Depois das críticas a que Gianni Infantino foi sujeito antes, durante e depois do Mundial-2026, o presidente da FIFA reuniu (ainda) mais motivos para gerar discordância entre as mais altas instâncias do futebol mundial. Agora foi a vez da Confederação Asiática de Futebol (AFC) reagir à possibilidade de serem vendidas ações de uma empresa que passaria a deter, entre várias receitas, o Campeonato do Mundo, a partir de 2031. Salman bin Ibrahim al-Khalifa, presidente da AFC – uma confederação que declarou apoio à recondução de Gianni Infantino em 2027 –, enviou uma carta às suas federações-membro a acusar a FIFA de “minar os próprios fundamentos do futebol”, em mais uma voz que se junta à contestação pela decisão.

O novo projeto de Gianni Infantino: “vender” o Mundial (e com familiar de Trump entre os interessados)

Mas as críticas não se ficam só pelo conteúdo da proposta apresentada por Infantino: “A AFC nota com grande preocupação e desilusão que não foi consultada pela FIFA a qualquer nível antes do anúncio público desta proposta, nem recebeu qualquer análise detalhada de governação, financeira ou jurídica da proposta e das suas potenciais repercussões, o que é totalmente inaceitável“, explicou. “Além disso, a AFC está profundamente preocupada que as ações unilaterais da FIFA pareçam minar os próprios fundamentos do futebol continental, que se baseiam na solidariedade, cooperação e transparência”, prosseguiu.

Al-Khalifa diz ainda que a “AFC está surpreendida pelo cronograma atual permita um período extremamente limitado para a consideração de uma proposta de tal importância, quando tais decisões nunca devem ser apressadas, sendo imperativo que todos os fatores sejam considerados e debatidos”, referindo-se ao prazo de 53 dias, de acordo com o The Times, para as organizações aceitarem (ou não) o modelo proposto. O presidente da AFC concluiu defendendo que “é essencial que os órgãos apropriados da FIFA sejam envolvidos no processo de tomada de decisão e que o assunto seja tratado em todos os momentos de acordo com os Estatutos da FIFA e os mais elevados padrões de ética e boa governação”.

Perante o cenário que a proposta de Gianni Infantino desencadeou, os responsáveis da UEFA começaram a tentar articular um nome de peso para desafiar o atual líder nas urnas em março de 2027 na liderança da FIFA: Nasser Al-Khelaïfi, presidente do PSG, da organização de Associação de Clubes Europeus de Futebol (ECA) e do grupo de media beIN. De acordo com o The Telegraph, o perfil do qatari, no entendimento dos responsáveis europeus, seria o que melhor ombreava com o de Gianni Infantino.

Os planos da UEFA foram, no entanto, ao lado. E essa intenção foi desde logo afastada pelo próprio Al-Khelaïfi. “Nasser não tem absolutamente nenhuma ambição, nenhuma intenção e nenhum interesse no cargo da FIFA. Continuará a apoiar discretamente todas as instituições do futebol mundial e europeu”, revelou fonte próxima do empresário, citada pela Goal. Como o presidente da AFC, também Al-Khelaïfi diz ter sabido da proposta já depois de ser formalizada. “Tive conhecimento desta proposta da mesma maneira que a maioria dos intervenientes do futebol mundial: sem aviso prévio e através dos meios de comunicação”, explicou num comunicado, sobre o que Infantino considera uma “oportunidade de ouro”.

Depois da ameaça, a confirmação sem precedentes: UEFA une-se contra a FIFA e ameaça boicotar Campeonato do Mundo

Apesar da forte oposição e das críticas de governação, Gianni Infantino continua a ser o favorito para as eleições de 2027. O seu mandato de dez anos tem sido marcado por um aumento considerável nas receitas da FIFA, o que lhe garante o apoio de muitas federações africanas e sul-americanas, que beneficiam do aumento dos subsídios de desenvolvimento. Contudo, a dissidência da AFC cria um clima de incerteza na sua candidatura para a liderança da FIFA em 2027 e para que o modelo seja aplicado, com ou sem recondução de Infantino no próximo mandato. A FIFA é composta por 211 federações nacionais e as propostas requerem uma maioria simples para serem aprovadas. Com a UEFA e a CONCACAF (65 votos combinados) a oporem-se firmemente aos planos de privatização de receitas do Mundial, e a CONMEBOL e a CAF a apoiarem Infantino, os 47 votos da AFC tornam-se um grupo com elevada preponderância estratégica para garantir qualquer vitória política dentro do máximo organismo do futebol.

Para elevar o abalo do autêntico terramoto que está a assolar o futebol mundial, a UEFA foi mais longe e deu o passo que alguns achavam não ser possível: boicotar todas as provas da FIFA. “A posição da Europa é clara: Nunca daremos legitimidade a este modelo. Ninguém tem a autoridade moral para vender aquilo de que é meramente fiel depositário para a próxima geração. Como resultado da discussão de hoje, nenhuma seleção nacional da UEFA participará em qualquer competição da FIFA enquanto estas propostas se mantiverem ativas, a menos que esta proposta seja abandonada na sua totalidade”, frisou em comunicado.

“As associações nacionais de todo o mundo enfrentam agora um ultimato: aceitar a captura irreversível das maiores competições de futebol ou sofrer as consequências. Isto não é uma ‘decisão democrática’, mas sim uma governação por intimidação – um ato de coerção indigno de uma instituição a quem foi confiada a tutela do futebol global. No momento em que investidores externos adquirem participações de propriedade em competições da FIFA, o futebol muda para sempre. O retorno comercial torna-se uma obrigação permanente. As expectativas dos investidores tornam-se uma pressão diária. A partir desse momento, cada decisão sobre o calendário internacional, cada decisão sobre os formatos das competições e cada decisão que molda o futuro do futebol deixa de ser orientada pelo que melhor serve a modalidade, passando a responder ao que melhor serve os acionistas”, argumentou, apontando de forma direta ao ultimato feito por Infantino: ou as federações aceitam e podem averbar um total até 40 milhões de dólares da FIFA ou, recusando, nunca receberão mais do que… dez milhões de dólares.

“O Campeonato do Mundo não pode ser tratado como um produto de investimento. É um dos maiores legados desportivos do futebol. Foi construído ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e adeptos em todos os continentes. Nenhuma parte dele deve ser alguma vez entregue a investidores privados. O Campeonato do Mundo não está à venda. É simultaneamente irresponsável e indefensável que uma proposta de tal relevância para o futebol tenha sido concebida em segredo e levada ao limite da aprovação sem qualquer consulta significativa com aqueles a quem foi confiada a gestão da modalidade. Isto não é apenas uma profunda falha de liderança, mas uma abdicação do dever da FIFA como guardiã do futebol mundial”, completou a UEFA no mesmo comunicado emitido esta quarta-feira.