Uma guerra nuclear ou o uso malicioso de Inteligência Artificial (IA) podem colocar fim à humanidade até 2100. O alerta consta numa avaliação global de riscos para a saúde, identificada num estudo da revista The Lancet e cujas conclusões foram apresentadas no domingo na Cimeira Mundial de Saúde, em Berlim.
“O uso malicioso de IA, incluindo armas biológicas, e o conflito nuclear com a fome nuclear acarretam riscos de extinção nos próximos 75 anos”, refere o estudo. No entanto, os autores sublinham que o risco de ambos acontecerem é baixo.
O risco de extinção decorre, no caso da guerra nuclear, das suas consequências, como a fome nuclear e a emissão de partículas para a atmosfera que podem bloquear a passagem de radiação solar. No caso da utilização maliciosa de IA, pode estar em causa o desenvolvimento e uso de armas biológicas contra a humanidade.
A avaliação global de riscos para a saúde foi feita por 35 especialistas em saúde, tecnologia, economia e segurança, e inclui 17 grandes riscos para a saúde humana identificados no estudo. Além do uso malicioso de IA e do risco de guerra nuclear, são também referidas as alterações climáticas, risco de pandemias, obesidade, degradação da saúde mental, entre outros, classificados como “catastróficos”.
Para criar a lista, a comissão avaliou quantos anos de vida saudável podem ser perdidos devido a uma ameaça global, através de uma medida conhecida como anos de vida ajustados pela incapacidade (DALYs, sigla inglesa), construída através de cenários “plausíveis positivos” e “plausíveis negativos” a partir de dados históricos.
As ameaças variam entre 1,02 mil milhões e 23,1 mil milhões de DALYs, sendo que, por exemplo, a limitação do aumento da temperatura média do planeta a 1,8 ºC pode prevenir a perda de cerca de 1,89 mil milhões de DALYs. Já o desinvestimento em ajuda internacional para o desenvolvimento, como aplicado pelos Estados Unidos, pode retirar 1,5 mil milhões de DALYs, e ter um impacto desproporcionalmente negativo na África Subsariana.
Além disso, as ameaças diferem consoante a região do globo. Em partes mais ricas do mundo, os maiores riscos são a degradação da saúde mental e a obesidade, enquanto em regiões mais pobres são a desnutrição e a baixa educação.
Apesar dos riscos, a comissão sublinha que todas as ameaças citadas podem ser evitadas e que estão interligadas, pelo que incentiva os governos a tomar medidas “holísticas assentes na ciência, nos direitos humanos e na solidariedade”.
“Não estamos a partir de um ponto de vista de ‘Olhem, queremos assustar-vos – temos muitas ameaças enfrentadas pela humanidade’. Estamos a partir da premissa de que, para um decisor político, seja no nível multilateral global ou a nível nacional, estas são as ameaças potenciais que podem ser enfrentadas, e esta é a magnitude pela qual [o decisor político] pode realmente fazer a diferença”, afirmou Ibrahim Abubakar, membro da comissão e professor de epidemiologia de doenças infecciosas da University College London, ao Guardian.
Para tal, a comissão recomenda aos governos que invistam em “sistemas de saúde preparados para ameaças” como a pandemia de COVID-19, e “soluções de rutura”, como tecnologias de remoção de carbono, fusão nuclear ou vacinas como as desenvolvidas durante a pandemia. Além disso, pede a monitorização e avaliação regular destes riscos, com resultados apresentados a organizações internacionais como as Nações Unidas e o G20.
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