Digo objeto de arte precisamente para destacar quão admirável é a excelência da sua impressão posta ao serviço da criação fotográfica de Maria Oliveira (Ponte de Lima, 1982). Impressão de fotografias e impressão de livros de fotografias divergem amiúde em detrimento desta última, mas aqui o resultado foi aperfeiçoado ao limite, tirando toda a vantagem da competência, disponibilidade — e, diria até, a ambição de ser a melhor do país para foto-livros e alcançar prestígio internacional neste domínio — da Gráfica Maiadouro, como já observei relativamente a Ondes de Bénédicte Blondeau, também da XYZ Books.

Quem tenha memória do que foram os livros de fotografia de há umas décadas, por melhor que então tenham sido impressos, concordará de imediato estarmos hoje num patamar de qualidade nunca antes imaginado. Enormes progressos tecnológicos em tintas, chapas de impressão e papéis, sem esquecer, obviamente, o próprio aperfeiçoamento das lentes ópticas e das máquinas fotográficas e, por último mas não menos importante, dos programas de tratamento computadorizado das imagens, têm como consequência que a fotografia contemporânea — ou certa fotografia contemporânea, melhor dito — pode desafiar os seus próprios limites de expressão em foto-livros, hoje um ramo editorial em expansão como nenhum outro e, para mais, tomando a dianteira tecnológica das artes gráficas.

Todos os livros — quaisquer livros — são indissociáveis do contexto industrial e da cultura do ofício de quem os faz, e se à crítica na imprensa isso escapa quase sempre (esquecendo o design, por exemplo), nos foto-livros actuais esse contexto e esse ofício impõem-se deliberadamente ao exibirem a sua importância. A YXZ Books, de Tiago Casanova e Pedro Guimarães, está na primeira linha dessa revolução e competência — que é de outros editores também, mas de um modo distinto, merecendo particular referência o estúdio SudSud, de João Flecha e Filipa Oliveira, e a sua revista de grande formato A Thousand Words.

Título: “Bone Foam/Osso Espuma” | Fotografia: Maria Oliveira | Design: Nick Harde e Tiago Casanova | Editor: XYZ Books | Páginas: 176

Maria Oliveira fez do território rural da sua infância entre mulheres — matriarcas, diz na dedicatória final — no Alto Minho um extenso e prolongado no tempo campo de criação artística agora exposto neste livro, mas vai para além dele, como nos mostram outras imagens do seu website pessoal. As duas primeiras fotografias — uma mulher virada para árvores, em cima de grande rocha tendo entre os pés uma pedra-bola; uma quase Ofélia pré-rafaelita num lago, porém erecta e de cabeça coberta — são suficientes, dir-se-ia, para de imediato impactar a força deste portefólio, em que recantos de floresta e de riachos alternam com um ou outro auto-retrato e representações de outras mulheres, de rosto quase sempre oculto, as ligam de modo tão visceral ao trabalho quotidiano dos campos, seus animais e plantas, e aos ciclos de vida e morte aí naturalmente implícitos. Camponesa espera à porta de casa com cabeça de galo morto metida num bolso da saia, outra carrega braçada de flores silvestres que se confundem com padrão do seu vestido, outra ainda ergue pato branco, cuja cabeça nos aparece, páginas adiante, num usado saco plástico entre folhas secas dum bosque.

De tão presente, o mundo natural invade a casa, como o ramo de laranjeira quebrado sobre o parapeito da janela com cortinas, o morcego dependurado na borda dum antigo candeeiro de tecto em loiça barata ou a fina cobra reluzente sobre o lençol vermelho da cama, ou o reflexo de árvore em moldura antiga escambada. Não é apenas a floresta, com cavalos a galope dia e noite, ou quedas de água onde maçãs flutuam, que substancia este “reino maravilhoso”. Ele existe também nas grutas onde ora alguém cai abruptamente, ora alguém sai, do mesmo buraco no meio de pasto, ou com pé nu sobre o trilho estreito duma fenda rochosa, como existe nos rebentos e raízes vegetais, nas flores silvestres de hastes longas ou nas pequenas moscas teimosamente instaladas sobre o olho dum quadrúpude.

Maria Oliveira reconstrói esse seu tempo outro, como quem toca entre as duas mãos — numa fotografia no fim do livro — um sensível e volátil novelo (será linho?), algo como a sua própria memória, porém tão forte e firme, capaz de devolver à natureza tudo o que lhe pertence, como o poético título Osso Espuma tão bem — e tão inesperadamente — explica.

“Bone Foam / Osso Espuma”, a exposição — depois de ter sido vista no festival de fotografia de Arles —, será apresentada em Lisboa a partir de 16 de Outubro, no âmbito do festival Imago.