“É tudo o que importa! Porque os filmes passam. O resto fica!” é uma das frases usadas para caracterizar todo o burburinho que se vivia em 1933 no cinema português. A Tobis, uma companhia criada para investir nesta área cultural, surgia oficialmente a 3 de junho de 1932 e o filme “A Canção de Lisboa” era a primeira experiência da produtora — cujo nome completo era Companhia Portuguesa de Filmes Sonoros Tobis Klangfilm.
Na Quinta das Conchas no Lumiar, em Lisboa, atores e a equipa técnica davam vida a um dos filmes portugueses que haveria de figurar entre os mais bem sucedidos. Eram tempos de mudança no panorama cinematográfico nacional, que deixava de depender incessantemente de recursos estrangeiros, especialmente vindos dos Estados Unidos da América.
“Este espírito organizador, que nunca, em Portugal, o cinema conheceu, foi inaugurado e posto em prática pela Tobis, a partir do início da Canção de Lisboa”, lê-se na revista Cinéfilo, suplemento do jornal O Século, na altura da estreia da produção. A 12 de agosto de 1933, o mesmo Cinéfilo destacava a importância da instituição e anunciava com entusiasmo a perseverança de todos os envolvidos na rodagem da “Canção de Lisboa” — “O Milagre da Tobis” era o título do artigo publicado. O filme de Cottinelli Telmo surgia como a esperança de uma indústria ainda pouco desenvolvida e firme em Portugal: o cinema.
“Hoje, podemos dizer com orgulho, temos, em Portugal, o melhor material de registo de imagens e de sons, aparelhos de iluminação que satisfazem plenamente; pessoal adestrado e chefes competentes; e um estúdio em construção adiantada, quase pronto, que é o ideal para as nossas exigências”, sublinha o suplemento.
Antes, a 1 de maio, foi a mesma produtora a responsável por um casting de raparigas que quisessem integrar o elenco da “Canção de Lisboa”. O protagonismo estava assegurado com atores do teatro, Vasco Santana no papel de Vasco Leitão e Beatriz Costa a encarnar Alice. Ambos interpretavam um casal romântico, embora a trama se centrasse no herói Vasco e nas artimanhas que utilizava para enganar as tias que estavam de visita e a quem jurava a pés juntos ser um “senhor doutor”. Mas resolvidas que estavam as personagens principais, era necessário completar o elenco e centenas de jovens concentraram-se na sede do Automóvel Clube de Portugal para tentar a sorte.
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Muitas saíam envergonhadas pela recusa do júri, outras foram bem-sucedidas e conseguiram o papel. “Havia algumas raparigas que desviavam a cara à vista da máquina e afastavam-se rapidamente, envergonhadas. Achei esquisito”, refere a reportagem do Animatógrafo, antiga revista portuguesa dedicada ao cinema.
A estreia do filme ainda estava longe e a “Canção de Lisboa” já despertava a atenção de muita gente. Segundo a imprensa da época, cerca de 200 jovens tentaram “encantar” o realizador Cottinelli Telmo e os outros membros da equipa técnica. Eram também muitos os curiosos permaneciam no exterior e tentavam conhecer as futuras estrelas.
Uma das cenas mais emblemáticas do filme é o passeio de Vasco com as tias pelo Jardim Zoológico de Lisboa. É aí que tenta convencer as familiares de que consegue diagnosticar as maleitas dos animais. Atrás das câmaras, o dia foi desafiante, uma vez que os macacos não gostavam muito das câmaras. “Os bichos devem ter apanhado uma indigestão de amendoim e cenoura. Para lhes captar as simpatias, não houve técnico ou artista que não trouxesse aos símios uma guloseima”, relata o Cinematógrafo em julho de 1933.
Já noutros locais, foi altura de se fazer História à noite. Sim, à noite. “Canção de Lisboa” é tido como o primeiro filme português a ser gravado depois do pôr-do-sol e o facto foi assinalado pela revista: “Vai filmar-se à noite para a Canção de Lisboa”. O trabalho de iluminação revelou-se necessário e mostrou a capacidade dos estúdios da Tobis para alcançar novos feitos. “Pela primeira vez, se trabalhou com toda a luz de que o estúdio dispõe. E, se dissermos que um só dos projetores tem 10 000 velas, poderão ajuizar a atmosfera torturante em que os atores atuaram”, escreveu-se na imprensa.
Em agosto de 1933, o Cinéfilo dava destaque à música da “Canção de Lisboa”. O fado e os bailaricos surgiam como os pontos fortes da banda sonora. Se nas casas de fado “as trovas de amor e trovas de saudade” marcavam forte presença, a alegria dos arraiais “invadia” os bairros típicos de Lisboa, onde, escrevia a mesma publicação, “bailam, todas as Marias e os Manéis da nossa terra”.
A revista destacava ainda o facto de a fita preencher uma lacuna no cinema português: “Lisboa que ri, Lisboa que chora, Lisboa bonita, que se revê, orgulhosa, nas águas do Tejo — não teve ainda quem, musicalmente, contasse a sua alegria, quem compusesse um hino para andar na boca de todos os alfacinhas”.
O dia da estreia
“A Canção de Lisboa” teve estreia a 7 de novembro de 1933 no Teatro São Luiz em Lisboa e mais uma vez, a imprensa esteve presente. Pronta a receber as críticas e as reações do público, a revista Cinéfilo vestiu o fato e a gravata, como todos os espetadores, e seguiu de perto o desenrolar da noite.
Se a intenção era descobrir os pontos fracos do que aparecia em tela, a tentativa foi fracassada. Toda a reportagem é uma mistura de elogios, que partem do público e vão até ao jornalista. “Está fora das minhas possibilidades relatar toda a grandiosidade da festa do São Luiz. Aconselhamos os leitores a elevarem ao quadrado o que se segue”, avisa o repórter do Cinéfilo.
Ainda que o deslumbramento com o filme seja uma das características inegáveis do texto, há um esforço para que o ambiente da sala de espetáculos seja transmitido aos leitores. “Todos trazem uma cara alegre, satisfeita, parecendo confiar, inteiramente, no êxito da ‘Canção’. A gente manifesta uma curiosidade ansiosa e, ao mesmo tempo, otimista”, descrevia o repórter, que eventualmente reconhece as falhas da sua imparcialidade e desabafa:
Mas nem tudo foram falinhas mansas. “A Canção de Lisboa” ficou igualmente conhecida como o filme português que subiu o preço dos bilhetes. A consequência: uma série de explicações replicadas na imprensa e também algumas críticas. “Porque custa mais caro o espetáculo do cinema português”, lia-se num dos títulos publicados em outubro no Cinéfilo. Nada que pusesse em causa o êxito na bilheteira. No entanto, os textos não eram simpáticos, sobretudo para quem não concordava com a mudança.
Para os meios de comunicação, quem fosse “ver o filme por 8 escudos dava de bom grado mais dois escudos”, já que os filmes estrangeiros, as óperas e até o teatro eram também mais caros. A crítica abrangia os que se recusavam a pagar mais — “terceiros” que para o Cinéfilo eram a “pior fauna” de entre o público, os mesmos que “acusavam” os funcionários da Tobis de “lucrar com a medida”.
“A Canção de Lisboa custou muitas centenas de contos. Estão ali muitos capitais empatados e o que é mais grave, como já dissemos, os destinos da cinematografia nacional”, dizia a revista. O texto terminava com o apelo à recusa da “campanha derrotista” que se fazia ao cinema português.
Mas sobre o filme não existiam dúvidas: “Enfim! A Canção! Fresca, clara, cristalina, a Primavera na produção nacional, a anunciar uma colheita prometedora, que não tardará”, concluía a imprensa de 1933. Esta quinta-feira, há um novo remake dos clássicos do cinema português, depois de “O Pátio das Cantigas” e “O Leão da Estrela” realizados por Leonel Vieira. Desta vez trata-se exatamente de “A Canção de Lisboa”, agora com realização de Pedro Varela.