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Altura de conhecermos do que vai o José Manuel Fernandes falar no Contracorrente desta sexta-feira, dia 18 de setembro. Para participarem e nos dar a sua opinião em direto, só têm que ligar para nós 91 002 41 85, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp para o mesmo número 91 002 41 85. Carla. São raros os casos de políticos ou de ex-políticos que sempre que falam são notícia e criam polémicas. Cavaco continua a ser um desses políticos, mas não se imagina que possa voltar a ocupar qualquer cargo público. Com Passos Coelho é diferente. Fala-se sobre o que diz ou escreve, fala-se sobre o que ambiciona ou não ambiciona, fala-se mesmo quando não aparece ou não intervém, e fala-se, por regra, de forma apaixonada. Esta semana voltou a acontecer o mesmo por causa de um prefácio e por causa de um estudo que ainda nem sequer está concluído. No Contracorrente de hoje vamos tentar perceber não só porque é que Passos ainda anda por aí, e também porque é que incomoda tanta gente. José Manuel, bom dia. Acha que é por falar pouco, como fazia Cavaco, que se lhe dá tanta atenção?
Em boa parte é capaz de ser por isso. Quando há uma enorme presença no espaço público, as declarações acabam por vulgarizar-se. Se repararmos, os políticos que se transformaram em comentadores, por exemplo, às vezes geram muita brouhaha nos seus primeiros comentários, mas depois a pouco e pouco isso pode tornar-se repetitivo e o impacto público das suas declarações vai diminuindo. E mesmo políticos que têm tendência para estar sempre a comentar, estar sempre a aparecer, estar sempre a falar, acontece algo de semelhante. Nós recordamo-nos, por exemplo, do tempo em que era um político não ativo, mas tinha uma presença de comentário muito superior do que era habitual nos titulares da Presidência da República, que foi Marcelo Rebelo de Sousa, e a certa altura, a quantidade de comentários que fazia retirava algum peso aos momentos a esses próprios comentários. Comentários, às vezes até discursos públicos, intervenções, tinha esse efeito. Estou também a recordar-me, por exemplo, de Mário Soares. Mário Soares escreveu durante muitos anos uma coluna semanal e a certa altura deixou de ter atenção para isso. Até porque ele também tinha muitas outras aparições, estava em muitos outros lugares, ia a muitas conferências, também aparecia muitas vezes nas televisões. Portanto, perdeu esse impacto, independentemente do peso que tivesse ou não tivesse na opinião pública. O caso de Passos Coelho, e também anteriormente de Cavaco Silva, parece ser, com estilos diferentes e formas diferentes, pessoas que pesam a sua intervenção pública. O caso Passos Coelho, em concreto, é alguém que já foi convidado para ser comentador e nunca aceitou, que não dá entrevistas políticas, que me recordo há anos e anos. E que o tipo de intervenções que faz, agora estão a ser mais frequentes, mas por regra são intervenções em lançamentos de livros, um prefácio, aqui ou acolá uma conferência. Houve momentos em que de repente apareceram, foram muitos, aconteceram em quase catadupa, outras alturas em que nem estavam a acontecer, mas coincidiram depois a sua divulgação pública. Por exemplo, nós agora estamos a falar de um prefácio de um livro que vai ser publicado, aliás, o lançamento é só para o mês que vem, 7 de outubro. O livro já está publicado, eu já o tenho, já estive a ler o prefácio. Há uma coisa que na altura em que foi notícia não me recordo de ter sido referido. O prefácio está assinado 22 de junho. Massamá, 22 de junho. Foi escrito há quase três meses. Entretanto, há coisas que lá vêm referidas que até já se desatualizaram. Por exemplo, é referido que o governo está à espera de um estudo sobre as pensões e ele já foi divulgado. E é um dos pontos sempre muito importante quando se fala. Aliás, é um ponto muito importante, não só do livro, como é referido isso mesmo no prefácio. A outra intervenção pública é uma coisa que já vem daqui há muitos meses, não aconteceu nada de concreto, que é um estudo que está encomendado pela Associação Industrial do Porto a Pedro Passos Coelho e também a um antigo dirigente do Partido Socialista. Também não conhecemos o seu conteúdo. Isto acho que tem a ver com duas ou três características que não são menores. Por um lado, há esta raridade e a raridade faz com que se lhe dê muito mais atenção. Depois tem algo que tem muito a ver com o meio mediático. O meio mediático aproveita tudo. Se nós virmos, por exemplo, lendo aquele prefácio, o prefácio tem umas 10, 12 páginas e houve só duas ou três frases que saltaram porque podem ter várias interpretações. E por fim, aquilo que me parece mais importante, que é a relevância do que é dito. E é isso que eu acho que nós nos devíamos focar. Porque é em boa parte a relevância do que é dito e o facto de quem o diz ter um peso público que deriva de ter ocupado lugares importantes na política portuguesa, no caso de Pedro Passos Coelho, que foi primeiro-ministro durante um período particularmente difícil, ganhou em termos de primeiro partido duas eleições. E se formos até ver bem, o resultado que ele teve nas últimas eleições em que participou, que foram eleições que não lhe permitiram ficar no poder, como todos recordamos, tem a ver com a invenção da geringonça, é um total de votos que o PSD ainda não conseguiu repetir. Portanto, isso dá-lhe uma aura muito especial, que não sei se para algumas pessoas será, talvez porventura, um bocado messiânica, para outras é um efeito parecido com aquele que gerava Cavaco Silva e que ainda hoje gera Cavaco Silva, porque há também muitos ódios de estimação, por assim dizer. E por fim, eu acho que há algo mais do que isto tudo e que é relevante. É que Pedro Passos Coelho fala para um eleitorado que, julgo eu, vai além do eleitorado base do PSD. É um eleitorado que hoje está disperso não apenas pelo PSD, mas também pela Iniciativa Liberal e pelo Chega, e isso permite-lhe alcançar mais pessoas, independentemente de se concordar ou não com tudo aquilo que ele possa dizer. E por fim, pela forma como ele geriu a sua vida pós-política. Ele é, não sei se o único, mas um dos raríssimos políticos que saiu do cargo que ocupou e passou a casa de um subúrbio para uma vida relativamente discreta, durante muito tempo marcada pela doença gravíssima da mulher, que entretanto faleceu, e por aquilo que se sabe que é uma vida não apenas discreta como modesta. Isso para muitos eleitores, para muitos portugueses, também tem um valor que muitas pessoas muitas vezes desvalorizam. Eu recordo quando se dizia o político de Massamá, eram as habituais snobices da bolha lisboeta, mas que para o eleitor médio, para o português médio, é capaz de ter um valor de tipo diferente. Vale a pena falar um pouco disto tudo e tentar perceber o que se passa, porque é indiscutível. Pedro Passos Coelho fala e fala-se dele.
Vamos falar sobre isso depois das 10 horas.
Pois é.
Precisamente falar dele.
Exatamente.