeonato do Mundo, disse que “a avaliação de todo o ano era só a parte física”, confirmando a convicção demonstrada anteriormente nas capacidades individuais do avançado brasileiro, que tem uma última dança com o escrete nesta edição da prova. “Nos últimos jogos ele tem jogado com continuidade e tem possibilidade de melhorar a sua condição neste período até ao primeiro jogo do Mundial. Pensámos que, a partir daí, pela experiência neste tipo de competição, pelo carinho do grupo, pode criar um ambiente melhor e ajudar a equipa a conseguir o melhor”, explicou.
Neymar vai ao Mundial e João Pedro, o jogador mais goleador do Chelsea esta temporada (com 20 golos em todas as competições), terá de ficar em casa. “Percebo quando se diz que o futebol europeu é diferente, com mais intensidade. Também falamos de como jogar futebol aqui é muito complicado, com o calendário, as viagens, o calor. É difícil comparar. Depois há as características individuais dos jogadores… Ficámos tristes pelo João Pedro porque, pela época que fez na Europa, merecia estar nesta lista. Mas, com toda a consciência, respeito e competência possíveis, escolhemos outros jogadores. Lamentamos muito pelo João Pedro, como por todos os outros”, disse Ancelotti.
Fica também em casa o defesa do FC Porto, Thiago Silva, que estava “no radar” de Ancelotti. “Tem jogado muito bem, ganhou o Campeonato português e está em excelente forma física”, disse há uma semana o selecionador, que se estreará como treinador num Campeonato do Mundo.
Antes de se iniciar na prova, o Brasil ainda tem dois jogos de preparação: diante do Panamá, no próximo dia 31, num “teste amigável que serve para nos prepararmos bem”, “uma despedida do povo brasileiro”; e contra o Egito, no dia 6 de junho, já nos EUA. Depois é a valer: o Brasil começa o Mundial no dia 13 de junho, diante de Marrocos, numa partida a contar para o grupo C. Seguem-se Haiti e Escócia.