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Fotografias que Ângela Ferreira nunca tinha mostrado em público, feitas durante o período em que foi estudante na África do Sul
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▲Fotografias que Ângela Ferreira nunca tinha mostrado em público, feitas durante o período em que foi estudante na África do Sul

▲Fotografias que Ângela Ferreira nunca tinha mostrado em público, feitas durante o período em que foi estudante na África do Sul

No MAC/CCB, Ângela Ferreira regressa ao passado para criar o futuro: "Levamos muito tempo a olhar para trás"

Atravessando mais de três décadas, "Here I Stand" percorre o trabalho de Ângela Ferreira. A exposição está até 28 de fevereiro no MAC/CCB, em Lisboa, museu que assinala o 3.º aniversário.

À entrada, três fotografias praticamente inéditas mostram uma jovem Ângela Ferreira (n. 1958), de fato-macaco manchado de tinta, a segurar círculos vermelhos de acrílico que viriam a integrar outras obras suas (imagens que ilustram este artigo, aliás). São retratos de uma época em que estudava escultura na Cidade do Cabo, na África do Sul. “Levamos muito tempo a olhar para trás”, confessa a artista, nascida em Maputo, Moçambique, quando o país ainda estava sob domínio colonial português. É precisamente nesse olhar retrospetivo que se encontra o ponto de partida para Here I Stand, a exposição que é inaugurada esta sexta-feira no MAC/CCB, em Lisboa, reunindo trabalhos de mais de três décadas da sua produção artística.

Imagens, sons e objetos escultóricos revelam um percurso marcado pela investigação e pela apropriação de referências históricas, políticas e culturais. Para Nuria Enguita, diretora do MAC/CCB, Ângela Ferreira é uma artista “pioneira na abordagem artística pós-colonial”, cujo percurso merecia uma exposição de conjunto capaz de dar a conhecer as várias vertentes da sua prática. Ao todo, são 25 obras e instalações, algumas nunca antes apresentadas em Portugal, dispostas sem uma ordem cronológica definida. Em conjunto, interrogam a forma como a Europa e o Ocidente impuseram ou negaram conhecimentos, identidades e ideias aos povos colonizados. A denúncia das consequências dessa dominação e a reflexão sobre os processos de libertação nacional atravessam uma obra permanentemente atenta à realidade concreta de diferentes tempos e lugares.

Grande parte dos trabalhos de Ferreira parte da história colonial e das suas marcas no presente. Através da investigação em arquivos, da arquitetura, de figuras históricas e de testemunhos orais, a artista estabelece pontes entre África, Portugal e outros contextos. A influência de John Berger, autor de Ways of Seeing, é também visível nesta forma de olhar criticamente para o mundo. Como diz Ferreira, a exposição não é silenciosa — é antes “um crepitar de vivências” que ali se amplifica.

Do apartheid a Angela Davis

Voltamos à biografia. Durante os anos em que viveu na África do Sul, Ângela Ferreira testemunhou o crepúsculo do apartheid. Em Sites and Services, instalação que articula fotografias, desenhos e quatro esculturas de aço, cimento e madeira, a artista interroga a violência inscrita nos sanitários de betão construídos na periferia da Cidade do Cabo, em Khayelitsha. Estas estruturas integravam uma “política de planeamento urbano segregado”: implantadas numa paisagem vasta e árida, funcionavam também como instrumentos de controlo, sem garantirem condições dignas à população.

▲ "La Voix de l'Algérie Libre et Combattante" (2022)

Tiago Casanova

Na mesma sala, encontramos Realistic Manifesto, obra que recupera a influência dos construtivistas russos no percurso inicial da artista. Através de uma combinação de maquinaria e mobiliário – entre ferramentas de carpintaria, grades de proteção e uma mesa de trabalho laboratorial –, Ferreira convoca o trabalho de Naum Gabo (1890-1977), que explorou as relações entre tempo, espaço e linha através da escultura tridimensional. “O que faço é pegar em objetos usados da minha vivência, de hoje, e trabalhá-los a partir de imagens do Gabo”, explica. Neste diálogo com as vanguardas modernistas, que se prolonga ao longo da sua carreira, a artista recupera uma geometria rígida, mas nunca desprovida de elementos simbólicos fundamentais no seu vocabulário artístico.

Outra influência decisiva aqui patente é Angela Davis, ativista e filósofa norte-americana que, durante a Guerra Fria, se tornou um símbolo político celebrado na Alemanha Oriental. Em 1 Million Roses for Angela Davis, Ângela Ferreira regressa a esse legado através de vídeos da visita de Davis à Alemanha de Leste, integrados numa escultura que recria uma prensa de cartazes, instrumento associado à produção e circulação de imagens, incluindo as de propaganda política. A obra cruza ainda essa trajetória com a da poeta moçambicana Noémia de Sousa, estabelecendo ligações entre diferentes geografias, histórias de resistência e formas de representação política.

Da história mineira em África ao retrato de Moçambique no Estado Novo

Sem deixar de olhar para o continente africano, a exposição reúne, numa mesma sala, duas obras que articulam a exploração mineira, a memória colonial e as ambiguidades da produção de conhecimento científico sob regimes autoritários. A primeira é Indépendance Cha Cha (2014), que nasceu da participação de Ângela Ferreira na Bienal de Lubumbashi, na República Democrática do Congo (2013), e foi apresentada pela primeira vez em Portugal no Lumiar Cité. A obra assume a forma de uma grande estrutura escultórica que reinterpreta a arquitetura colonial dos anos 1950 no centro urbano de Lubumbashi, outrora capital da província mineira do Katanga, partindo de referências diretas ao trabalho do arquiteto belga Claude Strebelle. Para Ferreira, a história da exploração mineira em África é “um desastre” e um dos exemplos mais evidentes da persistência da herança colonial.

Ângela Ferreira: “Obviamente, tenho uma missão política. A arte faz sentido para mim também nesse sentido, embora não seja a única maneira de olhar para as coisas. Sou muito guiada por essa ambição de observar o mundo, de ser crítica em relação a ele e de refletir sobre aquilo que me rodeia. Acho que, se uma pessoa for reflexiva, não consegue fazer coisas sem ter uma missão”.

No MAC/CCB, a escultura serve também de suporte e ecrã para a projeção de dois vídeos. Um regista uma performance promovida pela artista, na qual dois cantores interpretam em kibemba o poema-canção Je vais entrer dans la mine, que evoca a carta de um trabalhador forçado à sua mãe diante do medo da morte nas minas. O outro vídeo mostra a banda do Park Hotel de Lubumbashi a interpretar Indépendance Cha Cha, hino composto em 1960 pelo músico Joseph Kabasele para celebrar a independência do Congo. Entre a memória do trabalho mineiro e a celebração da libertação, a obra confronta diferentes narrativas da história congolesa.

A investigação sobre o passado colonial prossegue em Adventures in Mozambique and the Portuguese Tendency to Forget (2015). A obra debruça-se sobre a vida e o trabalho dos antropólogos Jorge e Margot Dias, cujos estudos etnográficos sobre o povo maconde contribuíram para o reconhecimento internacional da disciplina nas décadas de 1960 e 1970. O olhar de Ângela Ferreira, porém, não se limita a reconhecer o valor científico dessas pesquisas: procura desvendar a agenda política subjacente e a relação do casal com o regime salazarista. “Sabemos hoje como tudo está ligado à imagem que o Estado Novo queria passar, até por serem muitas vezes momentos devidamente encenados”, observa a artista.

Partindo da perspetiva do antropólogo Harry G. West sobre a ambivalência do casa, Ferreira detém-se em particular nos diários de Margot Dias. Num gesto crítico, inverte a direção do olhar colonial e transforma a própria investigadora em objeto de estudo, confrontando o público com documentos e registos que permaneceram durante décadas nos arquivos do antigo Ministério do Ultramar. Mais do que expor esses papéis, a obra convida a revisitar o imaginário antropológico da época e a questionar os mecanismos institucionais que condicionaram a produção, a preservação e a transmissão desse conhecimento.

▲ "Stone Free (Zama Zama)" (2026)

Tiago Casanova

A reflexão sobre o passado colonial prolonga-se numa obra dedicada à resistência ao Estado Novo, desta vez a partir da Argélia, “um país que passou pela sua guerra de independência e que neste período ajudou países como Portugal na luta contra a ditadura”, explica Ferreira. É esse contexto que enquadra La Voix de l’Algérie Libre et Combattante (2022), série dedicada à rádio criada na Argélia por dissidentes portugueses, entre os quais Manuel Alegre e Fernando Piteira Santos, ligada a vários movimentos de oposição ao regime, nomeadamente à Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN).

A obra recupera os arquivos da emissão radiofónica, incluindo comunicados reproduzidos pela PIDE, e integra esculturas de ferro que evocam as torres de emissão e as ondas eletromagnéticas que permitiam fazer chegar as transmissões a Portugal. Se, nas obras anteriores, Ferreira questiona os mecanismos através dos quais o poder colonial produziu e controlou imagens e conhecimento, aqui dirige o olhar para os meios de comunicação que permitiram contrariar o silêncio imposto pela ditadura. A rádio surge, assim, como instrumento de resistência política e forma de atravessar fronteiras, criando redes de solidariedade entre movimentos de oposição.

Uma arte que toma partido

Há outras obras que se destacam no percurso da exposição. A mais recente, Stone Free (Zama Zama) (2026), regressa à história da mineração na África do Sul. A expressão zama zama designa os mineiros informais que entram em minas abandonadas ou em funcionamento para extrair minerais, como o ouro. A sua atividade, frequentemente documentada em vídeos que circulam nas redes sociais, decorre em condições precárias, numa tentativa constante de encontrar meios de subsistência. Ferreira entrelaça esta realidade com Stone Free, a canção de Jimi Hendrix associada à ideia de liberdade, aqui interpretada pelo músico português Scúru Fitchádu.

No exterior, ultimam-se os trabalhos de montagem de Zip Zap Circus School, instalação inspirada num projeto educativo dirigido a crianças na Cidade do Cabo. Concebido pelo arquiteto moçambicano Pancho Guedes, o projeto original nunca chegou a ser construído. Ângela Ferreira recupera esse desenho e concretiza, à escala real, uma parte da estrutura, feita de madeira e lona e assente sobre rodas. “Não deixa de ressoar com o presente e com a luta pela habitação a que temos assistido”, observa a artista. A instalação será, durante estes dias, animada pela Escola de Circo do Chapitô.

▲ "Indépendence Cha Cha" (2014)

Tiago Casanova

Para esta exposição que revela muito do corpo de trabalho da artista que representou Portugal na Bienal de Veneza em 2007 (com Maison Tropicale), o título – retirado de um livro de Paul Robeson publicado em 1958 – surge como glosa perfeita do seu gesto. Não há espaço para neutralidade na arte, explica Ângela Ferreira, na linha do que defendeu o artista e ativista afro-americano: “O artista tem de tomar partido. Não se pode ser artista e não o fazer”. Sem querer colar-se formalmente à palavra “ativismo”, salienta que a sua obra revela uma postura coerente que mantém desde os tempos em que estudava Belas-Artes. “Estou na mesma posição, tal como diz este título”, sublinha.

Nesse olhar mais amplo, Ângela Ferreira não esquece os anos dos murais que pintou, o trabalho com mulheres sul-africanas e a vontade de manter sempre uma abordagem política: “Obviamente, tenho uma missão política. A arte faz sentido para mim também nesse sentido, embora não seja a única maneira de olhar para as coisas. Sou muito guiada por essa ambição de observar o mundo, de ser crítica em relação a ele e de refletir sobre aquilo que me rodeia. Acho que, se uma pessoa for reflexiva, não consegue fazer coisas sem ter uma missão”, afirma.

“Lugares que falam de política”

Assim se explica também a sua relação com a arquitetura, que, no caso africano, é um dos exemplos mais evidentes da herança do passado. “Quando olho para um edifício, por exemplo, não vejo apenas o edifício. Vejo uma série de questões complexas: a sua história, quem o construiu e o que significa. Um tribunal não é a mesma coisa que uma escola ou um hospital. São edifícios com conteúdos completamente diferentes. E, se olharmos para a forma como foram desenhados, também encontramos intencionalidades do ponto de vista da arquitetura.”

Essas estruturas arquitetónicas, tão presentes no seu trabalho, falam inevitavelmente de política: “Em Lisboa, o Museu de Etnologia está lado a lado com o edifício que era o Ministério do Ultramar. A sua presença no espaço da cidade foi uma forma de afirmar o poder. São lugares que falam de política, de sociologia, de antropologia e de muitas outras coisas, não apenas da cor da tinta ou do número de andares.”

▲ "Realistic Manifesto" (2022)

Tiago Casanova

No lugar que devidamente ocupa no panorama contemporâneo, a relação com África é inequívoca, mas a artista rejeita que o seu trabalho seja lido apenas sob essa lente. “Não diria que o meu trabalho se interessa por África simplesmente por ter vivido lá. Na África do Sul, aprendi muito cedo que não é bom falar sobre aquilo que não nos pertence. É sempre melhor trabalharmos sobre aquilo que estamos em condições de abordar. Por isso, durante os primeiros 20 ou 30 anos da minha prática, o meu trabalho centrou-se sobretudo em Moçambique, na África do Sul e em Portugal, os lugares sobre os quais sentia que podia falar. Esse princípio está na base da minha maneira de pensar. Mas, à medida que o mundo se tornou mais globalizado, comecei a perceber que podia trabalhar sobre outros lugares, desde que encontrasse uma relação que o justificasse.”

Reunir obras de diferentes momentos da sua carreira permite, precisamente, tornar visíveis as continuidades entre as questões que a interpelam. “As guerras de libertação, a liberdade e a construção histórica continuam a estar presentes no meu trabalho. Interessa-me também recuperar histórias que, por vezes, não são suficientemente consideradas pelo discurso histórico”, explica. Para Ângela Ferreira, a arte pode “introduzir divergências e levantar questões que outras disciplinas virão a aprofundar”, revelando que aquilo que tantas vezes tomamos como natural é, na realidade, uma construção. É nessa capacidade de interrogar o passado e de revelar as suas marcas no presente que reside a força do seu trabalho.

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