Quinze anos depois do pavilhão português revestido a cortiça em Xangai, o nosso país esteve presente de Abril a outubro de 2025 na Exposição Mundial de Osaka Kansai com uma construção de c. 1800 m2 riscada pelo arquitecto japonês de 73 anos Kengo Kuma, aquele que, neste pequenino recanto do vasto globo, conhecemos um pouco mais que menos pela célebre pala — ou será alpendre? — do renovado Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, inaugurado a 20 de setembro de 2024. Esse conjugado protagonismo do nipónico foi contestado, mas a verdade é que nada podia ser melhor para Portugal do que na sua terra natal Kuma exibisse os seus talentos criativos em favor dum país tão distante que, há uma imensidão de tempo, esteve na vanguarda da tentativa de contacto e diálogo entre duas culturas tão afastadas na geografia como na sua antiguidade.

A Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal apostou no nipónico para desenvolver o tema oceânico, não só como o excepcional traço de união criado há cinco séculos entre Europa e Ásia, em que fomos magníficos, como atendendo à legítima preocupação contemporânea com os oceanos, na qual o nosso país se “posiciona como referência internacional na economia azul, na sustentabilidade e na inovação ligada ao mar”, o que lhe valeu o prémio Ouro para o tema desta Exposição Universal, que coligiu 158 países participantes (v. p. 7), e ainda dois prémios Bronze, para melhor arquitectura exterior e melhor apresentação.

Título: “Oceano, Diálogo Azul. Portugal na Expo 2025 Osaka Kansai” | Autores: Madalena Oliveira e Silva, Joana Gomes Cardoso e Kengo Kuma | Fotografias: Fernando Guerra | Editores: Tinta da China e AICEP | Páginas: 120

Num evento deste tipo e calibre, cada país apresenta como pode o melhor que é e faz, ou o julga como tal, e nesse ponto é de realçar que tenham escolhido o consagrado fotógrafo internacional de arquitectura e arquitecto Fernando Guerra (1970-) para registar o modo como japoneses e tantos outros vivenciaram a singularidade do pavilhão. A Expo Osaka Kansai distinguiu-se pelo Grand Ring — uma circunferência em madeira com 2 km comprimento e 20 m de altura —, imponente estrutura para passear, sombrear e apreciar o recinto visto de cima, concebida por Sou Fujimoto (1971-), junto do qual o pavilhão português teve a sorte de ter uma posição destacada (v. em particular as fotos das pp. 86-87, 88, 91 e 107), num sector do recinto intitulado “Empowering Lives”.

Depois, os 9972 cabos marítimos ondulantes, em material reciclado — ditos Kizuna, “a corda que prende” — que formavam as fachadas do edifício tornaram-se um atractivo lúdico para boa parte dos c. 3 milhões de visitantes, e no final Vanessa Barragão (1992-) criou esculturas “que estão hoje em escolas e cidades japonesas” (p. 11). No depoimento conciso mais luminoso que Kengo Kuma dá a este livro, justifica a sua escolha da corda pelas semelhanças que têm para os dois países, historicamente reportadas, mas conjuga-a no futuro, pois, diz, “na era que se avizinha — que exige humildade perante o ambiente —, será cada vez mais necessária uma arquitectura tão maleável e suave como a corda” (p. 15).

A reportagem fotográfica de Fernando Guerra dá, sem dúvida, valor e notoriedade a esta publicação da Tinta da China com a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, contudo ela fica, isolada em si mesma, muito aquém de uma outra, desenvolvida pela House Details Architecture e o editor Nuno Teixeira, com contributos de Kengo Kuma, Rita Topa, Andrea Toccolini, arquitectos envolvidos no projeto e construção, que inclui plantas, cortes, alçados e informação técnica adicional (132 pp., 44 €, à venda na Técnica Livraria da Avenida Conde de Valbom, 122, em Lisboa). A memória do sucesso de Portugal em Osaka Kansai 2025 justifica a compra conjunta destes dois livros, entrelaçados entre si como qualquer kizuna oscilante que se preze, sob a brisa duma memorável exposição universal.