A maior revolução da longevidade não será chegar aos 100 anos. Será descobrir o que fazer com todos os anos que teremos pela frente. Se viver mais significar também permanecer saudável, autónomo e intelectualmente ativo durante mais tempo, teremos de rever quase tudo aquilo que aprendemos sobre as etapas da vida: quando estudar, quanto tempo trabalhar, quando mudar de profissão, como consumir e até o que significa envelhecer.

Durante grande parte do século XX, organizámos a existência em três fases relativamente previsíveis: aprender, trabalhar e reformar-nos. Esse modelo nasceu para uma realidade demográfica muito diferente. Hoje, os avanços da medicina, da prevenção e da tecnologia estão a contribuir para vidas cada vez mais longas. Vacinação, melhores condições sanitárias, diagnósticos mais precoces, novos medicamentos e terapêuticas e progressos no tratamento de inúmeras doenças permitiram prolongar a vida humana. Agora, a medicina de precisão, a genética, a inteligência artificial aplicada ao diagnóstico e a investigação sobre doenças neurodegenerativas abrem novas possibilidades.

Isto não significa que a ciência nos garanta 100 anos de vida saudável. Não garante. Mas significa que viver durante mais tempo é uma realidade para uma parcela crescente da população e chegar saudável até o fim vai depender de nossas escolhas agora. Segundo a Organização Mundial da Saúde, em 2030 uma em cada seis pessoas no mundo terá 60 ou mais anos. Serão 1,4 mil milhões. Em 2050, deverão ser 2,1 mil milhões.

A questão decisiva, portanto, não é apenas aumentar o número de anos que vivemos, mas a qualidade desses anos. Não basta aumentar o lifespan. Precisamos de aproximá-lo tanto quanto possível do healthspan: o período em que mantemos saúde, autonomia e capacidade física e cognitiva. E essa construção começa muito antes da velhice, através da alimentação, do exercício, do sono, da saúde mental, da prevenção e das relações sociais.

Mas seria um erro tratar a longevidade apenas como uma responsabilidade individual. Uma sociedade em que as pessoas vivem mais terá necessariamente de funcionar de maneira diferente. E o trabalho será um dos primeiros territórios dessa transformação.

Quem tem hoje 30 ou 40 anos não deve partir do princípio de que terminará a vida profissional na mesma carreira em que a iniciou. Se permanecermos ativos durante mais tempo, uma vida profissional de 40 anos poderá passar a durar 50 ou 60. Isso significa que teremos provavelmente uma segunda carreira — talvez uma terceira. Um gestor poderá tornar-se professor, um engenheiro poderá empreender e um profissional poderá regressar à universidade aos 50 ou 60 anos para adquirir novas competências. Recomeçar deixará de significar que alguma coisa correu mal. Poderá simplesmente significar que a vida ficou mais longa.

É uma mudança que exige também uma nova abordagem por parte das empresas. Os profissionais de recursos humanos terão de olhar para a longevidade como uma questão estratégica. Como gerir organizações onde convivem quatro ou cinco gerações? Como aproveitar o conhecimento acumulado de profissionais experientes? Como permitir transições de carreira dentro da própria empresa? E como combater o preconceito etário quando as pessoas permanecerão profissionalmente ativas durante mais tempo? A gestão de carreiras terá, cada vez mais, de incorporar uma gestão da longevidade profissional.

Os governos enfrentarão desafios semelhantes. Sistemas de pensões, saúde, educação, emprego e proteção social foram concebidos para outra estrutura demográfica. Se acrescentarmos décadas à vida, teremos também de encontrar novas formas de organizar e financiar esses anos.

Há ainda uma transformação que as empresas não podem ignorar: o consumidor também está a envelhecer — e está a envelhecer de maneira diferente. As pessoas com mais de 60 anos representam cerca de 15% da população mundial, mas concentram aproximadamente 27% da despesa global dos consumidores, cerca de 19 biliões de dólares em 2026, segundo uma análise do World Economic Forum baseada em dados do World Data Lab.

Apesar disso, muitas estratégias de marketing continuam presas a uma imagem ultrapassada do envelhecimento. O consumidor longevo viaja, utiliza tecnologia, pratica exercício, investe, trabalha, estuda e procura autonomia, saúde, experiências e qualidade de vida. E a Economia da Longevidade não começa aos 60 anos. Quem aos 35 ou 40 já investe na alimentação, no exercício, no sono, na prevenção ou na saúde mental está também a tomar decisões influenciadas pela perspetiva de viver melhor durante mais tempo.

Para Portugal, esta discussão é especialmente relevante. O envelhecimento demográfico já faz parte do presente. Mas aquilo que representa um enorme desafio pode também tornar-se uma oportunidade para desenvolver novos modelos de saúde, educação, trabalho, habitação, turismo, tecnologia e consumo adequados a uma sociedade mais longeva.

Durante demasiado tempo olhámos para o envelhecimento sobretudo como um problema. Talvez tenha chegado o momento de olhar também para a longevidade como aquilo que ela é: uma extraordinária conquista humana que precisamos de aprender a gerir.

Uma vida de 100 anos não poderá ser simplesmente uma vida de 70 ou 80 à qual acrescentámos duas décadas no final. Terá de ser uma vida diferente — com mais aprendizagem, mais transições, mais reinvenções profissionais e outra relação com a saúde, o trabalho e o consumo.

A pergunta, por isso, já não é apenas quantos anos vamos viver. É o que vamos fazer com todos os anos que poderemos ter pela frente. E o momento de começar a preparar essa resposta é agora.