Populações de baleias gigantes têm vindo a deslocar-se durante o verão para perto da costa leste da Gronelândia, onde antes não eram avistadas. Em causa está o facto de aproveitarem o progressivo degelo das águas da região para entrarem em áreas previamente inacessíveis e alimentarem-se.

Um estudo desenvolvido ao longo de duas décadas por uma equipa de biólogos provenientes de várias instituições académicas e científicas de países escandinavos registou e captou provas documentais de um número cada vez maior de espécimes das maiores baleias do mundo a dirigir-se para esta zona no Ártico durante os meses de verão.

Publicado na revista científica Frontiers in Marine Science, o estudo, intitulado “Feeding frenzies of baleen whales along East Greenland” (“Frenesis alimentares das baleias-de-barbas ao longo da costa leste da Gronelândia”), cita exemplos de baleias-de-bossas, baleias-de-minke e baleias-comuns junto à costa.

Como nota a BBC, era raro estes cetáceos serem encontrados nesta região, visto que o gelo os impedia de aceder às águas costeiras. No entanto, com o agravamento das alterações climáticas e o fenómeno de degelo decorrente do aquecimento global, essas áreas começaram a ficar acessíveis e estes mamíferos marinhos começaram a adaptar-se a uma nova realidade debaixo de água.

Segundo o estudo, estas baleias começaram a entrar em “frenesis alimentares” sazonais no Ártico. Um “frenesi alimentar” é um fenómeno que decorre quando um predador se encontra assoberbado pela quantidade de presas disponíveis.

Os autores desta investigação afirmam que a presença cada vez mais intensa de baleias na região se deve ao aumento da temperatura do mar, o que por sua vez eleva a disponibilidade de alimento. Com cada vez mais peixes a deslocar-se para as águas mais quentes do leste da Gronelândia, as baleias seguem-nos em busca de sustento. Estima-se que as três espécies de baleias acima mencionadas chegam a consumir pelo menos 800 mil toneladas de peixe e krill durante uma época de alimentação de verão.

O estudo demonstra também exemplos notórios do incremento de espécimes destas baleias na região nos últimos 20 anos. Se até 2006 os levantamentos realizados a partir de navios na região não tinham registado um único avistamento de baleias-de-bossa, em 2007 foram avistadas sete e, em 2024, já se contavam 150 avistamentos.

A investigação foi, contudo, mais longe, promovendo duas sessões de observação aérea sistemática de baleias-de-barbas na região — uma no verão de 2015 e outra no de 2024. O cruzamento destes dados de amostragem com os registos de rastreio por satélite de 15 baleias e os relatos de caçadores inuítes permitiu criar modelos estatísticos. Estes estimam que, no verão de 2024, cerca de 4000 baleias-de-bossa, 6000 baleias-comuns e 6000 baleias-de-minke tenham visitado o Mar da Gronelândia.

Para Mads Peter Heide-Jørgensen, professor do Instituto para os Recursos Naturais da Gronelândia e investigador-chefe deste estudo, estes resultados parecem sugerir que está em curso “uma grande mudança de regime ecológico”.

No entanto, os investigadores notam que estas alterações não significam que estas baleias estejam a sofrer com as alterações climáticas; pelo contrário, podem até estar a beneficiar com a mudança ao adaptar-se para procurar mais alimento. No entanto, outras espécies naturais deste habitat, como os narvais e as belugas, podem “estar em apuros neste momento”, avisa Heide-Jørgensen, visto que têm de passar a partilhar as suas zonas de caça com outros predadores, correndo o risco até de serem deslocadas por eles.