Entre 1992 e 1993, a polícia registou cinco homicídios de prostitutas na região da Grande Lisboa, três dos quais aparentavam estar relacionados. Depressa se difundiu a ideia de que existia um assassino em série à solta na capital, cuja identidade a investigação nunca conseguiu revelar — apesar de todos os esforços mobilizados e do apoio do FBI, que interveio e modernizou as práticas da Polícia Judiciária. Em 2024, o caso foi contado com pormenores no Podcast Plus do Observador, A Caça ao Estripador de Lisboa, nome com o qual a imprensa da época batizou o serial killer.
Agora, o guião original da jornalista Tânia Pereirinha sobe ao palco — ou antes, desce ao nível subterrâneo —, e dá origem a uma peça de teatro imersiva no gigantesco parque de estacionamento da Comunidade Hindu, em Lisboa. Centrado n’A Caça ao Estripador de Lisboa, o espectáculo coproduzido pelo Observador e pela agência Kilt é uma criação do ator e encenador Simão Biernat e estreia-se no próximo dia 28 de outubro. Os bilhetes já estão à venda.
A peça é levada a cena todas as quintas, sextas e sábados até ao fim do ano. As experiências de teatro imersivas estão em voga num mundo onde a sugestão da realidade virtual e da interatividade são cada vez mais atrativas. Perante a realidade das bolhas digitais feitas à medida, “a liberdade de circular por uma mise-en-scene personalizada sem estar restrito a meio metro quadrado de assento é uma inovação bem-vinda” — mesmo quando o tema em causa são assassinatos em série e um homicida que recebeu o nome de “estripador”.
A apresentação é feita por Simão Biernat, o ator e encenador por trás do projeto, que destaca as potencialidades de um teatro que rompe com a habitual dinâmica de ver e ser visto, ao possibilitar diferentes ângulos de visionamento em simultâneo. “A encenação tem o objetivo de fazer o espetador compreender o lado de cada uma das ‘personagens’ desta história”, reflete. “Interessa-me muito esta dualidade do ser humano. Não somos só uma coisa, somos várias coisas.”
A produção conta com um elenco alargado e um conjunto de especialistas “inédito e raro” no contexto português das artes performativas, diz Simão Biernat. Entre estes contam-se um coordenador de lutas cénicas e uma coordenadora de intimidade — que se ocupou das “cenas mais sensíveis, sobretudo desempenhadas pelas mulheres que fazem de prostitutas”.
Outra aposta pouco habitual é o espaço escolhido para as performances — o enorme parque de estacionamento da Comunidade Hindu de Portugal, no bairro lisboeta do Lumiar. Com 1500 metros quadrados, deverá abranger 12 cenários onde dez atores fazem as vezes de todos os sujeitos implicados na investigação que se arrastou durante vários anos, até ser arquivada.
“Alertei logo para a necessidade de termos um espaço amplo, para as pessoas não se sentirem presas e terem a possibilidade de visibilidade a 360 graus“, continua o encenador, que procura, acima de tudo, replicar “o ruído dessa Lisboa dos anos 90”, que assistiu aos homicídios e à subsequente algazarra mediática. “As pessoas têm a liberdade de escolher a investigação que querem seguir” e podem circular livremente pelo espaço, desde que mantenham o mínimo distanciamento em relação aos atores. Para Simão Biernat, importa não comprometer a seriedade do tema, “até porque as famílias ainda estão vivas e o caso é relativamente recente“.
O objetivo não é provocar terror em quem assiste — ainda que a idade mínima recomendada seja 18 anos —, mas “ver a perspetiva humana de cada personagem”. Importante é não esquecer também que a encenação ficcionaliza uma trama assente nos dados factuais revelados pela investigação do Observador — “é um live-action do podcast“, nas palavras do criador.
A iniciativa do Observador recebeu o apoio de produção da Kilt, “que entrou de cabeça num projeto” que se destaca pela “audácia e desafio do status quo dominante no teatro português”. Simão Biernat, cuja carreira já o levou aos palcos da República Checa, da China e, mais recentemente, de Alenquer — onde reside e dinamiza o festival “Vamos ao Teatro” — fala em falta de arrojo no campo do teatro participativo e imersivo, práticas que “infelizmente se fazem pouco por cá”, mas merecem o devido reconhecimento.
A vantagem do formato é motivar “todo o tipo de sentimentos” no público e provocar em quem assiste uma relação diferente com a “quarta parede”. Em 90 minutos, “as pessoas podem rir e chorar”, mudar de opinião sobre um interveniente da história e tudo isto com “uma proximidade impossível na configuração tradicional de palco e plateia”.
A partir de dia 28 de outubro, de quinta a sábado, às 21h00, na Comunidade Hindu de Portugal, em Lisboa. Duração: cerca de 1h45. Para maiores de 18 anos. Bilhetes a 49,50€.