Após 21 anos, as seleções da Argentina e da Inglaterra voltam a cruzar-se esta quarta-feira, nas meias-finais deste Mundial-2026. E para o relvado transportam o peso de uma rivalidade que não se limita ao futebol e que tem raízes profundas no Atlântico Sul, onde uma disputa entre os dois países custou a vida a 649 argentinos e 255 britânicos.
Foi em abril de 1982 que a Guerra das Malvinas explodiu. A Argentina invadiu o território que estava sob administração britânica, por considerar que historicamente o arquipélago lhe pertence. Em Londres, a primeira-ministra Margaret Thatcher decidiu que o Reino Unido iria resistir e mobilizou meios militares para a região. Durante 74 dias, os dois países combateram, mas foi a Inglaterra que saiu vencedora — e as Malvinas continuam até hoje a ser oficialmente um território autónomo sob jurisdição britânica.
Durante a guerra, as forças britânicas registaram 775 feridos
A vingança da Argentina chegou quatro anos mais tarde, mas no campo, com a vitória sobre a Inglaterra nos quartos de final do Mundial de 1986, marcada por dois golos de Maradona. Um deles, aos 51 minutos, foi conseguido com a mão, num lance que ficou eternizado como “A Mão de Deus”.
June 22, 1986, When Argentina won and England lost. Maradona scored a goal by head and hand. Later he even accepted and said it was the hand of God. pic.twitter.com/xqANGdiIIi
— Moments & memories (@momentmemori) July 7, 2026
O outro, menos de cinco minutos depois, é considerado um dos mais ilustres da história do futebol. Apesar da técnica demonstrada por Maradona, o “Golo do Século” ganhou uma dimensão mítica sobretudo pela voz do jornalista uruguaio Víctor Hugo Morales, no seu relato radiofónico.
Argentina vs England 1986 World Cup
Goal of the century by Diego Maradona pic.twitter.com/SU7WsiX1gw
— Rooted in the Game (@rootedinthegame) July 12, 2026
As duas equipas defrontaram-se novamente no Mundial de 1998, quando a Argentina eliminou a Inglaterra, desta vez nos penáltis. Neste jogo, David Beckham foi expulso após um confronto com Diego Simeone e recebeu bastantes críticas, inclusivamente dentro do Reino Unido, por ter deixado a equipa com menos um.
“Houve muitas ameaças e não apenas contra mim, mas também contra toda a minha família. Essa foi a parte mais difícil”, disse o jogador, citado pela ESPN. “Cheguei a pensar em jogar fora [da seleção inglesa]. Tinha apenas 23 anos e queria jogar pela equipa que amava, mas muitos diziam-me que não deveria ir a determinados estádios em Inglaterra”, explicou.
Simeone reconheceu um ano mais tarde que o cartão vermelho foi injusto — “o mais correto teria sido um amarelo” —, reconhecendo que exagerou. “Digamos que o árbitro caiu na armadilha”, disse, segundo a BBC.
No entanto, Beckham conseguiu deixar uma marca diferente no Mundial de 2002, quando marcou um penálti decisivo para eliminar a Argentina. Desde esse encontro, as duas seleções apenas se cruzaram num jogo amigável em 2005, vencido pela Inglaterra. Mas, nesta edição do Mundial, os argentinos prometem entregar mais, com a particularidade de ser a primeira vez que Lionel Messi defronta a equipa dos Três Leões.
Depois de eliminarem a Suíça no prolongamento, os jogadores sul-americanos celebraram no balneário com cânticos que evocavam as feridas do passado. Imagens partilhadas na internet mostram a seleção a entoar frases como “Pelas Malvinas, pelo Diego [Maradona], pela última de Leo [Messi]”, frases que constam na tradicional música cantada desde os tempos do Mundial do Qatar, em 2022. Os jogadores também se juntaram a adeptos em cânticos que diziam “Quem não salta é inglês”.
En Argentina, nací
Tierra de Diego y Lionel
De los pibes de Malvinas que jamás olvidaré
No te lo puedo explicar
Porque no vas a entender
Las finales que perdimos, cuántos años las lloré
Pero eso se terminó
Porque, en el Maracaná
La final con los brazucas la volvió a ganar papá
Muchachos
Ahora nos volvimos a ilusionar
Quiero ganar la tercera [cuarta]
Quiero ser campeón mundial
Y al Diego
En el cielo, lo podemos ver
Con don Diego y con La Tota
Alentándolo a Lionel
Outros vídeos divulgados nas redes sociais mostram adeptos com mais cânticos que visam a seleção de Inglaterra, como este, onde dizem: “Já nos vamos encontrar, os ingleses têm medo”.
???????????????????????????????????????? "INGLESES ESPERANOS UN POQUITO MÁS, YA NOS VAMOS A ENCONTRAR": El nuevo temazo de la hinchada argentina, recordando cómo corrieron los ingleses en el Azteca. pic.twitter.com/rr4LeZ2mXN
— Derechazo (@derechazoar) July 13, 2026
O jogador argentino José Manuel López reconheceu que o encontro entre Argentina e Inglaterra não é apenas sobre futebol. “É óbvio que dentro e fora das quatro linhas do campo é um jogo que tem muita História, muita dor e muita coisa por trás”, disse, citado pelo The Times.
????The Argentine players singing:
“I want to see the fourth star sparkling on the jersey
I’m Argentine from the cradle to the grave!For the Malvinas Islands, and for Diego,
and for Leo’s last World Cup,
oh Argentina, I want to see you world champion for the second time in a…— MC (@CrewsMat10) July 12, 2026
O sentimento de posse sobre as Malvinas não é exclusivo dos jogadores. Recentemente, o ministro dos Negócios Estrangeiros argentino, Pablo Quirno, qualificou a população das ilhas como um grupo artificialmente implantado pela potência ocupante [a Inglaterra], rejeitando a legitimidade do referendo de 2013, no qual os habitantes escolheram manter-se sob administração britânica — com mais de 90% dos eleitores a votarem a favor da manutenção do statu quo. Também o presidente da Argentina, Javier Milei, tem reafirmado publicamente a soberania sobre o arquipélago, descrevendo-o como um território intrinsecamente argentino. “As Malvinas foram, são e sempre serão argentinas”, declarou este ano.
LAS MALVINAS FUERON, SON Y SIEMPRE SERÁN ARGENTINAS.
VLLC! https://t.co/frox4fn03r— Javier Milei (@JMilei) April 24, 2026
No dia 15 de julho, na disputa das meias-finais, Argentina e Inglaterra irão protagonizar neste Mundial mais um episódio de uma rivalidade futebolística que, após tanto tempo, continua a ser alimentada por uma animosidade que desafia as gerações e as linhas do campo.