O antigo diretor do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) António Coutinho defendeu que a instituição e a ciência em Portugal envelheceram nos últimos 10 anos por falta de oportunidades para os muito jovens.
Em entrevista à Lusa a propósito dos 70 anos da Fundação Calouste Gulbenkian, que se assinalam no dia 18, António Coutinho, que em 1998 reorganizou o IGC e o dirigiu até 2012, lamentou que na última década o instituto tenha perdido dinamismo.
“Se me permite ser muito crítico, eu acho que não é só o IGC, é a ciência toda em Portugal. Envelheceu um bocadinho”, acrescentou.
Para o imunologista e antigo diretor, o maior problema é a falta de “oportunidades para os muito jovens”.
António Coutinho recordou que nos anos em que dirigiu o instituto, que contribuiu para formar e lançar muitos dos atuais dirigentes de instituições científicas em Portugal e até no estrangeiro, a renovação dos investigadores principais “era enorme. Entravam e saíam não sei quantos por ano”.
Nos anos que se seguiram a 2015, no entanto, a taxa de rotatividade “tem sido menos, bastante menos, ficou tudo muito mais estável, criaram-se posições permanentes, uma data delas”.
Mas o mesmo abrandamento veio a verificar-se com o resto da comunidade científica portuguesa, reconheceu, admitindo que talvez, “como na natureza”, depois de um período de grande crescimento haja um período de acalmia.
Para António Coutinho, o problema é que sem os muito jovens, diminui a capacidade de inovação das instituições.
Na sua opinião, além de se investir nos investigadores mais jovens, deve dar-se-lhes liberdade para escolherem o que querem investigar e não dar-lhes objetivos concretos.
“Não dar-lhes coisas para fazer, porque isso é desistir à partida da criatividade de uma jovem cabeça, que é muito mais criativa que a do supervisor, sempre. Porque a criatividade começa a cair a partir dos 25, 30 anos e os orientadores são todos mais velhos que isso, enquanto os estudantes têm 22, 23 anos”, afirmou.
Na opinião do médico e investigador, “é isso que faz falta em Portugal”.
“Que eu saiba, (…) não há nenhuma instituição que faça isso como o IGC fez nos anos 2000 a 2015. Deixou de haver um sítio onde a pessoa acaba de fazer doutoramento e tem autonomia” para investigar o que quiser, afirmou.
Lamentou ainda que o financiamento público da ciência e investigação seja, não só pouco, mas direcionado para os laboratórios e investigadores que já estão estabelecidos.
“O que vai acontecer cada vez mais é que as pessoas não voltam. Vão fazer um doutoramento não sei onde, e depois não voltam”, avisou.
António Coutinho, que quando dirigia o IGC entrevistava cerca de 300 candidatos a investigadores por ano, recomendou também a quem tem de selecionar investigadores que não faça concursos documentais: “Fale com as pessoas. Fale com as pessoas jovens, acabadas de sair da universidade. E invista nesses. Todo o dinheiro que tem. É isso que vai fazer a mudança”.