O Presidente da República, António José Seguro, lamentou esta quarta-feira que, perante problemas tão graves como os decorrentes das alterações climáticas, “alguns países e líderes políticos” se tenham deixado absorver por outras urgências, geopolíticas, económicas e sociais.
Numa mensagem enviada ao Prémio Gulbenkian para a Humanidade, este ano atribuído à Alianza Ceibo, uma coligação de povos indígenas da Amazónia, António José Seguro salientou que o tema das alterações climáticas é “uma prioridade” e que a sua urgência exige que se continue a convocar os líderes mundiais para um alinhamento político global, “com responsabilidade e sem hesitações”.
Na mensagem (o Presidente está esta quarta-feira em visita oficial ao Vaticano) António José Seguro destacou a importância do prémio atribuído e considerou depois “paradoxal” que, depois de uma pandemia e perante problemas como os das alterações climáticas, alguns líderes se tenham deixado absorver por outras urgências.
“A gravidade e sucessão desses episódios, alguns deles invulgares, retiram atenção a esta problemática e adiam a pressão e o empenhamento que as respostas exigem. E quanto mais adiarmos a prevenção maior será o esforço para remediar os efeitos”, alertou.
As alterações climáticas já não são imprevisíveis, salientou o Presidente, recordando as tempestades ocorridas em Portugal, mas também ondas de calor ou pressão sobre a água, agricultura ou saúde.
“A indiferença de algumas elites e de alguns grupos de interesse perante esta realidade só se deixa inquietar, muitas das vezes, por um grito de cidadania, pelas vozes da ira do cidadão comum, de quem recusa pactuar com um futuro sem futuro”, disse na mensagem, na qual felicitou os vencedores e disse que distingui-los é reconhecer o papel fundamental dos povos indígenas na proteção dos ecossistemas essenciais ao equilíbrio climático global.
“É no território, no gesto concreto de quem cuida de uma floresta, ou de um rio, que se decide o clima do nosso planeta.”, enfatizou.
Na cerimónia da entrega do prémio, na Fundação Gulbenkian, o presidente da instituição, António Feijó, também lamentou a ofensiva atual contra qualquer prática ou política ambiental.
António Feijó falou que, numa primeira fase, da existência do prémio, há seis anos, se valorizava a sustentabilidade, que se passou depois para a fase de que se julgou que a tecnologia resolveria problemas causados por alterações ambientais, e há agora a fase atual, em que soluções eficazes para a mitigação ou moderação das alterações climáticas coexistem com a ofensiva contra o ambiente.
Uma ofensiva contra qualquer prática ou política ambiental, que, disse, “penaliza até qualquer discurso, investigação ou apologia pública que dessa política se faça”.
“O Prémio foi atribuído na convicção de que a questão ambiental é, de facto, um risco existencial para a espécie, e de que é pouco avisado, nesta questão, chocar contra o princípio da realidade”, alertou, concluindo depois que “o extrativismo sem freio dos recursos naturais existentes, que muitos defendem, pressupõe a morte da natureza”.
A antiga chanceler alemã Angela Merkel, presidente do júri do prémio, recordou que no ano passado insistiu na proteção do clima face à tensa situação mundial, falou dos fenómenos climáticos extremos deste ano e do excesso de mortes provocado pelo calor extremo, que irá ocorrer no futuro com maior frequência, intensidade e duração.
Motivos, disse, para não se abrandar os esforços em prol da proteção do clima.
Os representantes da Alianza Ceibo disseram que as alterações climáticas são a natureza a lamentar-se, apontaram que a voz das mulheres tem de ser mais ouvida no mundo, e consideraram que há uma tendência de destruição e que o dinheiro torna as pessoas doentes.
Deixaram também um pedido: “Apelamos às grandes empresas e aos governos que deixem de explorar os nossos territórios e o planeta.”