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Kosuth, Beuys, Nunzio di Stefano, Baselitz, Cocteau, Pommereulle, Charchoune são alguns dos destaques internacionais do leilão que a Veritas, em Lisboa, leva segunda-feira a efeito, a partir da coleção de arte contemporânea de Artur Jorge
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Kosuth, Beuys, Nunzio di Stefano, Baselitz, Cocteau, Pommereulle, Charchoune são alguns dos destaques internacionais do leilão que a Veritas, em Lisboa, leva segunda-feira a efeito, a partir da coleção de arte contemporânea de Artur Jorge

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Kosuth, Beuys, Nunzio di Stefano, Baselitz, Cocteau, Pommereulle, Charchoune são alguns dos destaques internacionais do leilão que a Veritas, em Lisboa, leva segunda-feira a efeito, a partir da coleção de arte contemporânea de Artur Jorge

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Futebolista, treinador e "amante do belo": as histórias da coleção de arte de Artur Jorge, antes do leilão final

Na maioria, são obras adquiridas fora de Portugal e é a última vez que a coleção será licitada (na segunda-feira). Descobrimos-lhe os detalhes, com a ajuda de quem conheceu e viveu com o "Rei Artur".

Até hoje, Artur Jorge é nome de futebol. Porém, o “Rei Artur”, como também era conhecido, foi o mais incomum dos heróis desportivos. Amante de arte, apaixonado por poesia e literatura, fã de jazz e música clássica e um cinéfilo de monta, o jogador-treinador nunca pertenceu, de facto, à “tribo do futebol”. Agora, um último leilão da sua coleção de arte volta a demonstrá-lo.

Kosuth, Beuys, Nunzio di Stefano, Baselitz, Cocteau, Pommereulle, Charchoune são alguns dos destaques internacionais do leilão que a Veritas, em Lisboa, leva segunda-feira a efeito, a partir da coleção de arte contemporânea de Artur Jorge. Ao lado do chamariz internacional estão também artistas nacionais de grande qualidade, com Vieira da Silva a encabeçar uma longa lista que vai de Cabrita Reis e Julião Sarmento a Manuel Caeiro, Cesariny, Jorge Martins, António Sena, ou ainda de João Penalva ou João Maria Gusmão a Ana Jotta, passando por núcleos fortes de Cutileiro, Leiro e Gonçalo Duarte.

“Não se trata de uma coleção particularmente flashy, não era esse o interesse dele, mas sim uma coleção que mostrava, em relação a alguns artistas, muitas peças do Manuel Caeiro, o núcleo muito interessante do Gonçalo Duarte e que se constituem como novidades por não terem sido apresentadas antes. Também tem muitas coisas do Cutileiro”, explica ao Observador Igor Olho Azul, CEO da leiloeira lisboeta a operar no mercado desde 2011. “Os períodos mais fortes da arte aqui apresentada são os das décadas de 70 e 80 do século passado, e depois compras que se situam há 20 anos, na primeira década do novo milénio”, continua Igor.

O leilão da Veritas é o terceiro momento em que a coleção do antigo jogador e selecionador nacional está à venda. Antes deste, aconteceu um primeiro leilão em 2010, na Christie’s, em Paris, no qual se venderam as “joias da coroa” e um segundo em 2018, já em Lisboa, na leiloeira Aqueduto, no qual apareceram algumas das peças que agora se vendem e outras muito diferentes.

Artur Jorge adquiriu grande parte da coleção fora de Portugal, nomeadamente em França, talvez mesmo 80% do seu acervo artístico tenha sido comprado no estrangeiro

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

A coleção de arte de Artur Jorge terá chegado a reunir meio milhar de obras. No entanto, obedecendo a uma dinâmica de afetos, nunca terá tido uma forma estanque e, de cada vez que ocorria uma venda, esse acervo reimaginava-se e tomava caminhos diferentes. “Uma coleção não é uma coisa que se tem, é uma coisa que se vai fazendo. Esta coleção foi-se fazendo ao longo do tempo e foi-se trocando. Uma coisa que ele gostava de fazer era trocar quadros com outros colecionadores. Dava um Tapiès em troca de uma outra obra. Aconteceu assim algumas vezes com amigos colecionadores”, conta Helena Melo Teixeira, viúva de Artur Jorge.

“A partilha era uma coisa de que ele não abdicava. E uma coleção era para partilhar. Se alguém lhe dissesse que gostava muito de uma determinada obra, ele era capaz de lhe dar essa obra. Aconteceu algumas vezes. Era uma pessoa muito generosa. As coisas tinham para ele o valor afetivo e valiam pelo prazer de desfrutar delas. Partilhá-las com os amigos dava-lhe tanto prazer quanto tê-las, sobretudo com os amigos que ele sabia que tinham um prazer idêntico em admirar arte. Era uma maneira de espalhar o seu afeto pelas pessoas e pelas coisas”, refere Helena, partilhando com o Observador o modus operandi de Artur Jorge enquanto colecionador.

“O meu marido começou a colecionar muito cedo, com aquilo que podia pagar. Começou a comprar mais nos anos 80, gostava de arte contemporânea e de arte moderna e a determinada altura ficou adito da arte contemporânea. Já era um adito da poesia e dos livros, do futebol, do cinema e da música. Transferiu também para a arte contemporânea uma parte da sua sensibilidade e da sua paixão. O meu marido gostava de colecionar tudo. Começou por colecionar caixas de fósforos, quando era estudante em Coimbra. E tinha tantas caixas de fósforos que um dia tinha tantas nos bolsos que lhe arderam as calças e os fósforos. Era um colecionador compulsivo. Se ia à praia, lá ia apanhar pedras pretas ou brancas e depois fazia um montinho, pegava num prato qualquer e punha-as lá, ainda lá estão. Quem diz pedras e pedrinhas, diz conchas para servirem de cinzeiro cá fora, ou livros. Penso que devemos ter umas dez edições de O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil. E outras coisas do Herberto Helder, de quem ele era um fã incondicional. Creio que temos tudo o que saiu.”

“A vida vai correndo, as casas começam a ficar mais pequenas, nas paredes já não cabe mais nada. E o meu marido deixou de comprar quando ficou doente. Foram longos anos doente e mesmo assim ainda havia gente que dizia que havia coisas que ele já tinha comprado e iam-se buscar. Porque ele às vezes comprava e não me dizia”, diz Helena Melo Teixeira.

Helena Melo Teixeira lembra como um impulso por uma obra podia levar Artur Jorge a adquiri-la, ou a adquirir muitas obras, era preciso era gostar. “Entretanto, a coleção foi-se fazendo, foi-se compondo e recompondo. O Artur Jorge sempre foi muito compulsivo a comprar. Todas aquelas obras do Gonçalo Duarte, 22 ao todo, por exemplo, foram compradas por ele em 1988, se não me engano, eu não estava em Paris nessa altura, numa exposição num banco que existia à época, o Crédito Predial Português. O meu marido foi à exposição porque se tratava de um artista português e ainda por cima surrealista, que era a fase artística que lhe interessava mais, assim como o dadaísmo. Começou por pequenos formatos, teve a paixão dos papéis. A exposição percorria os corredores do banco e eventualmente o hall. Gostou tanto do que viu que perguntou: ‘O que é que ainda não foi vendido?’ E comprou tudo o que faltava vender. Por isso é que temos tantos Gonçalo Duarte. E ainda ficaram alguns lá em casa. Deixei fica-los para mim…”

No leilão da Veritas, a maioria das peças são muito acessíveis. Há peças abaixo dos mil euros, não muitas, mas muitas entre os €1500 e os €4000 como base de licitação. Grandes nomes e peças mais apetecíveis também com licitações aceitáveis a rondar os 10 mil e os 15 mil euros. Titled (Art as idea as idea) [Nothing in Danish], uma obra de Joseph Kosuth (n. 1945), é a peça mais cara da coleção que vai a leilão com uma base de licitação entre os 20 mil e os 30 mil euros. Ao lado de Cubisme Ornemental, um óleo de Serge Charchoune (1888 – 1975), que tem a mesma licitação indicativa.

“Há peças para todos os gostos e para todos os patamares de valor”, frisa o CEO da Veritas. Porém, pessoalmente, Igor Olho Azul inclina-se para a peça de Kosuth, e tem uma predileção pela peça de Nunzio di Stefano, precisamente a que escolheu para capa do catálogo do leilão, Senza titolo, uma escultura em madeira datada de 1998, que pode ficar-se abaixo dos 10 mil euros. “São peças que raramente aparecem no mercado português, onde muitos nem conhecem o artista. Mas acho que aqui o interesse maior que provavelmente vamos sentir terá a ver com o núcleo do Gonçalo Duarte e com as peças do João Cutileiro. O Manuel Caeiro é um artista muito procurado e aqui tem a particularidade de ter muitas peças dos anos 80 que não são fáceis de encontrar, e peças com linguagens muito diferentes e que muitos colecionadores procuram no Caeiro e isso vai ser seguramente muito interessante. No entanto, a peça do Charchoune é uma peça muito difícil de aparecer no mercado em Portugal que penso que vai ter imenso interesse”, afirma ainda Igor Olho Azul.

“Sempre que mudávamos de casa, a forma de arrumar os objetos era com ele”

Este leilão é composto por m leque de peças muito diferente daquele que caracterizou o primeiro momento de venda da coleção de Artur Jorge. Em 2010, a Christie’s, em Paris, vendia o crème de la crème da coleção, pelo menos no que diz respeito ao prestígio internacional dos seus autores. Falamos de nomes como Pablo Picasso, Andy Warhol, Marc Chagall, Salvador Dalí, Joan Miró, Jackson Pollock, Jean Michel Basquiat ou Henri Matisse, Karel Appel e Gerhard Richter. As obras a leilão, cerca de uma centena, foram então avaliadas em mais de dois milhões de euros, tendo a venda rendido mais de €1,5 milhões.

A peça mais cara foi uma escultura do francês Yves Klein (Éponge, de 1958/59), arrematada por 253 mil euros, seguiu-se uma tela do pintor e cineasta nova-iorquino Julian Schnabel, comprada por 91 mil euros. A preços altos também foram vendidas obras de Francis Picabia, dois desenhos, bem como, também em papel, trabalhos de Picasso, Kandinski, Max Ernst ou Man Ray.

“Esta é uma coleção de alguém que é apaixonado por arte. O Artur Jorge tinha um amor e um interesse pela arte que eram completamente genuínos", diz Igor Olho Azul, da Veritas

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Os pequenos formatos em papel foi o que se vendeu melhor na Christie’s. Era uma coleção única. Fizemos essa primeira venda em 2010, porque, nessa altura, houve algumas circunstâncias familiares que a impuseram. E achámos que essa era a melhor coisa a fazer. Foi uma ótima, fabulosa exposição [que aconteceu no CCB, em Lisboa, em novembro de 2010, no momento anterior ao leilão] e um belíssimo catálogo. Se fosse hoje, não a teria feito, mas naquela altura teve que ser”, recorda a viúva de Artur Jorge.

“A vida vai correndo, as casas começam a ficar mais pequenas, nas paredes já não cabe mais nada. E o meu marido deixou de comprar quando ficou doente. Foram longos anos doente e mesmo assim ainda havia gente que dizia que havia coisas que ele já tinha comprado e iam-se buscar. Porque ele às vezes comprava e não me dizia”, continua a Helena Melo Teixeira, explicando o segundo momento de venda da coleção, desta feita em 2018, para depois recuar mais atrás no tempo e explicar como se acomodavam as peças de arte nas várias casas que o casal foi tendo ao longo dos anos.

“Guardávamos as peças nas várias casas que tínhamos. A casa do Porto, onde ele começou a coleção, estava cheia, a abarrotar de coisas. A casa do Estoril também, a casa da Rua da Misericórdia, onde ia o sr. Delfim da Zenoficinas, do Porto, e passava três dias lá em casa a pendurar os quadros, trazia o seu berbequim e lá estava a colocar tudo no sítio que o meu marido escolhia. Sempre que mudávamos de casa, a forma de arrumar os objetos era com ele, os livros, só no Algarve, devo ter para aí 15 mil volumes contando por alto, aqui em Lisboa outro tanto, mais não sei quantos encaixotados. Sempre que eu perguntava onde é que púnhamos as coisas ele respondia: ‘Logo se vê!’ E mudámos muitas vezes de casa. Costumo dizer que vivi em não sei quantos países, mas fiz talvez o triplo das casas, porque quando gostava mais de outra trocava. Não me importo nada de fazer mudanças.”

“Conheci o Artur Jorge quando trabalhava na Galeria Nasoni. Era um colecionador muito diferente dos colecionadores de agora. Hoje, quando se fala em arte, as pessoas pensam logo no investimento que isso pode representar, em quanto vale cada peça. Ele não pensava nisso, investia no seu gosto, comprava trabalhos que tinham alguma coisa a ver com ele, que o tocavam de alguma maneira", diz o galerista José Mário Brandão.

De sítio para sítio, mais viagens e leituras, a vida de Artur  Jorge foi-lhe determinando gostos, fê-lo crescer, mudar, aprender. É importante recordar o seu percurso. Artur Jorge Braga Melo Teixeira nasceu a 13 de fevereiro de 1946, no Porto. Estudou Filologia Germânica na Universidade de Coimbra, entre 1965 e 1969, ao mesmo tempo que jogava futebol e se sediava na república Ninho dos Matulões, conhecida por ser antirregime e estar ligada à revolta dos estudantes de 1969. Jogou como avançado pelo FC Porto, Académica, Benfica e Belenenses, tendo terminado a carreira como futebolista em 1978. Foi 16 vezes internacional pela seleção portuguesa e, como treinador, passou por 18 equipas, incluindo três seleções (Suíça, Portugal e Camarões), das equipas destaque para o Porto, o Paris Saint-Germain (PSG) e o Benfica. Com a bola nos pés venceu quatro campeonatos nacionais e duas Bolas de Prata (melhor marcador), sempre ao serviço do Benfica, e como treinador ganhou quatro campeonatos nacionais (três com o Porto e um com o PSG) e uma Taça dos Campeões Europeus (pelo Porto).

“Ele foi sempre evoluindo no gosto. Gostava primeiro dos pequenos formatos e do papel, achava que eram muito genuínos e muito simples, depois gostava um pouco de tudo, adquiria originais, múltiplos, e tinha muito orgulho na sua coleção, que tinha sido feita com o esforço do seu trabalho, não a recebeu de ninguém. Houve peças que não pôde imediatamente comprar, mas algum tempo depois já pôde. Uma coleção também é feita de amor, de ligação e de suor, no sentido do esforço, o escolher, vou fazer isto e não vou fazer aquilo. Gostava de pintura mas também muito de escultura e tínhamos muita escultura. E teve várias paixões, Francisco Leiro, Jaume Plensa [cujas peças vão agora a leilão]. Mas tivemos coisas do Arman, Yves Klein…”

Da direita para a esquerda: Artur Jorge, no banco do Belenenses, que treinou na época de 1981-82, e Nelo Vingada

Acácio Franco / Global Notícias

Artur Jorge adquiriu grande parte da coleção fora de Portugal, nomeadamente em França, talvez mesmo 80% do seu acervo artístico tenha sido comprado no estrangeiro. “Tivemos um grande amigo em França, o Marcel Fleiss, da Galerie 1900 2000, que era uma pessoa que gostava de muitas coisas de que o meu marido também gostava, de jazz, de futebol, de fotografia e de box, e era um galerista. Eles tinham imensas coisas em comum e ficámos amigos desde o final dos anos 80 até hoje. O Marcel tem 91 anos e ainda continua a conversar comigo e a vir cá muitas vezes, ou quando íamos nós a Paris. A parte surrealista da coleção foi vendida por ele, de resto, o surrealismo era a especialidade do Fleiss, os Picabia, os Magrite, os Basquiat, meu Deus tantos. O Marcel ajudou muito na fase surrealista em Paris entre os anos 80 e início do século XXI. Comprámos muita coisa em França, muita coisa nos galeristas franceses, comprámos muita coisa na FIAC, Feira Internacional de Arte Contemporânea, em Paris, comprámos alguma coisa na ARCO Madrid também, e nos galeristas que fomos conhecendo aqui, o José Mário Brandão, no Porto, nos leilões”, relata Helena.

Uma coleção de um “apaixonado por arte”

“Conheci o Artur Jorge quando trabalhava na Galeria Nasoni. Era um colecionador muito diferente dos colecionadores de agora. Hoje, quando se fala em arte, as pessoas pensam logo no investimento que isso pode representar, em quanto vale cada peça. Ele não pensava nisso, investia no seu gosto, comprava trabalhos que tinham alguma coisa a ver com ele, que o tocavam de alguma maneira. A coleção era muito variada, não tinha uma linha, o que a unia era o seu gosto pessoal”, conta ao Observador José Mário Brandão.

Atualmente e há muitos anos à frente da Galeria Graça Brandão, em Lisboa, José Mário Brandão lembra o convívio com Artur Jorge. “Estive várias vezes na casa dele em Paris na altura em que ele era o verdadeiro ‘Rei Artur’, na altura não havia selfies, mas sair com ele à rua era sempre uma aventura, estava-se permanentemente a ser interrompido por pessoas a pedirem autógrafos, era realmente o Rei Artur, como era conhecido em França. Nessa altura, comprou muitas peças do José Luís da Rocha, quando ele estava a viver em Paris. Tinha acesso a ele e gostava de ir a exposições. Um dia, na Nasoni, comprou um trabalho incrível do Torres Garcia. O Artur Jorge foi o verdadeiro colecionador que não pensa em termos de investimento, compra aquilo de que gosta, não compra a pensar que amanhã vai ganhar tanto. Era um colecionador que amava a arte e que não tinha ninguém que o aconselhasse, comprava o que gostava, não tinha um curador a comprar para ele ou a dizer o que era melhor. Ele era um conhecedor de arte, era uma pessoa extremamente culta, não se interessava só por arte, amante de poesia, a literatura em geral, o cinema, a música. Infelizmente hoje em dia a arte é vista só como um investimento económico e o amor à arte, ter o prazer de ter determinada obra na parede é uma coisa muito rara.”

“Não se trata de uma coleção particularmente flashy, não era esse o interesse dele, mas sim uma coleção que mostrava, em relação a alguns artistas, muitas peças do Manuel Caeiro, o núcleo muito interessante do Gonçalo Duarte e que se constituem como novidades por não terem sido apresentadas antes. Também tem muitas coisas do Cutileiro”, explica ao Observador Igor Olho Azul, CEO da Veritas.

Esta exposição e esta venda, a decorrer na leiloeira Veritas — e a terceira de um ciclo de três — apresenta peças de todas as fases da coleção, desde que Artur Jorge começou a colecionar até ao final. “Houve coisas do Vasco Araújo que não vieram porque não eram transportáveis, houve coisas gigantes que ficaram. Mas isto dá uma ideia do percurso dele enquanto colecionador. Ele foi progredindo, houve poucas coisas de que ele tivesse deixado de gostar. Só aconteceu com duas ou três, em que ele às tantas disse ‘já não gosto disto’ ou ‘já não me sinto bem com isto cá em casa’. E essas peças foram saindo. Esta mostra é elucidativa do percurso dele enquanto colecionador e como pessoa, como evolui o seu gosto e é também uma maneira de o homenagear”, explica a viúva que esclarece: “Dois terços desta coleção foi partilhada comigo, nomeadamente no que diz respeito à escolha das obras. Não estou a vender a coleção toda, estou a vender aquilo que pertence ao meu marido e aos seus herdeiros atualmente”. Artur Jorge e Helena Melo Teixeira tiveram três filhos, tendo a filha Francisca falecido. Além destes descendentes do casal, Artur Jorge tinha já dois filhos de um relacionamento anterior.

“O meu marido morreu há um ano e meio, em fevereiro de 2024, e eu não sou herdeira única. Havia um espólio ainda considerável, estas 93 peças que vão agora a leilão, mais algumas obras que ficaram connosco, 20 ou por aí, fazem parte da herança comum que tem de ser partilhada. É muito mais fácil dividir o vil metal, do que avaliar quadros e ver quem fica ou gosta mais do quê. Queres este ou queres aquele, queremos todos a mesma coisa, não queremos. Além disso, achámos que ele gostaria mais que a coleção fosse exposta. Esta é uma coleção que mostra todas as fases e gostos pessoais que ele teve. Há pequenos formatos, grandes formatos, escultura, há coisas que nem vieram porque nem capacidade havia para as transportar, de tão pesadas e grandes que são, ficaram na nossa casa do Algarve e logo vemos onde as poremos, uma vez que se partilhe o resto.”

Na família a arte fica. “Guardo as peças que me foram oferecidas a mim quando éramos solteiros ainda, antes de nos termos casado, isso são tudo presentes de que não me desfaço. Guardo coisas que foram oferecidas por grandes amigos artistas, que são presentes do coração e que estão assinados e que nos são dedicados a nós ou a mim. Vender estas coisas exige um esforço emocional grande, não direi que é um choque, mas não estamos a destruir nada. Parte-se para outra. É um pontapé de saída, para ligar um bocadinho ao futebol.”

"Às vezes à noite ouvíamos barulho, era ele com um cabo de vassoura a endireitar um quadro que estava ligeiramente torto. Esse é o grande legado dele do ponto de vista humano. Era um homem de cultura"

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O leilão da Veritas, dia 30 de junho com hora marcada para as 19h, está a ser divulgado em todas as plataformas internacionais e tem uma capacidade invulgar de atrair clientes de todas as partes do globo. França, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos da América, nalguma Ásia também, mas sobretudo na Europa. Tem um grupo de peças internacionais que falam aos colecionadores atentos aos leilões da Veritas, colecionadores bem informados, que procuram coisas boas. E um núcleo para aqueles que principiam agora a interessar-se por arte e que engloba por exemplo obra gráfica, menos conceptual e mais acessível em termos de linguagem.

“Esta é uma coleção de alguém que é apaixonado por arte. O Artur Jorge tinha um amor e um interesse pela arte que eram completamente genuínos, não tinha nada a ver com uma questão de status nem nada disso. Esta era a coleção de um homem viajado, interessado e que gostava de aprender sobre arte”, descreve Igor Olho Azul.

Helena diz de outra maneira. “O meu marido sempre foi uma pessoa low profile no futebol, foi um jogador brilhante, e teve um sucesso enorme enquanto treinador. Ele foi para Coimbra estudar, não foi jogar. Foi estuda Filologia Germânica, depois, como gostava de futebol e jogava nos juniores do Porto, juntou o útil ao agradável, jogava na Académica e estudava na Faculdade de Letras de Coimbra. Hoje em dia isto acontece pouco. Conheci alguns jogadores em Paris que faziam o mesmo, que estudavam no final das carreiras… É uma carreira muito exigente do ponto de vista físico e é uma carreira muito curta. Nada disto é comum, mas o meu marido não fazia parte da tribo do futebol, tinha amigos no futebol mas não era uma pessoa que fosse muito de ir a festas, de dar entrevistas, de fazer programas de televisão, de fazer comentários, isso foi uma coisa que ele nunca fez e que se recusava a fazer. ‘Enquanto eu treinar, não vou comentar o trabalho dos meus colegas’, nunca fez aquele interregno que muitos outros faziam, que quando não tinham clube para treinar iam para a televisão comentar, nunca o fez. Tudo isso tem a ver com a educação dele, com a sua formação e com aquilo que ele considerava a sua ética e a sua estética. Dizia muitas vezes: ‘isso não é bonito, não faço.’”

Continua Helena Melo Teixeira: “Tudo isso também o marginalizou um bocado, diziam que ele era snob, que ouvia música clássica quando os jornalistas comentavam o seu trabalho para não se incomodar, o que era completamente verdade. Ele gostava de música clássica e não precisava que comentassem o jogo para ele, pois estava a vê-lo também. Não era com nenhuma intenção ofensiva, nem nada de pejorativo em relação à classe dos jornalistas. Era uma pessoa que tinha muitos interesses, tinha muitos afetos e tinha muita vontade de crescer e de alimentar o seu gosto pelas coisas bonitas, como ele dizia. As pessoas às vezes riam-se quando ele dizia ‘vamos fazer coisas bonitas’, mas era verdade. Nunca foi um pai educador, nem um pai repressivo, para isso estava lá a mãe, como é óbvio, mas deixou como legado o querer deixar o gosto pelo belo, pelo bom, pelo bonito, nem que fosse aquilo de que ele gostava e estimava. Era o que ele podia dizer: ‘venham ouvir isto tão bonito, já viram aquilo que bonito, leiam aquele poema maravilhoso’. Ele fazia festinhas aos quadros. Não se pode tocar com a mão? Pode, pode, dizia ele, isto é um óleo que dura não sei quantas centenas de anos. Às vezes à noite ouvíamos barulho e era ele com um cabo de vassoura a endireitar um quadro que estava ligeiramente torto. Esse é o grande legado dele do ponto de vista humano. Era um homem de cultura, era um homem com muita sensibilidade.”

É essa sensibilidade que as obras que passaram por ele transmitem, as obras que passaram por ele e que por ele “foram muito amadas e estimadas”, conclui Helena Melo Teixeira.

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