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O final de "The Bear": a degustação perfeita

Para quem tinha saudade do comboio desgovernado da temporada inaugural, senhoras e senhores, forrem o estômago e preparem o chá. No fim da série que deixa legado, cada segundo conta — como na cozinha.

Quando ouvi falar em The Bear, fiquei automaticamente em modo “quero muito e quero agora”. Uma série que juntava comédia e gastronomia parecia boa de mais para ser verdade — mas verdade mesmo é que se revelou ainda melhor. Desde que me lembro de ser gente que o humor é a minha comida de conforto e tudo o que é programa sobre comida faz as minhas delícias. Os bons, os mais ou menos e até os maus. O Chef’s Table da Netflix faz-me levitar e querer ser burguesa, o Masterchef Australia dá-me esperança na humanidade e o Hell’s Kitchen tem sobre mim o efeito que as obras têm nos reformados, e introduziu o beef Wellington na minha wishlist. Check, by the way.

Junte-se a isto alguém que decorou o Crime na Pensão Estrelinha com 11 anos e viu o Balbúrdia no Oeste do Mel Brooks até gastar a fita da cassete, pela mesma altura, e não havia como não amar a série que catapultou Jeremy Allen White para a fama e outdoors, envergando boxers da Calvin Klein, abençoado. Quando em junho de 2022 vi o episódio inaugural, fiquei apanhada em menos tempo que um ovo leva a ser escalfado, cerca de 3 minutos, eu cá uso o truque da película aderente. Arrisco-me a dizer que a primeira temporada não tem falhas. Como a cachupa de atum da Kasa Crioula da chef Fátima Moreno, atualmente um dos meus pratos favoritos. A realização, o argumento, os diálogos, a montagem — um grande aleluia para a montagem —, a música, tudo ao ponto, como deve estar. Ao contrário do bife, que prefiro mal passado.

E depois veio a segunda temporada, com aquele inesquecível episódio Peixes, que me pôr a berrar de forma bastante destemperada quando a Sarah Paulson e o Bob Odenkirk apareceram, qual caviar e trufa negra em cima daquilo que já era uma carne impecavelmente maturada. Não tenho a certeza se na segunda ou na terceira temporada, começa a ser tema a mudança de género da série, a bizarria que era estar a concorrer aos prémios na categoria de Comédia, que era, e que o ritmo já não era o mesmo, que não era. Mas The Bear continua a entregar, para mim, um universo fascinante, recheado de personagens soberanamente conseguidas e tecnicamente executado de forma irrepreensível e mais além. Como acontece de forma especialmente espetacular em Ice Chips, o episódio em que a Sug dá à luz, na terceira temporada. Ou em Bears na quarta, que me levou às lágrimas. The Bear mudou mas, certamente, não piorou. Desconstruiu-se, pode-se dizer, qual cozido nas mãos do Avillez.

[o trailer da quinta e útilma temporada de “The Bear”:]

Para fazer um curtíssimo previously, Carmy (Jeremy Allen White ) anuncia à Sidney (Ayo Edebiri), ao Richie (Ebon Moss-Bachrach) e à Sugar (Abby Elliott) que se vai pôr a andar a bem da pouca sanidade que lhe resta, abdicando da parte dele da sociedade. E depois de muito choro, grito, ranger de dentes e de uma tentativa patética de Sidney iniciar a sua carreira de fumadora, ela aceita um negócio que é uma red flag com paredes, teto e forno convector, desde que Richie seja incluído como sócio.

Retomamos a história no dia seguinte e eu vou dar-vos apenas as coordenadas de cada um dos ingredientes que compõe esta caldeirada. A Tina (Liza Colón-Zayas) está a mentalizar-se que vai dizer adeus a Carmy. A caminho do restaurante, o Richie tenta mentalizar-se que vai conseguir desempenhar este novo papel, mas os fantasmas do passado roubam-lhe a atenção e leva uma passa doutro carro, para começar bem a jornada. A Sugar dá um salto de fé e deixa a filha com a Double D. (Jamie Lee-Curtis) e seja o que Deus Nosso Senhor quiser. Na verdade, ela não confia assim tanto no Altíssimo, porque passa o dia com um fone no ouvido a acompanhar cada suspiro da mãe e da filha.

O Ebraheim (Edwin Lee Gibson) não desiste de criar oportunidades e prepara-se para fazer o pitch do franchise. O Uncle Jimmy (Oliver Platt) e o Uncle Computer (Brian Koppelman) estão a tentar salvar o já muito delapidado património do primeiro uncle, com um reforço júnior, a sobrinha de Computer, Cheese (Elsie Fischer). A Sid é a primeira a chegar ao restaurante, claro, e apercebe-se de algumas rachas e faz o possível para as disfarçar, numa analogia pouco subtil. Curiosamente, o Marcus (Lionel Boyce) e o Luca (Will Poulter) estão na vibe deles, a comer um hambúrguer e a discutir se o McDonald’s devia ou não receber uma estrela pela consistência. Talvez a coolness aparente se deva ao facto do hiper foco de Marcus nos seus pratos o ajudar na relação evitativa com o pai e porque, provavelmente, os anos do Luca em Copenhaga o dessensibilizaram de uma forma muito nórdica.

"The Bear" é uma série sobre família, sentido de pertença, luto, limites, obsessão e lealdade. Com o pano de fundo mais colorido, dramático, entusiasmante e caótico possível: a cozinha de um restaurante. Porque como Carmy diz lá para o fim: “Tudo corre mal nos restaurantes. Há algo insustentável neles”.

Já o Carmy entra na cozinha em modo “Vai correr tudo bem. Estou aqui. Sim, chef. Em que é que posso ajudar hoje, que amanhã é tchau aí e já vou tarde, mas vou sentir muito a vossa falta”, o que rapidamente vai começar a mexer-se uma forma mais ou menos evidente, com o sistema nervoso da restante equipa. Os irmãos Fak continuam ser os irmãos Fak, bless their souls. Só mais uma coisa: o céu está a desabar em Chicago, alertas com proteção civil lá deles com fartura, aviso de tempestade, o fim do mundo em cuecas. Há um serviço para fazer, um restaurante para encher, pessoas para alimentar e uma despensa muito arejada, porque os fornecedores não estão para fiados. Pois para quem tinha saudade do comboio desgovernado da temporada inaugural, senhoras e senhores, ponham os cintos de segurança, tomem um vomidrine se tiverem o estômago fraco e façam-se acompanhar de um chá de tília para os nervos.

A última temporada da série que nos ensinou que cada segunda conta, leva isso ao pé da letra como nunca. Posso dizer-vos que vi os 7 primeiros episódios em ante-estreia, o que me fez sentir que tinha um lugar na mesa do chef, e pus o despertador para as 7h30 para ver o último, o que muita gente classificaria como um comportamento pouco saudável, mas que me fez sentir uma bela de uma privilegiada. E esta sexta-feira às 9 da manhã, já tinha rido, já tinha chorado e acabei com um enorme sorriso nos lábios. Esta é a mais ansiogénica de todas as temporadas, os três primeiros episódios iniciais então são de roer as unhas até ao sabugo e dão todo um novo significado à expressão muito popular na restauração “estar no lodo”. Depois há uma ligeira desaceleração quase maquiavélica, tendo em conta o que vem por aí e lá vamos nós outra vez e só vamos ter algum descanso mesmo no fim. Porque tudo o que pode correr mal, ainda tem margem para piorar. É o Titanic em sous vide. Sem violinos, mas com Hans Zimmer. Digno de estrela.

Como não vos quero estragar nadinha, deixo-vos aqui só uns laivos, que depois perceberão, que são de lamber os dedos. O plot do Jimmy, do Computer e da Cheese à procura de uma solução milagrosa, para a cratera financeira, num guichet de repartição pública são uma delícia. Os Faks são o necessário pipo da panela de pressão, com momentos absolutamente hilários, como quando o Neill (Matty Matheson) descreve um prato de camarão com um “Já alguma vez levou no ** com tanta força que lhe saiu uma banana pelo rabo?” O cliente, um conhecido e septuagenário metereologista, responde-lhe “Não, mas isso seria um fenómeno, não seria?” E por falar nisso… Calma, vai fazer sentido. Não contava chorar no momento em que um banana split é servido, mas aconteceu.

▲ "The Bear" continua a entregar um universo fascinante, recheado de personagens soberanamente conseguidas e tecnicamente executado de forma irrepreensível e mais além

Vou também acrescentar que acho que a personagem do Pete (Chris Witaske), o marido da Sugar, não é suficientemente apreciada e que, normalmente, não consideraria que a preparação de um carré de cordeiro proporcionasse um momento de sensualidade, mas o Will Poulter, quer dizer, o Luca conseguiu o feito e eu apreciei. E há vinhos de centenas de dólares que cheiram a skittles e foodies que vão à cozinha e deliram quando lhes pedem para borrifar e dobrar guardanapos e o Ebraheim passa os episódios a repetir o mantra “Esses olhos azuis não me vão intimidar”. We feel you, Ebra. E tudo isto e muitos mais neste “colorido mundo de merda da restauração”, como tão bem descreveu Jimmy.

Christopher Storer, o criador, realizador e um dos argumentistas de The Bear já tinha um lugar no meu coração, por ter realizado dois dos meus especiais de comédia favoritos, what. e Make Happy, de Bo Burnham, um dos meus comediantes favoritos, senão “o” favorito. E tudo faz muito sentido, porque Burnham pode não ser o queridinho de todos e há quem o acuse de testar ou ultrapassar as fronteiras do que é stand up ou mesmo comédia, mas acho impossível não lhe reconhecerem o rasgo e a identidade. Predicados que não faltam a The Bear. Uma série sobre família, sentido de pertença, luto, limites, obsessão e lealdade. Com o pano de fundo mais colorido, dramático, entusiasmante e caótico possível: a cozinha de um restaurante. Porque como Carmy diz lá para o fim: “Tudo corre mal nos restaurantes. Há algo insustentável neles”.

Como guionista e realizadora, tenho feito formatos que se se debruçam sobre esta área e percebo perfeitamente o que aqui é dito. Por muito que tudo pareça estar a dar certo, seja numa tasca, numa caso de pasto ou num Estrela Michelin, há sempre uma sensação de que basta desviar o olhar e podemos dar com o nariz na porta e um letreiro a dizer “trespasse”. Muito respeito a esta gente e a estas equipas, porque é para duros. Mas depois vê-se o entusiasmo com que falam de um ingrediente, um prato, a história de um cliente que verteu uma lágrima à primeira garfada, e percebe-se que estão onde têm de estar. É por isso que quando o Richie pergunta à Sidney, depois do serviço mais caótico e insalubre da história da restauração, “o que é que fazemos amanhã?”, ela responde “a mesma coisa, outra vez?”. Sim, tinha apetite para mais, mas acho que foi a degustação perfeita. Yes, Chef.

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