Exercício de Montagem — que se estreia no dia 18 de junho e pode ser visto, no Centro Cultural de Belém (CCB), até dia 21, e também de 25 a 28 deste mês — é “um filme em progresso”, feito a partir das imagens recolhidas nas três viagens que Joana Craveiro fez à Cisjordânia, em 2023, 2024 e 2026.

Nessas viagens, as pessoas com quem a diretora artística do Teatro do Vestido se foi cruzando pediram-lhe que falasse sobre elas e contasse como é a vida naquele território ocupado por Israel e que não é ainda país.

Em 2023, Joana Craveiro foi convidada a fazer parte de “uma viagem política” à Palestina, onde passou dez dias. E, para ela, a pessoa e a artista são uma só: “Ir à Palestina e não fazer nada sobre a Palestina, isso para mim era insuportável.”

Foi assim — explicou em entrevista à Lusa, após um dos ensaios, no CCB — que decidiu documentar a experiência com uma câmara, uma lente, alguns cartões de memória e duas baterias, assumindo o seu lugar de “privilégio”, que, nomeadamente, lhe garante “acesso ao CCB”, para “amplificar algumas vozes”.

A artista palestiniana Tarab esteve na mesma viagem em 2023 e logo nos primeiros dias tiveram uma conversa e fixaram a ideia de fazer um filme sobre o quotidiano na Palestina, ainda que nessa altura não soubessem exatamente que tipo de filme seria.

Em outubro daquele ano o movimento extremista islâmico Hamas realizou uma série de ataques em Israel, fazendo cerca de 1.200 mortos e mais de duas centenas de reféns, o que desencadeou uma forte ofensiva bélica por parte de Israel, ainda em curso, que desde então causou mais de 73 mil mortos, na maioria civis.

No resumo divulgado à imprensa, Exercício de Montagem apresenta-se como “uma tentativa de fazer sentido de algo que se viu e não se pode ‘desver’ nesse lugar chamado Palestina”.

O projeto foi proposto em 2024 à antiga diretora do CCB Aida Tavares e de filme passou a espetáculo performativo, ao vivo, diante do público.

Em entrevista à Lusa, a artista palestiniana Tarab também assume sentir-se “privilegiada”, por “poder levantar” a voz.

“O meu privilégio é diferente, mas também sinto que é uma grande responsabilidade estar aqui”, situa. “Não é pelo espetáculo, é por causa das vozes de que vou falar. (…) Quero que elas sejam ouvidas como queriam ser ouvidas”, situa a artista, que vive na Palestina.

Apesar das reações que o tema da Palestina sempre desencadeia, Joana Craveiro acredita que Exercício de Montagem vai ter “uma grande digressão”, porque “o momento mudou”, sendo hoje “bastante corajoso, mas também (…) mais viável” exibir um espetáculo como este no CCB e falar “sem peias” sobre a situação no território ocupado por Israel.

“Tudo o que está aqui é verdade, (…) há uma documentação visual que o comprova e há uma documentação de oralidade, porque tudo isto é baseado em entrevistas, em conversas”, ressalva. “Há aqui um momento de abertura para este projeto”, confia.

O que está a acontecer é “suportado por uma narrativa histórica fabricada” pelo Estado de Israel, que tem praticado uma “arqueologia tóxica”, denuncia Joana Craveiro.

“Escavam-se e mandam-se abaixo coisas, porque em baixo há não sei o quê, encontra-se por toda a Palestina essa questão da arqueologia tóxica e da (…) história como arma, mas uma arma de arremesso, uma arma de colonização”, considera.

O quotidiano na Cisjordânia é narrado em palco a duas vozes, por Joana e por Tarab, alternando entre português, árabe e inglês, e ambas estão, nesta fase de ensaios, “com muitos pesadelos”, porque rever as imagens “é uma espécie de ‘retraumatização’ constante”.

Tarab confessa que “às vezes” perde a esperança, mas não se deixa tomar por esse pensamento: “Isso é exatamente o que eles [o Estado de Israel e seus apoiantes] querem que eu sinta, eles querem que eu quebre.”

É importante conhecer os diferentes níveis de opressão sobre os palestinianos, “mas são as mesmas pessoas (…), é o mesmo vilão”, lembra, contestando a “fragmentação da luta”.

Da mesma forma, não se podem confundir governos com povos. Desde o 07 de outubro de 2023 que “tem havido muita mobilização” em Portugal, e Tarab até se emocionou com vídeos e imagens. “Eu tento separar (…), as pessoas representam Portugal, e não o governo, e (…) as pessoas estão a mexer-se, a fazer muitas ações, a falar”, assinala.

Exercício de Montagem — que depois do CCB vai “circular pelo país e pela Europa” — é uma criação coletiva que “não seria nunca possível sem toda uma equipa que também está comprometida” com a causa palestiniana, da qual fazem parte, entre outros, Carla Martínez (cenografia), Diana Ramalho (vídeo), Estêvão Antunes e Tânia Guerreiro (manipulação de objetos e arquivos), Francisco Madureira (música e som), Leocádia Silva (iluminação).

Como se trata de “um filme que não foi feito como um filme”, Joana Craveiro destaca ainda o trabalho de montagem de Massimiliano Ferraina, a partir das imagens que ela trouxe da Cisjordânia, feitas sem “um tripé sequer”.

Paralelamente ao espetáculo, o CCB acolherá ainda uma conversa entre “vozes que não são ouvidas”, no dia 23 de junho: seis artistas da Cisjordânia foram convidados a ver a peça e a contarem como têm continuado a fazer cultura no território.