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Portugal ganhou, em média, 1,4 noites tropicais por ano ao longo das últimas duas décadas. Mas a distribuição não é igual no país. Junto à zona de fronteira com Espanha, há regiões onde o aumento é de mais quatro noites de temperaturas extremas por ano no mesmo período de tempo, um número quase três vezes superior. As contas não são diretas, porque a evolução não é igual ano a ano. Mas, em média, são mais 14 a 40 noites quentes anuais em 20 anos. É devido a tudo isso que os cientistas estão a medir o impacto do aumento do calor cada vez mais pela subida das temperaturas mínimas e não pelo aumento das máximas.
Um dos maiores problemas é que estas noites tropicais, com 20ºC a 24ºC, já não são episódios excecionais. Até este mês de outubro de 2026, houve 27 dias consecutivos de mínimas acima do normal. Em certas regiões portuguesas, tornaram-se um acontecimento frequente do clima e não uma anormalidade. Já há quem não se surpreenda sequer com as muitas noites, as tórridas, que superam os 25ºC. E os fenómenos mais extremos já produziram temperaturas mínimas superiores a 30ºC — noites equatoriais ou infernais.
A mínima mais alta já registada em Portugal é de 32ºC. Foi na noite de 26 de julho de 2004, em Faro. Mas, em junho do ano passado, Portalegre teve uma mínima extraordinária de 31,5ºC. Lisboa também não ficou longe de uma noite infernal. O recorde absoluto na capital é de agosto de 2018: 29,3ºC. Mas este ano, no dia 3 de julho, chegou-se aos 28,7ºC. Não podemos afirmar ainda que as noites equatoriais/infernais aumentaram 50%, 100% ou qualquer outro valor. Só haverá números oficiais com a publicação das séries longas do IPMA. Mas já não há dúvidas para dizer que aumentaram. Portalegre é um dos exemplos de até onde pode chegar esse calor noturno. Mesmo que a evolução histórica das noites acima de 25ºC e 30ºC ainda não tenha números.
Outra das questões preocupantes é a persistência destas noites quentes. Este ano ficará como exemplo, mesmo que ainda faltem mais de dois meses para o fim e não haja números finais. O IPMA identificou oito noites consecutivas acima de 20ºC ou mais nas estações de Faro e Portalegre. Houve ainda sequências de cinco dias consecutivos com mínimas superiores a 20ºC em zonas do interior e do Algarve. E, entre 11 de junho e 7 de julho, tivemos 27 dias seguidos com temperaturas mínimas acima dos valores normais.
Os números são tantos, e tão expressivos, que basta mostrá-los. Falam por si. Faro passou de cerca de 25 para 45 noites tropicais (entre os períodos de 1971/2000 e 1991/2020). Nesse mesmo período, o Funchal escalou de 51 para 71 noites destas. A capital madeirense teve um total de 129 noites tropicais em 2023, um recorde desde 1961, e 109 em 2024, o segundo valor mais alto de sempre. Em Faro, 49 das 92 noites do verão meteorológico do ano passado foram tropicais: cerca de 53% das noites de junho, julho e agosto, fazendo o cálculo a partir das três contagens mensais publicadas pelo IPMA.
Estes números são de dois grandes estudos sobre o aumento e o impacto das noites tropicais em Portugal. O primeiro — “Trends in seasonal surface air temperature in mainland Portugal, since 1941”, publicado em 2013 — analisou dados de 23 estações meteorológicas do IPMA. O segundo — Intensification of Heat Extremes and Spatial Variability of Rainfall in Mainland Portugal (1980–2025), publicado em julho deste ano — cruzou dados de 1001 pontos geográficos do país. Juntando os números oficiais do IPMA, ficamos com o retrato do crescimento das temperaturas extremas à noite. Para comparação, escolhemos cinco cidades: Funchal, numa ilha com um clima diferente; Faro, no Algarve, sempre uma zona mais quente; Portalegre, junto à fronteira, onde as noites quentes mais terão aumentado; e Lisboa e Bragança, com outras realidades do país.
Afinal o que dizem os estudos e o IPMA?
O verão de 2026 é um exemplo de uma tendência dos últimos 20 anos. Dos 23 novos extremos de temperatura em Portugal, 18 foram de mínimas e apenas cinco de máximas. É um número absolutamente relevante para compreender a importância cada vez maior do calor noturno. Outro dado para sublinhar: entre 11 de junho e 7 de julho, houve 27 dias consecutivos com temperaturas mínimas acima dos valores normais para a época. Não significa que tenham sido noites tropicais, acima de 20ºC. Mas mostra a persistência de noites quentes muito superiores ao normal.
Nas regiões onde as temperaturas mínimas habituais já se aproximam dos 20ºC, como o Algarve, por exemplo, uma pequena subida pode torná-las noites tropicais. Os relatórios do IPMA, que levam tudo isso em conta, permitem perceber a dimensão, no território, destas noites quentes e de alguns episódios extremos. A 30 de junho de 2025, por exemplo, cerca de 45% das estações do IPMA registaram uma noite tropical. Nesse mesmo mês, Olhão teve 16 noites com temperaturas mínimas iguais ou superiores a 20ºC. Em Faro, foram 14.
O mesmo período incluiu sequências de cinco dias consecutivos com temperaturas mínimas superiores a 20ºC em zonas do interior e do Algarve. Os dados mostram que, durante certos episódios, o calor noturno pode afetar simultaneamente uma parte significativa do país e prolongar-se ao longo de vários dias.
O estudo de 2026 analisou 1.001 pontos geográficos, numa grelha de cerca de nove quilómetros, relativos ao período entre 1980 e 2025. Em 23,38% desses pontos, cerca de 234, onde as noites tropicais aumentam mais rapidamente, com uma tendência de aumento superior a mais duas noites por década. Mas em 17,19%, onde as noites tropicais já são frequentes, a frequência média atinge ou ultrapassa as 20 noites tropicais por ano. A validação dos números contou com os dados de observações de 24 estações meteorológicas do IPMA.
Já o estudo histórico, que analisa o longo período de 1941 a 2006, reuniu observações de 23 estações meteorológicas do IPMA. Conclusões globais: nestes 65 anos, a tendência de aumento das noites tropicais foi de 1,1 por década. E houve uma intensificação significativa desse aquecimento depois de 1976 (antes de começar a análise do estudo mais recente). A principal descoberta é que os locais onde as noites tropicais são mais frequentes não são aqueles onde essas noites estão a aumentar mais depressa.
Olhando também para os números dos relatórios do IPMA, é possível fazer a comparação entre as cinco cidades portuguesas. E há grandes diferenças no número e na extensão das noites tropicais. Eram esperados números diferenciados no Funchal, já que a Madeira tem um clima muito próprio. Mas as diferenças são também acentuadas no continente. As regiões do interior não apresentam todas o mesmo comportamento. As cidades próximas do mar também têm registos muito divergentes. Uma cidade com tardes muito quentes não é aquela que regista mais noites tropicais. E a frequência de noites tropicais depende da geografia e meteorologia locais.
Começando pela exceção, que é o Funchal e a ilha da Madeira. Em 2023, o Funchal registou cerca de 58 noites tropicais acima da média climatológica. Em 2024, voltou a ultrapassar a média (53% acima), com cerca de 38 noites acima de 20ºC. A capital madeirense acumulou cerca de 95 noites tropicais acima da média histórica desde 1961. Tem quase quatro vezes mais noites acima de 20ºC do que Lisboa.
O Algarve mostra também como o fenómeno se concentra em sequências prolongadas. Em 2023, o número de noites tropicais ficou cerca de 81% acima da média. Em junho do ano passado, Olhão teve 16 noites tropicais: mais de metade das noites desse mês. Faro ganhou três semanas de noites tropicais anuais: a média aumentou 80%. Faro ultrapassou Portalegre na comparação entre as médias históricas: anteriormente, Portalegre apresentava maior frequência; agora Faro tem mais 11 noites tropicais anuais do que a cidade alentejana. E, se fizermos a comparação com Lisboa, são mais 25,4 noites tropicais por ano.
E temos de falar de Portalegre, bem junto à fronteira espanhola, o caso que comprova todas as teorias. A cidade tem mais 14,4 noites tropicais por ano do que Lisboa. Soma 18 vezes mais noites tropicais do que Bragança, o que faz um contraste importante entre duas cidades do interior. Mas o aumento não é uniforme. A alteração principal tem lugar em junho e agosto, enquanto julho permanece estável. O que mostra que a evolução das noites tropicais também está a mudar a distribuição do calor noturno ao longo dos meses.
Portalegre chegou à tal mínima de 31,5ºC em junho de 2025. Superou em 0,8ºC o recorde anterior, atingido em 2003 e igualado em 2018. Ou seja, teve três episódios (já documentados) de mínimas superiores a 30ºC em anos diferentes. O último foi o de junho, antes dos meses tradicionalmente mais quentes. E a cidade fica a cerca de 597 metros de altitude, o que mostra que isso não impede necessariamente temperaturas mínimas extremas. Mas um recorde também não demonstra uma tendência. Os casos de Portalegre não mostram por si só que estas noites extremas estão a aumentar.
Já Bragança teve um aumento de apenas 0,4 noites tropicais por ano. Mas a subida percentual é maior do que a o número absoluto pode sugerir. É um bom exemplo de como uma variação percentual pode parecer importante, mesmo sem representar muitos dias adicionais.
Há outros dados gerais relevantes. Agosto ultrapassou julho e passou a ser o mês com mais noites tropicais. Junho e agosto concentram cerca de 79% do aumento de noites tropicais — junho ganhou 1,6 noites por ano, cerca de 37%; e agosto 1,7 noites, cerca de 21%. Em julho quase não houve alterações — manteve as 9,1 noites tropicais. E em setembro até houve uma pequena descida. Mas maio mais do que duplicou a frequência média destas noites quentes, embora o aumento absoluto seja inferior a uma noite. Este aumento de noites tropicais em maio e outubro mostra que o fenómeno não se limita ao período central do verão.
Pergunta central: por que é que as noites não arrefecem? A resposta mais óbvia: porque o aquecimento global aumenta a probabilidade de a temperatura mínima ultrapassar os 20ºC. Depois as explicações mais em detalhe: a circulação de massas de ar quente pode provocar episódios extremos, como o de Portalegre ou Faro; a proximidade do mar influencia o arrefecimento noturno, mas de formas diferentes ao longo da costa, consoante a região; a altitude não garante arrefecimento noturno e, mais uma vez, o exemplo de Portalegre exige considerar também a circulação atmosférica, o vento e o relevo; as cidades podem acumular calor durante o dia, criando ilhas de calor urbano, e aumentar a temperatura noturna, porque não conseguem libertar todo o calor retido durante a noite; e a humidade agrava o desconforto, embora não conte para a definição de noite tropical. Em resumo, o aquecimento global cria as condições de fundo e a geografia e a meteorologia determinam a intensidade do fenómeno em cada local.
As noites tropicais são sobretudo uma questão de persistência do calor. O Algarve e a Madeira são os exemplos portugueses mais claros. Lisboa ocupa uma posição intermédia, mas muito acima do Porto, apesar de estarem ambos no litoral. Beja e Évora demonstram que as regiões com tardes muito quentes não são as que acumulam mais noites tropicais. A Madeira é diferente do continente devido à influência marítima, à latitude e à temperatura do oceano, que dificultam o arrefecimento noturno. Por isso, o Funchal teve um total de 129 noites tropicais em 2023 e 109 em 2024, mais de um terço das noites de todo o ano.
2025 foi o verão mais quente em Portugal continental desde 1931 e teve 10 novos extremos de temperatura mínima. 2026 teve o quarto junho mais quente desde 1931, e a mínima média ficou 1,45ºC acima da normal: com agosto a ter a oitava mínima média mais elevada desde 2000. A tendência é que a cada 10 anos haja mais 1,1 noites tropicais por ano. A cada 20 anos mais 2,2 noites. E a cada 30 anos: +3,3 noites. Números que aumentam muito em algumas regiões. E que mostram uma evolução sem travões.
E o que é que se passa na Europa?
O fenómeno não é português. Acompanha uma tendência (preocupante) europeia de aumento e expansão geográfica das noites quentes. Em Espanha, as cidades mediterrânicas tiveram quase meses inteiros de noites tropicais no ano passado. Em França, a persistência também foi impressionante: durante a onda de calor de 19 de junho a 4 de julho de 2025, Narbonne teve 15 noites tropicais, Nîmes 14 e Aix-en-Provence 12. Na outra onda, entre 8 e 18 de agosto, Nice teve 11 noites quentes consecutivas.
A agência de meteorologia de Espanha (AEMET) define as noites tórridas como aquelas em que a mínima é igual ou superior a 25ºC. Nas dez maiores capitais espanholas, a frequência dessas noites multiplicou-se por dez entre 1984 e 2019. As mais quentes ficam na costa do Mediterrâneo: Valência, em junho de 2025, teve 26 noites tropicais no mesmo mês, contra 24 em Alicante e 25 em Castellón — recordes de junho nas três cidades. Em Barcelona foram 24 noites tropicais em junho, quatro delas com mínima igual ou superior a 25ºC.
O número de noites tropicais tem aumentado na Europa desde a década de 1980. Em 2024, o sudeste europeu registou uma frequência de noites tropicais quase três vezes superior à média regional. Em 2025, a Península Ibérica e algumas zonas costeiras mediterrânicas foram as que apresentaram as maiores anomalias. E era no Mediterrâneo que se concentravam alguns dos episódios mais longos. Mas também não existia uma evolução uniforme: em 2024, partes de Portugal tiveram até cinco noites tropicais abaixo da média, apesar de o conjunto da Europa ter registado o segundo valor mais elevado.
A Agência Europeia do Ambiente calcula que algumas regiões do sul da Europa podem atingir até 100 noites tropicais por ano no final do século — isto num cenário de emissões elevadas. Para já, o território europeu afetado por mais noites quentes aumentou 15 pontos percentuais, de 20% para 35%. Em proporção, estamos a falar de uma subida de 75%. O sudeste europeu teve 23 noites tropicais no verão de 2024, mais 15 do que o habitual, quase o triplo da média — e com mais sete noites do que o máximo anterior. Portugal faz parte desta transformação climática — quer em frequência, quer em expansão das noites tropicais.
Durante a longa vaga de calor do início do verão de 2025, a temperatura média da superfície do Mediterrâneo era de 24ºC. Um valor cerca de 0,5ºC acima da média de 1991–2020. A Météo-France liga o mar muito quente à persistência das noites quentes junto à costa mediterrânica.
Os problemas para a saúde
As noites tropicais são ainda uma questão — muito importante — de saúde. O corpo perde durante a noite uma oportunidade fundamental para recuperar do calor acumulado durante o dia. A combinação de dias muito quentes com noites também marcadas por muito calor é especialmente relevante em episódios prolongados de temperaturas elevadas. Com picos de mortalidade associados.
A DGS identificou três períodos de excesso de mortalidade coincidentes com episódios de calor extremo este ano. Mais 62 mortes a 16 de junho, em onda de calor; mais 555 mortes de 2 a 8 de julho, na onda de calor mais prolongada e com mais impacto do ano; e mais 63 mortes a 23 de julho, novamente em onda de calor. São óbitos relacionados com o calor, não diretamente atribuídos exclusivamente às noites tropicais. O relatório, publicado a 2 de outubro, indica que estes excessos se concentraram sobretudo na população com 75 ou mais anos.
Na Europa Ocidental, o calor esteve associado a mais de 34.600 mortes em cinco países, segundo estimativas divulgadas em outubro. Mas o balanço europeu ainda não está definitivamente fechado. Em 2025, um estudo publicado na Nature Health apontava 24.572 mortes relacionadas com o calor. E entre 2000 e 2025, o total de óbitos ligados ao aumento das temperaturas terá sido de quase meio milhão (430.365).
Os idosos, crianças e pessoas com determinadas doenças, especialmente as respiratórias, estão entre os mais vulneráveis. A exposição prolongada ao calor pode afetar o sono, a saúde cardiovascular e a capacidade de repor os níveis do organismo. O calor noturno prolonga a exposição térmica para além do dia e depois condiciona a recuperação fisiológica. A qualidade e a duração do sono e o arrefecimento de todos os órgãos ficam em causa. Isto em cidades que se transformaram em ilhas de calor e não conseguem elas próprias arrefecer. O risco depende também da humidade, da ventilação e das condições das próprias casas. Casas que podem conservar calor durante horas e onde a capacidade de arrefecimento não é igual para todas as famílias.
O problema não é ter de dormir mal numa noite quente. É acumular o calor durante o dia e durante a noite. E cada vez mais, durante muitos dias seguidos.
[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]