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Pinto Luz e Luís Montenegro relançaram o cenário de venda total da TAP nesta legislatura, mas decisão implica apoio de pelo menos um dos maiores partidos da oposição
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▲Pinto Luz e Luís Montenegro relançaram o cenário de venda total da TAP nesta legislatura, mas decisão implica apoio de pelo menos um dos maiores partidos da oposição

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

▲Pinto Luz e Luís Montenegro relançaram o cenário de venda total da TAP nesta legislatura, mas decisão implica apoio de pelo menos um dos maiores partidos da oposição

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Mais dinheiro, ações para o Estado numa venda total até 2028 e uma surpresa para Tires. Os trunfos da Lufthansa para ganhar a TAP

A oferta mais alta foi decisiva, mas uma proposta de ações para o Estado e uma escola de pilotos em Tancos também contribuíram para a vitória do grupo alemão. A privatização da TAP em 14 respostas.

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Teria sido mais surpreendente se fosse ao contrário. A vitória da Lufthansa era de alguma forma esperada. A companhia alemã é parceira de longa data da TAP — na Star Alliance — e em 2020 esteve perto de comprar a participação de David Neeleman, num negócio frustrado pela pandemia. Mais recentemente investiu 300 milhões de euros num centro de manutenção no Norte de Portugal.

Mas a Air France-KLM deu luta. Os dois candidatos estiveram taco a taco nas componentes estratégica e industrial e na parte contratual e de governance. E apresentou uma proposta que também foi vista como sólida pelo Governo. No sprint final, foi sobretudo o pacote financeiro que fez a diferença, mas houve mais trunfos. E uma surpresa: o anúncio de um investimento de 500 milhões de euros para uma escola de pilotos em Tancos, base militar que poderá ser usada também para voos civis.

Quanto vai pagar a Lufthansa?

Depois do grande secretismo que rodeou mais de um ano de processo de privatização, esta quarta-feira foram divulgados vários valores para a oferta da companhia alemã que contemplam vários cenários e fases da operação. Para já, o que está contratado com a Lufthansa é o pagamento de 1.025 milhões de euros por 44,99% da TAP. Este valor pode chegar aos 1.201 milhões de euros, caso a empresa alemã seja chamada a ficar com a totalidade da tranche de 5% destinada aos trabalhadores da TAP — se estes não a subscreverem. Só depois do fecho da primeira operação, previsto para 2028, é que pode avançar a segunda fase.

Segundo os números divulgados, esta oferta financeira é superior em 16% à apresentada pela Air France-KLM que propôs 1.038 milhões de euros. Os valores incluem o custo da compra dos 5% para os trabalhadores e a componente associada ao tempo (ticking fee). O grupo franco-neerlandês colocou em cima da mesa mais 100 milhões de euros, caso a TAP atingisse uma margem bruta (EBITDA) de pelo menos 1.036 milhões de euros em 2028. Mas era uma oferta condicional e mesmo com esses 100 milhões ficava ligeiramente abaixo da feita pela Lufthansa.

Quanto pode o Estado encaixar com a TAP?

Os dois candidatos apresentaram uma proposta para comprarem 100% do capital da TAP e é este o cenário que permite potenciar o valor a receber pelo Estado. A Lufthansa propôs uma oferta combinada de dinheiro e ações que totaliza 1.351 milhões de euros para comprar os 50,1% remanescentes. O cheque será de 863 milhões de euros e as ações correspondem a cerca de 5% do capital da holding do grupo alemão, que estão valorizadas em 488 milhões de euros. Com a primeira e a segunda fase de venda à empresa alemã, o Estado receberia 2.552 milhões por 100% da TAP.

Vai ser recuperada a ajuda pública?

No cenário de venda de 100% da TAP à Lufthansa, o valor do encaixe equivale à injeção feita pelo Estado na companhia aérea a título de ajuda de Estado. Foi esta ajuda, de 2,55 mil milhões de euros, que obrigou a transportadora portuguesa a implementar um plano de reestruturação no passado recente. Mas o Estado compensou ainda a TAP em cerca de 570 milhões de euros por danos causados pelas restrições à operação durante a pandemia, um tipo de ajuda que foi dado por vários estados-membros às suas companhias. É com esta fatura que se chega aos famosos 3,2 mil milhões de euros mobilizados durante os governos socialistas.

O secretário-geral do Partido Socialista (PS), Pedro Nuno Santos (C), cumprimenta o primeiro-ministro, António Costa (D), à chegada para um almoço/comício, no âmbito da campanha para as eleições legislativas de 10 de março, em Lisboa, 08 de março de 2024. Mais de 10,8 milhões de portugueses são chamados a votar no domingo para eleger 230 deputados à Assembleia da República. A estas eleições concorrem 18 forças políticas, (15 partidos e três coligações). ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

▲ Pedro Nuno Santos, enquanto ministro das Infraestruturas do Governo de António Costa, defendeu a injeção do Estado para "salvar" a TAP

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Para conseguir o reembolso total desta verba, o Governo fez as contas à estimativa de dividendos que Portugal pode vir a receber pela sua participação de 5% no grupo Lufthansa. É juntando o valor das ações desta holding e os dividendos que chega a mais 1.400 milhões de euros. Somando a parcela de 863 milhões de euros a pagar pela Lufthansa numa segunda fase e os 1.201 milhões de valor máximo pago nesta primeira fase chegamos ao calculado pelos assessores do Estado e que dá mais de 3.400 milhões de euros até 2040. Um valor que depende naturalmente da performance e da cotação do grupo alemão.

Qual o valor dado à TAP e porque variou tanto?

As ofertas da Air France-KLM e da Lufthansa valorizam 100% da TAP em mais de dois mil milhões de euros. Tendo por base a proposta financeira do grupo alemão para a segunda fase, a valorização implícita conferida à empresa portuguesa é de 2.552 milhões de euros. É uma fasquia muito superior à avaliação mais recente feita pelos avaliadores contratados pelo Estado — a EY e o Banco Finantia. Em setembro de 2024, apontavam para um valor de até 350 milhões de euros. Este número estava bem abaixo da valorização inicial feita em 2022 (para o processo de privatização lançado no Governo de António Costa) pelos mesmos assessores e que apontava para um intervalo entre os 700 e os 1.700 milhões de euros.

São múltiplos os fatores apontados pelo Governo para a valorização da TAP durante esta privatização. Desde o avanço do processo de construção do novo aeroporto de Lisboa até ao reforço no curto prazo dos aeroportos Humberto Delgado e Francisco Sá Carneiro (Porto), passando pela melhoria das operações do controlo aéreo. A conclusão do processo de reestruturação, a melhoria dos resultados da TAP e um modelo de governo mais sólido (com separação do presidente executivo e do chairman), são outros argumentos. É igualmente destacado o processo competitivo adotado para escolher o comprador com a introdução de uma quarta fase de negociação com os dois candidatos para melhorar a oferta vinculativa.

É mais difícil encontrar razões que expliquem a desvalorização sofrida pela TAP entre 2022 e 2024. O aparecimento de contingências financeiras, como a dívida reclamada pela companhia brasileira Azul (que entretanto ficou do lado do Estado), e os custos com os processos laborais perdidos pela TAP (e que estão já parcialmente refletidos nas contas) contra os tripulantes, parecem ser as principais razões.

Que propostas tem a Lufthansa para a TAP?

Associado ao investimento direto na compra da TAP, a companhia alemã propõe-se renovar a frota com 117 aviões até 2035, número que chegará a 130 após a abertura do novo aeroporto. Está prevista a transferência de até oito aviões de longo curso A350-900 após 2030 e a modernização das aeronaves da Portugália, que são as mais antigas. Miguel Pinto Luz, ministro das Infraestruturas, em entrevista à TVI revelou que os 130 aviões representarão, a preços atuais, um investimento de 3 a 4 mil milhões de euros.

epa11215797 Lufthansa planes are seen stationed, at Frankfurt Airport, in Frankfurt am Main, Germany, 12 March 2024. The UFO cabin crew union has called on its members to strike, to press their demands for better wages. According to Lufthansa, 100,000 passengers should be affected by a two day strike in Frankfurt and Munich airport.  EPA/ANDRE PAIN

▲ Lufthansa propõe uma renovação da frota da TAP que pode chegar aos 130 aviões a partir de 2035

ANDRE PAIN/EPA

Do lado comercial, a Lufthansa abre a porta à TAP da lucrativa joint-venture que mantém com a Air Canada e a United Airlines para o cobiçado mercado do Atlântico Norte, prometendo fazer da TAP a plataforma para o Brasil e mercados lusófonos.

A operação da manutenção e engenharia que tem sido uma importante fonte de receitas para a companhia portuguesa será para integrar na rede da Lufthansa Technik, o que dará acesso a mais licenças e volumes de reparações.

E para o Estado?

Os contratos negociados com a Lufthansa salvaguardam os poderes do Estado enquanto acionista maioritário na TAP, conferindo-lhe a palavra decisiva em matérias estratégicas. A maior dificuldade é como garantir esses temas se o Estado sair do capital.

A configuração apresentada pela companhia alemã prevê que o Estado português tenha uma posição de 5% no capital da holding que controla a Lufthansa, com direito a representação nos órgãos sociais (conselho de supervisão). Portugal seria o único país representado a este nível, não obstante a Lufthansa controlar outras companhias nacionais como a Swiss, a SN Brussels, a Austrian Airlines e, mais recentemente, a ITA (antiga Alitalia). O Estado português seria o segundo maior acionista estratégico, depois da fundação ligada à família Kuhne que tem 20%.

A Air France KLM mostrou-se desde o início disponível para receber o Estado na estrutura acionista do grupo, tendo inclusive sinalizado que a relação com Estados acionistas era uma das vantagens da sua candidatura. Com uma proposta comparável, a Lufthansa iguala essa vantagem e permite concretizar um modelo que, acredita o Executivo, permite a preservação estratégica da marca, da sede e do hub em Portugal. O ministro das Infraestruturas afirmou ainda em entrevista à CNN que Portugal terá um conselho de supervisão para monitorizar a estratégia da TAP, mesmo depois de o Estado sair do capital.

Como vai ser dividido o poder na TAP após a Lufthansa entrar?

Com a venda de uma participação minoritária, a gestão operacional fica com a Lufthansa que terá direito a nomear três administradores executivos, incluindo o CEO (presidente executivo). O Estado mantém um elemento na gestão executiva e fica com o direito de escolher o chairman. Assegura também a maioria do conselho de administração, indicando 5 dos 9 membros. Este é o órgão competente para tratar da estratégia, frota e operações de maior valor que exigem uma votação por consenso.

Para a assembleia-geral, onde o Estado é maioritário, ficam reservados temas como o capital, os estatutos, o hub e a sede. Está ainda prevista a criação de um comité de partes relacionadas para supervisionar as operações dentro do grupo, de modo a evitar que haja transferências que penalizem a TAP.

Há projetos fora da TAP?

À boleia do investimento de 300 milhões de euros já em curso em Santa Maria da Feira da Lufthansa Technik, e que é independente da candidatura à TAP, o grupo alemão propõe instalar um hub de inovação e startups em Aveiro e um centro de serviços corporativos e operacionais em Portugal.

A maior surpresa neste pacote de projetos é a instalação de uma escola de pilotos militares e civis para a base de Tancos. O investimento anunciado é de 500 milhões de euros e inclui intervenções na pista para voos civis e a criação de 200 empregos. O Governo não quer dar, para já, mais detalhes.

O que ganha a Lufthansa?

Com a integração da TAP no grupo que lidera, a empresa alemã consolida-se no ranking dos maiores agrupamentos do setor da aviação, como o quarto maior em receitas. Uma das vantagens mais valorizadas é o grande reforço nos mercados da América do Sul, cuja presença mais do que duplica de uma quota de 9% para 20%, e da África lusófona.

Num comentário feito após o anúncio da vitória, o presidente executivo da Lufthansa sublinha que a decisão do Governo português “permite-nos prosseguir de forma consistente a nossa estratégia de internacionalização e reforçar de forma sustentável a nossa posição no mercado do Atlântico Sul.” Carsten Spohr manifestou a satisfação pelo anúncio feito pelo Executivo de avançar com o “processo de privatização integral da TAP Air Portugal. A experiência adquirida em anteriores aquisições demonstra que uma participação maioritária permite gerar benefícios adicionais para todas as partes envolvidas”.

E considera que a “TAP Air Portugal é uma companhia aérea sólida e rentável, nossa parceira de longa data na Star Alliance e uma referência internacional nas ligações aéreas do Atlântico Sul. A companhia distingue-se pela excelência dos seus profissionais e por um modelo de negócio sólido e atrativo”.

Porque quer o Governo vender já toda a TAP?

O primeiro-ministro, Luís Montenegro, colocou em cima da mesa a possibilidade de vender já a totalidade do capital da TAP neste processo que tem um horizonte até meados de 2028. É uma oportunidade, disse, de recuperar o dinheiro investido pelo Estado na TAP, considerando a oferta financeira da Lufthansa para a compra adicional dos 50,1% do capital do Estado que não estão contemplados na primeira fase da privatização.

Quem pode viabilizar (politicamente) a venda total da companhia?

Apesar de o ministro das Infraestruturas assumir que a venda total é a vontade do Governo — porque, avisou Miguel Pinto Luz, a TAP não está imune a novas crises e o Estado já não pode meter mais dinheiro — o Executivo não tem poder para a realizar sem apoio parlamentar. Para já, só pode alienar uma posição minoritária que vai até 49,9% do capital e que está aprovada em decreto-lei.

▲ Luís Montenegro sinalizou que o Governo vai ponderar a venda total da TAP até 2028

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Só com o apoio de pelo menos um dos dois maiores partidos da oposição é que será possível avançar com uma privatização a 100% e para este objetivo o Governo conta mais com o PS do que com o Chega. No tempo em que António Costa era primeiro-ministro, a intenção era alienar a totalidade da TAP. Esta ambição foi moderada pelo sucessor na liderança do PS, Pedro Nuno Santos, e José Luís Carneiro manteve, para já, a orientação para uma venda minoritária da TAP.

Há uma “reflexão” a fazer com os partidos da oposição, mas não foi revelado um calendário para essa ponderação acontecer. A primeira reação socialista foi cautelosa, sinalizando o risco da precipitação. Miguel Pinto Luz revelou que o Governo informou previamente o PS e o Chega do resultado da privatização, bem como o Presidente da República.

Até quando vale o negócio? Quais os próximos passos?

A operação acordada com a Lufthansa tem previsto um calendário de realização até final de junho de 2028. Este é o prazo limite para obter a autorização dos reguladores, com o processo junto da Comissão Europeia a ser aquele que mais atenção mobiliza. A DG Comp, direção-geral da concorrência, vai analisar o impacto da integração da TAP no grupo da Lufthansa e pode impor remédios, como a cedência de slots em rotas e aeroportos onde se verifique uma maior concentração.

Por exemplo, em Lisboa, a TAP tem 50% do tráfego e vai elevar a quota para 56% ao associar-se com a empresa alemã. O Governo não espera que a avaliação desta operação seja tão demorada como a da compra da companhia italiana ITA que tinha maiores sobreposições de mercado com a empresa alemã. Não obstante, o contrato acautela que caso os remédios impostos sejam muito significativos, a Lufthansa possa reabrir a discussão sobre os termos do negócio com o Estado.

A estimativa é que o dossiê siga para Bruxelas no início do próximo ano depois do closing (fecho) da transação previsto para o final deste ano.

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▲ Governo quer assegurar que o presidente executivo Luís Rodrigues se mantém até à entrada dos novos acionistas

AFP via Getty Images

Quem vai gerir a TAP até lá?

Ao contrário do que chegou a ser admitido, a Lufthansa não pode entrar na administração da TAP antes de a Comissão Europeia aprovar a transação, embora esteja previsto que possa acompanhar a evolução da gestão da empresa para evitar eventuais desvios.

Até lá, a gestão executiva é da responsabilidade do Estado e o ministro das Infraestruturas reconhece que é preciso dar condições para que a atual equipa, em particular o presidente executivo Luís Rodrigues cujo mandato já terminou, se mantenha em funções. No limite até ao final do primeiro semestre de 2028. Essa questão ficou salvaguardada com a nova acionista, mas não se sabem mais detalhes.

Como é que Air France KLM reagiu? E os investidores?

O grupo mostrou-se “desapontado por não ter sido selecionado” para ficar com a TAP, mas deu nota de apreciar “o diálogo construtivo mantido ao longo do processo”.

Não tendo ficado com a TAP assume que o grupo Air France-KLM “continuará a ligar Portugal ao mundo através dos seus hubs e bases e avaliará todas as opções para aumentar a sua presença no país, bem como na região da América do Sul.”

Numa publicação nas redes sociais, o presidente executivo Benjamin Smith diz que o grupo apresentou uma oferta forte e abrangente, que respeitava a marca e a herança da TAP e que era ambiciosa para o futuro desenvolvimento da empresa. E deixa a certeza de que a perda da TAP não vai alterar a estratégia do grupo que vai continuar a trabalhar para receber a companhia escandinava SAS, a última aquisição realizada que ainda aguarda a autorização da Comissão Europeia.

As ações da Air France desvalorizaram 1,7% esta quarta-feira, mas a Lufthansa caiu 2,08%.

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