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Bertha usou ganchos de cabelo para reparar o motor, Ewy bateu 250 homens numa corrida e Mercédès deu o nome à marca — sem nunca ter tido um carro

Do nome aos pódios mundiais, passando por uma viagem em que a condutora usou ganchos de cabelo para reparar o motor, Mercédès Jellinek, Bertha Benz e Ewy Rosqvist são a história da marca de carros.

A piloto Ewy Rosqvist em 1957
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▲A piloto Ewy Rosqvist em 1957

▲A piloto Ewy Rosqvist em 1957

Um gancho de cabelo serviu como ferramenta mecânica para desentupir a canalização do recém-criado motor do primeiro carro no mundo a realizar uma viagem de longa distância. O trajeto desafiante de mais de 100 quilómetros foi percorrido em 1888, sob a condução de uma mulher. Anos mais tarde, a empresa que Bertha Benz e o marido construíram passaria a levar o nome de outra mulher, inspiração para batizar aquele que é considerado o primeiro carro moderno com motor de alta performance: a Mercedes.

A história da Mercedes-Benz confunde-se com a própria história do automobilismo: enquanto Carl Benz desenvolvia o primeiro carro movido a gasolina, a Daimler-Motoren-Gesellschaft (DMG) criava os primeiros motores para automóveis de corrida e camiões. As duas empresas fundiram-se em 1926, alcançando os pódios mundiais, especialmente entre as décadas de 1930 e 1970, quando também pela mão de uma mulher fez história na mítica prova latino-americana, o Gran Premio Argentino de Turismo. A piloto sueca Ewy Rosqvist foi a primeira mulher a vencer a corrida, conhecida pelos desafios no percurso, e marcou as competições de rali mundiais.

Mercédès Jellinek: o nome

“É provavelmente a primeira vez que um pai assume o nome da própria filha”, terá dito Emil Jellinek em junho de 1903, quando obteve a permissão para usar o apelido Mercedes. A citação está nos arquivos da gigante alemã, que recorda a história que deu origem ao nome da marca, registado oficialmente em setembro de 1902. Trata-se de uma homenagem de um dos parceiros da DMG à filha, Mercédès Adrienne Manuela Ramona Jellinek, nascida em Viena em 1889.

▲ Emil Jellinek com a filha e um retrato de Mercédès

Diz a história que Emil Jellinek comprou o primeiro automóvel da DMG em 1897, tornando-se nos anos seguintes um dos principais investidores e revendedores da marca. Numa manobra para vender mais carros, passou a integrar corridas como a Semana de Nice, onde a família passava os invernos, sob o pseudónimo Monsieur Mercédès. O nome foi posteriormente incluído como uma nova designação de produto — em 1900 o primeiro carro moderno de corrida foi desenvolvido por Wilhelm Mayback, engenheiro da DMG, e entregue a Jellinek sob o nome Mercedes.

Curiosamente, a mulher por trás do nome na verdade nunca teve um carro próprio. Terceira e única filha mulher do empresário com Rachel Goggman, Mercédès casou-se com o barão Karl Schlosser em 1909. O casal teve dois filhos, Elfriede e Hans-Peter. O casal foi à ruína financeira depois da Primeira Guerra Mundial e em 1923 Mercédès voltou a casar-se, dessa vez com o escultor Rudolf Weigl. Ficou viúva pouco tempo depois e em 1929 morreu com cancro nos ossos aos 39 anos.

Bertha Benz: a viagem

Se o carro ganhou o nome de uma mulher, a primeira mulher a conduzir um carro também marca a história da marca. Em agosto de 1888 Bertha Benz subiu a bordo do carro a motor desenvolvido pelo marido, Carl Benz, na companhia dos dois filhos, Eugen e Richard, de 13 e 15 anos, e conduziu da cidade de Mannheim, onde a família vivia, até Pforzheim, onde nasceu. O percurso de mais de 100 quilómetros, percorrido a uma velocidade não maior do que 16 km/h, entre estradas não pavimentadas e com obstáculos, durou 12 horas e seria a prova necessária para o público e para o próprio Benz de que a invenção, afinal, funcionava.

▲ Bertha Benz, mulher de Carl Benz

Bertha conheceu o engenheiro Carl Benz em junho de 1869 numa excursão organizada por um clube social. O casamento deu-se em julho de 1872, e nos anos seguintes os dois terão trabalhado juntos no desenvolvimento de um motor a gasolina. O primeiro protótipo terá sido colocado para funcionar na noite de passagem de ano de 1879 — mas a patente só foi concluída em 1886. Mesmo assim, o público continuava cético quanto ao carro movido a combustível.

“Ela era mais ousada do que eu”, recorda Carl Benz, sobre a mulher, numa citação destacada nos arquivos da Mercedes-Benz. O propósito da viagem de agosto de 1888 era, alegadamente, uma visita à mãe. Contudo, Bertha Benz decidiu conduzir o carro sem informar o marido nem as autoridades, ingressando assim na primeira viagem de longa distância num automóvel.

▲ Gravura da imprensa alemã da época que ilustra o primeiro carro desenvolvido por Bertha e Carl Benz

Sem bombas na época, Bertha terá usado como combustível a benzina de uma farmácia da cidade de Wiesloch. O lugar é até hoje reconhecido historicamente como a primeira estação de gasolina do mundo. A mulher de Carl Benz também desenvolveu as próprias estratégias de mecânica para superar as adversidades do caminho: de usar os ganchos de cabelo para desentupir as canalizações de alimentação do motor a adaptar collants e uma liga como material isolante. Os problemas com os freios, especialmente nas descidas mais íngremes, foram resolvidos por um sapateiro, enquanto as subidas eram garantidas com a ajuda dos filhos a empurrar o veículo.

Certo é que a família chegou e a viagem fez história, impulsionando o desenvolvimento de novas tecnologias a combustível. Bertha Benz morreu a 5 de maio de 1944, apenas dois dias depois do seu aniversário de 95 anos, e em tempo de ver a evolução que ajudou a provocar.

Ewy Rosqvist: o desporto

Já os veículos estavam desenvolvidos quando nasceu a sueca Ewy Rosqvist, conhecida piloto de rali e terceira mulher que marca a história da Mercedes-Benz. Nascida a 3 de agosto de 1929 numa família com cinco filhos que vivia numa zona rural no sul da Suécia, Ewy estudou veterinária e passou a trabalhar entre as várias quintas da região. Para percorrer os caminhos entre trilhos estreitos de terra, o pai ofereceu-lhe uma Mercedes-Benz 170 S, carro com o qual fazia entre 150 e 200 quilómetros por dia.

A habilidade a conduzir, aliada ao casamento com o piloto sueco Yngve Rosqvist em 1954, levaram-na a participar na primeira prova de rali. “Pude pilotar em alguns dos trechos intermediários e foi tão divertido que decidi participar de um rali, seja como piloto ou copiloto, o mais breve possível”, escreveu na sua autobiografia, “Driving through hell”. Foi o que Ewy Rosqvist fez em 1956, ao participar no primeiro rali sozinha.

Ao longo dos anos a piloto venceu várias provas em toda a Europa, recebendo troféus das mãos da princesa Grace Kelly, no Mónaco, e assinando contratos com a Volvo em 1960 e com a Mercedes-Benz em 1962. Neste mesmo ano, ao lado da copiloto Ursula Wirth, tornou-se a primeira mulher a vencer a corrida histórica de longa distância Gran Premio Argentino de Turismo, uma prova com mais de 4500 quilómetros e com outros 250 competidores — todos homens. A dupla venceu as seis etapas e estabeleceu um novo recorde de velocidade na corrida, com uma média de 127 km/h.

▲ Ursula Wirth e Ewy Rosqvist quando venceram a corrida na Argentina em 1962

A carreira de Ewy Rosqvist nas pistas terminou em 1964, mas a piloto continuou ligada à Mercedes-Benz. Depois de se separar de Yngve Rosqvist, casou-se com Alexander von Korff, diretor da divisão de automobilismo da marca. Depois da morte do marido, em 1977, Ewy Rosqvist regressou à Suécia e permaneceu embaixadora da Mercedes-Benz Classic até à sua morte, em 2024, aos 94 anos. “Ela fez muito pelo automobilismo e, ao mesmo tempo, moldou a imagem das mulheres no desporto a motor, especialmente como vencedora geral contra as melhores da sua época”, assinalou Marcus Breitschwerdt, CEO da Mercedes-Benz Heritage GmbH.

[Annie está de volta a Havana. Apesar das relações privilegiadas com altas figuras do regime, quer viver como os cubanos, divertir-se como os cubanos e… sofrer como os cubanos. Mas continua a ser filha do diretor da PIDE. E Fernando Silva Pais e Armanda Palhota não estão dispostos a deixá-la passar tão facilmente para o lado do inimigo. Já pode ouvir o terceiro episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]

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