Agarra numa das chaves do molho que guarda no bolso e abre a porta esquerda de acesso à sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge (que cumpre esta segunda-feira, 24 de fevereiro, 75 anos, com o início de uma programação especial). Quer mostrar o palco e explicar que, antes da remodelação, ocorrida em 1981 e que reduziu o grande auditório em prol da construção de outras duas salas, mais pequenas, toda aquela zona que é hoje linóleo preto era antes a plateia de uma sala que albergava 1800 lugares. Jorge Silva, coordenador do material – é essa a designação oficial que lhe pertence –, fala de histórias de vida como se desengatilhasse uma sucessão atabalhoada de flashbacks à velocidade de uma pistola disparada por um daqueles cowboys dos westerns americanos que projetou em salas de cinema.
Sobre as datas, tem dificuldade em situá-las. Com 59 anos, este projecionista que nasceu em Santa Comba Dão não consegue evitar o entusiasmo com que elabora sobre bocados de lembranças sem princípio, meio nem fim, que se colam umas nas outras e talvez roubem elementos narrativos umas das outras. Jorge Silva não disfarça o orgulho que sente no seu métier. Explica que foi ele quem descobriu a origem do som de uma pancada seca que se ouvia sempre que se iniciava uma sessão (um microfone deixado ligado junto ao PA). Na sala de projeção, à qual se acede subindo uns quantos lances de escadas estreitos, destapa o projetor Cinemeccanica Victoria 8, dos anos 60, instrumento de outros tempos, imponente, capaz de projetar 70 mm e 35 mm. E sorri, afagando a máquina como um tratador afaga o seu animal, para o exibir.
Avisaram que Jorge Silva tinha mau feito, mas foi apenas preciso um pequeno desbloqueador, uma pequena história identitária, para que as duas horas de conversa fossem curtas para tantos episódios que tinha para contar, numa torrente de histórias que se confundem com a história do próprio cinema.
▲ "Eram doze anos [para ter carteira]. Eram seis meses de ajudante. Depois havia segundo projecionista e primeiro projecionista. E, depois, para a categoria de chefe de cabine, era mais de um aninho."
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
É projecionista há quanto tempo?
Faço isto desde os oito anos de idade. Aqui sou eu e outro colega, o Carlos Souto, que infelizmente está de baixa já há bastante tempo. Mas hoje em dia, a profissão de quem está nas cabines é técnico de imagem. Não são projecionistas. Se você souber trabalhar com um computador, pode ir para lá passar filmes. Nem há curso disso. Não há carteira, não há nada. E se isto [o aniversário do São Jorge] é uma festa de cinema… o cinema não nasceu com DCPs [formato digital]. Pelo menos uma cópia em película devia haver. A gente tinha de andar cerca de doze anos para ter uma carteira profissional.
Doze anos para ter carteira de projecionista?
Doze anos, sim. Eram seis meses de ajudante. Depois havia segundo projecionista e primeiro projecionista. E, depois, para a categoria de chefe de cabine, era mais de um aninho.
Chegou a chefe de cabine.
Estive em vários cinemas como chefe de cabine. Estive nas Torres [Twin Towers em Sete Rios, Lisboa]. Estive nos Deltas [duas salas num centro comercial com o mesmo nome, nas Caldas da Rainha]. Estive no Estúdio 1, no [cine-teatro Pinheiro] Chagas, no [Salão] Ibéria [todos nas Caldas da Rainha]. Havia cinemas dentro do Parque [D. Carlos I], que eram muitos giros. Foram todos destruídos.
Era chefe de uma grande equipa?
De uma grande empresa. Tinha muitos cinemas. Era do Eurico Martins. Tinha Pataias, Maceira, São Pedro de Moel…
Começou nisto tinha 8 anos de idade e está quase a fazer 60.
Sim, agora em maio. No dia 24 de maio. Agora veja os anos… É como aquele do Cinema Paraíso. Há 52 anos que ando nisto. Os filmes que eu já acartei às costas.
O seu pai também já era projecionista. Li que entrou numa cabine pela primeira vez como castigo.
Portei-me mal. Fui de castigo para a cabine, andava sempre para aqui e para acolá.
O que é que fez?
Sei lá… A gente fazia tudo. Íamos à fruta.
Viviam mesmo na cidade, nas Caldas da Rainha?
Mesmo na cidade, sim.
Os seus pais já eram de lá?
Não. Nós somos de Santa Comba Dão, de Vila de Barba. Fui para as Caldas com uns dois anitos. Depois fui para uma grande casa, a Obra da Rua.
Foi para a Casa do Gaiato?
Éramos muitos irmãos.
Quantos?
Éramos seis. Éramos muitos e era uma casita pequenita. Fui eu e um irmão meu.
Dois foram para a Casa do Gaiato e quatro ficaram com os pais?
Sim, ficaram as duas raparigas e os dois rapazes mais pequenitos.
Para que Casa do Gaiato foram?
Santo Antão do Tojal [Loures]. A obra do Padre Américo.
Foi para lá com quantos anos?
Ia fazer quatro. E estive lá cerca de quatro anos. Depois voltei [para os pais]. Vim porque tínhamos que dar espaço às pessoas que vinham da África. Como eu tinha pai e mãe, fui embora. A minha mãe trabalhava na rodoviária, o meu pai trabalhava numa serração, que era a Hortas. Também já não existe.
A família visitava-vos enquanto estiveram na Casa do Gaiato?
Iam lá uma vez por ano. Aquilo não era nenhuma… A obra do Padre Américo não é uma [casa de] correção. O portão está sempre aberto. Ainda hoje, se você for lá…
É como se fosse uma escola em regime de internato.
Exatamente. A gente trabalhava. Com 4 anos, quando fui para lá, fui fazer trabalhos, que é o que faz falta hoje às crianças. Andava a raspar. Outros eram padeiros, outros eram serralheiros, outros eram cantoneiros. Aquilo foi construído pelas crianças.
Custou-lhe muito separar-se dos seus pais?
Chorava muito, quando ia para a cama. A gente depois conhece outros gaiatos lá e somos todos como irmãos.
Depois regressaram.
Foi aí que fui parar ao cinema.
O seu pai trabalhava na serração e tinha como segundo emprego projetar filmes.
Sim, sim. E eu andava a acartar os rolos das películas e a limpar as máquinas. Com os meus 14 ou 15 anos, fui para os Móveis Serrano. Porque no cinema só trabalhava à sexta, sábado e domingo. Durante a semana fechava.
Era um part-time.
A gente saía das fábricas para lá. Saíamos da fábrica às seis, íamos tomar banho a casa e saíamos a correr para ir montar o filme. Porque os filmes antigamente, principalmente nas províncias, e aqui em certos cinemas… Por exemplo, eram cinco sessões, cinco filmes. Tínhamos a cabine cheia de filmes. Eu ia para lá cedo, montava os filmes todos e estava descansar. Conforme projetava o filme, desmanchava logo o filme, que é chamado de “desmanchar o filme direto”. Não estou à espera que o filme acabe. Desmanchava na própria máquina. Quando acabasse o filme, ia-me embora. A última sessão era a da meia-noite. Acabava lá para as duas, três da manhã. Depois ia para a Green Hill, para a discoteca [inaugurada em maio de 1980, tinha Jorge Silva 15 anos], que também já fechou. Saía de lá às sete da manhã.
Nessa altura já não trabalhava nos móveis?
Não, não. Quando o [empresário] Eurico Martins, que era o dono do cinema Chaplin, em Paço de Arcos – que já não existe também – pegou nos cinemas, ficou com salas em Pataias, Marinha Grande, São Pedro de Moel, Nazaré… Ficou também com o cinema de Torres Vedras. Eu e um colega meu, o Fernando, fomos lá montar a plateia.
▲ "Hoje em dia de quem está nas cabines é técnico de imagem. Não são projecionistas. Se você souber trabalhar com um computador, pode ir para lá passar filmes. Nem há curso disso. Não há carteira, nada"
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Foi quando passou a trabalhar a tempo inteiro como projecionista.
Sim, sim.
E já tinha carteira?
Não. Ainda tinha só a de ajudante. Só depois, quando comecei a aprender a mecânica da máquina, é que vim a tirar a carteira. Vim para Lisboa, o patrão me deu-me trabalho em Lisboa. Já nem me recordo… Sei que estive no Cacém, no Estúdio Flores, durante muitos anos.
Que idade tinha quando veio para Lisboa?
Estava na casa dos 16. Saí de casa assim: pus a minha roupa dentro de um saquito. Chovia, lembro-me que chovia muito, no largo da Rainha D. Leonor [nas Caldas da Rainha]. E havia ali um café rosa, onde paravam os camiões todos do Thomaz dos Santos, eles tinham uns armazéns aqui, onde é agora a Expo. Estava lá um dos motoristas e eu perguntei-lhe se ele ia para Lisboa. Ele disse que sim e pedi-lhe boleia. O camião ia cheio de ferro. O primeiro cinema para onde fui trabalhar foi o de Sacavém. Estive no Cacém, no Estúdio Flores. Depois ficámos com o Las Vegas, que era onde é agora o Pingo Doce de Alcântara, as duas salas, que já não existem também. E também o cinema Promotora, ao lado da esquadra [da PSP], no largo do Calvário. Também já não existe. Depois chateei-me com ele [Eurico Martins], estive cerca de três anos sem férias e sem folgas. Era muito explorado, eles aproveitavam-se do miúdo que gostava de cinema. Os outros [trabalhadores] exigiam [os direitos]. Eu, não. Eu fazia o dia inteiro. Fazia a sessão das onze e meia, que era a chamada matiné infantil, fazia a das três, depois fazia a das cinco e meia, das nove e meia e da meia-noite. Em todos os cinemas do Eurico, era sempre o mesmo horário. Mesmo que o filme fosse longo, as pessoas que esperassem. Por exemplo, no Nazaré, no verão, aquilo era uma loucura. Eu estava nas Caldas da Rainha, fazia os Deltas. Preparava os filmes todos e ficava lá um ajudante meu. Depois, um chauffeur levava-me para São Pedro Moel. Estamos a falar da altura do Atração Fatal, do Roger Rabbit, grandes filmes. O Rambo. Marcava-se o filme para as Caldas da Rainha e o Eurico, sem eles [a distribuidora] saberem, exibia o filme em vários lados. Ficava com aquele dinheiro todo para ele. Hoje em dia posso falar porque o senhor já morreu. Ele entretanto tinha fugido para o Brasil.
Tudo isso antes de vir aos 16 para Lisboa.
Sim. Nunca mais regressei às Caldas. Chegava a estar em cinemas apenas 15 dias, um mês. Posso dizer que fui eu, mais o Oliveira e o Martins, que inaugurei as salas do [Centro Comercial das] Amoreiras. Neste momento, estou convencido de que, do mundo do cinema, sou o único ainda vivo que trabalhou na projeção do [cinema de filmes pornográficos] Olympia [em Lisboa]. Já não existe mais ninguém. Era eu e o Martins. O Martins morreu no ano passado. Foi também o chefe de cabine do Cinema Império. Eu trabalhava no Olympia e chegava a ir fazer as férias à Academia Almadense. As minhas duas irmãs moravam em Almada. Ainda cheguei a fazer uma projeção na Cova da Piedade.
Não parava quieto.
Havia uma camaradagem… Aqueles a quem chamávamos os “malucos do cinema”.
Quem eram os malucos do cinema?
Eram pessoas que tinham máquinas [projetores de película] em casa. Posso dizer que tenho um cinema em Almeida, ao pé da Guarda, que era um palheiro. Tínhamos lá uma casa, com um palheiro, falei com a minha irmã e disse-lhe “vamos fazer aqui um cinema”. O ecrã é quase do tamanho do da Sala 2 [do São Jorge]. Onde moro agora – antes morava nos Olivais, depois comprámos casa ali para os lados da Arruda –, também tenho lá um cinema. Posso dizer que tenho um [projetor] Christie, igual ao que está aqui [no São Jorge]. Tenho uma Prevost; não, duas Prevost. Estão lá em casa, tipo museu. Estão todas a trabalhar. Tenho uma na cabine para projetar os filmes e as outras estão em exposição. Tenho muita peça de máquinas antigas.
Lembra-se da primeira vez que viu um filme?
Não havia dinheiro para ir ao cinema. Comecei a ver quando comecei a trabalhar agarrado à cabine. Antigamente passavam muitos filmes italianos. Passava muito o João Broncas, italiano, que era um baixinho. Era um sucesso. A alcunha dele era João Broncas, mas o nome dele era [Alvaro] Vitali. Foi a distribuidora Filmitalus, um senhor chamado Ferreira, que lhe pôs o nome. A Filmitalus era italiana. Lembro-me de estar na cabine e depois o meu pai, ou o outro velho que lá estava, me dizer “ó puto, anda cá, vai pregar este cartaz que chegou agora”. E eu lá ia, com uns preguinhos pequeninos. Lá fora, estava uma fila enorme, muitos nem tomavam banho [depois do trabalho] só para irem para a fila comprar bilhete, e o filme era só às nove e meia.
Filmes em inglês, não havia?
Só em Lisboa e no Porto é que se passava filmes em inglês. Filmes da Fox. Era o José Manuel Castello Lopes, o dono dos filmes Castello Lopes, que tinha os direitos todos da Fox. Posso dizer que fui o projecionista da Fox em Portugal. Com as cópias de serviço, antes de irem para o cinema, tínhamos que fazer passagens dos filmes para a legendagem, para a imprensa, para os empresários de cinema, quantas cópias leva quem. A Idade do Gelo 1, por exemplo, fui buscá-lo à TAP, mais o chauffeur, e só vieram dois rolos. E o filme não se chamava A Idade do Gelo. Eu tinha uma senha, que a Sofia Vasconcelos, a minha chefe, me dava.
Com medo da pirataria, não era?
Exatamente, era um filme de alta segurança. Montei o filme só com os rolos 1, 2, 5 e 6. Não tinha pés nem cabeça, mas era só para eles verem. Não tinha som, não tinha banda sonora, não existia. Passei o filme, o senhor José Manuel Castello Lopes e a Sofia Vasconcelos gostaram, decidiram distribuir o filme e só depois vieram os dois rolos que faltavam. Cheguei a ter realizadores a telefonar para mim porque tinham uma dúvida com um rolo. Passava o filme mais de cinquenta vezes, sabia responder.
E quando é que veio trabalhar para o São Jorge?
Trabalhei cá quando isto ainda era só uma sala, estive cá uma semana ou duas, depois saí.
Saiu quando o cinema fechou para obras, para serem construídas as duas salas mais pequenas?
Não, o cinema fechou para obras, mas eles continuavam a pagar-nos o ordenado. Nesse período, eu aproveitava e andava [a trabalhar] nos outros cinemas. Hoje em dia, seríamos agarrados pelo contrato, mas naquele tempo… O senhor Franklin e o Ventura, que eram uns velhotezinhos quando eu vim para cá, eram os chefes disto. Havia o chefe de sala, havia o fiscal, que era o senhor Ventura, e havia o senhor Simões. O Simões depois foi para os cinemas do El Corte Inglés. Foi o senhor Simões que entregou a chave quando isto foi vendido à Câmara. Foi um grande homem para mim.
▲ "As pessoas iam para a praia, eu estava dentro do cinema, junto à praia, a sentir o cheiro a iodo, a coco, a entrar pela cabine. Antigamente não havia ar-condicionado, entravam os cheiros todos"
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Como se proporcionou vir trabalhar para o São Jorge?
Vim para aqui quando me chateei com o Eurico Martins. Estava a ser explorado. E depois voltei outra vez para ele. O senhor Assis era o chefe de cabine do São Jorge. Ele era de gancho, era mau, muito mau. Eu estou na sala 3. E, na sala 2, há um problema com o leitor de som. O senhor Simões disse-nos que o chefe de cabine estava há muito tempo a tentar arranjar aquilo, para irmos lá. Eu fui lá e comecei a ver que tinha sido a [luz] excitadora que tinha ido à vida. Fui buscar uma excitadora, calcei umas luvas, que a gente não pode tocar na lâmpada. “Pronto, está a trabalhar, há som.” Quando o chefe de cabine chega… “O que é que estás aqui a fazer, puto?!” O senhor Simões é que disse “fui eu que lhe disse para tentar resolver.” Ele ficou todo danado. Era ele que fazia as escalas, os horários de cada um. No outro dia, quando cheguei, fui ver a minha escala. Tinha vindo para Portugal uma versão do Danças com Lobos com umas quatro horas de filme. Eram três horas mais uma que era o resto das paisagens do filme. Eu tinha começado a namorar. Estragou-me o dia, aquele homem. A gente dava duas sessões. Só saía à uma da manhã. Estava perdido. A enroladeira [da película] era à parte da cabine de projeção, numa casinha ao lado. Estava a enrolar o filme e ele chegou lá, danado, “não é assim que se enrola o filme”. Parei aquilo, até queimei as mãos, parei as bobines, tiro a bobine fora e mando-a para o chão. Ainda estou para saber como é que eles tiraram de lá o filme. Mandei-a para o chão para não lhe dar com ela na cabeça. E vim-me embora.
E foi pedir trabalho ao Olympia.
As meninas da rua olharam para mim, “então, puto, estás tão triste, hoje?” Tinha-me esquecido de comer. Voltei para trás. A gente punha a comida na lanterna. Abríamos a lanterna e púnhamos a comida lá dentro para aquecer. Quando a imagem começasse a ficar foscazita, sabíamos que a comida estava quente, já estava a sair o vapor. Venho para fora, vou direitinho ao Olympia. Cheguei ao Olympia e no mesmo dia entrei ao serviço. Cheguei lá a chorar, estava sozinho, vivia num quarto no Cacém. Falei com o chefe de cabine. “Então, puto, estás a chorar?” Contei-lhe o que se passou. “Espera aí, deixa-te estar aí.” Foi ter com o patrão. Falou o que tinha a falar, o patrão veio ter comigo. “Então, Jorge, diga lá, o que é que se passa consigo?” Não lhe contei da bobine, mas ele veio a saber, no mesmo dia. “Quer trabalho, dou-lhe trabalho. Vá para a cabine, começa a trabalhar com o Martins.”
Como funcionava o Olympia?
No Olympia, as sessões eram contínuas, eram duas máquinas, máquina A e máquina B. Não se montavam os filmes. Era conforme eles vinham nas latas. Era só pôr o filme no princípio, virar e projetar.
Sem censura. E como era o trabalho no tempo da censura?
Havia partes que não podiam passar, tinham que ser cortadas. Cortava-se com a tesoura, depois colava-se. Havia o lugar do padre e de mais uma pessoa.
O inspetor da PIDE.
Cortava-se o filme e depois, com o alicate, carimbava-se. No fim da exibição, tínhamos que colar o filme outra vez. O carimbo dizia que aquilo era a censura e não um engano. Depois os filmes iam para a Cinemateca. Todas as distribuidoras davam uma cópia para a Cinemateca.
Nunca se enganou?
Uma vez, aqui no São Jorge, estava uma realizadora espanhola a projetar o seu filme, era um festival. A dada altura, mandou parar o filme. Estava na sala 3 a ver o filme. Ela sai de lá toda danada. O filme estava no prato, não estava em bobines. Se fosse em bobines, eu resolvia o problema na hora. Agora pratos, não. Chega ela, em espanhol “o filme está mal!”. Eu fiquei assim a olhar… O Serafim estava comigo. Falou assim para ela: “este projecionista não é um passador de fitas. Este senhor é profissional”. Ela voltou para a sala e ele foi falar ao microfone, a dizer para abandonarem a sala, que iam resolver o problema porque o filme estava mal montado.
O que aconteceu depois?
Desmancho o filme todo. E disse ao Serafim: não saias daqui, e diz à senhora para também não sair. Ela tinha um outro filme noutro cinema qualquer. E tinha que ir lá fazer a apresentação. Eu disse ao Serafim: “Então vamos criar aqui um problema. Não vou mexer no filme. A senhora tem que estar aqui”. Eu sabia o que estava a fazer. Fui logo às latas, agarrei nas pontas do filme. Comecei a ver… “está tudo certo…” Desmanchei o filme todo e pus dentro das latas. Colei as pontas. Por isso é que a gente deixa sempre um fotograma na ponta, para saber que é aquela ponta ali. Aquele rolo. De cada vez que agarrava na ponta, mostrava à senhora. “Está a ver ali? Agora vou montar o filme e você vai-me dar as partes.” Foram quase duas horas a montar o filme. Para ela ver que estava tudo. Então, projetei o filme todo só para ela. A mulher pediu mil desculpas. O erro ocorreu em Espanha. Eu tinha montado o filme conforme mandaram o código.
E depois?
Ela mandou-me desmanchar o filme todo outra vez. Mas pagou ao cinema. De uma outra vez foi um gajo, que ganhou um prémio e tudo, com um documentário. Eu montei o filme. O formato [da projeção] era 1.85 e eles diziam que o filme estava em 1.66. Há mais formatos, há o 1.33 do cinema mudo. Por acaso, estamos preparados para isso. Depois, temos o 2.35, que é o cinemascope. A gente vê a máscara a abrir e a fechar. Ele estava a marrar com aquilo eu disse-lhe: “Desculpe lá. Você está a brincar comigo, não? O filme é 1.85”. Desmanchei o filme: “Amigo, está aqui o filme, vá lá à Tobis saber e depois diga-me, se faz favor”. Depois, um colega meu “ah e tal, a gente não pode falar assim com os convidados”. “Quais convidados, pá? Vocês têm medo dele, por isso é que eles caem em cima de vocês.” Por isso é que dizem que eu sou refilão.
E é?
Sou refilão, pois sou. Esta gente não passou pelo cinema. Não sofreu o que eu sofri. Eu podia andar a gozar a vida e estava no cinema dentro das cabines fechadas. As pessoas iam para a praia, eu estava dentro do cinema, junto à praia, a sentir o cheiro a iodo, a coco, a entrar pela cabine. Antigamente não havia ar-condicionado, eram os ventax, e entravam os cheiros todos.
Ele foi à Tobis e depois?
Foi à Tobis e a Tobis confirmou que o senhor projecionista tinha razão.
Pediu-lhe desculpa?
Não. Foi aí que o tratei mal.