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"Má Influência": os (pais dos) miúdos não estão bem

O novo documentário (em três partes) da Netflix aborda o fenómeno do "kidfluencing" a partir da história de Piper, da mãe tornada manager digital e da máquina de faturação criada em volta de ambas.

Eu queria e ao mesmo tempo não queria ver o documentário que se estreou agora na Netflix: Má Influência: Quando as Crianças são Influencers — no original Bad Influence: The Dark Side of Kidfluencing. Só o termo “Kidfluencing” foi coisa para me provocar um revirar de olhos atlético, um revirar de estômago acrobático e foi esse o meu exercício pela manhã. Mas quando acabar de escrever isto vou fazer uma aula de Pilates para alinhar os chackras, para cuidar do meu sistema nervoso e para não me sentir uma batata, que é o que acontece quando passo mais de 10 horas ao computador. Estarão agora a pensar que isto está ainda mais palerma que o costume mas, vão por mim, isto a seguir vai ficar muito feio e muito rápido. Precisamos desta dose de absurdo inconsequente para aligeirar a queda.

O documentário Bad Influence: The Dark Side of Kidfluencing conta a história de Piper Rockelle e da sua proxeneta digital, Tifanny Smith, a mãe. E não usei o termo de ânimo leve, garanto, porque não há nada de leve aqui. Piper tem hoje 16 anos e presença digital desde os 8. Exato. 8 anos. Eu com 8 anos via a Balada de Hill Street, sentada no chão ao lado do sofá. Quando havia tiros, o meu pai empurrava-me a cabeça para trás do sofá e assim ficava até o meu pai achar que era seguro. Se sou uma pessoa mais sã por causa disso? Isso agora não interessa nada, acho fofo e já agora um grande beijinho para os meus pais, que hoje estou por tudo.

Bad Influence está dividido em três episódios. O primeiro chama-se #momager, que resulta da aglutinação de “mom” com “manager”, e está-se mesmo a ver que só pode dar mau resultado. O segundo chama-se #crush, que é como quem diz “paixoneta”, que é como quem diz “misturar paixoneta com crianças”… Já estão a ver onde é que isto vai dar. Estão a perceber o tremor no sobrolho, agora? O terceiro episódio intitula-se #unfollow e sendo bastante auto-explicativo, é muito mais macabro do que parece. Que cenário animador que se está aqui a pintar, hein? E não só pode piorar, como piora, de facto. Mas como tudo na vida é equilíbrio, tenho boas e más notícias para vocês.

[o trailer de “Bad Influence”:]

Então as boas notícias são: o planeta provavelmente vai de vela em menos de um século e não nos vamos ter que preocupar com mais nada. As más notícias são: o prazo de validade da espécie humana já deve ter expirado há muito e nós devíamos estar com o nariz muito entupido, porque não nos deu o cheiro. Só mais uma boa notícia e assim fica a chamada sandes de fezes: eu já vi isto por vocês, vou-vos dar assim uns la-mi-rés de esterco e se quiserem seguem com a vossa vidinha. “Ah, la-mi-rés de esterco, sandes de fezes… Achas que isso é vocabulário que se use?” Pessoas, a mãe da miúda vendia as cuecas dela usadas. Despachava-as por correio para homens adultos a troco de dinheiro. A filha teria 11 anos, na altura. Não que isso faça diferença, mas enfim. ‘Tá bom para vocês?

Tiffany cedo viu o potencial de investimento, quer dizer, o potencial de talento da filha Piper. Com três anos, já a miúda andava naqueles concursos tenebrosos, onde aplicam litros de laca na cabeça de crianças que ainda não sabem despejar o autoclismo sozinhas (caso não estejam a par, podem ver o Toddlers & Tiaras no TLC; se estiverem a sentir demasiada “joie de vivre”, limpa-vos o sorrisinho da cara que é um instante). Pode-se dizer que a transição de Piper para a internet foi “natural” — se acharem “natural” transformar em fonte de rendimento os vídeos fofos da vossa prole que estão guardados na galeria do telemóvel ad eternum e servem maioritariamente para matar saudades e entediar colegas de trabalho.

O que começou por ser um one-child show, com uma miudita ou outra como partenaire, passou rapidamente a ser um plantel, todo ele captado estrategicamente por Tiffany. Cerca de uma dezena de miúdos entre os 10 e os 12 anos, que intitulou de “The Squad”. Crianças com ambições artísticas, desejo de crescimento na internet, sonhos de fama e pais que não só iam na conversa, como promoviam esta sede de um suposto sucesso.

Piper começou no Musical.ly (a semente do que viria a ser o TikTok), passou por um reality/talent show chamado Dance Twins, entrou numa série da Brat TV (que é um espécie de Disney Channel no YouTube), mas a mina de ouro digital, com perfume de lenocínio, foi mesmo o canal de YouTube que viria a declinar em monetização, tours, parcerias, merch, etc… Nos primeiros anos, Tifanny, qual olheiro, foi recrutando miúdas que se tornavam melhores amigas da filha e por conseguinte, atrizes secundárias no conteúdo. Dava a volta aos pais com uma pinta olímpica, embrulhava-os numa teia de manipulação e promessa de futuro, mas ao primeiro revés, à primeira contrariedade, cortava relações de forma cruel e definitiva com os pais e as crianças envolvidas, provocando naturalmente dor às mesmas, incluindo à sua própria filha. Nada que não se resolvesse com a próxima vítima.

E o que começou por ser um one-child show, com uma miudita ou outra como partenaire, passou rapidamente a ser um plantel, todo ele captado estrategicamente por Tiffany. Cerca de uma dezena de miúdos entre os 10 e os 12 anos, que intitulou de “The Squad”. Crianças com ambições artísticas, desejo de crescimento na internet, sonhos de fama e pais que não só iam na conversa, como promoviam esta sede de um suposto sucesso. Há um excerto de um programa de daytime em que Piper, do alto dos seus 11 anos, é anunciada da seguinte forma: “Empresária, cantora, estrela do YouTube, acaba de lançar o videoclip do seu novo tema, Treat Myself”. É só a mim que isto arrepia em sítios desagradáveis? Com 11 anos o momento alto da minha semana era ver o MacGyver.

▲ A história de Piper Rockelle, hoje com 16 anos mas com presença digital desde os 8, é a narrativa central do documentário

O que é certo é que as visualizações rebentaram, os lucros atingiram centenas de milhares de dólares que — pormenor curioso — Tifanny não partilhava com os pais dos outros membros do “The Squad”, porque estava a dar-lhes “exposição” (prática que também prolifera ano meio artístico cá do burgo). Em vez disso, sugeriu que cada um deles criasse um canal de YouTube, que também controlava e onde ia sacar dinheiro na mesma, escalando o negócio com mão de obra a custo zero. É isto que é ser empreendedor, malta da meritocracia? Ela era uma mãe solteira e criou um negócio sozinha. Quer dizer, não foi bem sozinha.

Como se isto não estivesse esquisito o suficiente, há aqui uma personagem importante que temos de acrescentar. Hunter tinha 19 anos quando, nos primórdios da criação de conteúdo de Piper, aparece nos vídeos como o irmão mais velho. Pequeno pormenor: Piper é filha única. “Mas e não pode ser que Hunter fosse como um filho para Tiffany?” Isso seria esquisito, porque dormiam juntos de uma forma não-maternal. Hunter vai-se transformando progressivamente no namorado oficial, operador de câmara e editor dos vídeos concebidos por Tiffany. E os miúdos na generalidade gostavam dele e viam-no como o amigo adulto divertido. O que é esquisito. E esquisito é uma palavra conservadora, para o que me está a passar pela cabeça. Homens adultos e mulheres adultas que passam a vida rodeados de crianças pré-adolescentes, ou adolescentes que sejam, sem nenhuma ligação familiar e que os tratam como besties…

A pandemia foi a gasolina ideal para transformar este negócio numa seita. Tiffany trouxe uns quantos pais e miúdos para viver em comunidade, debaixo do seu próprio teto. Não havia escola para estar, pelo que gravavam 12 horas seguidas, sem folgas ou fins de semana. A propriedade de Tiffany passou a ser uma unidade fabril, sem direito a reivindicações sindicais. Se os pais ou os miúdos mostrassem algum tipo de desagrado, sofriam represálias. Se decidissem sair do grupo, Tiffany dava instruções para que os deixassem de seguir, bloqueassem qualquer tipo de contacto e ainda os enxovalhassem em vídeo. Podem imaginar o que é que isto representa para um adolescente.

Não é um grande documentário, não está particularmente bem feito, tecnicamente leva o chamado selo do “é o que é”. A cronologia dos eventos não é super eficaz e mesmo a divisão por capítulos não me parece muito sólida. Mas conta, de facto, uma história avassaladora.

E tenho ainda de falar de um fenómeno que me deixou particularmente desconfortável que é o crush content. Tiffany, logo ao início, disse que “The Squad” seria uma versão da série Friends. Parece uma referência inofensiva? Vamos relembrar que a série é sobre um grupo de amigos, sim, mas que se envolvem uns com os outros com alguma regularidade. Portanto, o conteúdo baseava-se em acasalar os participantes do grupo e fazer conteúdo à volta do seu envolvimento. Não me canso de dizer que são pré-adolescentes. Há algumas imagens onde ouvimos Tiffany e o namorado-videógrafo Hunter (que são adultos, convém lembrar) a dirigir os miúdos para se agarrarem, para aproximarem a boca um do outro, uma coisa que faz meio lembrar um porno amador… Nem consigo dizer mais nada.

Não é um grande documentário, não está particularmente bem feito, tecnicamente leva o chamado selo do “é o que é”. A cronologia dos eventos não é super eficaz e mesmo a divisão por capítulos não me parece muito sólida. Mas conta, de facto, uma história avassaladora. Ao início, achava que seria um documentário sobre este fenómeno de influenciadores infantis (o que me custa escrever isto) e não sobre um caso em concreto, o que aproxima isto mais de um true crime, que de outra coisa qualquer. E se é certo que esta mulher é uma criminosa, que os pais provavelmente deveriam ter feito melhor, que estes miúdos são todos vítimas, sendo a vítima maior a própria filha de Tiffany, há o perigo de achar “Isto não é um problema da sociedade em geral, isto é fruto de uma psicopata em particular”. Só que não. Eu, pelo menos, acho que não. Porque — long story short, e aqui vamos ter que ser fortes — isto é sobre comercializar a infância. Isto não é um hobby, é um trabalho e muitas vezes as crianças ou adolescentes vêm-se como o único sustento da família.

▲ De um lado, Piper Rockelle com a mãe, ou #momager; do outro, o "The Squad", grupo de "kidfluencers" criado em volta de Piper

A certa altura, há uma mãe que diz: “Se eu estivesse a ver este documentário, diria ‘que idiotas, porque é que não saíram logo?’”. A minha questão é: porque é que entraram? Isto não é ser idiota. Ser idiota é estares sentado nos transportes público de perna aberta, como se os teus testículos precisassem de uma vista desafogada (foi só para cortar um bocadinho a tensão). E não é preciso apontar o dedo aos pais para os castigar. A consciência há-de pesar-lhes porque falharam na proteção dos filhos, que ficaram com marcas suficientes para fazer vários terapeutas ricos. Há, inclusivamente, uma miúda que dorme com uma faca ao lado da cama. Porque a coroar este festival de horror, Tiffany abusou sexualmente de vários miúdos. Incluindo as suas sobrinhas. Quem diria? Uma adulta que transforma a sua casa num recreio de liceu é pedófila!

Um dos especialistas presentes no documentário partilha que num estudo feito sobre o tema conclui-se que 60% das imagens encontradas nos computadores de pedófilos são sacadas das redes sociais. Se isto não vos deixa aterrados, não sei mais o que dizer. É também referido um site de partilha de conteúdo exclusivo e pago, um pouco à semelhança do OnlyFans, mas sem nudez. Pormenor curioso: para ser criador de conteúdo neste site basta ter 13 anos, para comprar conteúdo é preciso ter 18. Temos portanto um buffet de happy meals para abusadores de menores à distância de uma subscrição.

Não vos vou dizer como acaba o documentário, mas se a vossa intuição é que nada disto aponta para um final feliz, também não vos vou desmentir. A máquina continua, porque é o capitalismo, filhinhos. É triste, mas como noutros casos de abuso, as instituições têm de fazer o que os pais não fazem, que é protegê-los. E obviamente que nem todos os pais são Tiffanys e que muitos terão achado que estão a fazer o melhor pelos filhos. Mas a ignorância e a negligência não torna ninguém inimputável, nem minimiza as consequências. Um dos conselhos partilhados no documentário é não dar engajamento a conteúdos infantis. Basicamente, se isto não der dinheiro, não sobrevive. E esta é uma das 1001 razões pelas quais temos todos de ser mais conscientes no consumo de conteúdo. Porque quem não vai propriamente pôr a mão na consciência são os pedófilos… Acho que deu para perceber. Fui gráfica, ofensiva? Diria que prostituir os filhos é mais.

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