Há um episódio da série A Teoria do Big Bang em que, durante um jogo de Caça ao Tesouro, Howard e Amy, que formam equipa, descobrem que são ambos fãs fervorosos de Neil Diamond. De tal forma comungam deste amor ao intérprete de Longfellow Serenade, que acabam por se esquecer do jogo e acabam a cantar, entusiasticamente, karaoke de canções de Diamond no restaurante em que a sua amiga Penny trabalha. Song Sung Blue, o novo filme de Craig Brewer (Hustle & Flow, Chamem-me Dolemite), é também sobre o amor de um casal à música de Neil Diamond. Só que este par é real, a história não é contada (só) pelo lado da comédia e transcende as canções daquele.

Em 2008, o realizador Greg Kohs fez um documentário com o título de uma canção de Diamond, Song Sung Blue (pode ser visto no YouTube), sobre Mike e Claire Sardina, que tinham uma banda de homenagem a Neil Diamond, com a qual davam espectáculos na zona de Milwaukee, de onde eram naturais, usando os nomes artísticos de Thunder e Lightning. Mike e Claire eram apenas dois de muitos outros artistas que viviam de homenagear, com talento e dedicação, os seus cantores e músicos favoritos. Brewer pegou nesta história, e tal como os Sardina faziam covers dos hits de Diamond, assinou um filme que é uma cover mais ficcionada do documentário homónimo de Kohs, em que Hugh Jackman interpreta Mike e Kate Hudson é Claire.

[Veja o “trailer” de “Song Sung Blue”:]

Brewer dá visibilidade – e empatiza com ela, fazendo-nos apreciá-la também — a esta subcultura musical tão caracteristicamente americana, através das personagens de Mike e Claire (uma cabeleireira que imitava Patsy Cline antes de se casar e começar a cantar com o marido), mas também de vários dos seus amigos, colegas e membros da banda, caso de Mark (Michael Imperioli), que vive há muitos anos de personificar Buddy Holly (“E nem uso óculos”, revela a certa altura), ou de Sex Machine (Mustafa Shakir), que além de sacerdote é também um imitador de James Brown. A eles juntam-se Tom (Jim Belushi), o fidelíssimo agente e manager da banda, e Dave (Fisher Stevens), dentista e amigo de Mike, e seu fã de sempre.

[Veja uma entrevista com Hugh Jackman e Kate Hudson:]

Mas os Sardina vão mais longe. Pouco depois de se conhecerem, Mike descreve a Claire todo o prazer que sente em “ser” Neil Diamond, e em entreter as pessoas e pô-las a cantar as canções dele (há uma piada sobre Sweet Caroline que atravessa todo o filme). Ao que Claire lhe responde: “Tu não queres ser apenas um imitador de Neil Diamond. Queres ser um intérprete”. É um pormenor, mas um pormenor importantíssimo, que vai fazer toda a diferença para eles enquanto pessoas e artistas, e para o impacto sentimental do filme. A sinceridade e o entusiasmo com que Craig Brewer conta a história de Claire e Mike são exactamente os mesmos que eles têm na sua relação com a música de Neil Diamond, e manifestam nos espectáculos.

Não há, em Song Sung Blue, uma pinga de gozo kitsch, de ironia em segundo grau ou de cinismo. Através de Claire e Mike, da reação do público a eles, e do seu modesto sucesso, o filme realça e celebra a imediata acessibilidade emotiva e a imensa popularidade das canções de Neil Diamond, apesar deste não gozar dos favores de uma boa parte da crítica ou das elites. E Craig Brewer faz o elogio da América profunda e dos que nela vivem e trabalham duro, mesmo que seja a fazer música e a imitar os seus ídolos; e respeita a sua cultura, valores, esforço e sonhos, por mais terra-a-terra que sejam (“Não quero ser cabeleireira. Quero cantar. Quero dançar. Quero um jardim! Quero um gato!”, diz Claire a certa altura).

[Veja uma entrevista com o realizador Craig Brewer:]

A identificação imediata que Mike e Claire sentem um pelo outro não tem só a ver com afinidades musicais e carnais. Eles conhecem bem a dureza da vida e os obstáculos do dia-a-dia. Ambos são divorciados com filhos (ela, um rapaz e uma rapariga, ele, uma rapariga, e Brewer mostra também como os filhos de Claire acabam por aceitar o padrasto, e a sólida amizade que vai unir as duas filhas), Mike é um alcoólico em recuperação há muitos anos, e os dois sabem como custa ganhar a vida no meio artístico em que se movem. Como diz Mike à filha: “A esperança é dura”. É também por isso que ele e Claire são um duo tão perfeito em palco. Esse entendimento entre o casal vai ser testado quando ocorre a tragédia que os abate no auge (que, para eles, não tem nada a ver com os picos de fama de estrelas de rock ou de megavedetas pop como Taylor Swift, apenas com sucesso em proporções satisfatórias na sua região, e que pague as contas).  

[Veja uma sequência do filme:]

Song Sung Blue tem dois poderosos motores de propulsão. O primeiro está nas inspiradamente contagiantes e trauteáveis canções de Neil Diamond, que comentam a vida em família de Mike e Claire e se tornam, mais tarde, também fonte de consolo e encorajamento para eles e os filhos durante as suas tribulações, e até à última fatalidade que os atinge. O outro, é o duo formado por Hugh Jackman e Kate Hudson, feito no céu do cinema. Jackman é Neil Diamond por uma pena (já o sabíamos bom de música e dança), ambos cantam bem e comovem-nos ainda melhor, e Hudson está tão gaiata e radiosa como a mãe, Goldie Hawn. (É incrível que ela tenha sido nomeada para o Globo de Ouro de Melhor Atriz num Musical ou Comédia e Jackman não).

Além de nos pôr em contacto com gente de uma América real e genuína que Hollywood tem esquecido, quando não mesmo desprezado e escarnecido, Song Sung Blue tem também o mérito de nos relembrar o quão possante, confortadora e exaltante pode ser a melhor música verdadeiramente popular, e saltar barreiras sociais, raciais e culturais — tanto como o cinema. Como diria Mike: “It’s huge!”.