Mais de 30% dos profissionais de saúde em Portugal que participaram num estudo liderado pela Universidade de Coimbra (UC) identificaram a violência psicológica como frequente a generalizada no local de trabalho, revelou esta quarta-feira aquela instituição.
O estudo foi desenvolvido no âmbito do projeto de investigação BRAVE-WOW: Construir ambientes de trabalho respeitosos, livres e inclusivos em termos de género, e os dados resultam de um primeiro inquérito conduzido em Portugal, com 1.678 participantes.
Os resultados indicam que “32,8% dos profissionais de saúde em Portugal identificam a violência psicológica como frequente a generalizada no local de trabalho” e que “30,1% assinalam a desvalorização sistemática do seu trabalho como frequente ou generalizada”, revelou a UC, em comunicado enviado hoje à agência Lusa.
Segue-se o assédio moral (bullying), com 24%, e a violência verbal, com 23,2%, enquanto o assédio sexual e a violência física surgem com menor frequência: 2,1% e 1,7%, respetivamente.
Para a coordenadora do projeto, Leonor Pais, “a frequência com que são assinaladas formas de violência psicológica sugere que mecanismos de resposta centrados apenas em episódios isolados podem ser insuficientes para reconhecer e enfrentar comportamentos que se repetem ao longo do tempo”.
Os resultados indicam ainda que 45,5% dos participantes concordam que as condutas inadequadas tendem a ser minimizadas ou desculpadas, enquanto para 17,9% os episódios de violência ou assédio são encarados como parte normal do trabalho.
Segundo a UC, os inquiridos revelaram ainda confiança limitada na resposta das organizações: “apenas 16,1% consideram que a sua organização responde eficazmente a situações de violência ou assédio”.
“Só 19% entendem que essas situações são tratadas de forma justa e 15,9% reconhecem a existência de medidas preventivas visíveis e eficazes”, referiu a instituição, acrescentando que “34,4% receiam sofrer consequências negativas se denunciarem uma situação desta natureza”.
Sobre situações de violência ou assédio que ocorrem com frequência ou de forma generalizada no local de trabalho, os superiores hierárquicos são o grupo mais apontado como autor desses comportamentos (17,5%), seguidos dos colegas do mesmo nível hierárquico (12%), dos doentes (11,7%) e dos seus familiares ou acompanhantes (11,1%).
“Estes resultados não permitem generalizar sobre a conduta dos gestores ou dos serviços de saúde no seu conjunto, mas reforçam a importância de assegurar canais de denúncia adequados a situações que possam envolver relações hierárquicas”, afirmou a também docente da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da UC.
Segundo Leonor Pais, a “violência praticada por doentes e pelos seus familiares também deve merecer atenção”, notando que, “quando se consideram todas as situações referidas pelos participantes, incluindo as que ocorrem raramente, 61,1% identificam os doentes como autores desses comportamentos”.
A sobrecarga de trabalho e a sobrelotação destacam-se entre os contextos associados à violência ou ao assédio: para 34,3% dos participantes estas situações ocorrem nesses contextos com frequência ou de forma generalizada.
A UC notou ainda que há participantes que referem não saber ou não ter informação sobre os mecanismos de proteção existentes: 20,9% no caso do apoio jurídico e 19,1% no caso de pessoal designado para tratar incidentes.
“Os resultados não demonstram que estes mecanismos estejam ausentes. Indicam, contudo, que os recursos de apoio são menos frequentemente reconhecidos como plenamente presentes”, disse Leonor Pais.
O projeto BRAVE-WOW junta 19 organizações de quatro países – Portugal, Itália, Espanha e Eslovénia –, estando previsto um questionário de diagnóstico à escala europeia, com o objetivo de obter dados comparáveis entre os 27 Estados-membros da União Europeia.