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Se quiser ouvir todos os episódios de seguida, basta ser assinante standard ou premium do Observador. Para assinar, vá a observador.pt/assinar. A casa de mais de 500 m² tem pouca luz, apesar das inúmeras janelas. Os estores e as cortinas estão semifechados. A mobília é escura. O ambiente está pesado. Duarte Lima parece nervoso. O juiz Carlos Alexandre, o procurador Rosário Teixeira e vários inspetores da Polícia Judiciária acabam de entrar. Ao longo das próximas horas, vão revistar todos os recantos do luxuoso apartamento em busca de documentos relevantes para a investigação ao caso BPN/Homeland. Raul Soares da Veiga, o advogado que representa Duarte Lima, chega pouco depois. Exige ver os mandados de busca e levanta uma questão: aquele apartamento não é só onde Duarte Lima mora. O escritório dele também é ali, naquele 11º andar, e há questões de sigilo profissional que têm de ser acauteladas. A acompanhar as buscas, está já um elemento da Ordem dos Advogados, como a lei exige. Mas Vasco Marques Correia, ao ver o aparato em direto nas televisões, decide que, enquanto presidente do Conselho Distrital de Lisboa, também deve lá estar. Quando chega, pede para falar a sós com Duarte Lima.
Logo pelas primeiras horas da manhã, ao raiar do sol, verdadeiramente, já havia um circo midiático instalado à porta do prédio dele. E na altura, eu próprio, não obstante ter delegado poderes noutra colega que lá estava, decidi intervir e aparecer nessa busca, porque entendi que o circo midiático se estava a formar à volta daquele tema. Foi um pouco essa água na fervura que eu decidi fazer, porque realmente achei que a advocacia, naquele dia, e por causa do doutor Domingues Duarte Lima, estava nas ruas da Amargura. E, portanto, foi um pouco isso que eu procurei e acho que consegui dar a outra visão dos factos.
As buscas não estão a acontecer apenas ali. Há diligências na vivenda do ex-deputado do PSD, na Quinta do Lago, no Algarve, na casa do filho, em Lisboa e no norte, em casa de Vítor Raposo, que é sócio de Duarte Lima. Na Visconde Valmor, já estão no 11º andar há algum tempo, quando um grupo de investigadores se aproxima do procurador Rosário Teixeira. Estavam a revistar um dos quartos quando perceberam que havia algo estranho. Parte de uma das paredes, que tinha estantes com livros, não era fixa. Estava presa por dobradiças ao chão e ao teto. Quando a empurraram, viram que era uma porta oculta. Acabam de descobrir que o apartamento tem uma divisão extra. Do outro lado da porta, os investigadores encontram uma sala secreta. Tem entre oito e 10 m² e é o espaço onde o advogado guarda os documentos, objetos e recordações mais pessoais. Lá dentro, em cima de uma secretária, Duarte Lima tem mais um computador para além do de trabalho. E também há livros e vários ficheiros que são apreendidos. Os investigadores dizem que é uma espécie de último reduto mais íntimo do advogado. As buscas duram a manhã toda. No fim, os investigadores levam o que interessa ao processo BPN e encontram ainda alguns documentos relativos ao processo do homicídio de Rosalina Ribeiro, a que o advogado não deveria ter tido acesso. Duarte Lima é formalmente detido às 15h do dia 17 de novembro de 2011. Na rua, o procurador Rosário Teixeira fala aos jornalistas.
Doutor Domingues Duarte Lima vai ser ouvido como arguido detido e, portanto, está numa situação de detenção. Amanhã haverá diligências de interrogatório do doutor Duarte Lima e de outra pessoa colectiva.
A porta da garagem abre-se poucos minutos depois. Dois carros descaracterizados saem a alta velocidade. Primeiro, passa um Audi A3 cinzento, depois um Toyota da mesma cor. É neste segundo carro que segue o ex-deputado em direção à Polícia Judiciária. O filho dele, Pedro Lima, já está detido na sede da Gomes Freire. No dia seguinte, ambos vão ser interrogados por Carlos Alexandre no Campus de Justiça. O juiz irrita-se durante a conversa com Duarte Lima. Percebe várias vezes que o ex-deputado está a tentar empurrar culpas para cima do próprio filho. Os funcionários judiciais também estranham o distanciamento do pai quando no final do dia, lhe comunicam as medidas de coação. Dizem-lhe que fica em prisão preventiva Duarte Lima não faz uma única pergunta sobre o que vai acontecer ao filho. Já Pedro comporta-se de forma totalmente diferente. A primeira preocupação é o pai. Pergunta: o que é que lhe vai acontecer? Recebe a notícia de que fica na prisão. Só depois é que conhece a decisão em relação a ele próprio. Será libertado mediante o pagamento de uma caução de 500 mil euros. Dois dias depois, Duarte Lima faz 56 anos. Apenas uma pessoa vai à cadeia anexa à Polícia Judiciária dar-lhe os parabéns: o filho. No espaço de apenas três semanas, Duarte Lima viu-se subitamente cercado. Primeiro, a Justiça brasileira acusou-o formalmente do homicídio de Rosalina Ribeiro. A acusação declarou que ele era capaz de matar por dinheiro. Logo a seguir, foi preso preventivamente por um caso em que era suspeito de ter lesado um banco em vários milhões de euros. O julgamento do caso BPN/Homeland começa em maio de 2013. No ano seguinte, em novembro, Duarte Lima acaba condenado a 10 anos de prisão efetiva por burla qualificada e branqueamento de capitais. Depois de recurso, a pena vai passar para seis anos. Dos vários arguidos, apenas o filho do ex-deputado foi absolvido. Também em 2014, e com o processo de homicídio a correr no Brasil, o juiz de instrução de Saquarema quer ouvir Duarte Lima. Como o advogado não está no Brasil, o interrogatório vai ter de ser feito por carta rogatória, mais uma vez. Quem vai fazer as perguntas que o Brasil até agora não conseguiu é a juíza portuguesa Cláudia Pina, no Campus de Justiça, em Lisboa. E, desta vez, ao contrário do que aconteceu em 2010, quando foi chamado à PJ para responder às questões da polícia brasileira, Duarte Lima vai falar. "As Sombras de Duarte Lima" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, João Reis, com banda sonora original de Filipe Raposo. Episódio seis: Não Matarás.
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Dezembro de 2010. Um ano após a morte de Rosalina Ribeiro, a investigação começa a confrontar-se com várias situações estranhas. O comissário Aurílio Nascimento recebe uma chamada. Do outro lado, um conhecido e influente ex-procurador da República quer perceber por que a defesa do Duarte Lima não tem acesso ao inquérito na íntegra. Nada naquela chamada é normal, sobretudo numa fase em que a investigação só não tinha avançado mais por falta de colaboração do advogado da vítima. O telefonema é visto como uma pressão. Não é a única. Também por estes dias, uma das testemunhas do processo recebe um aviso. A fadista Maria Alcina tem dado algumas entrevistas sobre o caso. Uma noite, está num jantar no Rio de Janeiro, quando encontra um amigo que já conhece há anos e que trabalha no consulado de Portugal.
Aí ele chegou assim: "A senhora para com isso, senão a senhora vai se dar muito mal, porque eu sou amigo do Duarte Lima e eu não admito que a senhora fale dele. A senhora está falando demais".
Com Aurílio Nascimento, o caso terá sido ainda mais grave. O comissário da polícia diz que só não lhe aconteceu nada porque foi protegido por alguém que estava envolvido num plano para o travar. Tudo por causa da investigação ao homicídio de Rosalina Ribeiro.
Me chegou a informação de que alguém, me falaram o nome, mas eu prefiro não falar, procurou uma bandidagem no Rio para ver se podia tomar alguma providência contra mim. Só que nessa reunião teve alguém que me conhecia. O caso era esse, especificamente esse. Só que a pessoa, que me deve um grande favor, porque foi livre de uma grande injustiça, foi um sujeito sensato, correto de caráter, me procurou e falou: "Teve isso, isso e isso". Eu falei: "Amigo, deixa eu te falar Estou pouco ligando. Quero nem saber.
Olímpia Feteira está a chegar ao aeroporto de Lisboa. À espera dela está o advogado José António Barreiros e um homem que não conhece. Não pode ir pra casa. Receberam uma ameaça. Duas pessoas vieram do Brasil para lhe fazer mal e poderão estar armados.
Preveniram-os que tinham vindos exatamente de Belo Horizonte, uns indivíduos, e que estavam instalados e que a missão deles era essa. Já foi para as boas. O José António Barreiros foi me buscar ao aeroporto, acompanhado de um guarda-costas que eu não conhecia, e foi quando me participaram que eu tinha que desaparecer, não podia ir pra casa.
Nessa noite, o guarda-costas acaba por dormir no hotel onde Olímpia foi instalada. Nem sequer pode tomar o pequeno-almoço sem segurança. Mas já antes tinha ido à esquadra da PSP de Belém por causa de outro episódio estranho. Sentia-se vigiada há muito tempo por um homem que estava sempre dentro de um carro à porta da casa dela, no Restelo. Um dia, quando Olímpia estava a chegar, o homem avançou na direção dela. A filha de Lúcio Tomé Feteira voltou para o carro e fugiu.
Eu, quando chegava, via logo se estava gente ou não dentro do carro. E ali não se via, o carro estava vazio. Estava ele a avançar, mas eu consegui ser mais rápida, arranquei em primeira pra ali fora e fiz a caixa. Houve várias, algumas bastante desagradáveis, mas como eu lhe digo, como eu no fundo sou um bocado inconsciente. É coragem e inconsciência. E fui fazendo e fui lidando com aquilo com um certo de precaução.
As ameaças, diz, acabaram por volta de 2014, quando Duarte Lima foi condenado em Portugal no processo BPN.
Ameaçar mais ninguém. Nem podia ser mais ninguém. O ideal para ele seria fazer-me o mesmo que fez à outra. Este também não pode falar demais. Portugal não é assim tão fácil. Intimidação, sobretudo intimidação, porque eles viram que eu, de fato, não era brasa. Foram anos. Naquilo psicologicamente, é bastante difícil, mas eu não sou propriamente, só sou um bocado pedra dura.
Duarte Lima chega ao campus de Justiça, em Lisboa. É o dia 16 de maio de 2014. No Brasil, o processo do homicídio de Rosalina Ribeiro está na fase de instrução e o juiz Ricardo Pinheiro, de Saquarema, enviou uma carta rogatória. Cabe à juíza Cláudia Pina, do quinto juízo do Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa, cumpri-la. O ex-deputado entra na sala de audiências. Na assistência, está sentada Olímpia Tomé Feteira. Questionado sobre os cinco milhões de euros transferidos de contas de Rosalina Ribeiro para contas dele, Duarte Lima começa por assumir que recebeu o dinheiro, mas garante que foram honorários, honorários antecipados. Diz que o valor foi fixado e pago por Rosalina em 2001, logo na terceira ou quarta reunião que tiveram. A juíza interrompe, perplexa: "Não são os clientes que definem os honorários dos advogados". Duarte Lima justifica que neste caso foi assim e que Rosalina fez os cálculos com base no que lhe poderia caber da herança. Uma herança que defende, era de centenas de milhões de euros. Diz que também foi nessa altura que recebeu a única procuração que teve da cliente. Uma procuração que nunca apresentou em nenhum dos processos. Quem defendia Rosalina nos tribunais portugueses era o colega Valentim Rodrigues. No Brasil, os advogados eram Normando Marques e Clóvis Saion. Duarte Lima garante que entre 2001 e 2009, período em que representou Rosalina, nunca teve qualquer atrito com ela Quanto ao encontro no dia do crime, insiste: foi marcado a 1 de dezembro, quando ainda estava em Lisboa. Foi Rosalina quem sugeriu o dia e a hora, 7 de dezembro, às 8 da noite. E assegura, depois desse telefonema, não falou mais com a cliente, até porque estava tudo combinado e não havia motivos para isso. Garante que o telefone, que começa com os números 91171, e de onde foram feitas várias chamadas para Rosalina na véspera e no dia do encontro, não é, nem nunca foi dele. Ainda que os telefonemas tenham ficado registrados em antenas próximas do Sofitel, onde ele estava hospedado, e da casa da vítima, minutos antes do encontro. E há um detalhe que Duarte Lima conta de forma diferente. Quando falou ao telefone com as autoridades brasileiras, explicou que tinha combinado encontrar-se com a cliente no quarteirão da casa dela. Mas entretanto, foram conhecidas imagens de Rosalina a caminhar mais abaixo, já no quarteirão seguinte. À juíza Cláudia Pina, o advogado garante agora: ficou de a apanhar justamente no quarteirão seguinte. Questionado sobre o motivo da reunião com Rosalina, o advogado explica que a cliente queria saber qual seria o desfecho previsível da ação que corria em Lisboa sobre a união estável com Lúcio Feteira. Diz que lhe disse que a pretensão dela deveria ser reconhecida. E acrescenta: ficou com a ideia de que Rosalina queria ter esse conforto para tomar uma decisão no encontro que ia ter a seguir com Giselle, que queria comprar propriedades da herança. A seguir, Duarte Lima justifica a deslocação que fez na véspera do crime, às imediações do local onde o corpo de Rosalina Ribeiro seria encontrado e que omitiu sempre à polícia brasileira. Afirma agora que foi a cliente que lhe pediu que fizesse esse desvio para ver uns terrenos na região dos lagos, junto a Saquarema. A sessão não termina sem que o advogado insinue que está a ser incriminado. Diz que foi objeto de um linchamento midiático e queixa-se de estar a ser perseguido pela polícia brasileira. Garante que nunca seria capaz de matar, nem por dinheiro, nem por qualquer outro motivo. "Para mim, o mandamento não matarás é sagrado", diz. Depois invoca a doença que lhe foi diagnosticada e assegura: sabe bem o que é o valor da vida. "Eu estive para morrer por duas vezes por razões de saúde e sei o que é estar à beira da morte", diz perante a juíza e a procuradora do Ministério Público. Logo a seguir, a juíza dá como terminada a sessão. A carta rogatória está cumprida.
Dizer que finalmente foi-me dada a oportunidade formal de manifestar a minha indignação perante a acusação vegeta como foi dirigida no Brasil e de esclarecer os equívocos que essa acusação gerou. Tenho a certeza que as declarações que aqui prestei hoje contribuíram para desfazer esses equívocos e para provar a minha inocência. E gostava de dizer-lhes que saio daqui depois dessas declarações muito descansado.
À porta do tribunal, quando se depara com os jornalistas que o aguardam, Duarte Lima mostra-se sereno. Instantes depois, quando é questionado por eles sobre as perguntas que não lhe foram colocadas pela juíza, a disposição do advogado muda subitamente.
Houve hipóteses de esclarecer tudo, designadamente o tapete, por exemplo, que era uma das perguntas que constava.
Eu podia esclarecer a cor do seu cabelo. Se quiser, também posso esclarecer isso. O que é relevante para o processo, a senhora juíza acabou de o dizer perante Vossas Excelências. Respeitem o poder judicial, como eu respeito.
Poucos dias depois da sessão, sabe-se que a juíza quer voltar a ouvir o advogado. Afinal, o interrogatório não tinha acabado, estava apenas no intervalo. A nova sessão é marcada para 24 de junho de 2014, mais de um mês depois. Desta vez, o tom da juíza é mais duro. Está interessada em voltar aos supostos honorários de mais de 5 milhões de euros pagos por Rosalina Ribeiro a Duarte Lima. Questiona o advogado que na sessão anterior disse que a herança de Lúcio Tomé Feteira era de centenas de milhões de euros. Faz ela própria as contas e conclui que Rosalina, no máximo, poderia vir a herdar 15 milhões. E vai mais longe: "O que me espanta é que a dona Rosalina lhe paga a cabeça cerca de um terço do que lhe cabia. A explicação mais plausível", continua a magistrada, "é a que foi apresentada pelas autoridades do Brasil, de que o dinheiro foi colocado nas contas do advogado, na condição de fiel depositário, por Rosalina recear um arresto no âmbito dos processos da herança". Duarte Lima nega, mas a juíza insiste. A tese apresentada por ele tem muito pouca sustentação objetiva. O tribunal também quer perceber melhor como funcionavam os honorários de Valentim Rodrigues, o advogado formal de Rosalina, e saber por que motivo Duarte Lima nunca assumiu a defesa dela Na resposta, o ex-deputado volta à doença que teve e usa-a como justificação. Diz que no início dos anos 2000, quando Feteira morreu e os processos começaram, ainda estava a recuperar da leucemia. Explica que só coordenava os trabalhos. Quem ia ao tribunal era o colega. Afirma que escreviam as peças processuais em conjunto e quando recuperou, continuou a ser assim. Mas houve uma coisa que não dividiram: os cinco milhões de honorários. Apesar de dizer que coordenava a defesa, questionado pela juíza, Duarte Lima garante que nunca soube quanto é que o colega recebia. "Ele definiu os honorários com a dona Rosalina. Nunca lhe perguntei." A sessão já vai longa, quando o ex-deputado faz uma revelação. Diz que quando falou ao telefone com o comissário Aurilio Nascimento, em fevereiro de 2010, sabia perfeitamente onde tinha alugado o carro. Só não quis responder à pergunta. "Tive razões fundadas pela atitude da polícia brasileira para querer ser ouvido no processo formalmente, como se impõe." A juíza de instrução não aceita a resposta. Uma coisa é querer ser ouvido formalmente, outra é dizer algo que não corresponda à verdade. Confronta Duarte Lima. Não foi isso que disse. O que disse foi que não se recordava. O advogado português prefere fugir à pergunta e desvaloriza. Não fez nenhuma declaração formal. Já quanto aos telemóveis que usa no Brasil, assume ter levado dois, um suíço e o número português começado por 91171, que ligou para Marlete e para o motorista dele. Nega que tivesse com ele o outro número, que começa por 91171 e que ligou para Rosalina. Aliás, garante que não sabe de quem é esse telemóvel. Também diz que entregou o carro alugado ao valeto do Sofitel de Copacabana, não sabendo se este o pôs ou não na garagem. E confirma outro detalhe: lavou o carro antes de o entregar na Rent-a-Car em Belo Horizonte. A justificação não convence a magistrada. Segundo ele, fez isso porque o carro estava sujo. A juíza contesta: "Não é muito comum. Normalmente entrega-se o carro atestado, lavado, ninguém se rala com isso." Duarte Lima também confirma que pagou um jogo de tapetes a pedido da empresa, mas sublinha que, ao contrário do que diz a acusação, não o fez por um dos tapetes estar em falta. Só pagou porque não queria ter um problema por causa de €20. As respostas de Duarte Lima às perguntas enviadas pelo Brasil vão dar origem a uma nova investigação, agora em Portugal. Em causa estão os 5,2 milhões de euros que vieram das contas de Rosalina Ribeiro e que estão na posse do advogado. Em abril de 2016, o Departamento Central de Investigação e Ação Penal acusa Duarte Lima de se ter apropriado de forma indevida daquele valor. O dinheiro que as autoridades brasileiras sempre disseram ser o móbil do homicídio de Rosalina Ribeiro. Quando o caso vai a julgamento, os juízes do Tribunal Central Criminal de Lisboa tomam a decisão de absolver Duarte Lima. Consideram que não é possível provar a prática dos crimes. No acórdão pode ler-se: "Por força do princípio in dubio pro reo, decidiu-se absolver o mesmo." Duarte Lima reage de imediato em comunicado. Afirma que a Justiça concluiu, de forma inequívoca, categórica e exaustivamente fundamentada pela sua absolvição, não só da acusação do Ministério Público, mas de todas as infames acusações de Olímpia Feteira. Quando recebe a notícia de que foi absolvido no processo dos 5,2 milhões de euros, Duarte Lima está preso no âmbito do processo BPN Homeland. Passa perto de três anos e meio na prisão da Carregueira, entre abril de 2019 e 29 de setembro de 2022. Durante esse tempo, o grande objetivo dele é tentar voltar a casa. Em março de 2021 e depois em maio de 2022, os advogados submetem pedidos para que saia em liberdade condicional. Ambos são negados. O tribunal acredita que há risco de reincidência do ex-deputado. Apresenta uma postura reservada e pouco espontânea, transparecendo no seu discurso dificuldades em expressar sentimentos e emoções, escreve a magistrada. A defesa não aceita e recorre. E desta vez é bem-sucedida. A 29 de setembro, Duarte Lima é libertado. Passam poucos minutos das 19h, quando a porta de ferro da Carregueira se abre e o ex-deputado surge com ar frágil e uma máscara cirúrgica a tapar-lhe o rosto Está vestido com umas calças de ganga e com um casaco impermeável. Nas mãos carrega dois grandes sacos de plástico. À porta estão vários jornalistas. Estão também alguns agentes da PSP que se aproximam. Entregam-lhe um documento. Duarte Lima leu.
O mandato eu já tenho. Certo. Eu já tive. Obrigado. Nós vamos acompanhar, tá bem? Quer ajuda?
É encaminhado para um carro da polícia. Minutos depois de ter saído da prisão, está detido outra vez. Durante o período que Duarte Lima passou na Carregueira, o processo do homicídio de Rosalina Ribeiro tinha sido transferido para Portugal. A Justiça do Rio de Janeiro tomou a decisão com base num argumento simples: se fosse condenado no Brasil, havia o risco de o ex-deputado nunca cumprir a pena, dado que Portugal não extradita os cidadãos nacionais. É por isso que agora está a ser transportado num carro da PSP em direção à esquadra de Casal de Cambra, onde vai passar a noite. Com o fim da pena no caso BPN, é preciso que fique sujeito a medidas de coação no caso do homicídio. No dia seguinte, no final do interrogatório, que durou cerca de três horas, a juíza do Tribunal de Sintra decide que Duarte Lima irá aguardar o início do julgamento em liberdade. Está obrigado a apresentar-se todas as semanas numa esquadra da PSP e tem de entregar o passaporte, ficando proibido de sair do país. À porta do tribunal, o advogado João Barroso Neto critica o que aconteceu a Duarte Lima no dia anterior.
Era evitável que, mesmo com a comunicação social presente, que também está a fazer o seu trabalho, que passasse por aquela humilhação de sair, dar dois passos e depois as autoridades fazerem o seu trabalho, mas penso que era evitável.
Duarte Lima abandona o tribunal no carro do advogado. Está em liberdade ao fim de muito tempo. O início do julgamento de Duarte Lima no caso do homicídio de Rosalina Ribeiro é marcado para 2022 no Tribunal de Sintra, mas ao longo desse ano vai ser adiado três vezes por dificuldades em notificar testemunhas no Brasil. No último adiamento, em novembro, nem sequer chega a ser marcada uma nova data. Os anos seguintes serão um vaivém de cartas rogatórias, com o tribunal a dizer que faltam alguns suportes informáticos e as autoridades brasileiras a responderem que o processo foi enviado na íntegra. Em 2026, após anos de trocas de informações com o Brasil, o juiz do processo acredita que estão reunidas todas as condições para começar o julgamento, decide que é hora de avançar. É marcada a data de 5 de novembro de 2026. Ao fim de 17 anos, já morreram muitas testemunhas no processo e muitas pessoas ligadas a esta história. Olímpia Feteira, filha única do milionário Lúcio Tomé Feteira, morreu em outubro de 2022. Tinha 80 anos. A fadista Maria Alcina, uma das melhores amigas de Rosalina Ribeiro, morreu em janeiro de 2026, com 86 anos. O marido dela, que a acalmou depois de ter um pesadelo na noite em que Rosalina foi assassinada, também já morreu. E morreu o Genro Deus, que foi buscar Rosalina a casa para assistir ao concerto de celebração dos 50 anos de carreira da fadista. O advogado Normando Marques, que representou Rosalina Ribeiro no Brasil, e Felipe Ettore, delegado da Divisão de Homicídios, também já morreram. Aurílio Nascimento, o principal investigador no caso da morte de Rosalina Ribeiro, já não está na Divisão de Homicídios. Depois disso, passou pelo roubo e furto de automóveis e pela Polinter, a divisão de capturas, onde garante que foi responsável por mais de 1500 detenções ao longo de nove anos. Chegou a sair da polícia, mas entretanto voltou. Neste momento, está na chamada Delegacia dos Consumidores. Rogério Lima, o colega dele, também já saiu dos homicídios. É atualmente um dos inspetores da Polinter. Duarte Lima tem agora 70 anos. Mora desde janeiro de 2023 num apartamento na zona do Lumiar, em Lisboa. Já não tem o luxuoso andar de 500 metros quadrados, onde viveu durante anos na Avenida Visconde de Valmor Onde organizava jantares com a elite política e financeira e onde foi detido. Em 2019, a casa foi vendida em leilão por mais de € 2 milhões no âmbito do processo de insolvência pessoal. Foi arrestada também uma conta com meio milhão de euros, muito pouco para o que ele devia. Nos processos, contabiliza-se um passivo de 30 milhões. José Pacheco Pereira observou Duarte Lima de perto durante muitos anos.
Eu conheci bem o Duarte Lima, conheci-o no apogeu da sua vida política e no apogeu da sua queda da vida política e também pessoal, com as acusações de corrupção e todas aquelas histórias envolvendo doenças, envolvendo pagamentos, envolvendo práticas de tráfico de influências, isso tudo. Do ponto de vista político, para o PSD, era um caso raro de uma pessoa que tinha uma grande agressividade política e uma grande capacidade de ousar num terreno tão difícil como é o terreno do Parlamento.
Mas também viu as muitas sombras de Duarte Lima. Ele mostrou ter muitas qualidades no plano político, mas essas mesmas qualidades foram usadas para o mal. Pacheco Pereira lembra um período em que, com espanto, as pessoas se habituaram a todos os dias dar um pontapé numa pedra e aparecer qualquer coisa a envolver Duarte Lima numa nova polêmica. Por isso, a história só podia acabar assim. A sua queda era inevitável. As Sombras de Duarte Lima é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, João Reis, com banda sonora original de Filipe Raposo. O guião e as entrevistas são de Carlos Diogo Santos. As entrevistas a Olímpia Feteira, Maria Alcina e Rosemary Spinla foram feitas em 2015. A sonoplastia deste episódio é de Artur Costa. O design gráfico é de Miguel Ferazo Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.
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