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Antonio Fagundes: “O Brasil passa por uma tragédia -- e não é de agora.” /premium

Conhecido como Rei do Gado, Antonio Fagundes tem tido muitas vidas. «Alta Terapia» é a peça que está a apresentar em Lisboa. E ter 50 anos de carreira também é isto – subir ao palco ao lado do filho.

Quando se marca uma entrevista com Antonio Fagundes, há muitas coisas a ter em conta, mas uma das mais importantes é… chegar a horas. “Roland Barthes disse que fazer esperar é uma prerrogativa do poder. E eu não quero ter esse poder sobre você. Então não tenha sobre mim”, diz o ator, instalado num hotel no centro de Lisboa.

Felizmente, a equipa do Observador chegou dez minutos antes da hora marcada, o que não seria assunto, não fosse dar-se o caso de ter havido um “acidente geográfico”, como Fagundes o descreveu, que fez com que os jornalistas estivessem à espera na sala da entrevista enquanto o ator e a equipa estavam à espera na receção.

Tudo resolvido a bem, ainda houve lugar para um obrigado sincero por parte do entrevistado, visivelmente feliz por o desencontro não ter sido, afinal, um atraso. Não é por acaso que há um aviso em todos os materiais de promoção da peça. Anote: quem não chegar a horas, não vai entrar na sala. E é mesmo assim. “Em Portugal isso dá uns probleminhas”, brinca, mas o assunto é sério.

E Fagundes até teria o poder, segunda a referida perspetiva de Barthes, não fosse ele o Rei do Gado, o grande fazendeiro que disparou corações em Portugal no ido ano de 1997, e não tivesse vivido já tantas vidas (na televisão, no cinema, nos palcos) em 50 anos de carreira, mas o suposto “galã” nem se acha assim tão bonito, ainda que lamente o amor que existe agora pelos vilões – e não, não está a falar só de novelas. Fala de tudo, desde o amor aos palcos, que o vai levar a partir de hoje, 26 de Setembro, a nove cidades portuguesas, à falta de esperança de um brasileiro que, no fim das contas, só quer continuar a fazer o seu trabalho com liberdade.

Como descreve este “Baixa Terapia”?
É a história de três casais que vão para uma sessão de terapia. Quando chegam, a terapeuta não vai e deixa uns envelopes com umas instruções para que façam a terapia entre eles. Imagina a confusão. Além de a situação ser muito engraçada, tem piadas pontuais muito boas e um final surpreendente. Ficou um ano e meio em cartaz no Brasil, fizemos lá uma tournée de 20 cidades, vamos fazer nove aqui, e já tivemos 150 mil espectadores.

O teatro corre sempre assim tão bem no Brasil?
Tenho mais público do que o normal. As minhas peças costumam fazer sucesso, mas não é uma regra. Até porque com esta política de patrocínios e cultural, que não é uma política cultural, as peças ficam muito pouco tempo em cartaz. Eles privilegiam a produção e não a manutenção do espetáculo, mesmo quando lota. Nós não trabalhamos com patrocínios, trabalhamos só com a bilheteira, e temos uma liberdade maior de buscar o público.

Tem mais público por ser uma cara conhecida da televisão?
Sim, e além disso tenho uma trajetória muito grande de teatro, não paro de fazer e é natural que o público cresça.

Foi, aliás, no teatro que começou a ser ator.
São 52 anos de carreira. Comecei no colégio, e com Júlio Dantas, um autor português. Tinha 13 anos. Depois tive um grupo de teatro estudantil, fiz muito teatro amador, teatro infantil, e foi em 1966 que me profissionalizei. De lá para cá nunca mais parei.

"Quando você depende de um Governo ou de uma empresa já perde parte da sua liberdade. Fica dependente do que eles querem. E para mim isso é uma censura pior do que todas, porque é económica. Ela te impossibilita de trabalhar."

Era mesmo o que queria fazer, ou foi acontecendo?
Levei um tempo para decidir. Cheguei a achar que ia entrar numa faculdade de engenharia, mas nunca frequentei. Foi uma coisa impercetível, nem chegou a ser uma decisão. Quando vi, já era ator, já era profissional, já vivia disso.

E nunca deixa de fazer teatro.
Gosto muito, e gosto assim: fazer tudo junto. Basta ver o meu currículo, às vezes parece impossível fazer aquilo tudo no mesmo período. Descanso de um veículo fazendo o outro. Já fiz quase 50 filmes, muitas peças, novelas, dirigi, produzi, escrevi. Estou sempre em atividade e o gostoso é isso. O teatro tem uma energia única, essa troca entre palco e plateia. E tem mesmo a ver com a essência do homem: só tirámos a fogueira do meio, mas persiste essa ideia de sentar em roda e contar uma história, é uma coisa ancestral e acho que não vai acabar nunca.

O que o atrai para um determinado papel?
Sou muito bom público. Gosto de teatro, gosto de cinema. É a primeira coisa que penso: como espectador, o que me atrai para esta peça? Confio nesse gosto, porque sou generoso mas tenho um sentido crítico apurado. Se eu li um livro e tenho interesse em adaptar, por exemplo, é porque tem ali alguma coisa que mexeu comigo, que me fez pensar, que me abriu novos caminhos. E tenho o impulso de querer passar isso para mais pessoas. Assim é fácil escolher.

Foi isso que aconteceu com esta peça?
Nós fomos ver o texto encenado na Argentina. Estávamos lá para tratar dos direitos de uma outra peça e indicaram-me que fosse ver esta. Morri de rir. No dia seguinte comprei logo os direitos, e não errei. É uma comédia extraordinária, mas ela mexe connosco, todos os assuntos são abordados com inteligência.

Se não tem patrocínio, significa que o investimento é seu?
Sem dinheiro público e sem dinheiro de nenhuma empresa. Por isso a peça fica em cartaz enquanto o público a quiser ver.

É uma posição política?
Tem um lado político, sim. Quando você depende de um Governo ou de uma empresa já perde parte da sua liberdade. Fica dependente do que eles querem. E para mim isso é uma censura pior do que todas, porque é económica. Ela te impossibilita de trabalhar. Acredito que o artista tem de ser livre, se não ele vai ser só porta voz de algum sistema. É uma opção. Corro mais riscos, posso perder muito dinheiro, posso não cair no gosto do público, mas prefiro assim.

Há um livro sobre os seus 50 anos de carreira em que refere a Companhia Estável de Repertório como uma das fases mais felizes…
É que foi um período longo, nos anos 80 em São Paulo, foram dez anos em que estive à frente dessa companhia. Havia muito público, acertámos muito, fizemos muito trabalho de contacto com o público que raramente uma companhia faz. Chegámos a publicar um jornal. Todos os espetáculos que fizemos tiveram cerca de 250 mil, 300 mil espectadores. Foi uma aprendizagem fantástica com resultados fantásticos.

Acha que falta mais essa experiência no Brasil, que é um país com uma escola de representação tão forte?
Nunca tivemos política cultural, mas isso não prejudica só o teatro. A gente tem um património histórico degradado, as sinfónicas passando fome, os corpos de baile quase não existem, as pinacotecas estão com acervos reduzidos, a Biblioteca Nacional tem goteira em cima dos livros e os museus estão pegando fogo. Culturalmente, o Brasil passa por uma tragédia, e não é de agora. Não é um governo ou outro: não ter cultura é quase uma política de Estado no Brasil. Além disso, a verba da cultura é de 0,6% da dotação orçamental, isto num país de dimensões continentais. Gasta-se isso só com os funcionários do Ministério da Cultura.

"A força da novela no Brasil entrou precisamente por esse vácuo cultural. Temos uma população que não lê, que não vai ao cinema, que não frequenta exposições, que mal sabe o que é uma sinfónica, e ela tem de ser preenchida de alguma forma. Foi a televisão, e foi o seu maior e melhor produto, que é a telenovela."

Pois, as imagens do Museu Nacional a arder correram o mundo.
E há funcionários fantásticos, pessoas muito dedicadas, que põem dinheiro do bolso, mas chega uma altura em que não dá mais. É como formar público. Nós não podemos fazer nada além do que estamos fazendo, que é continuar a lotar o nosso, mas formação de público é uma coisa muito maior do que isso, é dar condições para o maior número possível de companhias, dar educação, não admitir analfabetos funcionais. No Brasil, temos 40% de analfabetos funcionais, num universo de 210 milhões de pessoas. São pessoas que não sabem entender o que leram. Essas pessoas também não vão entender o que ouvem.

Sente que o caminho natural de um ator no Brasil acabar por ser mesmo a televisão?
Eu pensava que se queria fazer teatro e queria atingir o maior número possível de pessoas tinha de ser conhecido. Comecei a fazer televisão pensando nisso, em ampliar o meu público noutro veículo para depois levar esse público para o teatro. Mas depois comecei a gostar de televisão [risos]. Comecei a ver que podia fazer grandes trabalhos, grandes personagens, histórias com 200 capítulos, que é um exercício fabuloso para um ator. Ou seja, é importante que o ator faça televisão no Brasil, mas se não fizer nada com essa fama, se ficar deitado nos louros, não vai estar contribuindo para nada, nem para ele próprio.

O imaginário da novela é muito forte. Que impacto é que isto tem na sociedade brasileira?
A força da novela no Brasil entrou precisamente por esse vácuo cultural. Temos uma população que não lê, que não vai ao cinema, que não frequenta exposições, que mal sabe o que é uma sinfónica, e ela tem de ser preenchida de alguma forma. Foi a televisão, e foi o seu maior e melhor produto, que é a telenovela. O exercício em cima desse projeto, atingindo muito público, fez com que se atingisse um nível de excelência. A telenovela brasileira é das melhores do mundo, na produção, na direção, no texto, no trabalho de ator.

De uma fraqueza fez-se uma força?
Mas é pena que não desenvolve. Era preciso levar para outras coisas. A novela continua a ser importante, mesmo que o mundo tenha mudado, com as redes sociais, internet, Netflix. A atenção está só mais dividida.

E continua a gostar de fazer? Não são só as novelas antigas que são boas?
Não é verdade [risos]. Estava a ver no outro dia A Rainha da Sucata, de há 20 anos, que está aí a passar de novo, e é de facto excelente. No Brasil estão a repetir Vale Tudo num canal a cabo e está a fazer mais sucesso do que a novela na antena aberta, é muito atual, política, ética. Ou seja, não há um saudosismo, há uma constatação de que as novelas eram boas, mas isso não quer dizer que não se façam novelas boas agora. A produção de hoje tem até um grande avanço, na qualidade técnica, na dramaturgia, há novos formatos. Ainda temos uns anos pela frente.

Tem alguma novela preferida? A minha é a Tieta.
É uma boa novela, Aguinaldo Silva. Eu tive sorte, fiz muitas novelas icónicas: Dancing Days, Vale Tudo, Rainha da Sucata, A Viagem, Renascer, Rei do Gado, Terra Nostra… tudo com personagens fortes. Apanhei o auge dos melhores autores da TV Globo. Coincidiu com a tal época de 80.

Tem um “filho” preferido? Acho que em Portugal as pessoas associam mais o seu nome ao Rei do Gado.
Eu não consigo escolher, mas é verdade que ainda sinto o impacto do Rei do Gado. De vez em quando lá me lembram um ou outro papel que eu até já esqueci, como no outro dia me vieram falar de Dancing Days, e já lá vão quase 40 anos.

Tem mudado a sua forma de encarar este trabalho com os anos?
Nunca é o mesmo trabalho. A nossa profissão implica recomeçar em cada projeto. O público que eu tenho hoje é seguramente muito diferente do da década de 80. É isso que faz do nosso trabalho uma coisa excecional.

Ainda assim, há sinais mais óbvios da passagem do tempo, como o facto de nesta peça estar em palco com o seu filho.
Ele está com 29 anos. É melhor ainda porque é uma coisa que ele gosta de fazer. Tenho prazer em ver o prazer dele com uma profissão que eu adoro. Gosto muito desta frase: a experiência não se transfere. Acho que é verdade, mesmo que a gente queira passar. Cada um tem de experimentar, e se ele chegar a algum lugar vai ser mérito dele.

É mais difícil envelhecer com público, à frente das câmaras?
É mais fácil. Não tem susto [risos]. Aquele amigo que vê você 40 anos depois e diz: nossa, como está velho. Assim está a ir devagarinho, ninguém percebe.

É que eu sou do tempo em que o nome Antonio Fagundes era sinónimo de galã.
Costumo brincar que não sou o meu tipo de homem e nunca liguei para isso. Sempre agradeci muito os elogios, mas nunca me envaideceu. Nunca persegui isso. Deve ser terrível quando se persegue isso e se começa a sentir que se está a perder, como algumas pessoas que têm 60 anos e querem continuar com 20. Só há uma forma de continuar com 20 anos, que é morrer cedo.

Ainda existem galãs?
O conceito tinha um sentido, vinha de galante, aquele homem bom caráter, provedor, íntegro, corajoso, romântico. Naturalmente, as mocinhas das histórias ficavam apaixonadas por um homem assim. É que o desgraçado, além de ser tudo isso, ainda era bonito. Só que agora as novelas estão reforçando os vilões. Houve até um período em que, por os galãs serem sempre feitos por homens bonitos, e nem sempre os homens bonitos serem os mais talentosos, era um termo pejorativo. Galã queria dizer uma porcaria de um ator. Agora acho que nem se usa mais o termo. Até porque a dramaturgia mudou, e o homem bonzinho agora é um chato. É uma pena, é por isso que estamos aí com esses problemas todos. Os vilões estão ganhando, até na realidade, e não é só no Brasil.

Falei da idade porque o entrevistei há uns anos e pedi um autógrafo para a minha mãe, e disse que percebia que estava a envelhecer quando as moças novas lhe pediam isso…
Agora já pedem para a avó [risos]. “A minha avó gosta muito de você”. Mas eu não me importo, acho ótimo. Se eu estiver aí trabalhando, quem sabe não me aparece uma bisneta a pedir autógrafo. O importante é continuarmos ligados ao nosso tempo.

Estamos a falar de uma peça de humor. Mas quando lemos notícias sobre o Brasil hoje em dia, não parece haver grandes motivos para rir.
Mas tem ajudado. Pelo menos durante uma hora e meia dá para não pensar na tristeza que a gente está vivendo. É uma função social boa: conseguir com que pessoas muito preocupadas e muito tristes riam durante um bocado. Gosto de pensar assim.

Está de facto tudo a ficar mais difícil no Brasil?
Muito, sobretudo porque não temos perspetiva futura, não tem nada pela frente. O que tem pela frente é só problemas. Não interessa quem for eleito. Vamos eleger tudo junto, presidente, senado, congresso, governadores, isto com uma população que nem sabe ler, está desacostumada da leitura. A média de leitura do brasileiro é de um livro por ano.

"[Qual é o pior cenário nas eleições brasileiras?] É radicalizar no segundo turno com dois candidatos péssimos: o Haddad, que carrega a carga do PT, e o Bolsonaro, que não é nada, é um louco. Ele não consegue responder a uma pergunta. Só de ele chegar ao segundo turno, é assustador. E imagine que quase tivemos um candidato preso."

Como acha que vão ser os próximos tempos?
Não podemos saber. É mesmo a primeira eleição em que sinto muito por não estar lá. É uma eleição que precisa das pessoas.

Qual é o pior cenário?
É radicalizar no segundo turno com dois candidatos péssimos: o Haddad, que carrega a carga do PT, e o Bolsonaro, que não é nada, é um louco. Ele não consegue responder a uma pergunta. Só de ele chegar ao segundo turno, é assustador. E imagine que quase tivemos um candidato preso.

Chegou a apoiar o PT no passado.
Era a nossa esperança, era o caminho da ética, o caminho da honestidade, o caminho de tudo isso que eles mostraram que não era. O pior é isso, perder o rumo. Mas pior ainda é que alguns colegas continuam acreditando – além de perder o rumo, perdeu-se o senso. Não é por não dar para acreditar em nada que vou acreditar em alguma coisa à força. Por falta de alternativa não posso criar uma seita e inventar uma fé louca. Do jeito que está, aquela massa que está ali, é impossível sair alguma coisa boa. E se saísse, seria sufocado em pouco tempo, porque o sistema de corrupção está entranhado em todos os níveis. Imagina juntar aí uma pessoa honesta. Seria trucidada.

Então nem há esperança?
Agora deixou até de ser possível debater ideias publicamente. Quando radicaliza, é a fé sobre a experiência. Eu acredito e pronto. A perspetiva fica menor ainda. Mas vamos pensar no mundo todo, não vamos tirar do contexto: vimos o que aconteceu na Suécia, por exemplo. Parece que não há memória. A educação é que nos pode salvar disso. A cultura. E porque é que só as pessoas da cultura é que pensam nisso? Talvez porque é interessante para eles que, precisamente, esteja tão pouca gente a pensar nisso. E talvez seja interessante para eles que a gente esteja na mão deles. É isso mesmo que eu não quero para mim.

Baixa Terapia está no Teatro BBVA Tivoli, em Lisboa, até ao dia 30. Entre novembro e dezembro passa por Braga, Vila Nova de Famalicão, Póvoa de Varzim, Figueira da Foz e Águeda.

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