Faz 31 anos a 23 de outubro e podíamos dizer que não parece. Mas parece. Estamos noutro mundo. Naqueles idos de 1995, Mellon Collie and the Infinite Sadness foi um dos totens que descreveu uma era. Ainda se prestava culto ao CD e ao booklet, comprávamo-lo como uma preciosidade, despiamos a película de PVC num misto de solenidade e desejo quase físico, folheávamos e cheirávamos o objeto, procurávamos os seus segredos ainda antes de depositar o primeiro disco na aparelhagem hi-fi mais do que provavelmente dos pais. Não éramos todos adolescentes em meados dos anos 90, não é possível, mas combinemos que éramos, para efeitos da presente crónica. O tempo era, ele mesmo, de adolescência do mundo, meio inocente, meio selvagem, meio contestatário, muito – como o percebemos agora, em contraste com a luz crua dos dias de hoje – sonhador.
Mellon Collie foi a magnum opus de Billy Corgan e dos seus Smashing Pumpkins. A isso se propôs e isso conseguiu. Desassombradamente ambicioso, estendia-se por dois discos e 28 temas, num universo tão consistente que quase juraríamos ter visto os desenhos, o filme, as personagens diante de nós. Um álbum conceptual, como muito poucos se atreveriam no rock de então, coisa mais saída dos anos 70 na ambição, mas com os sons e angústias do seu próprio tempo e já o programa que marcaria a carreira posterior dos Pumpkins, um sabor a século seguinte, a máquina, demiurgos de uma era. Terceiro disco da banda, depois de atirada para a primeira linha de grandeza por Siamese Dream, foi a afirmação de maioridade de um coletivo e de um autor. Mesmo que, isoladamente, venham sempre a ser mais Disarm, Today ou Mayonaise – vicissitudes dos álbuns “de conceito”: valem pelo todo, funcionam em colecção; perdem valor avulso. Por muito que Tonight, Tonight, Bullet with Butterfly Wings ou 1979 tenham tentado.
▲ O rock é rude e imperfeito e malcomportado, sujo, truculento e desequilibrado como a memória da nossa melancolia e infinita tristeza da adolescência. Isto é outra coisa
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
O reencontro proposto em 2026 não é um exercício de nostalgia. Não se trata de voltar atrás; é, antes, como se, de repente, encontrássemos na rua um velho amor ou amizade de adolescência. Hesitássemos, confirmássemos e percebêssemos depois como o tempo passou e no que ambos nos tornámos. Os sites da promotora e do Coliseu dos Recreios falam em Billy Corgan e nos convidados especiais Orquestra Sinfonietta de Lisboa e Coro Ricercare, mas é o contrário: “A Night of Mellon Collie & Infinite Sadness” é, na prática, um espectáculo de orquestra e coro para o qual convidaram Billy.
É ver os preços dos bilhetes, que começavam nos 40€ por uma galeria de pé (!) e acabavam nos 160 junto ao palco; o Coliseu de plateia sentada e bem-comportada montada; o cumprimento impecável do horário, até com direito a 20 minutos de intervalo, anunciados por um speaker. Não, o rock já não mora aqui. O rock é rude e imperfeito e malcomportado, sujo, truculento e desequilibrado como a memória da nossa melancolia e infinita tristeza da adolescência. Isto é outra coisa. Passaram 31 anos e cada um seguiu o seu caminho; coincidência termo-nos cruzado: o ex-adolescente agora quarentão a escrever sobre concertos; a melancolia empregada como musical sério, digno da Broadway ou à espera a Disney o leve para o cinema.
▲ A orquestra e o coro estão lá para tratar dos detalhes da perfeição, da exemplaridade, da técnica; a estrela rock traz o carisma
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
O espectáculo começa às nove e cinco; Billy só há-de aparecer uns 20 minutos depois, quando parte da sala já estiver na dúvida sobre se ele não será, na verdade, “apenas” o maestro, senhor vestido no mesmo preto tradicional e com o mesmo, enfim, corte de cabelo. Até lá, Sinfonietta de Lisboa e Coro Ricercare já percorreram Mellon Collie and the Infinite Sadness-o-tema, que serve de intro ao primeiro disco, Dawn to Dusk; afloraram Tonight, Tonight, a que hão-de regressar, em força, mais tarde, foram a Jellybelly e Galapogos. Quando Billy vem enfim, vem meio fora de tom, meio fora do balanço da orquestra ou a orquestra do dele, até porque, de país em país, ao longo da tour, trabalha, evidentemente, com orquestras locais diferentes e o tempo de trabalho conjunto só pode ser muito, muito curto.
Ao longo da canção, rockstar e orquestra lá se encontram a meio e Thirty-three consegue recordar-nos que “amanhã é apenas uma desculpa”. A sala explode numa ovação com um quê de sentimentalidade, mas quem quer outra coisa da música e da nostalgia de quem a ouve? O rock, sem a sua estrela, não é rock; que importam todas as suas imperfeições? A orquestra e o coro estão lá para tratar desses detalhes da perfeição, da exemplaridade, da técnica; a estrela rock traz o carisma. A lenda, a dor, a história. O tipo que perdeu a mãe aos 17 anos e foi viver com um traficante de droga que também acabou a expulsá-lo de casa porque já não o podia ouvir tocar em loop o Fade to Black dos Metallica. O rock, o que fez História, foi escrito por tipos que levaram vidas muito escavacadas, ouvi Billy lembrar certa vez numa entrevista. Achamos todos que nos revemos e identificamos com as grandes canções, mas não sabemos nada do sofrimento de onde vieram.
▲ O Coliseu adorou, explodiu em várias ovações, termina de pé. A noite foi a espaços muito bela, mas o vampiro desaparece debaixo de tanta luz
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Seguimos por Beautiful e Muzzle, alguém grita “Bra-vô” e, de facto, já não estamos no Kansas, mas na ópera. Lily (My One and Only) é um dos momentos mais felizes, antes de irmos a Stumbleine, abrindo caminho à segunda aparição de Billy, já lá vai quase toda a primeira parte do concerto: “God is empty just like me” e Zero também está transformada em banda sonora de um filme de muito maior orçamento do que recorda a nossa melancolia. A segunda parte seguirá a mesma receita, com momentos indiscutivelmente grandiosos, como Bullet With Butterfly Wings, ou Porcelina of the Vast Oceans, mas nenhuma da angst juvenil de um dos discos definidores da década de 90, “icónico”, como dizem os termos batidos da promotora. “Despite all my rage”, cantam, imaculadamente, os intérpretes, “I am still just a rat in a cage”. E é inevitável sentir a ironia: quanto mais perfeito é “A Night of Mellon Collie & Infinite Sadness”, mais se afasta da verdade. Qual raiva? Onde está ela? A ratazana, que de vez em quando vem a palco, no hábito negro e curvado com que se oferece como uma das poucas ligações directas à memória original, até pode estar numa gaiola, mas é uma gaiola dourada como nunca. Brilhante, luxuosa.
Em 1979, a plateia saca dos telemóveis para filmar Billy no momento mais parecido com o que talvez alguns tivessem antecipado para esta noite. O artista convidado para a sua própria festa volta em To Forgive e volta a tremer no tom, mas equilibra-se no arame. Terminaremos, todos juntos, às onze mais ou menos em ponto, para o épico prometido de Tonight, Tonight. De fora, ficou praticamente um terço do disco e mais de dois da lembrança, às vezes, nalguns dos seus momentos mais felizes: Here is no Why, Take Me Down, We Only Come Out at Night ou Farwell and Goodnight. O Coliseu adorou, explodiu em várias ovações, termina de pé, aplaudindo entusiasticamente um encore que não está previsto nem há-de vir, como natural na ópera. A noite foi a espaços muito bela, mas o vampiro desaparece debaixo de tanta luz. O rock era sujo e imperfeito como a melancolia e a adolescência. Teremos de levar outras canções quando precisarmos de voltar a contemplar o abismo.