Tinha acabado de salvar mais um ponto de break, tinha acabado de agarrar-se ao encontro como um último suspiro ao fazer o 3-1 no quinto e derradeiro set, tinha acabado de resgatar uma oportunidade final para ser feliz. No entanto, quando parecia estar a limpar o suor da cara com o braço direito, estava afinal a esconder aquilo que já não valia a pena disfarçar. Chorava, quebrava, punha as mãos na cintura. “Desistia”.
Novak Djokovic eliminado na primeira ronda do US Open pelo argentino Mariano Navone
Quando, mesmo a perder e com todas as odds contra, agarrava um jogo de serviço após passar pelas vantagens e tinha o público de pé a fazer mais uma ovação, Novak Djokovic mostrava o porquê de ser quase uma máquina. Abria os olhos, colocava o dedo no ouvido, pedia mais barulho, acenava com a cabeça. Aquela era a sua força, uma força que ao mesmo tempo se traduzia na kryptonita de qualquer super-homem que o tentasse desafiar num território que se tornou seu com o tempo. Agora, tornou-se na sua fraqueza. Aos 39 anos, o sérvio cedeu para aqueles que nos primeiros anos de carreira foram os seus principais adversários: por um lado, o corpo; por outro, a cabeça. E foi assim que o US Open viveu aquilo que nunca vivera.
Depois daquele 3-1, Mariano Navone, 49.º do ranking mundial, que contava com aquela euforia argentina que vinha das bancadas como se fosse um jogo de futebol, não tremeu. Longe disso. Fechou o 4-1 com um jogo em branco, foi ao banco encontrar forças para acabar de vez com o que parecia destinado, fez o break no serviço de Djokovic e fechou a partida quase quatro horas e meia depois com um 6-1 que contrariou toda a lógica do que era habitual – afinal, e apesar de ter perdido o primeiro set no tie break (5), passou de seguida para a frente com 7-5 e 6-4 e parecia estar com tudo encaminhado para fechar tudo no quarto parcial. Foi aí, ou a partir daí, que quebrou. Quebrou de vez. Hoje, com a devida distância, aquele documentário da Prime Video com o nome “Novak Djokovic: o Lobo” mais parece um pré-aviso de final de carreira…
CES IMAGES… ????
Blessé et submergé par l’émotion au cours du cinquième set face à Mariano Navone, Novak Djokovic ???????? n’a pas pu retenir ses larmes avant de s’incliner pour la première fois au premier tour de l’US Open. ???? pic.twitter.com/FW4h6o9GKT
— Univers Tennis ???? (@UniversTennis) August 31, 2026
A longa-metragem dirigida por Jason Hehir, que ganhara vários prémios com o “The Last Dance” que conta a história do sucesso dos Chicago Bulls de Michael Jordan nos anos 90 com seis títulos da NBA, “oferece um olhar sem precedentes sobre o homem por trás dos recordes, revelando a figura complexa e controversa que desafiou todas as expectativas para se tornar o maior tenista masculino da história”. E vai a tudo: as marcas que ficaram da guerra nos Balcãs, aquilo que sofreu com o conflito, os problemas financeiros que atravessou com a família a dar tudo para que tivesse uma carreira, as alterações que teve de fazer no seu jogo e na dieta para chegar aos Grand Slams, o estatuto secundário que sentiu sempre perante Roger Federer e Rafa Nadal, a novela do Open da Austrália de 2022 que ainda hoje pensa ser uma história mal contada.
Novak Djokovic with a heartfelt moment to the crowd after his 1st round loss at the U.S. Open
He struggled with his body tonight, but kept fighting for 4 hours & 36 minutes at 39 years old
Leaving with grace and & nothing but love
What a legend. ???? pic.twitter.com/wDO16xpKsa
— The Tennis Letter (@TheTennisLetter) August 31, 2026
“Tive uma experiência negativa há alguns anos. Ainda sinto uma certa amargura porque muitas pessoas não entendem o que se passou. 99% das pessoas não sabem o que aconteceu naquela época, acham apenas que fui expulso da Austrália por não estar vacinado. Mas isso não é verdade. Não estava vacinado, mas tive Covid-19 duas vezes nos seis meses anteriores e, portanto, era elegível. Recebi uma isenção. Fui transformado num inimigo maior do que jamais havia experienciado nos círculos do ténis. O mundo inteiro via-me como um inimigo. Eu nunca disse que era a favor ou contra a vacinação. Até mesmo o movimento antivacinas me declarou herói, mas nunca me juntei a nenhum movimento”, conta o jogador sérvio no documentário. “O erro foi ele ter dito que estava a viajar para a Austrália com uma autorização especial. Deixou escapar isso e parecia quase que se estava a gabar, quando não estava”, diz também a mulher, Jelena.
Ya salió el trailer del documental "Novak Djokovic: Un Lobo en Invierno"
Se estrenará el 20 de agosto por Prime Video. pic.twitter.com/KYewS5B9U1
— Tiempo De Tenis (@Tiempodetenis1) July 14, 2026
Ninguém esperava que Djokovic ganhasse o US Open, ainda menos esperava que pudesse cair na primeira ronda. A derrota frente ao também argentino Thiago Agustín Tirante logo a abrir o Masters de Cincinnati não parecia passar de um deslize mas acabou por ser um prenúncio para o que viria a acontecer em Nova Iorque. Aos 39 anos, apesar de ter chegado à final do Open da Austrália com Carlos Alcaraz e às meias de Wimbledon frente a Jannik Sinner, o sérvio enfrenta aquilo que mais temia – o fim anunciado de uma era.
This is the first time that we haven’t seen Novak Djokovic, Roger Federer, or Rafa Nadal in the 2nd round of a Grand Slam since 2003.
23 years.
The greatest era of men’s tennis is fading.
???? pic.twitter.com/Ns2q4fiGlz
— The Tennis Letter (@TheTennisLetter) August 31, 2026
A resistência de Navone foi épica mas o grande rival de Djokovic foi mesmo Djokovic. Alguém conseguia pensar que seria possível o mais titulado de sempre em Grand Slams fazer 70 erros não forçados num só jogo? Não, mas aconteceu. Isso e muito mais: Nole chegou a vomitar durante o jogo, sentia suores frios, tinha dores, não estava em condições apesar de ter feito de tudo para não quebrar. Não resistiu. Pela primeira vez desde o Open da Austrália de 2006, foi afastado na primeira ronda de um Major. Mais: nas 20 participações que teve no US Open levava um registo de 37-0 em vitórias nas duas rondas iniciais do Grand Slam.
Djokovic after his 1st GS R1 loss in more than 20 years.
"It’s something that I’ve been carrying, unfortunately, pretty much every match this year: vomiting, throwing up, a serious issue there (…) my whole body starts to collapse, cramping and pain. The back just gave up in… pic.twitter.com/69iem4ZuzR
— José Morgado (@josemorgado) August 31, 2026
“Foi uma sensação horrível. É algo que me tem acompanhado todos os encontros este ano, infelizmente. O corpo começa a colapsar, com cãibras e dores. As costas no final desistiram, tal como os ombros e não consegui fechar o encontro”, assumiu Djokovic depois de deixar o court a fazer o sinal com as mãos a pedir desculpa a todos os adeptos pelo que tinha acontecido. “O amor e o apreço que me deram no final tocaram-me realmente o coração. Foram incríveis. Sou muito grato por ter vivido isto. Foi óbvia a sensação horrível em court para mim. A forma como me senti fisicamente não foi nada agradável. Desprezei praticamente todos os momentos que passei em court por causa disso. Pensei em desistir mas ganhei o segundo e o terceiro sets e pensei que talvez houvesse uma oportunidade. Não queria render-me”, acrescentou.
Djokovic vomitando varias veces anoche, aún así se puso 2-1 pero terminó 2-3 totalmente colapsado. Feo gesto de Navone que celebró ganarlo como si acabase de ganar un Grand Slam, y McEnroe le bajó los humos rápido: ‘Enhorabueba Navone, en 2R te veremos en la pista 20’ ????…
— Christian (@SoyChristian) August 31, 2026
Fica agora a dúvida: haverá ainda Novak Djokovic nos próximos tempos? À partida, tudo aponta para que possa ainda estar presente no Open da Austrália, que venceu em dez ocasiões. No entanto, aquilo que se viu no US Open foi um claro anúncio de que o último dos Três Mosqueteiros está a chegar ao fim, mesmo numa fase da carreira em que escolhe de forma cirúrgica os torneios que faz ao longo da época…
Novak Djokovic leaves Arthur Ashe Stadium after falling to Mariano Navone in five sets across 4hrs 36mins in RD1 @usopen
Djokovic falls in RD1 for the first time in 20 career appearances at #USOpen
Tough watch towards the finish as an emotional Djokovic struggled physically pic.twitter.com/Uy6rEw9P7n
— Ben Raby (@BenRaby31) August 31, 2026