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Na Hong-jin e "Hope" no MotelX: “Quis fazer um filme que nunca tivesse sido visto antes”

O thriller de ficção-científica sul-coreano, cruzado com filme de monstros, fez-se notar em Cannes. Chega dia 10 às salas, mas primeiro passa no festival lisboeta. Falámos com o realizador.

Hwang Jung-min e Jung Ho-yeon em “Hope”, de Na Hong-jin: que monstro é este?
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▲Hwang Jung-min e Jung Ho-yeon em “Hope”, de Na Hong-jin: que monstro é este?

▲Hwang Jung-min e Jung Ho-yeon em “Hope”, de Na Hong-jin: que monstro é este?

O ambiente rural do primeiro plano de Hope, assim como aquele cenário de crime macabro que nos é apresentado de seguida, inscreve-nos imediatamente em paisagem reconhecida e no melhor que existe do cinema sul-coreano deste século — o fabuloso Memories of Murder (2003), de Bong Joon-ho.

Contudo, Na Hong-jin (Seul, n. 1974), cinco anos mais jovem que Bong, destacado por The Chaser (2008), The Yellow Sea (2010), e que há dez anos, desde The Wailing (2016), não dava notícias, segue rapidamente para caminho distinto. Mais: um caminho nunca trilhado na história do cinema.

Hope bate primeiro à porta do cinema de horror, já que há qualquer coisa imparável que está a reduzir a escombros, rua atrás de rua, a pequena (e imaginária) vila costeira em que o filme se passa. Na Hong-jin arrisca. Deixa-nos na expectativa. Até à primeira hora de filme, a ameaça é omnipresente, mas monstro, nem vê-lo — é tudo sugestão, lição de Jacques Tourneur levada ao limite. A ficção-científica surge depois, quando finalmente se consegue ver o que tanto se deseja (e quase se desespera) desde a primeira cena — e aqui, juntam-se ao elenco coreano de Zo In-sung, Jung Ho-yeon e Hwang Jung-min, os rostos bem mais conhecidos entre nós de Michael Fassbender e Alicia Vikander (que são um casal na vida). Só que pouco adianta falar deles, de facto. São aliens. Não os reconhecemos. Ou melhor: Na Hong-jin forjou aquelas criaturas digitalmente à partir da fisionomia do actor germânico-irlandês e da actriz sueca.

Hope é um filme de excessos, seguramente longo de mais, também o mais caro de sempre da cinematografia sul-coreana e o nec plus ultra do virtuosismo high-tech, pedrada no charco do uso da IA aplicada ao thriller e ao cinema de terror. Está a inaugurar algo que ainda não sabemos que resultados vai ter. Mexe com o medo que o ser humano tem do desconhecido. Disso falámos em Cannes com o realizador, em breve conversa com auxílio de tradutor, infelizmente cronometrada ao minuto. O filme passa no Cinema São Jorge, na sala Manoel de Oliveira, no próximo domingo, dia 6, às 20h10.

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▲ Na Hong-jin, em Maio passado, no Festival de Cannes: “O ser humano, por auto-defesa, tem medo daquilo que não conhece”

Corbis via Getty Images

Porque é que “Hope” decorre naquela localidade virtual da Coreia do Sul, tão isolada dos centros urbanos?Quis que a história começasse numa pequena cidade trivial, insignificante, aparentemente sem importância. Ali acontece algo fortuito que acaba por ter impacto e consequências capazes de alterar o curso de todo o universo. Aquele espaço não é só remoto para si ou para a audiência de Cannes. Os próprios sul-coreanos não o conhecem.

O filme combina ficção científica, comédia, acção e, de forma particularmente evidente, elementos do western, pela presença dos cavalos, por exemplo. Era algo que procurava desde o início ou este desenvolvimento foi surgindo organicamente durante a escrita do argumento?
Foi um pouco das duas coisas. Alguns elementos surgiram naturalmente enquanto escrevia, mas, desde o início, queria um filme que incorporasse muitos géneros diferentes. Essa opção também resulta das necessidades da própria história. A comédia, por exemplo, era necessária porque, perante todas as metáforas presentes no filme — e a realidade pouco agradável que é retratada — precisava de uma escapatória, de um certo alívio. A comédia funciona como uma espécie de contraponto àquilo tudo: ao thriller, à acção e ao suspense. Quis fazer um filme que nunca tivesse sido visto antes. Para tornar as cenas de acção interessantes e variadas, era necessário incorporar diferentes géneros. O resultado acabou por levar-me a uma amálgama complexa, a um estilo que eu nunca tinha sido utilizado antes, imprevisível e muito louco.

Disse na conferência de imprensa que o medo do desconhecido está no centro do deste filme. Pode desenvolver essa ideia?
Penso que também podemos formulá-la de outra maneira: um acto inocente, que não contém malícia nem intenções malévolas, pode, ainda assim, resultar num acontecimento que conduz a um resultado extremamente perverso. Essa é outra forma de formular a ideia. O ser humano, por auto-defesa, tem medo daquilo que não conhece.

Quando finalmente vemos o monstro pela primeira vez, ele é especialmente assustador. Mas essa figura também pode ser entendida como uma metáfora da actualidade, a divisão da península corana, as guerras actuais, as ilusões associadas à IA. A fractura entre nações e a possibilidade de confronto também parecem estar presentes. Tinha isto em mente quando escreveu o filme?
Sim. Uma das coisas que pode surpreender o público é esse tipo de associações com o presente. Queriamos lançar esse género de discussões ou, pelo menos, tentar provocá-las nos espectadores.

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▲ Na Hong-jin (segundo a contar da direita) junto aos seus intérpretes, Zo In-sung, Jung Ho-yeon e Hwang Jung-min — todos super-estrelas na Coreia do Sul e no cinema asiático

WireImage

Apesar da sua originalidade, Hope convoca inevitavelmente outras imagens e outros filmes. As sequências na floresta fazem-nos pensar imediatamente em Predador [John McTiernan, 1987]. A acção na estrada evoca a saga Mad Max. Essas referências estavam presentes para si?
Não só estavam como fico feliz que as reconheça. Tinha em mente esses filmes que refere e muitos outros. Antes de começar a rodagem, vi imensos filmes relevantes para estes géneros. Normalmente, a maioria dos realizadores faz o contrário: evita ver o que quer que seja para não se deixar influenciar. Mas Hope é um caso difernte. É um filme que só existe, só é possível, graças à tecnologia que temos agora. Combina referências e transforma-se em algo que, para mim, nunca existiu na história do cinema.

Como desenvolveu o desenho dos extra-terrestres, por exemplo?
Os E.T. foram concebidos a partir de uma narrativa muito mais ampla e que tinha em mente. Escrevi diferentes histórias em segundo plano e uma narrativa muito maior, com passados para cada uma das personagens, humanos e aliens. Cada um dos meus extraterrestres tem uma história diferente: de onde vêm, a que classe pertencem, entre outros aspectos.

E por que razão escolheu atores ocidentais para interpretar as criaturas? Há também um choque cultural nesta escolha.
Quando estava a pensar nos extra-terrestres, quis que fossem inteiramente realizados em CGI, mas modelados a partir de actores reais. Por uma razão simples: à medida que o filme avança, vamos descobrindo que as criaturas que chegaram do espaço têm cada vez mais traços de humanidade, muito mais do que julgávamos. Foi, por isso, importante encontrar os actores certos [Michael Fassbender e Alicia Vikander]. Quando vemos os extra-terrestres a agir, percebemos que existem intérpretes por trás e que eles são capazes de transmitir de forma clara e simbólica aquilo que representam.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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