Não eram comboios. Eram autocarros – mais precisamente 26. As quase três dezenas de autocarros de adeptos do Torreense guardavam os comboios para os golos que queriam celebrar diante do Sporting. O primeiro veio cedo e tinha chegada prevista ao Jamor por volta das 17h25. Só parou nas redes da baliza de Rui Silva, aos quatro minutos de partida.
As finais são para ganhar, sempre se disse. A postura era mesmo essa desde o início. Verificou-se até antes do início da final da Taça de Portugal – convidados a falar aos microfones da RTP na antevisão do jogo, Rui Borges e Geny Catamo falaram. Do lado do Torreense, o silêncio das últimas semanas continuou. O brilho nos olhos dos jogadores torreenses, no reconhecimento ao relvado do Estádio Nacional, adivinhava declarações, mas Luís Tralhão e os seus comandados não iam para falar – iam para fazer. Esse golo precoce, de Kévin Zohi, foi a prova de que as ações valem sempre mais do que as palavras.
O que havia para dizer foi dito por Luís Tralhão na conferência de imprensa de antevisão da partida. “Não viemos passear”, garantiu o técnico azul-grená, mesmo afirmando que prioriza o playoff em detrimento desta final. Tralhão alertou que na final deste domingo o nível aumentava “não um degrau, mas bastantes degraus”, diante de um Sporting com calendário que já foi mais apertado do que é atualmente. Isso ficou patente no que aconteceu depois daquele cabeceamento vitorioso de Zohi: além da maior qualidade individual dos leões, mais pernas, mais pulmão e, por isso, mais posse de bola para o Sporting.
Ao intervalo, o Sporting dominava em quase tudo: 16 remates contra cinco do Torreense; dois remates enquadrados contra um do Torreense; oito cantos contra os dois dos azul-grená; 65% de posse de bola dos leões contra 35%; 23 ações leoninas na área do Torreense, que só conseguiu fazê-lo por sete vezes. No que interessava, no entanto, era o conjunto de Torres Vedras que levava vantagem: no marcador.
Esperava-se que os nervos estivessem do lado da equipa que não estava neste palco há 70 anos. Seria a repetição do nervosismo que se viu no primeiro jogo do playoff que o Torreense disputou com o Casa Pia. Afinal era o detentor do troféu, que tinha estado lá a última vez há cerca de um ano, que via os nervos crescer com o relógio. Esse nervosismo parou no golo que o Sporting marcou para empatar a partida, aos 54 minutos, por Luis Suárez, mas voltou mais tarde.
Na retina ficou um Torreense à imagem de Luís Tralhão, que encarou olhos nos olhos o Sporting de Rui Borges. O impacto da chegada do treinador lisboeta parece ter sido imediato e promete dividendos na próxima quinta-feira, na segunda mão do playoff de acesso à Primeira Liga 2026/2027. O histórico de Tralhão na equipa principal dos azul-grená é curto e o seu início remonta à atual temporada. O arranque de época aos tropeções ditou a saída de Vítor Martins, ex-técnico do Torreense, no final de 2025, e trouxe a promoção de Luís Tralhão, na altura treinador dos Sub-23 dos torreenses.
Quando Luís Tralhão chegou à equipa A do Torreense, conseguiu a primeira das 15 vitórias que até agora alcançou no plantel principal azul-grená. Desde essa promoção interna, dos 23 jogos que disputou, Tralhão perdeu apenas em 3 ocasiões. Continuou este domingo a sequência de, agora, oito jogos sem perder da equipa de Torres Vedras. Ao arranque da final da Taça, eram sete os jogos consecutivos que o Torreense levava invicto. A série começou com uma vitória no dia 18 de abril em Torres Vedras, diante do campeão da Segunda Liga, o Marítimo, continua com o histórico triunfo sobre os leões e o clube quer que continue na segunda mão do playoff de acesso à Primeira Liga 2026/2027, diante dos gansos.
Entre Liga Revelação, Segunda Liga e Taça de Portugal, este foi o 38.º jogo de Luís Tralhão esta época. O longo percurso do técnico resumia-se em três jogos: os dois jogos de playoff, ainda em decisão, e a final da Taça de Portugal, deste domingo, que se estendeu por mais meia hora de futebol. A chegada do prolongamento trazia boas e más notícias. As boas eram que o Torreense estava na discussão do resultado até ao fim. As más eram os trinta minutos a mais que a equipa ia disputar, numa altura em que, como o próprio treinador assumiu, a prioridade é o playoff.
Ao intervalo do prolongamento, o Torreense, a priorizar a presença na próxima edição da Primeira Liga, estava empatado contra um leão que não tinha mais nada para jogar, além da final da Prova Rainha. Aos 112 minutos, o derradeiro comboio chegou. Chamava-se Stopira e veio através da marcação de uma grande penalidade. Os 26 autocarros que deixaram dois comboios de parte levantaram-se das bancadas do Estádio Nacional ao lado, inclusive, de alguns sportinguistas que se fizeram sócios do Torreense para poderem estar no Jamor e se sentaram nas franjas azul-grená do recinto.
Manuel Rosado, sócio n.º 1 do Torreense, no dia em que o clube jogou a primeira mão do playoff contra o Casa Pia, disse, na sua marcada sobriedade com que vive o clube, que gostava que o seu clube ganhasse a Taça, mas não tinha grandes esperanças. Para um homem a meses de ser centenário, que já viu de quase tudo na vida e o seu “clube da terra” em quase todos os patamares possíveis, eram palavras que quase ditavam uma sentença. Só um Torreense histórico, a vencer a sua primeira Taça de Portugal, para provar que Manuel estava errado, felizmente para os dois.
As lágrimas inundavam o Jamor de azul-grená. Das bancadas ao banco de suplentes, a emoção de conquistar o que parecia impossível instalava-se em todos os locais onde se via um símbolo do Torreense, incluindo na escadaria de 104 degraus que levava toda a equipa de Torres Vedras até ao troféu nunca antes conquistado nos seus 109 anos de história.
“Ainda não tenho noção do que atingimos”, disse Luís Tralhão minutos depois de Stopira ter levantado a Taça de Portugal, diante de um Jamor que fazia a vénia ao Torreense. O capitão dos azul-grená disse que foi “sem sombra de dúvidas” que sabia que, na marca da grande penalidade, estava a arrancar para um pontapé para a história. A conquista histórica parou o silêncio azul-grená das últimas semanas. “Foi só confiança: escolher um lado e bater forte”, revelou o capitão cabo-verdiano que, depois do jogo contra o Casa Pia, marcará presença no Mundial-2026.
“Esta equipa não se rende. Não vira a cara a luta, nos bons e nos maus momentos”, afirmou. No que concerne à próxima partida, a do playoff, Stopira e Costinha garantem que a equipa se apresentará “na máxima força”, apesar da “festa rija” que o clube vai viver este domingo. “Agora não é hora de descansar e só falta uma partida”, afirmou o cabo-verdiano. No relvado, Luís Tralhão confessou já estar a pensar no que a equipa vai fazer em Rio Maior. Resta saber se os planos incluem o próximo jogo ou a próxima temporada, que poderá ter o Municipal de Rio Maior como pano de fundo.
O técnico dos torreenses descreveu a semana que antecipou esta final como “muito curta e muito intensa”. “Antes da meia-final perguntaram-me se sabia quem tinha sido o treinador do Torreense que tinha chegado à final da Taça há 70 anos. Confesso que não sabia quem era. Mas lembro-me de pensar que gostava de ser recordado por um feito dessa dimensão“, disse Luís Tralhão, que admitiu que o facto de não haver “tempo para pensar” ajudou. “Parece tudo muito bonito depois de ganhar, porque sem vitórias isto não ‘cola’, mas sempre acreditei que estávamos preparados para jogar contra qualquer equipa”, garantiu Tralhão, que não tem “sombra de dúvidas nenhuma” que o fator humano contou para o desfecho desta final e que o “golo cedo na partida” também ajudou, para “dar confiança” à equipa desde o arranque.
“O meu ar costuma ser tranquilo e às vezes, por dentro, estou um bocadinho emocional. Mas hoje estive sempre muito calmo, não sei explicar. É fantástico jogarmos nas competições europeias. Volto a dizer que ainda não tenho noção do que fizemos hoje“, admitiu o técnico azul-grená. “Tivemos aquela pontinha de sorte. Hoje é impossível controlar seja o que for” nos festejos, revelou Tralhão, que disse “não fazer ideia” do que se vai passar em Torres Vedras, onde se espera “muita gente” para celebrar com a equipa. “Estou super orgulhoso de fazer parte desta família. Vamos ficar imortalizados”, afirmou.
“Fui a única pessoa que não mexeu, depois do segundo golo. Hoje tive o discernimento para ter a cabeça fria e ir tomando boas decisões, ir analisando o jogo. Sou uma pessoa aparentemente calma, mas muitas vezes cá por dentro ferve bastante“, confessou Luís Tralhão, já na sala de imprensa do Jamor.
André Sabino, diretor desportivo do Torreense, disse ser “indescritível” o sentimento da histórica conquista do clube. “É o trabalho de muita gente”, garantiu. “Pode ser um momento de viragem no clube. Mas há muito para fazer, muito para crescer”, garantiu o dirigente. Ainda assim, admite que o feito deste domingo “não é irrepetível”. Olhando para a próxima temporada, em caso de subida à Primeira, André Sabino adiantou que “seria uma injustiça que 99% dos jogadores não fizessem parte deste trajeto”, se o Torreense subir ao mais alto escalão do futebol nacional.
Quanto à forma como vão ser geridas as emoções do plantel, Tralhão foi pragmático. “Tenho de ser o treinador. Tenho de olhar para a parte psicológica. Esta semana, tenho de abrandar os ânimos, em vez de ser eu a incentivá-los. Temos de olhar para parte da recuperação física e para a parte estratégica. Sabemos que o jogo na próxima quinta-feira tem características completamente diferentes. Temos de olhar para o que fizemos na última quarta-feira. Esse sim, é o meu trabalho a partir daqui a umas horas”. Até lá, há muitas horas de festa em Torres Vedras, que viu o Torreense fazer o que ainda não tinha sido alcançado. Foi história em ‘dose dupla’: o clube não só venceu a sua primeira Taça de Portugal como foi a primeira equipa da Segunda Liga a consegui-lo.