1241,5kWh poupados 1241,5 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

GettyImages-2206552739
i

▲Mike Leigh fotografado na Cinemateca Francesa em março deste ano

AFP via Getty Images

▲Mike Leigh fotografado na Cinemateca Francesa em março deste ano

AFP via Getty Images

Mike Leigh e as farpas da vida conjugal, sem guião: "O cómico e o trágico existem em simultâneo"

Entrevista com o cineasta britânico em torno do seu método de trabalho e de uma nova longa-metragem que chega esta quinta-feira às salas, “Verdades Difíceis”, com a fabulosa Marianne Jean-Baptiste.

Verdades Difíceis, novo filme de Mike Leigh, é uma peça de câmara que privilegia os espaços interiores e a dinâmica de uma família dos subúrbios de Londres dominada pela matriarca Pansy (Marianne Jean-Baptiste), mulher de meia-idade, contestatária, irascível – numa palavra, insuportável. Pansy ferve em pouca água face ao silêncio do marido Curtley (David Webber) e à apatia do filho Moses (Tuwaine Barrett), que nem se atrevem a levantar-lhe um dedo. Quando sai à rua, é intolerante a tudo o que mexe. Não poupa médicos nem empregados de supermercado. A infelicidade da personagem é profunda e insondável, mas nem por isso deixa ela de dar cartas à tragicomédia — “e não é assim a vida, cómica e trágica?”, pergunta o cineasta de Manchester mais à frente.

Marianne Jean-Baptiste, que foi inesquecível em Segredos e Mentiras (Palma de Ouro em Cannes 1996, com Francis Ford Coppola a presidir ao júri; filme cinco vezes nomeado para o Óscar) está outra vez no centro de um grande trabalho de interpretação, gerado pela demorada exigência dos ensaios com os actores e pela forma orgânica como são construídas as personagens. Também sobre isso falámos com Mike Leigh em Setembro do ano passado, em entrevista numa sala do Hotel Maria Cristina de San Sebastián, enquanto decorria o festival de cinema basco, poucos dias após a estreia mundial da obra, no lado de lá do Atlântico, em Toronto (Cannes não o quis, Veneza tão-pouco).

À escala portuguesa, já não havia um filme de Mike Leigh nas salas há mais de uma década, desde a estreia de Mr. Turner (2014). A obra seguinte, também um filme de época, Peterloo (2018), foi parar aos labirintos do streaming – e merecia melhor sorte. Sete anos e uma pandemia depois, aí está Verdades Difíceis, novo capítulo de um cineasta que sabe como poucos dar forma ao desencanto. Mike Leigh corrigir-nos-ía se nos lesse: a vida é que é assim, o desencanto apenas uma parte dela.

[o trailer de “Verdades Difíceis”:]

Contou em tempos que cada pessoa com quem se cruza na rua é uma personagem sua em potência, mas isto não tem nada que ver com o seu processo de trabalho, que tem vindo a ser afinado filme a filme, década a década, pois não?
A ideia de um filme e a construção de uma personagem são coisas muito diferentes. Aquilo que faço inicialmente com os meus actores é pedir-lhes uma lista variada de pessoas verdadeiras do seu conhecimento, independentemente destas serem família, amigos, pessoas apreciadas ou detestadas. Depois escolho dois ou três nomes de cada lista. Continuamos a desenvolver isto, sem imaginarmos sequer o que a personagem é ou o que vai dar. Da amálgama destas duas ou três fontes reais começa então a nascer um esboço muito ténue da personagem. Só depois começa ela a ganhar um corpo com três dimensões. Este processo é lento. Numa etapa seguinte, a vida da personagem é explorada por nós até ao mais ínfimo detalhe na relação com as outras personagens. No caso de Verdades Difíceis temos as duas irmãs, por exemplo.

Este é o procedimento prático, digamos.
Que para mim é vital como processo criativo. É assim que as personagens ganham vida. Os meus actores concordam em entrar no projecto sem a mais pequena ideia do filme que vamos fazer. Eu próprio não sei o que vou filmar, não há história. O acordo que temos, basicamente, é este. A excitação e o estímulo vêm daqui. Obviamente, quando olho para os actores à medida que começo a imaginar as possibilidades das personagens, sigo intuições e noções relacionadas com coisas que me preocupam na vida. Fico com certas coisas que os actores trazem às personagens, rejeito outras. Normalmente, recebo mais do que aquilo que ponho de parte. Em última análise, os meus filmes constroem-se com estas interacções. É um método criativo que, bem vistas as coisas, não é afinal tão diferente do método de qualquer outro artista que escreve, pinta ou compõe. Comprometo-me progressivamente com um processo de descoberta, à procura de uma verdade.

Por falar em coisas que preocupam na vida: Pansy, a personagem de Marianne Jean-Baptiste, vive na dor. Sempre zangada. É especialmente dura com o marido e o filho. Não consegue estar em paz com o mundo. Não tem descanso. Porque é que uma personagem como esta lhe interessa?
Para ser honesto consigo, a resposta à pergunta está na sua própria observação detalhada da personagem. Pansy não sofre de um síndrome incomum. A resposta é essa. Muitos de nós, seres humanos, vivemos assim. Não estamos a falar de uma condição obscura sem ressonâncias em nós. Pansy não é obscura ou esotérica. É mulher, mas podia ter sido homem. Pansy cresceu assim, tal como está no filme, mas todos nós a conhecemos ou já nos cruzámos com ela num certo momento da vida. No entanto, e se eu quiser responder à sua pergunta num nível completamente diferente, suponho que devo falar de Marianne Jean-Baptiste.

"A precisão do trabalho com os meus actores vem deste método de repetir, insistir, voltar atrás, afinar. Até descobrirmos em conjunto o que as personagens vão dizer e querem fazer. Passamos meses nisto. No caso de Verdades Difíceis, foram 14 semanas. Envolvemos os actores na produção."

O desejo de voltar a trabalhar com ela foi outro ponto de partida?
Sim, absolutamente. Conhecendo-a como conheço, depois de ter trabalhado com ela, como sabe, não só no cinema mas também no teatro, conhecendo esta pessoa que agora é uma mulher experiente de meia-idade, sabia que ela estaria disposta a colaborar. Marianne tem um enorme sentido de humor, à mesma escala da sua personalidade, que é muito vincada. Estou a falar da atriz, não da personagem. Marianne interpretou um papel muito importante em Segredos e Mentiras. E discutimos este novo filme muito tempo. Gosto muito de trabalhar com actores tão polivalentes como ela, a Marianne é capaz de interpretar qualquer papel, garanto-lhe, invente o que quiser — ela faz. Eu sabia até onde ela poderia ir. Ora, a Pansy é uma personagem cujos comportamentos são explorados até ao extremo, diria eu.

A maneira como “estica essa corda” sempre foi fascinante. Isto é: apesar do drama, este filme é cómico. Corrosivo e até desesperado na sua comicidade. Mas só é uma coisa e outra em simultâneo, com aquela intensidade, porque não há guião. E muita gente continua a ver e até escrever sobre os seus filmes sem saber isso. Não há guiões no cinema de Mike Leigh.
Não há guiões, não há castings, não há sinopses.

Revi não há muito tempo Bleak Moments (1971), a actriz Anne Raitt faz e diz coisas que nenhum guionista poderia ter inventado. Tive a mesma sensação de que essa primeira longa-metragem jamais teria funcionado com um argumento escrito.
Sem deixar de agradecer o apontamento, estou seguro de que sabe isto: chegámos finalmente a algo muito preciso pelos ensaios e que, no fim de um longo processo, se confunde com um argumento de cinema. Mas não o é. Por exemplo, se eu lhe pedir para repetir uma das suas perguntas desta entrevista, a repetição trará uma alteração ligeira. Se eu lhe disser “tente outra vez”, outra alteração virá. E outra. E outra ainda. A precisão do trabalho com os meus actores vem deste método de repetir, insistir, voltar atrás, afinar. Até descobrirmos em conjunto o que as personagens vão dizer e querem fazer. Passamos meses nisto. No caso de Verdades Difíceis, foram 14 semanas. Envolvemos os actores na produção. Não estou apenas a falar de texto e de diálogos. Na parte final de Verdades Difíceis há muitas cenas quase sem palavras. Mas a precisão é a mesma, nas motivações, nas emoções, nos silêncios. Neste filme, optámos por não usar banda sonora para que os silêncios tivessem ainda mais peso.

▲ "A vida é hilariante na sua tragédia. Cada um de nós reage-lhe à sua maneira", diz o realizador a propósito de "Verdades Difíceis"

Falou detalhadamente no processo de ensaios com os actores. O que acontece quando o deadline da rodagem se aproxima?
O que faço nessa fase é escrever uma estrutura muito geral e permeável a alterações. Em seguida, voltamos a ensaiar, afinando as últimas decisões, sem rigidez, cena por cena, sequência por sequência, em cada local de rodagem. A equipa técnica só entra depois. Filmamos e repetimos o processo na cena seguinte. Somos como uma família em que estamos todos envolvidos [Dick Pope (1947-2024), director de fotografia de todos os filmes de Mike Leigh entre Life is Sweet, 1990, e o que agora se estreia, morreu em outubro do ano passado].

Quanto ao humor inerente do filme: mas não é assim a vida, tal e qual como diz, cómica e trágica? Em Verdades Difíceis, também mo disseram, há gargalhadas no início, desvanecem-se no segundo acto, desaparecem no terceiro. Perguntaram-me também porque é que lanço o humor se depois o deixo fugir. Acontece que eu não tomo jamais decisões como essas. Nem penso nelas. O cómico e o trágico pertencem à vida, existem em simultâneo. Ou melhor: a vida é hilariante na sua tragédia. Cada um de nós reage-lhe à sua maneira.

Então deixe-me fazer-lhe uma pergunta também concreta: há um momento de Verdades Difíceis em que uma raposa entra num quintal. Uma vez que não há argumento, como é que decide que a raposa vai entrar naquele instante?
Foi mais uma ideia que veio dos ensaios e daquela paranoia da personagem com a limpeza e os pássaros, logo no início vemos os pombos no passeio, à entrada da casa. E a verdade é que há raposas a saltarem por ali naquelas áreas suburbanas. Disse-me que era uma boa ideia, que seria divertido ter uma raposa no jardim. É uma raposa “profissional”, aliás são duas, o treinador trouxe um par, eram idênticas. Também trouxe os pombos. A raposa é muito boa, merecia um Óscar!

“Verdades Difíceis”: a pessoa mais insuportável do mundo

Disse antes que foi intencional a escolha de fazer este filme com actores negros, o que em parte se justifica por ser um filme de família em torno de duas irmãs que são negras, com Marianne Jean-Baptiste no papel principal. Quer acrescentar algo a esta observação?
No momento em que vivemos, rodeados de preconceitos e de atitudes politicamente correctas, achei muito importante filmar uma família de pessoas negras que não está sujeita nem ao racismo, nem à segregação, nem à violência, nem à vitimização, uma família que não é boa nem má, que não é rica nem pobre, é apenas… uma família. Isto é tudo o que tenho a acrescentar. Fiz filmes e encenei peças de teatro sobre todos os segmentos da sociedade do Reino Unido, encenei uma peça na Austrália sobre gregos-australianos, outra em Londres sobre judeus, filmei a burguesia e o proletariado, filmei maioritariamente brancos mas também negros e asiáticos. Por tudo isto, parece-me natural ter tido vontade, de pleno direito, de me focar desta vez numa comunidade negra. Se alguém me disser que eu, octogenário, branco, não tenho direito de filmar aquelas pessoas porque sou octogenário e branco, lamento mas terei de dizer-lhes que se lixem. Não tenho tempo para esse debate. Acho-o ridículo. “Fascist crap!”

Os investidores não andam propriamente atrás de mim com o livro de cheques. Que posso eu dizer-lhes? “Dêem-me o dinheiro, mas não há argumento, não vou contar-vos absolutamente nada sobre o que vou fazer e sou inflexível com a escolha dos meus actores...” É obvio que 99% dos financiadores ficam à porta.

Nos últimos cinquenta anos tem filmado predominantemente famílias, nem sempre, mas quase sempre. As dinâmicas familiares, nos seus equilíbrios e disfunções, são um aspecto importante do seu trabalho. Olha para elas hoje de maneira diferente?
Não acho que alguma coisa possa acontecer na sociedade que evite, ou se escape inteiramente, da necessidade fundamental da unidade familiar. Não falo apenas como cineasta mas como pai e avô. As relações familiares, todas as filiações reais, inventadas e até simbólicas, fazem parte da existência humana. Mesmo para quem não tem família e está só no mundo. Agora, a cultura e a política mudam. E reenquadram essas relações. Mas não creio que possam destruí-las. Ainda não. Seria uma catástrofe.

Voltemos aos silêncios do filme, que são especialmente expressivos nas personagens que rodeiam Pansy, pessoas passivas e que se vitimizam face à atitude dela, furiosa. Poderiam ser pessoas diferentes?
Certamente. Há sinais sobre cada uma das personagens ao longo de todo o filme. Mas esse é um tipo de análise que eu acho que deve ser entregue ao juízo de cada espectador. Há uns dias fizeram-me a pergunta, como pode ser o marido da Pansy tão insensível, quase inconsciente. Na verdade, não consigo ver no filme qualquer prova disso. Ele não é pro-activo, certo. Mas, e digo-o outra vez, já encontrámos, todos nós, milhares de pessoas assim, que preferem dar um passo atrás. Estas personagens não são ideias artísticas extravagantes. Nem têm que seguir uma doutrina, alimentar uma moda. Todos os meus filmes contrariaram essa tendência. Aquelas personagens são simplesmente seres humanos. É assim que olho para elas.

De onde vem este título, Hard Truths [no original]?
Da mesma expressão inglesa, dos obstáculos duros que enfrentamos na vida. Do maior ou menor optimismo ou pessimismo que encontramos no final do filme. Podíamos considerar a irmã de Pansy, Chantelle [Michele Austin], uma personagem optimista se imaginássemos um futuro qualquer para aquelas personagens uma vez o filme acabado.

Tenho a sensação — e não apenas pela sua vasta experiência em teatro – de que este filme podia ser encenado, não lhe parece?
É interessante a ideia. Até podia ser. Gosto de teatro e de cinema, a verdade é que tendo a não misturar as duas coisas, salvo numa muito honrosa excepção em que transformei uma peça de teatro escrita por mim num telefilme “old fashioned” que se tornou um grande êxito.

GettyImages-2174599278

▲ Marianne Jean-Baptiste e Mike Leigh, no ano passado, em San Sebastián

Getty Images

Qual foi esse?
Abigail’s Party [para a série Play for Today, 1977]. Houve um revival há pouco tempo, levaram-na outra vez à cena em West End. De qualquer forma, para mim um filme é um filme, uma peça é uma peça. Se alguém quiser encenar Verdades Difíceis, pode tentar. Mas terá que me pedir consentimento. E eu não o darei [risos]. Então o melhor é ninguém perder tempo a tentar. Quer dizer: quando as irmãs vão ao cemitério, eu quero sentir-me num cemitério, não num palco. Nessa cena em que elas vão ver a campa da mãe, não sei se reparou, acontece uma coisa extraordinária: ao lado passa um cortejo fúnebre de motociclistas. É impossível recriar algo assim no teatro.

Houve um longo intervalo, de seis anos, entre o seu filme anterior, Peterloo (2018), e Verdades Difíceis. Porquê?
Obrigado por contornar a pergunta que os críticos ingleses gostam tanto de fazer-me: se estou a pensar reformar-me. Calculei que não o fizesse, já que vem do país de Manoel de Oliveira… O intervalo deveu-se à dificuldade de reunir financiamento. Já estou habituado. Os investidores não andam propriamente atrás de mim com o livro de cheques. Que posso eu dizer-lhes? “Dêem-me o dinheiro, mas não há argumento, não vou contar-vos absolutamente nada sobre o que vou fazer e sou inflexível com a escolha dos meus actores…” É obvio que 99% dos financiadores ficam à porta.

Se pensarmos no seu percurso, nada diria que chegaria a este dificuldade. Grandes Ambições e Life is Sweet foram êxitos comerciais muito significativos em 1988 e 1990. Naked (1993), outro êxito, abriu-lhe a porta dos grandes prémios nos festivais internacionais mais importantes até à Palma de Ouro de Segredos e Mentiras (1996) e o Leão de Ouro de Vera Drake (2004).
Também esses foram filmes de família, casos domésticos — embora Naked seja um exemplo à parte – que desafiaram o status quo. Naked antecipou muitos aspectos do novo milénio. Toda a gente estava obcecada por isso nos anos 90. Era um inquérito especial ao comportamento masculino e ao papel da masculinidade. O filme esfaqueava um certo ideal de vida contemporânea que então se ambicionava. E nessa altura havia quem quisesse pagar para ver isso. Tínhamos espectadores. Enchiam salas. Eu fiz 28 filmes [Verdades Difíceis é a 15.ª longa-metragem para cinema] e nunca tive tanta dificuldade em filmar como agora. A pandemia, é certo, foi terrível. Os meus 81 anos [à data desta entrevista; Mike Leigh completou entretanto 82, a 20 de fevereiro] também não ajudam. Mas ainda consigo encontrar quem arrisque… Tenho outro projecto a correr. Vou continuar a filmar em 2025.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.