Aos 29 anos, o compositor errante, um músico de rua profissional, português em trânsito pelas cidades europeias, interrompeu a viagem por um breve instante, e regressou a casa para nos deixar um testemunho, qual diário de bordo: desgarrou a heroína, correu meio mundo, fez do metro de Paris palco, ergueu uma terra de sonhos, conheceu um miúda, apaixonou-se.
O álbum Qualquer Coisa Pá Música, gravado em Lisboa, no ano de 1979, foi o despertar de um compositor genial. O terceiro álbum de Jorge Palma é assombroso, um registo urgente, de um músico que, até aquele momento, ainda não tinha encontrado um passo seguro. É uma obra-prima da música popular portuguesa, onde nasceram hinos do nosso cancioneiro como Na Terra Dos Sonhos e Essa Miúda. É também um álbum apagado da história, indisponível em qualquer plataforma de streaming ou sequer em cópia física — aos interessados, e no momento da publicação deste texto, havia um único exemplar original à venda, pela módica quantia de 200 euros. Esta é a jornada de um álbum injustamente esquecido de Jorge Palma, da criação ao silêncio.
E cá vou andando, vou apenas andando
Nos primeiros meses de 1979, Jorge Palma está, todos os dias, de T-shirt coçada, colete e jeans, a saltar entre as estações do metro de Paris. Chegou à cidade há mais de um ano, ainda sem pouso definitivo, dorme em hotéis e casas de amigos. Volta e meia, desaparece, viaja de instinto, quando é informado que há um bom canto por tocar, seja em Genebra ou Frankfurt. “Não fazia muito dinheiro, mas davam-me muito haxixe, punham na caixa da guitarra, no saco da guitarra. Percebi que podia sobreviver a tocar na rua”, contou ao Observador.
▲ Nos primeiros meses de 1979, Jorge Palma está, todos os dias a saltar entre as estações do metro de Paris
A estação central é o café Le Mazet, em Paris, St Andrés Dês Arts, em pleno Quartier Latin, onde outrora, no tempo da outra senhora, se reuniam os cantores e políticos portugueses exilados. A função primordial do estabelecimento era trocar as moedas que recebia por francos, prontos a gastar em conhaque e cigarros. “Às vezes aparecia um gajo com um instrumento esquisito: como é que tocas isso? Nesse café Mazet, até às duas da manhã podíamos estar à vontade, a tocar, a cantar e a beber”. Entre os instrumentos esquisitos, um banjo, um bandolim e uma washboard, vulgo tábua de lavar roupa, nas mãos de dois americanos e um sueco, intérpretes de bluegrass, o género musical acústico, filho do country e jazz, reconhecido pelo ritmo e dedilhar vertiginoso. “Apaixonei-me por esse tipo de música, bluegrass, que é um country especial, de Kentucky e com muita influência da música irlandesa”, explicou na mesma entrevista.
Os The Bangkokem Travelling Bluegrass Show, como se apresentava a banda multinacional que Jorge Palma integra, improvisam digressões em Paris, Estugarda, Copenhaga ou Londres. Pelo caminho, a matar o tempo, Jorge Palma compõe um novo repertório, em português, incluindo Cá Vou Andando, uma canção-manifesto, uma ode a esta vida de estrada, onde o único destino é uma rua sem saída:
“Os meus passeios na cidade
são mais insónia que prazer
vejo o tempo a dar-me a volta
e a paranoia a crescer
sinto ganas de partir
não há mesmo nada a fazer
seja feitiço ou feitio
eu só estou bem a mexer”
Por motivo incerto, a banda de bluegrass desintegra-se. Há falta de melhor proposta, decide voltar para casa e gravar um novo disco. Em meados de 1979, desembarca em Santa Apolónia, mas não vem sozinho: Geni Stephenson, uma artista norte-americana, nascida no estado da Geórgia, acompanha este português enamorado que lhe dedicava canções de amor arrebatador, entre elas, ainda sem letra completa, uma que seguia assim: “Chegaste com três vinténs/ E o ar de quem não tem/ Muito mais a perder” (Dá-me Lume).
Desanimados com a pasmaceira de Lisboa, redirecionam para o Algarve, um pouso seguro para as avarias de Jorge Palma, desde miúdo, quando fugia de casa sem dar cavaco a ninguém. Durante a escapadinha, pelos bares algarvios, compõe mais uma canção, Enquanto o Pau Vai e Vem, sobre um homem destroçado, em morte lenta, que tenta se convencer a sobreviver — “O verbo é para ser conjugado/ com força, jeito e graça/ tudo é relativo, nada é definitivo/ tudo passa”.
A dona Maria Adélia, como era seu costume, exige dar guarida ao seu querido filho único, Jorge Palma, que a contragosto volta para casa da mãe, em Lisboa, com a namorada norte-americana. Esta nova família convive durante dois meses, até à relação azedar entre mãe e filho, como também era seu costume.
O casal encontra uma nova casa nas Páginas Amarelas: a Pensão Ninho das Águias, o antigo palacete na Costa do Castelo, número 74, rente ao Castelo de São Jorge, reconhecido na paisagem pela imponente torre central — agora, obviamente, é um clube privado de estrangeiros. “Quando estava aqui passavam o tempo fechado no quarto a tocar guitarra”, confirmou Luís Miranda, da família que geria a pensão, na biografia oficial de Jorge Palma. No quarto 18, com vista para a muralha, o músico trabalha incansavelmente para limar as canções do seu próximo álbum, compostas nos últimos meses.
“Mais uma vez, corro as capelinhas, os estúdios todos, para ver quem estava interessado em pagar a gravação de um disco. E na altura acho que a Valentim não estava nessa, nem a Polygram”, lamentou Jorge Palma. A falta de entusiasmo é compreensível: o álbum anterior, Te Já, lançado em 1977, de repertório e produção desequilibrada, durante o auge da sua dependência de heroína, caiu em ouvidos moucos. Nem Jorge Palma ficou cá para saber como correu: após o lançamento, a temer uma iminente prisão ou overdose, deixou a sua primeira mulher e pirou-se para a vida de estrada, enfim livre da droga infame. O título do álbum era esclarecedor: Te Já.
As canções do Yogi Pijama
Enquanto Jorge Palma partia estrada fora, o empresário José Manuel Fortunato desembolsou 100 mil dólares do próprio bolso para comprar a pequena editora Fono Companhia Industrial de Discos. Segundo o empresário, a editora consistia em quatro empregados e duas máquinas perras de prensar discos. Dois anos depois, a Fono renasce como a editora NOVA, com máquinas de prensagens, produção e embalagem de discos a estrear, e dezenas de colaboradores, entre eles, os músicos Paulo de Carvalho e Ramón Galarza. O negócio era a venda de discos estrangeiros, sobretudo punk e new wave, uma completa novidade em Portugal, por iniciativa do radialista António Sérgio. “Uma editora que pouco tempo depois desapareceria, uma coisa assim caseira”, recordou Jorge Palma. “Chamava-se Nova, alinhou em financiar-me, em pagar-me a gravação desse disco Qualquer Coisa Pá Música”.
▲ "Yogi Pijama", alcunha dada a Palma pelos que o viam seguir as posições do livro "Yoga for Housewives"; e com Graça Lami, com quem esteve casado por 20 anos e teve dois filhos (novembro de 1980)
O estúdio escolhido pela editora também começava uma nova vida: o Rádio Produções Europa, do maestro Fernando Correia Martins, na rua D. Fuas Roupinho, à beira de Xabregas, precisava urgentemente de uma remodelação de equipamento humano e material. Fernando Correia Martins contratou o técnico de som José Fortes, ex-Rádio Triunfo, para dar nova vida ao estúdio que, em breve, seria rebatizado como Angel Studio, o centro da transformação na música popular portuguesa, desde Ar de Rock de Rui Veloso a Por Este Rio Acima de Fausto Bordalo Dias.
A habilidade de José Fortes era conseguir captar, em fita, sem mais aquelas, a espontaneidade dos músicos em estúdio. A arte do técnico é evidente logo na entrada do álbum, Quero O Meu Dinheiro de Volta, um bluegrass à portuguesa, com Jorge Palma no bandolim, emprestado de Carlos Alberto Moniz, e os coros dos colegas de editora, os veteranos Sheiks, grupo pioneiro do rock português — Paulo de Carvalho, Carlos Mendes, Fernando Chaby e Edmundo Silva. É uma das canções mais políticas de Jorge Palma, ainda no rescaldo da intervenção do FMI em Portugal, com versos que, infelizmente, não seriam desajustados nestes dias:
“Vejam aqueles velhos no jardim
aquilo é que é ter pouca sorte
o que é que eles vão fazer à vida
a casa onde eles sempre viveram
teve de ser demolida”
Se acham que conhecem a próxima canção, Terra dos Sonhos, desenganem-se. Ao contrário da popular versão ao piano, eternizada em Só, mais de dez anos depois, aqui um vaivém de guitarra desenha a linha melódica, traçada de ecos, o refrão é entoado a meias com Sérgio Godinho, e os versos atropelam-se, em mudanças bruscas de ritmo. Os arranjos vão além da proposta utópica, onde ninguém te leva a mal, sugerem uma inquietação constante, reforçada pela dicção nervosa de Sérgio Godinho. “Gostei muito da maneira de ele cantar — o Jorge tem uma voz muito especial —, mas gostei sobretudo do talento dele e da atitude perante o objeto canção, que é uma atitude muito natural. O que não significa que não haja muito trabalho”, recordou o autor de O Primeiro Dia, na biografia já citada.
A versão original de Essa Miúda é a mesma canção fogueira, que acende as noites em qualquer lugar, que todos conhecemos. A miúda feiticeira era Geni Stephenson, companheira das noites de Paris, onde foi composta esta sublime dedicatória, que descreve a sedutora teia que envolve os cativos da paixão. Durante as gravações, ao lado dos músicos, Geni desenha a capa do álbum, com base numa fotografia do namorado na Provença. No outro lado do disco, uma canção irmã, de arpejos ao banjo, também dedicada a uma musa: Maçã de Junho — “Amo-te mais que a vida, que a vida sem ti morreu”. No final do álbum, Gina solta um brado à cowboy, na canção que fecha um ciclo, em homenagem à música de rua:
“Qualquer coisa para a música
Cinco mil reis, uma coroa ou um tostão
Mas se não tens dinheiro
Deixa lá, meu irmão
Se a nossa companhia te animou
Valeu a pena a canção”
O molde Jorge Palma, que alcançaria finalmente o público na década seguinte, é apresentado aqui pela primeira vez: as cartas de amor, os relatos de estrada, as personagens da noite, o existencialismo, o comentário social, os hinos a Lisboa, e o mundano feito transcendência. Em toda a carreira de Jorge Palma, não há melhor exemplo da sua alquimia em transcender o prosaico que Yogi Pijama, uma canção que, acreditem, tem como ponto de partida um homem de pijama, a praticar yoga:
“Yogi Pijama
se deixas apagar a chama
estás virado pra o desastre
como uma vela sem mastro
ou um barco sem leme
condenado a andar à toa”
▲ O álbum "Qualquer Coisa Pá Música", gravado em Lisboa, no ano de 1979, foi o despertar de um compositor genial. Hoje, não está no streaming e é quase impossível comprar uma cópia física
“Yogi Pijama” era a alcunha que os companheiros da banda de bluegrass deram a Jorge Palma, que tinha o hábito particular de, ao acordar, respirar, esticar e empoleirar, seguindo as orientações do seu mestre, o livro Yoga for Housewives. Este petit nom é transposto para um estado de espírito desencaminhado, à deriva, que é contrariado pela elegância da melodia, pelo alento dos versos:
“E já que nós nunca estamos sós
vamos lá desatar os nós
e vamos lá chegar inteiros
onde quer que a vida nos leve e enquanto é tempo
deixa ver esse sorriso
que isso torna a pena mais leve”
Os músicos que acompanham Jorge Palma em disco, mais alguns amigos que foi colhendo por Lisboa, formam uma banda, O Bando, que apresentam informalmente as novas canções em bares e salas de concertos. O músico ainda desafia uma estudante universitária, no segundo ano de História, para os acompanhar nos coros, de nome Graça Lami, que seria, mais tarde, a mãe dos seus dois filhos. E a musa norte-americana cansou-se definitivamente deste país à beira-mar e regressou aos EUA, onde ainda hoje continua, como ceramista, na Carolina do Norte. “Ela era vegetariana, não fumava, não bebia, não falava português e chateou-se. No Natal foi visitar a família, continuamos a namorar por telefone e por carta, mas apaixonei-me por outra pessoa”, revelou Jorge Palma ao jornal SOL.
Há quem viva escondido a vida inteira
Qualquer Coisa Pá Música foi lançado no final de 1979. É difícil precisar uma data, as menções na imprensa são escassas, salvo alguns anúncios e uma publireportagem da editora NOVA: “A produção nacional é sem dúvida um dos mais difíceis e arriscados sectores das companhias de discos em mercados pequenos, como é o caso de Portugal”, admitem, enquanto apresentam os últimos lançamentos nacionais, sem qualquer contexto ou estratégia de lançamento: dois álbuns infantis — Os amigos do Sono e Ponha aqui o seu Pezinho — e o novo de Jorge Palma.
Jorge Palma está notavelmente ausente na imprensa especializada da época. É notável pela existência do dueto em Na Terra Dos Sonhos com Sérgio Godinho, que era, naquele momento, o músico mais celebrado pela crítica, ou ainda, pelos seus colegas de editora estarem nas listas de melhores do ano — Pintados De Fresco dos Sheiks e Cantar De Amigos de Paulo de Carvalho e Tozé Brito. E o próximo ano, 1980, seria de um cataclisma na indústria musical, que faria tábua rasa do mercado dos cantautores. Poucos meses após o lançamento de Qualquer Coisa Pá Música, no mesmo estúdio, o mesmo técnico de som, é responsável pelo álbum de estreia de um puto fininho, cheio de speed, Rui Veloso. “Foi completamente arrasado, esmigalhado, pelo álbum do Rui Veloso, o Ar de Rock. Pronto, ninguém ouviu o meu disco, nem os outros, rock português, com licença”, desabafou Jorge Palma, em entrevista à Mensagem de Lisboa.
E cá vou andando, há de ter dito, citando a canção, nas pedras do caminho, a traçar a sua direção. Ainda em 1980, regressou a França, de companhia renovada: Graça Lami, a sua mulher dos próximos vinte anos, que o acompanhou quando enfim, ano após ano, disco a disco, consegue alcançar o coração dos portugueses. Por aqui ficou a editora NOVA com um álbum no catálogo que, tudo indica, deve ter sido um fracasso de vendas. A juntar a outras apostas imprudentes, como a edição vanguardista dos Corpo Diplomático, a banda new wave dos músicos que formariam os Heróis do Mar, outra raríssima peça de colecionador.
O projeto ambicioso de José Manuel Fortunato afunda-se e, segundo uma investigação do musicólogo Tiago Hora, a editora NOVA foi comprada pela editora alemã Dacapo, que, por sua vez, faliu em 1987. De seguida, a espanhola Movieplay comprou o catálogo português da Dacapo. Não existem detalhes deste negócio, mas foi esta operação que permitiu, em 2002, a Movieplay de lançar a única reedição de Qualquer Coisa Pá Música, em CD, entretanto também desaparecido do mercado. Já devem imaginar como segue esta história: em 2015, a Movieplay foi declarada insolvente.
▲ As sessões de "Qualquer Coisa Pá Música" geraram uma obra-prima da música popular portuguesa, onde nasceram hinos do nosso cancioneiro como "Na Terra Dos Sonhos" e "Essa Miúda"
O catálogo Movieplay é uma celeuma indissolúvel que se arrasta há quase duas décadas. Esta é a mesma editora que detinha os originais e direitos conexos de produção da Rádio Triunfo e Orfeu, impedindo a disponibilidade, entre tantos outros, de álbuns de Adriano Correia de Oliveira, Tonicha ou Fausto Bordalo Dias. O imbróglio chegou à praça pública em 2017, quando o advogado Francisco Teixeira da Mota, representante de Fausto, revelou que os masters dos músicos (as gravações originais) estavam desaparecidos após a falência da empresa, que vendera as gravações e direitos a uma offshore norte-americana, a Multiform Investments.
A caixa de pandora foi reaberta quando a família de José Afonso anunciou a esperada reedição integral da discografia, em 2021, independentemente dos direitos conexos da Movieplay. Entra em cena um novo personagem, Frank Hessing, consultor alemão que diz representar os novos detentores do catálogo Movieplay, e ameaçou processar os descendentes de José Afonso e a editora encarregue das reedições. A verdade é que, à data de hoje, foi reeditada a discografia completa de José Afonso e, que se saiba, não entrou qualquer processo na justiça.
Jorge Palma não era um saudosista, desconhecemos a sua opinião sobre uma possível reedição de Qualquer Coisa Pá Música e uma eventual ameaça jurídica. Contudo, há quatro anos, para celebrar 50 anos de carreira, o músico reeditou o seu primeiro single, The Nine Billion Names of God, que está dentro do catálogo da Movieplay — e mal não veio ao mundo. É justo ponderar que, após a morte de Jorge Palma, os descendentes possam preparar uma reedição integral de um dos nossos maiores compositores. Não bastam as elegias a aclamar que Jorge Palma foi um compositor genial. Também é preciso poder ouvi-lo.