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Um lance humilhante que carimbou toda uma humilhação – e que fez história (a crónica do Sporting-Torreense da final da Taça de Portugal)

A única equipa ganhou ao melhor conjunto de jogadores, quem lutou para ser feliz imperou sobre quem atraiu a infelicidade e a forma como Inácio abordou a jogada decisiva contou o resto (1-2, a.p.).

Stopira marcou de penálti no prolongamento, num lance que levou à expulsão de Maxi Araújo, e carimbou uma conquista histórica do Torreense
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▲Stopira marcou de penálti no prolongamento, num lance que levou à expulsão de Maxi Araújo, e carimbou uma conquista histórica do Torreense

Carlos Rodrigues

▲Stopira marcou de penálti no prolongamento, num lance que levou à expulsão de Maxi Araújo, e carimbou uma conquista histórica do Torreense

Carlos Rodrigues

Num plano meramente teórico, era um desafio entre David e Golias e não havia volta a dar. Aliás, era preciso recuar mais de 15 anos para encontrar uma final da Taça de Portugal com a participação de uma equipa que viesse do segundo escalão, quando o FC Porto bateu o Desp. Chaves. Em paralelo, era preciso também andar quase duas décadas para trás para ver o Sporting conquistar em anos consecutivos a prova rainha do futebol nacional. Agora, para passar da teoria à prática, os leões lutavam não contra o Torreense mas contra três adversários em simultâneo. Invisíveis, escondidos, com tanta ou mais capacidade de causar mossa do que o Torreense, a atravessar uma das semanas mais importantes do clube com o playoff de acesso à Primeira Liga. Por um lado, a necessidade de não cair em facilitismos que pudessem complicar mais a tarefa. Por outro, ir contra um desgaste físico e mental de um ano que teve tanto de desafiante como de “aprendizagem”.

Torreense vence Sporting no prolongamento e conquista Taça de Portugal

“Temos de ser sérios. A pressão neste clube é diária, é a pressão de querer ganhar. É uma pressão positiva. Favoritismos? Para estar numa final, uma equipa tem de ser os seus méritos. Passei por todos os escalões. Sei bem o que significa estar numa final do Jamor e as dificuldades que as equipas colocam às equipas ditas favoritas. Não olho para o Torreense como uma equipa que está num escalão inferior, até porque está a lutar para subir à Primeira Liga. Para mim, é respeito máximo e é só não deixar entrar em facilitismos, até porque é uma festa muito bonita e que assim seja por muitos anos”, destacava Rui Borges, técnico do Sporting, quase dando o mote para aquilo que poderia tornar-se um problema. “Ainda não ganhámos nada”, dizia.

O Torreense tinha tudo a ganhar e pouco a perder, o Sporting tinha mais a perder do que a ganhar – mesmo enfrentando essa possibilidade de fechar a temporada com um troféu, que surgia como coroação da época onde faltaria apenas o tricampeonato. “Se tivéssemos conseguido ser campeões, seria perfeito. Assim sendo, será uma grande época se conseguirmos vencer a Taça, por tudo o que fomos capazes ao longo da época em todas as competições, pela demonstração que demos, pelo geral do Campeonato. A pontuação, os golos marcados e sofridos… Tudo isso dita a nossa qualidade. Não chegou para sermos campeões mas estamos aqui, num jogo especial e diferente para todos, que dá acesso a ganharmos um troféu que é nosso. Queremos muito continuar com ele do nosso lado, dando acesso a uma outra final, da Supertaça”, apontava, passando ao lado de outros dados históricos como a possibilidade de vencer a prova rainha em anos seguidos como não acontecia desde 2008 ou ser apenas o quarto técnico com mais do que uma Taça pelos leões.

Mais: à semelhança do que aconteceu na última temporada com Viktor Gyökeres, que foi decisivo na decisão frente ao Benfica antes de rumar ao Arsenal, a final podia marcar várias despedidas do plantel. “Eles são jogadores profissionais e sabem o que é andar nisto. Sinto-os felizes e motivados para acrescentar mais uma conquista para o Sporting. Acho que a felicidade e a parte da motivação deles está no auge e não preciso de estar muito preocupado nesse sentido, com a parte nostálgica do jogo. Acho que tudo o que fizemos esta época foi muito bom. Não conseguimos ser campeões, é certo. Disse-lhes que não chegava sermos iguais à época passada para ganharmos, até porque fomos praticamente idênticos à época passada e não fomos campeões. Mas isso não apaga o que fizeram. A equipa demonstrou qualidade durante toda a época, de forma consistente, e em todas as provas. Temos de mostrar que merecemos acabar com um troféu”, destacava.

Morita e Geovany Quenda estavam entre as saídas confirmadas, nomes como Hjulmand, Maxi Araújo, Pedro Gonçalves ou Francisco Trincão começam a ser apontados a alguns dos principais clubes europeus ou outros mercados mais periféricos. Para eles e possivelmente para outros seria uma espécie de Last Dance antes de uma viragem de ciclo que começa a ser desenhada pelas mexidas já conhecidas no mercado de transferências (confirmadas ou não). “Gostava de ter todos, gostava que o Morita não fosse, que o Quenda não fosse. Fico feliz por vê-los ligados aos grandes clubes, não só o Hjulmand como o Maxi. É sinal de valorização ao longo de toda a época. Faz parte do futebol. Não mexe em nada. Sou muito frio nesse aspeto: para saírem uns têm de entrar outros. Estamos num grande clube: os jogadores passam, os treinadores passam e o Sporting será sempre o Sporting. Estou muito focado é no jogo”, assegurava Rui Borges antes da final.

Tudo o que disse caiu, no mínimo, em saco roto. Com todas as condições para poder fechar a temporada da melhor forma, com um coletivo de jogadores que superava largamente a qualidade contrária, acabou por ver ganhar a melhor equipa: o Torreense. Foi uma final que teve tanto de histórico por parte da única equipa que realmente se entregou ao jogo para procurar ser feliz como de humilhante para quem achou que ia passar pelo Jamor, andar em campo a cumprir serviços mínimos e levar a Taça sem dificuldades. Aquilo que podia ser a chave de ouro para encerrar a época tornou-se uma porta fechada que vai ter impacto no arranque da nova temporada – e quem não perceber isso também não perceberá muito de futebol e daquilo que é a história do Sporting neste tipo de situações limite. E, entre todo o mérito dos vencedores, sobrou um lance que foi um espelho deste final de ano dos vencidos: a forma como Gonçalo Inácio, cansado e de meias em baixo, desistiu da jogada que originou o segundo golo foi uma marca que “carimbou” uma humilhação.

Ficha de jogo

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Sporting-Torreense, 1-2 (a.p.)

Final da Taça de Portugal

Estádio Nacional, em Oeiras (Lisboa)

Árbitro: António Nobre (AF Leiria)

Sporting: Rui Silva; Vagiannidis (Diomande, 70′), Eduardo Quaresma (Rafael Nel, 100′), Gonçalo Inácio (Souleymane Faye, 115′), Maxi Araújo; Hjulmand, Morita (Luis Guilherme, 70′); Geny Catamo (Geovany Quenda, 90+2′), Francisco Trincão, Pedro Gonçalves (Daniel Bragança, 90+2′) e Luis Suárez

Suplentes não utilizados: João Virgínia, Ricardo Mangas e Giorgi Kochorashvili

Treinador: Rui Borges

Torreense: Lucas Paes; David Bruno, Mohamed Ali-Diadié, Stopira, Javi Vázquez (Danilo Ferreira, 104′); Léo Azevedo, Guilherme Liberato (André Simões, 81′), Costinha (Pite, 91′); Luis Quintero (Alfaro, 70′), Dany Jean (Ismaïl Seydi, 57′) e Kévin Zohi (Drammeh, 57′)

Suplentes não utilizados: Unai Pérez, Arnau Casas e Brian Agbor

Treinador: Luís Tralhão

Golos: Zohi (4′), Luis Suárez (54′) e Stopira (113′, g.p.)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Gonçalo Inácio (15′), Ricardo Mangas (98′, de fora), André Simões (100′), Stopira (115′) e Pité (119′); cartão vermelho a Maxi Araújo (109′)

O encontro até começou com um lance que em condições normais podia dar muito mais do que deu no final, com Pedro Gonçalves a receber com espaço de frente para a baliza, a abrir para a diagonal de Luis Suárez do meio para a esquerda mas a não conseguir depois dar continuidade ao lance. Podia ter sido um susto para um Torreense que quereria sobretudo não sofrer nos minutos finais para estabilizar o jogo, foi até um fator de motivação extra para mostrar que sabia jogar. Tão simples como isso: sabia jogar. Bola a correr a partir de trás por vários jogadores, combinação na esquerda entre Dany Jean e Javi López, cruzamento perigoso a ser cortado para canto. Primeira bola parada do jogo, primeiro golo: um desvio ao primeiro poste deixou vários elementos do Sporting a marcar com os olhos, Morita também não conseguiu fazer o corte e Zohi, no poste contrário, desviou sozinho para o 1-0 na primeira área (4′). Afinal, de “favas contadas” havia pouco.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Sporting-Torreense em vídeo]

Os muitos adeptos do conjunto de Torres Vedras presentes no Jamor faziam a festa, sendo bem mais audíveis nos minutos que se seguiram do que os leões que estavam em clara maioria. Havia até a sensação de que era um golo que não “contava”: havia muita gente ainda a entrar, uma parte do topo onde se concentravam os adeptos do Torreense estava ainda a abrir para adeptos verde e brancos, a entrada do Sporting nem tinha sido propriamente má a não ser na passividade a defender o canto. No entanto, o golo “contou”. Contou e marcou a história que seria contada nos minutos seguintes, com a pressão em zonas altas dos verde e brancos a ter algumas vezes resultado mas nunca de forma a que se convertesse em oportunidades. Mais: havia, em parte, muita intranquilidade em abordagens erráticas que podiam trazer outros danos, como num atraso de Hjulmand que deixou os centrais em apuros antes de uma falta sobre Zohi ou num corte defeituoso de Eduardo Quaresma que permitiu a Costinha testar a meia distância muito ao lado da baliza de Rui Silva.

Era fácil identificar os problemas ofensivos do Sporting. Por um lado, as investidas de Vagiannidis pela ala direita, com Geny Catamo a conseguir criar o desequilíbrio para lançar o grego nas costas do lateral contrário mas com a decisão a ser de forma inevitável errada no último terço. Por outro, o excesso de jogo pelo meio, com o Torreense a povoar muito o corredor central e os leões a não terem essa capacidade de perceber que era quando davam largura ao jogo que conseguiam fazer a diferença. Por fim, a desinspiração de elementos que são peças chave no desenho ofensivo verde e branco. Começava em Hjulmand, passava por Morita, ia a Pedro Gonçalves e Geny Catamo, acabava em Luis Suárez. Francisco Trincão ainda teve um remate de fora da área para defesa segura de Lucas Paes (20′), Pedro Gonçalves atirou por cima na área após ter sido isolado por Morita (20′) mas era o conjunto de Torres Vedras que conseguia segurar a vantagem.

Houve depois uma fase de maior acalmia, com o Sporting a ter um controlo total do jogo com bola no meio-campo adversário mas com dois lances em que assumiu linhas mais recuadas de pressão quase que a chamar o Torreense para ir procurar depois a profundidade. No entanto, aquele que imperou até ao intervalo foi um quarto problema: a eficácia. Pedro Gonçalves atirou ao poste (33′), o mesmo Pedro Gonçalves teve depois um livre descaído sobre a esquerda em boa posição que saiu por cima (36′), Luis Suárez apareceu isolado na área para o remate rasteiro que foi travado por Lucas Paes com as pernas (41′), Pedro Gonçalves voltou a tentar em jeito para nova intervenção do brasileiro a desviar para canto (42′). Tudo parecia correr mal aos leões, que tiveram ainda um lance inacreditável em que Pedro Gonçalves marcou um canto na esquerda do ataque, Luis Suárez estava sozinho na área para cabecear, não teve sequer de levantar os pés mas o desvio saiu para onde estava virado, fazendo regressar a bola a Pedro Gonçalves (43′). O Torreense estava na frente.

O intervalo tinha confirmado as melhores notícias possíveis vindas de Inglaterra, com a vitória do Aston Villa no Etihad frente ao Manchester City com uma reviravolta na segunda parte a confirmar a entrada direta dos leões na Liga dos Campeões da próxima temporada. No entanto, faltava o resto depois de 45 minutos onde o Sporting até pode ter beneficiado de oportunidades mais do que suficientes para no mínimo empatar mas que trouxe um prémio justo para tudo aquilo que o Torreense conseguiu fazer mesmo tendo todas as odds contra. O tempo jogava a favor da equipa de Torres Vedras, que ia controlando a vantagem com saídas em igualdade numérica que podiam causar outra mossa nos leões. Os minutos passavam até que o Sporting teve também o seu momento de fortuna que foi o clique para virar de vez o jogo: Maxi Araújo continuou a fazer a pressão logo na saída dos centrais, o ressalto da bola acabou por cair nos pés de Luis Suárez e o colombiano espantou todos os fantasmas da primeira parte com o tipo de golo que o diferencia dos demais (54′).

Hjulmand teve uma oportunidade flagrante de fazer a reviravolta logo a seguir, num desvio após bola parada que passou muito perto do alvo (56′), mas o empate trazia outra estabilidade emocional ao Sporting contra um Torreense que ia trocando as unidades mais avançadas para ter motas com outra cilindrada nas fases de transição ofensiva. Já os leões tinham colocado Maxi Araújo muito mais em jogo, criando nova oportunidade na esquerda pelo argentino que Geny Catamo desviou para golo ao segundo poste mas em posição irregular (63′). Esse ímpeto depois do empate tinha-se perdido, com Rui Borges a avançar para um plano B que tinha Pedro Gonçalves ao meio com Hjulmand, Luis Guilherme na ala esquerda com Maxi e Quaresma a fazer de lateral em vez de Vagiannidis com Diomande ao meio. Voltava o ataque posicional mas… lento.

Sem que se percebesse ao certo o porquê, o Sporting estava a “comprar” aquilo que o Torreense queria – e o que lhe dava mais jeito. Quando jogava de pé para pé com pouca movimentação na frente, não conseguia ir buscar os espaços e os desequilíbrios na organização defensiva contrária. Quando arriscava variações rápidas de flanco, saía invariavelmente mal. Quando não podia perder tempo, deixava que a formação de Torres Vedras “respirasse” com bola atrás entre zonas de pressão mal definidas onde ia um, faltava outro e não havia quem acompanhasse. Hjulmand percebia essa monotonia e procurava dar o exemplo para aquele extra que faltava aos leões, arriscando uma meia distância em posição central desviada por Lucas Paes para canto (86′). O cenário de prolongamento estava cada vez mais em cima da mesa… quando o Torreense ameaçou num lance caricato em que Diomande fez um corte contra André Simões e a bola foi às malhas laterais.

Geovany Quenda e Daniel Bragança ainda foram a jogo, Maxi Araújo teve uma tentativa de longe que saiu por cima, Gonçalo Inácio atirou de cabeça perto do poste no último canto do tempo regulamentar mas o jogo ia mesmo seguir de forma surpreendente para tempo extra, com Rui Borges a mostrar o descontentamento pelos assobios cada vez mais sonoros que vinham da bancada perante a última imagem que o Sporting estava a deixar na temporada. Chegava o prolongamento que ninguém queria, pela partida que o Torreense ainda terá frente ao Casa Pia e pelo desgaste físico evidente que se ia sentindo nos leões. Mais 30 minutos.

E o primeiro sinal de perigo até veio da equipa de Torres Vedras, com Diadie a aproveitar ressaltos na área para rematar sem hipóteses para Rui Silva mas em posição irregular (95′). Pouco depois, mais uma vez com Maxi Araújo a combinar com Luis Guilherme e a cruzar para Luis Suárez falhar o remate e Trincão atirar fraco. Ainda antes do intervalo, e na sequência de um lançamento lateral longo de Quenda, Suárez rematou na área rasteiro mas a bola saiu à figura de Lucas Paes (105+1′). O verdadeiro golpe de teatro, esse, estava ainda a chegar: num lance que parecia perdido e em que Gonçalo Inácio desistiu sem razão aparente de uma bola na área, Maxi Araújo agarrou um adversário na área, foi expulso com vermelho direto e Stopira não perdoou de grande penalidade (112′). Ousmane Diomande ainda teve um cabeceamento por cima depois de um canto, Francisco Trincão rematou forte mas por cima de fora da área mas a história estava mesmo escrita e para servir de exemplo para as próximas décadas: o Torreense venceu mesmo a Taça de Portugal.

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