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"O futebol coreano está morto". Eliminação da Coreia do Sul motiva críticas à Federação

Acusações de falta de transparência, favoritismo e clientelismo têm abalado a confiança dos adeptos na Associação de Futebol da Coreia. Presidente do país pede uma investigação e reformas.

epa13059389 South Korea's coach, Hong Myung-bo, speaks at a press conference in Monterrey, Mexico, 23 June 2026. South Korea will face South Africa in their 2026 FIFA World Cup Group A soccer match on 25 June.  EPA/MIGUEL SIERRA
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▲Nomeação de Hong Myung-bo em 2024 esteve envolta em polémica

MIGUEL SIERRA/EPA

▲Nomeação de Hong Myung-bo em 2024 esteve envolta em polémica

MIGUEL SIERRA/EPA

A Coreia do Sul foi eliminada do Mundial 2026 no dia 24 de junho, após perder contra a África do Sul por 1-0. O afastamento da seleção do campeonato do mundo reabriu uma ferida muito profunda existente na sociedade sul-coreana em relação à Federação nacional de futebol — e que motivou o próprio Presidente do país a pedir uma investigação ao Ministério da Cultura, Desporto e Turismo.

“Dados os fundos significativos dos contribuintes nacionais e os recursos de apoio estatal que são investidos mesmo na participação do Campeonato do Mundo, eu peço que o Ministério da Cultura, Desporto e Turismo investigue minuciosamente as circunstâncias precisas deste incidente, analise as suas causas e desenvolva medidas abrangentes para prevenir a recorrência e promover melhorias”, anunciou o Presidente sul-coreano Lee Jae Myung, citado pela NBC News, a 29 de junho. Do mesmo modo, Lee garantiu também que vão ser implementadas “rapidamente reformas na administração desportiva para garantir que algo assim nunca mais aconteça”.

No entanto, a necessidade de reformas, de acordo com muitos adeptos, não está apenas na eliminação do país, mas também nas suspeitas de corrupção da Associação de Futebol da Coreia (KFA, sigla inglesa), a começar pela escolha em julho de 2024 do selecionador Hong Myung-bo, que liderou a equipa durante esta competição, e acabou por se demitir após o afastamento dos sul-coreanos.

“Quando o favoritismo e o clientelismo têm precedência sobre a competência na escolha de um comandante [técnico], o resultado é claro como a água”, afirmou o Presidente sul-coreano no X, a 28 de junho.

Hong Myung-bo é bastante impopular entre os adeptos sul-coreanos, sobretudo desde a eliminação do país, o que levou à sua demissão a 30 de junho. Horas antes, Hong foi fortemente vaiado no Aeroporto Internacional de Incheon, em Seul, no regresso da seleção ao país, recebida com uma faixa que dizia “o futebol coreano está morto”, como se vê num vídeo partilhado no Instagram do Channel NewsAsia.

Nomeação de Hong Myung-bo

“Hong foi escolhido, como alegado na altura [em julho de 2024], porque altos membros da KFA, incluindo o presidente Chung Mong-gyu, um empresário sul-coreano da família Hyundai, favoreceram-no pessoalmente. Alguns até alegam que uma das razões foi que eles tinham frequentado a mesma universidade”, refere a BBC.

As alegações de favorecimento foram feitas à época por Park Joo-ho, ex-jogador e membro da comissão da KFA, no YouTube, que afirmou que “nada foi feito como parte de um processo” justo, com a KFA a ameaçar Park com uma ação judicial. O Ministério sul-coreano do Desporto viria a admitir, em outubro de 2024, que a associação “violou as suas próprias regras”, lembra a Reuters.

“O diretor técnico da KFA, que não estava autorizado a fazê-lo, entrevistou Hong por ordens do presidente [da Associação de Futebol da Coreia] sem um processo justo ou transparente”, complementa a BBC, que acrescenta que o inquérito do Ministério também concluiu que o selecionador foi “efetivamente escolhido antes de a sua nomeação ter sido apresentada à direção, que foi depois pedida para aprovar a decisão por escrito, tornando-a também pouco mais do que uma formalidade”.

Chung Mong-gyu chegou mesmo a ser chamado duas vezes ao Parlamento e questionado sobre a existência de “um cartel baseado em ligações de alumni a uma Universidade específica”.

O Governo também recomendou ações disciplinares, em abril de 2026, contra três executivos da associação, incluindo o seu presidente, e pediu um novo processo de nomeação — mas a KFA recorreu da decisão e as recomendações não foram aplicadas.

A nomeação foi também criticada por várias figuras do futebol nacional, como o ex-jogador do Manchester United Park Ji-sung, que afirmou à época, citado pela BBC, que “as pessoas perderam a confiança na KFA” e que tal seria muito difícil de recuperar.

Em julho de 2024, Hong substituiu Juergen Klinsmann, que estava há apenas um ano no cargo, e cuja nomeação também foi alvo de polémicas e também considerada como opaca pelo Ministério do Desporto.

A polémica eliminação do Mundial

A Coreia do Sul qualificou-se para o campeonato do mundo, competindo no grupo A, juntamente com o México, África do Sul e República Checa.

A seleção ganhou contra a República Checa por 2-1, mas acabaria por perder contra o México por 1-0. No entanto, o jogo mais polémico foi o contra a África do Sul.

O capitão da equipa, Son Heung-min, foi excluído do onze inicial, “o que alimentou especulações sobre o julgamento tático de Hong e até a sua relação com o jogador amado por muitos no país”, refere a BBC. Heung-min apenas viria a jogar na segunda parte, com o selecionador a afirmar que só o iria pôr em campo “quando a África do Sul se cansasse”, lembra a Reuters.

Num texto publicado no Instagram, na terça-feira, o capitão pediu desculpa aos adeptos e demonstrou solidariedade para com os adeptos. “Se estivesse a assistir a jogos assim, tenho a certeza de que me sentiria incrivelmente triste, frustrado e angustiado”, desabafou.

A Coreia do Sul tem estado presente em todos os mundiais de futebol desde 1986, tendo organizado juntamente com o Japão a edição de 2002, onde chegou às meias-finais.

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