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O inédito triunfo em plena ditadura, a afirmação de Kempes e o papel picado: as histórias do Mundial de 1978 (ganho pela Argentina em casa)

Mundial de 1978 ficou conhecido como a competição da ditadura, dado que a Argentina venceu pela primeira vez em casa o torneio de afirmação internacional do regime. Sem Cruyff, nasceu Kempes.

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▲Os argentinos bateram os Países Baixos após prolongamento na final do Monumental

Mirrorpix via Getty Images

▲Os argentinos bateram os Países Baixos após prolongamento na final do Monumental

Mirrorpix via Getty Images

Depois de muita insistência, o Campeonato do Mundo lá acabou por rumar à Argentina. Depois de 1930 (Uruguai), 1950 (Brasil) e 1962 (Chile), a quarta tentativa acabou por ser certeira para o país das pampas, que lá conseguiu convencer a FIFA a organizar a maior competição do mundo. Ainda assim, nem tudo foi um mar de rosas para a Argentina, que vivia um período conturbado de ditadura, o que acabou por se refletir no torneio em termos diplomáticos e, quiçá, desportivos. Dois anos antes do início do Mundial, a Argentina fora tomada por uma junta militar liderada por Jorge Rafael Videla, que assumiu a governação do país através da repressão política, de uma forte censura e de desaparecimentos premeditados de figuras importantes na sociedade local. O Mundial acabou por ser a única salvação de Videla, que usou o futebol para projetar uma imagem de estabilidade e normalidade no exterior, procurando abafar as denúncias de violações dos direitos humanos.

Os custos da competição ultrapassaram os 700 milhões de euros, revelando um grande investimento de um país que se queria afirmar em termos políticos e, claro está, desportivos. A Argentina chegava ao Mundial envolta em diversos episódios negativos, já que, depois de ter perdido a final de 1930, nunca mais conseguiu ultrapassar os quartos de final, para lá de ter estado quase 20 anos sem vencer a Copa América. Com a pressão a acercar-se, mais do que nunca, da albiceleste, a vitória em campo acabou por não se ficar pelo campo desportivo, tornando-se também a vitória de uma cultura e do estilo ambicioso de César Luis Menotti, que quis fugir ao jogo físico e pragmático do futebol da época. A caminhada ficou marcada por um dos jogos mais polémicos da história do Campeonato do Mundo, já que a Argentina precisava de golear o Peru, na segunda fase de grupos, para chegar à final. Em campo, o resultado acabou por ser favorável (6-0), mas, fora dele, há quem diga que os peruanos foram aliciados a favorecer a equipa da casa. Contudo, nunca apareceram provas conclusivas.

Na final, a equipa liderada por Mario Kempes, que tinha ainda nomes como Daniel Passarella, Ubaldo Fillol, Osvaldo Ardiles ou Leopoldo Luque, superou os Países Baixos no prolongamento e conseguiu fazer história, num momento que coroou ainda uma das melhores gerações do país, que fica marcada por ter dado início à relação de sucesso que se seguiu entre a Argentina e o Campeonato do Mundo. Curiosamente, Diego Maradona não foi convocado, numa altura em que, aos 17 anos, já era uma estrela do Argentinos Juniors, porque Menotti considerava que o avançado não estava preparado para lidar com a pressão de um torneio de tamanha importância. Este foi o último Mundial com 16 seleções e, curiosamente, não contou com Uruguai e Inglaterra, dois ex-vencedores. França ainda ameaçou boicotar a fase final em protesto contra a morte de freiras francesas, alegadamente a mando da ditadura argentina, mas manteve-se em competição.

Uma história. A Laranja Mecânica que (quase) funcionou sem Cruyff

Os Países Baixos chegaram à Argentina a viver ainda o epílogo da revolução do futebol total que começara há quatro anos mas, apesar de continuarem com uma grande geração, ficaram privados da sua maior figura: Johan Cruyff, que terá sido associado a um eventual protesto contra a ditadura argentina, o que o impedia de permanecer no país em segurança. Ainda assim, em entrevistas posteriores, a estrela do futebol explicou que o principal motivo se devia a um sequestro de que a sua família foi vítima em Barcelona, que o fez alterar as suas prioridades. Mesmo sem Cruyff, os neerlandeses estiveram a centímetros do título no tempo regulamentar da final, com Rob Rensenbrink a acertar no poste nos instantes finais.

Um herói. Mario Kempes, o predestinado que aproveitou o palco para se afirmar

Foi considerado o craque e o melhor marcador do Mundial e teve consequências diretas no título da Argentina, tendo bisado contra a Polónia, contra o Peru e na final contra os Países Baixos. Ainda assim, a história de Mario Kempes contraria a de outras estrelas da competição, já que o argentino nunca tinha marcado em Campeonatos do Mundo antes de 1978. Curiosamente, uma das figuras mais fabulosas dos Mundiais foi protagonizada por Kempes na Argentina, com o jogador a correr de braços abertos depois de ter marcado no prolongamento da final.

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▲ O histórico festejo de Kempes

Sports Illustrated via Getty Ima

Uma curiosidade. A chuva de papel picado que correu o mundo

A final do Mundial-1978 ficou marcada por uma das imagens mais icónicas da história e que percorreu todos os cantos do planeta. Antes do apito inicial, os adeptos brindaram os jogadores com uma enorme chuva de papel picado, os chamados papelitos, que caiu sobre o relvado do Monumental. A tradição de se atirar papel recortado das bancadas para os campos ou as ruas já tinha começado em Buenos Aires durante celebrações locais, mas ganhou contornos maiores no contexto de um torneio global com transmissão para todo o mundo. Depois de ter influenciado outras culturas, a tradição acabou por perder força na atualidade, já que as autoridades começaram a restringir a entrada dos papelitos por conta do risco de incêndio associado.

Como foram os resultados no Mundial de 1978

  • 1 de junho (primeira fase de grupos): Alemanha Ocidental-Polónia, 0-0
  • 2 de junho (primeira fase de grupos): Itália-França, 2-1, Tunísia-México, 2-1 e Argentina-Hungria, 2-1
  • 3 de junho (primeira fase de grupos): Áustria-Espanha, 2-1, Brasil-Suécia, 1-1, Peru-Escócia, 3-1 e Países Baixos-Irão, 3-0
  • 6 de junho (primeira fase de grupos): Itália-Hungria, 3-1, Alemanha Ocidental-México, 6-0, Polónia-Tunísia, 1-0 e Argentina-França, 2-1
  • 7 de junho (primeira fase de grupos): Áustria-Suécia, 1-0, Brasil-Espanha, 0-0, Escócia-Irão, 1-1 e Países Baixos-Peru, 0-0
  • 10 de junho (primeira fase de grupos): França-Hungria, 3-1, Alemanha Ocidental-Tunísia, 0-0, Polónia-México, 3-1 e Argentina-Itália, 0-1
  • 11 de junho (primeira fase de grupos): Espanha-Suécia, 1-0, Brasil-Áustria, 1-0, Peru-Irão, 4-1 e Escócia-Países Baixos, 3-2
  • 14 de junho (segunda fase de grupos): Áustria-Países Baixos, 1-5, Itália-Alemanha Ocidental, 0-0, Brasil-Peru, 3-0 e Argentina-Polónia, 2-0
  • 18 de junho (segunda fase de grupos): Peru-Polónia, 0-1, Países Baixos-Alemanha Ocidental, 2-2, Itália-Áustria, 1-0 e Argentina-Brasil, 0-0
  • 21 de junho (segunda fase de grupos): Áustria-Alemanha Ocidental, 3-2, Itália-Países Baixos, 1-2, Brasil-Polónia, 3-1 e Argentina-Peru, 6-0
  • 24 de junho (jogo de atribuição do terceiro lugar): Brasil-Itália, 2-1
  • 25 de junho (final): Argentina-Países Baixos, 3-1 a.p.

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