A associação ambientalista Zero defendeu esta quinta-feira que o mecanismo de conversão de dívida em financiamento para a ação climática deve ser estendido a mais países lusófonos, apontando a COP31 como um palco crucial para exigir justiça climática.

À margem da iniciativa “Cachupa pelo Clima”, em Lisboa, o presidente da organização não governamental (ONG) Zero, Francisco Ferreira, explicou que a escolha deste prato tradicional cabo-verdiano serve de símbolo para ligar a cultura lusófona aos impactos diretos do aquecimento global na produção alimentar, num arquipélago severamente afetado por secas extremas e tempestades.

“A alimentação, a população, a saúde, as migrações, a paisagem e os danos a muitos dos sistemas que estão em jogo (…) é tudo isso que, no fundo, permite misturar a comida com a necessidade de reduzirmos emissões”, apontou o dirigente da Zero.

Questionado sobre o mecanismo de conversão da dívida de Cabo Verde a Portugal, que transformou 12 milhões de euros num fundo para o clima, Francisco Ferreira classificou a medida como “uma fórmula muito inteligente de Portugal dar o seu contributo”, uma vez que o montante é mobilizado para a soberania energética e adaptação climática do arquipélago, face à subida do nível do mar, cheias e secas na agricultura.

O ambientalista defendeu que este modelo deve ser replicado noutros territórios, como São Tomé e Príncipe.

Com vista à 31.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP31), Francisco Ferreira detalhou as três grandes linhas do manifesto que a organização pretende fazer chegar ao debate internacional, sendo estas a justiça climática e inclusão social, o financiamento para a adaptação e a transição energética justa.

Segundo o presidente da Zero, é necessário garantir que os apoios financeiros dos países desenvolvidos, historicamente responsáveis pelas emissões desde a era industrial, cheguem de forma prioritária às populações mais desfavorecidas de países vulneráveis como a Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe ou Timor-Leste.

Francisco Ferreira acrescentou ser preciso simplificar a burocracia do Acordo de Paris através da criação de um “Fundo Lusófono para a Ação Climática” focado na mitigação e adaptação.

“Não há aqui nenhuma visão colonialista de ‘não façam o que eu faço'”, salvaguardou o presidente da Zero, concluindo que o desejável é que estes países aproveitem a rentabilização dos combustíveis de que dispõem para projetar já “uma transição numa visão de futuro”.