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▲As influências cubanas que já tinha ajudaram Frankie Chavez a compor a banda sonora de "Os Escândalos de uma Revolucionária"

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

▲As influências cubanas que já tinha ajudaram Frankie Chavez a compor a banda sonora de "Os Escândalos de uma Revolucionária"

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

Frankie Chavez: o guitarrista que tinha medo de cantar, o cantor que não quer deixar de tocar

Começou "porque sim", brincou às bandas, levou-as a sério, questionou-se, redescobriu o prazer da música e é agora o autor da banda sonora do Podcast Plus “Os Escândalos de uma Revolucionária".

Foi no filme Os Reis do Mambo (1992) que Frankie Chavez se cruzou pela primeira vez com os ritmos e as harmonias que lhe abriram as portas para a música cubana. Descobriu depois Buena Vista Social Club (1999) e Compay Segundo e nunca mais parou de procurar referências. Foi por isso que lhe deu ainda mais gozo assinar a banda sonora de Os Escândalos de uma Revolucionária, o mais recente Podcast Plus do Observador que conta a história de Annie Silva Pais, a filha do último ditador da PIDE que fugiu do marido diplomata com a ajuda de Fidel Castro e se juntou à revolução cubana.

O mistério do desaparecimento de Annie, a separação sem aviso e uma nova vida completamente antagónica da que tinha tido até ali foram os pontos essenciais que quis traduzir para o tema central. “Tentei, com as bases que tinha de música cubana e coisas que já tinha experimentado, fazer uma mescla de tudo, focando-me precisamente nesses detalhes emocionais de mistério, de narração dramática e de romance”, explica ao Observador.

[o trailer de “Os Escândalos de uma Revolucionária”:]

Francisco, Frankie ou França — responde a qualquer um dos nomes, mas o mais fácil é começar por aquele que está no cartão de cidadão. Francisco Chaves nasceu em Lisboa, cresceu no Restelo e é o mais novo de quatro irmãos. Ainda assim, teve quase vida de filho único, já que o irmão mais “próximo” é, apesar disso, oito anos mais velho (os outros têm dez e 12 anos a mais). “A minha irmã, que é a mais velha, era quase uma segunda mãe para mim”, recorda agora.

Andava de bicicleta a toda a hora, ia a pé para a escola — que ficava na rua onde vivia — e passava horas a explorar o pinhal, mesmo em frente. Não adorava estudar, mas gostava de estar na escola e foi aí que teve o primeiro contacto com uma guitarra. “Estava no quarto ano, tinha nove anos e tivemos umas aulas extracurriculares. Mais tarde vieram uns professores de fora e começámos a ter aulas de guitarra clássica, já não era só aprender a colocar os dedos nas cordas.”

Em casa ouvia aquilo que herdava dos irmãos: Rolling Stones, Lou Reed, David Bowie. “Também fui buscar influências ao fado, porque era o que o meu pai ouvia, mas a minha praia era o rock.” A avó paterna tinha um piano e ele chegou a experimentar umas coisas. Mais tarde, quando o instrumento foi herdado pelos pais, tentou recuperá-lo, mas não havia muito a fazer. “Estava bastante degradado. O técnico disse-me: ‘Descasque isto, aproveite só a caixa e faça um bar’.”

Começou por tocar com os amigos por brincadeira e depois pertenceu a uma banda de garagem. “Literalmente de garagem, ensaiávamos numa garagem em Linda-a-Velha. Essa experiência já não a vivi com amigos. Alguém disse que eu tocava bem, eles estavam à procura e eu fui, sem conhecer ninguém, tocar guitarra.”

Os temas eram originais, embora nenhum de Frankie Chavez. “Quando entrei, as canções já estavam feitas.”

Por essa altura, estudava numa escola em Linda-a-Velha que dava equivalência ao conservatório, mas acabou por não aproveitar. “Tinha uma hora de instrumento, uma hora de coro e duas de formação musical. Tinha de cantar em alemão e coisas do género, o que não me agradava. Se tivesse feito a escola toda ali, poderia ter o curso do conservatório, os oito graus. Mas fui até ao terceiro grau e desisti, estupidamente. Estava naquela fase parva dos 16 ou 17 anos.”

Ainda no secundário, experimentou a área de saúde. Com ambos os pais médicos, uma clínica da família e um irmão a estudar farmácia, parecia uma escolha lógica — “mas depressa percebi que não era para mim”.

Escolheu gestão no ISG (Instituto Superior de Gestão), um curso que lhe pareceu ser versátil e capaz de abrir portas em qualquer área. No quarto ano embarcou, como tantos outros jovens, no programa Erasmus e aí redescobriu a música. “Quando percebi que ia ter muitas horas livres [na faculdade], em vez de não fazer nada, resolvi ocupar o tempo de outra maneira. Estudei seis meses numa escola chamada Taller de Músics. Queria ter alguma formação no jazz e nos blues.”

“A primeira vez [a cantar ao vivo] não foi lá muito feliz. Estava muito envergonhado e fora do meu elemento porque, como costumo dizer, sou guitarrista antes de ser compositor ou vocalista"

Foi precisamente em Barcelona que começou a tocar ao vivo. “A primeira vez não foi lá muito feliz. Estava muito envergonhado e fora do meu elemento porque, como costumo dizer, sou guitarrista antes de ser compositor ou vocalista. Estava uma miúda a cantar e eu comecei simplesmente a fazer as segundas vozes. Às tantas comecei eu a cantar.”

Acabou por fazer mais dois concertos e, de regresso a Lisboa para o último ano do curso, estreou-se em bares. Nessa altura ainda cantava baixinho, tinha vergonha de se expor.

No tempo que lhe faltava até acabar os estudos, percebeu que queria voltar a viver fora do país. Decidiu fazer uma pós-graduação em marketing e, se possível, num sítio inesperado. “Eu e um amigo queríamos um sítio onde se falasse inglês. Pensámos nos EUA, na Califórnia, mas também pensámos na Austrália. Era mais barato ir para a Austrália e foi assim que desempatámos.”

A experiência durou um ano e meio. Aí, ganhava mais a tocar na rua do que em bares e isso deixou-o um pouco mais desinibido. “Em vez de estar a tocar em casa, ia para a rua, abria a caixa da guitarra e pingava dinheiro. Além disso, fiquei com uma prática enorme de improvisação porque às vezes estava a tocar 20 minutos seguidos. Se as pessoas estão ali e não arredam pé, não podes dizer que a música acabou.”

De novo de volta a Lisboa, juntou-se ao negócio da família e ficou a trabalhar na clínica entre 2006 e 2012. Em paralelo, tocou e gravou discos. O primeiro EP foi editado em 2010 e foi por essa altura que nasceu Frankie Chavez. Até aí, apresentava-se como França, alcunha que ganhou no quarto ano para ser possível distinguir os dois Franciscos da turma e que ainda hoje é usada por amigos e familiares.

“Como cantava em inglês, um amigo sugeriu que fosse um nome internacional e atirou para o ar Frankie Chavez. Depois, o Henrique Amaro [radialista na Antena 3, divulgador de música portuguesa e o responsável pelas coletâneas Optimus Discos], ligou-me e disse: ‘Pus o teu nome num concerto em Alcântara, com o Tó Trips’.”

Fez essa atuação, apareceu logo outra a seguir e o nome temporário foi ficando até se tornar definitivo. O primeiro disco de originais, Family Tree, ficou disponível um ano mais tarde. “Quando estava prestes a esgotar as férias com tudo isso, marcaram-me uma tournée com dez concertos na Europa, entre Alemanha, Países Baixos e França. Aí disse ao meu irmão que estava na altura de passar a pasta e pedi uma licença sem vencimento.”

▲ Depois de "Alcântara" (2023), regressa ao inglês com um álbum que está agora a gravar

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

Editou Heart & Spine (2014) e Double Or Nothing (2017). Entretanto, num momento decisivo que atribui às coincidências felizes da vida, cruzou-se com Peixe (guitarrista dos Ornatos Violeta e Pluto) e nasceu o projeto Miramar. Ambos tinham estado envolvidos no álbum homónimo dos They’re Heading West (2015) e, quando Frankie Chavez ouviu o resultado final, contactou o outro guitarrista, mesmo sem se conhecerem pessoalmente. “Mandei-lhe uma mensagem a dizer ‘Grande cena, grande disco’. Não sei se teve impacto, mas quando ele foi convidado para o festival Guitarras ao Alto, perguntou-me se queria ir com ele.”

Seguiram-se mais atuações e ambos perceberam que trabalhavam tão bem juntos que não tinham vontade de parar, mesmo com Peixe a viver no Porto e Frankie Chavez com morada em Lisboa. Editaram Miramar em 2019 e uma tournée em Itália que, devido à pandemia de Covid-19, ficou adiada para 2021. Entretanto editaram mais discos (Miramar II e Miramar III) e recentemente assinaram a banda sonora de uma série sobre Carolina Beatriz Ângelo, 2513 — O Número Que Deu Voz às Mulheres, que há-de estrear-se nos próximos meses.

Pouco tempo antes de o mundo se fechar em casa, compôs também um tema para o Festival da Canção de 2019, que terminou em quarto lugar. Apesar de a interpretação de Mundo a Mudar ter ficado a cargo dos Madrepaz, foi Frankie Chavez que a trabalhou. “Foi a primeira vez que colaborei com o Pedro Puppe [autor da letra] e aí percebi que, afinal, não me sentia mal a cantar em português.”

“Durante muitos anos tinha de ser autossuficiente com a música. Fiz alguns movimentos estratégicos que não foram os ideias, mas isso faz parte do caminho, e agora voltei a encarar a música quase como um hobby"

Durante o confinamento só foi capaz de criar um tema, precisamente em português. “Mandei-a ao Pedro, dos Oioai, que é um amigo e escreve muito bem em português, e ele mandou-me uma letra passados um dia ou dois. Comecei a trabalhar e comecei logo a sentir-me bem. Naquela altura andava um bocado desmotivado e aquilo entusiasmou-me.”

Na casa onde vivia nessa fase, em Alcântara, montou um mini estúdio com um computador, uma placa de som, três ou quatro guitarras e começou a escrever. “Tinha uma ideia à noite e no dia seguinte, como não havia mais nada para fazer, pegava nessa ideia.”

Começaram a surgir mais ideias em português e, ao fim de dois meses, tinham nascido oito ou nove temas — melhor ainda, eram temas que não tinha vergonha de cantar. “Ouvia muito Jorge Palma e, quando comecei a escrever, inevitavelmente ia ouvir os discos dele para perceber soluções, eram as minhas aulas práticas.”

Aliás, há uma ligação a Jorge Palma bem mais antiga e especial. Frankie Chavez foi baixista da primeira formação dos Toranja, incluída na coletânea Optimus 2001 que pretendia juntar bandas emergentes a nomes consagrados. “Juntaram os Toranja ao Jorge Palma. Nós tocámos Fome (Nesse Sempre) e depois o Jorge Palma foi lá gravar o piano. Imagina três putos a perceberem que tinham um tema gravado com o Palma.”

▲ Em 2014 no Super Bock Super Rock e em 2022 num concerto de apoio à Ucrânia

© Fábio Pinto

Alcântara chegou às lojas em 2023 e, não conseguindo desfazer-se de alguns medos antigos, Frankie Chavez estava convencido de que nunca seria capaz de o apresentar ao vivo por ser cantado em português. “Até pensei que devia ter saído com um heterónimo, mas depois a minha agente marcou-me uma série de datas.” Porém, depois do verão, mais nada. “Foi um disco em que não olhámos a meios, gravámos no Porto, num estúdio do caraças. E depois, zero. Depois da pandemia, as oportunidades diminuíram ainda mais. Também percebo, os programadores queriam apostas seguras. Podem dizer-me assim: ‘Olha, grava músicas que a malta ouça mais’. Claro, é válido. Mas, por exemplo, o Bons Sons é um ótimo exemplo de festival onde há espaço para todos. Os promotores deviam prestar mais atenção a isso.”

Com quatro filhos (dois rapazes de 16 e 13 anos e raparigas gémeas de dez), contas para pagar e as obrigações naturais da vida adulta, percebeu que não dava para contar só com a música. Regressou ao negócio da família, onde agora trata da gestão de vários espaços, e a decisão trouxe-lhe uma leveza inesperada.

“Durante muitos anos tinha de ser autossuficiente com a música. Fiz alguns movimentos estratégicos que não foram os ideias, mas isso faz parte do caminho, e agora voltei a encarar a música quase como um hobby, algo que tem de servir puramente para me dar prazer. O Peixe disse-me uma vez uma coisa que guardei para a vida: ‘O entusiasmo é a melhor ferramenta que há’. E é isso que sinto, é um prazer estar a tocar.”

Está atualmente a finalizar um álbum cujo primeiro single deverá ser partilhado no final de outubro. Canta de novo em inglês, como se fosse um regresso àquilo que o definiu no início da carreira. “Tentei ir um bocadinho buscar aquela essência de fazer música pelas razões certas. Mesmo que a malta não goste, se eu gostar e me trouxer felicidade, acho que isso é que importa. Tentei muito agarrar-me a esta ideia outra vez.”

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