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▲Provavelmente, um dos os penáltis mais famosos da história do futebol: quando Roberto Baggio falha na final do mundial de 94 contra o Brasil

AFP via Getty Images

▲Provavelmente, um dos os penáltis mais famosos da história do futebol: quando Roberto Baggio falha na final do mundial de 94 contra o Brasil

AFP via Getty Images

"O Penálti": do céu ao inferno são 11 metros de distância

Põe ateus a rezar, gigantes a tremer, céticos e críticos colados ao ecrã, à espera de que o tempo deixe de estar suspenso. O penálti mudou a história do futebol. Este livro conta essa história.

O remate pífio do Veloso na final da Taça dos Campeões Europeus. O tiro do Rui Costa para o título de campeões do mundo sub-20. O Ivkovic a defender penáltis ao Maradona. O Roberto Baggio a falhar a baliza, depois de ter levado sozinho a Itália à final do Mundial. O Ricardo a defender de mãos nuas e, depois, a ir lá ele mesmo o marcar o golo decisivo. Os penáltis têm má fama, “lotaria”, gostam muitos de lhes chamar, mas constituem, desde sempre, alguns dos mais inesquecíveis momentos da história do jogo bonito.

Não é por acaso. De certo modo, são todo o futebol condensado num instante. Mas não é só isso; é pensar nos exemplos acima: nos penáltis, está concentrada toda a possibilidade de glória ou perdição, a justiça mais bela ou a injustiça mais cruel. Acontece aos melhores e aos piores, infringe toda a lógica, ajoelha gigantes e eleva underdogs ao Olimpo. Os penáltis, sobretudo na modalidade “critério de desempate”, são um raríssimo instante de suspensão: o tempo pára, multidões de milhares silenciam-se, os relógios não contam, nenhum olhar se desvia. A seguir, virá sempre o contraste mais radical: o grito de glória ou o clamor destroçado. O avançado ou o guarda-redes, os azuis ou os vermelhos, os da casa ou os de fora, os que ganham sempre ou os que nunca conseguem. São a vida e a morte, a luz e a sombra, a decisão inapelável. Um dos mais simples e extraordinários espectáculos de exibição do que é, afinal, o animal humano. Grandioso, inútil, comovente, absurdo, superlativo.

▲ A capa de "O Penálti: História de uma Invenção que Mudou o Futebol", de Robert McCrum (Zigurate)

Alguém ter escrito um livro sobre isso, por si só, já merece um estádio a aplaudir; que esse alguém seja descendente do inventor da maquinaria, acrescenta-lhe o toque de dramatismo de que nenhum jogo digno desse nome poderá abdicar. Afinal, um penálti nunca é só um penálti. É a história de cada um daqueles dois homens até chegarem ali, em frente um ao outro, separados por 11 metros e sabe-se lá quantos pensamentos, e o símbolo que carregam ao peito – eventualmente, a bandeira, uma contra a outra. Países inteiros. O desempate por penáltis é o descendente das antigas batalhas, diz o livro, num dos seus remates mais certeiros. Livro lido – vamos ao resumo e à análise, já que não dá para flash interview.

Robert McCrum é um inglês de Cambridge, veterano das letras ora como escritor, ora jornalista, ora editor, mas é sobretudo, no que ao caso mais importa, bisneto de William McCrum, o guarda-redes irlandês amador que inventou o penálti em 1891. E o que faz, ao longo das breves 150 páginas (mais coisa menos coisa) de O Penálti – História de uma Invenção que Mudou o Futebol é, mais do que o subtítulo anuncia, a história de uma família ao longo de século e meio, dos penáltis que transformou em golo e dos que falhou e do que isso tem a ver com a tumultuosa relação entre a Inglaterra e o Ulster.

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▲ A ideia foi de um desses desgraçados. Um guarda-redes. O homem sem nada a perder, aquele que só pode salvar, o que não tem de fazer em silêncio o caminho inteiro do meio-campo até à marca de penálti

PA Images via Getty Images

Sim, essa é a primeira descoberta importante que fará com este livro: os ingleses inventaram o futebol, mas os irlandeses inventaram o penálti. E talvez isso explique quase tudo sobre o escasso sucesso dos segundos no jogo jogado e a maldição dos primeiros na marca dos 11 metros de que já várias e tão saborosas vezes nós, portugueses, tirámos proveito. Segunda descoberta: o penálti não foi inventado por um avançado sádico, desejoso de uma oportunidade fácil para ser herói, diante dum desgraçado obrigado a voar, em frações de segundo, para um lado ou outro de um buraco de 7 metros e 32 de largura por 2 e 44 de altura; foi ideia de um desses desgraçados. Um guarda-redes. Aquele que, ao contrário do que diz o título de Peter Handke, não vai, provavelmente, angustiado por aí além para a linha de baliza. É o homem sem nada a perder, aquele que só pode salvar, o que não tem de fazer em silêncio o caminho inteiro do meio-campo até à marca de penálti, sentindo o olhar dos 10 colegas postos nas suas costas, dizendo “por favor, não faças asneira”, que é, na verdade, terceira descoberta importante, mais do que os milhares a ver nas bancadas, mais do que os milhões a verem na televisão, o fator que mais pressão exerce sobre o frágil soldado que se prepara para cobrar “o castigo máximo”.

Willie McCrum cresceu na Irlanda do Norte, na segunda metade da longa era vitoriana. Num território pobre e menosprezado pelo império, era filho de um industrial dos têxteis, Robert McCrum, patriarca que pôde dar aos descendentes as opções com que o próprio nunca pudera sonhar. O futebol não era ainda um desporto de classes baixas, muito menos universal; era praticado, essencialmente, em escolas privadas, a par do remo ou do cricket. Era um jogo ainda a conhecer-se, a descobrir se se jogava também com a mão ou só com o pé, ainda o guarda-redes vestia as mesmas cores dos companheiros e ninguém pensava que, um dia, certos intervenientes fariam do fingimento e do mergulho para a piscina a mais enlouquecedora das artes dramáticas. Foi nesses dias, enfim, que o Menino Willie, revoltado com o excesso de violência no jogo, a ausência de limites para até onde podia a impetuosidade física chegar na disputa da bola e de que o guarda-redes era particularmente vítima, pensou e propôs a introdução de uma “grande penalidade”: a possibilidade de um remate direto à baliza, sem adversários por perto para estorvar a ação, só o guarda-redes pela frente. Mano a mano, duelo ao pôr-do-sol ou não, sem truques.

Willie McCrum deixou uma missão espinhosa ao bisneto, o autor Robert McCrum, que tudo faz, e bem, por explorar a razão de um terço de todos os penáltis serem desperdiçados, uma aberração estatística quando olhadas as condições de sucesso ou insucesso à partida, só explicável à luz do que mais importa em qualquer drama: o fator humano.

Fosse Willie um miúdo irlandês como outro qualquer e talvez a ideia nunca tivesse ido a lado nenhum, mas os McCrum eram um pouco mais do que isso. E, em breve e apesar da contestação – quem era ele ou quem quer que fosse para decidir que outrem tinha querido atingir deliberadamente o cavalheiro adversário mais à mão? – a proposta era aprovada pela F.A., aliás, Associação Inglesa de Futebol que nem se dá ao trabalho de acrescentar a parte do “Inglesa” ao nome, só-para-perceberem-de-que-pessoas-estamos-a-falar. O futebol acabava de ganhar uma nova lei: a 14, como se lê na contracapa do livro, ou a 13, como depois se diz, repetida e algo misteriosamente, no interior. Quando, muito mais tarde, em 1970, fosse criado o “desempate por grandes penalidades”, para substituir, essa sim, lotaria do desempate por moeda ao ar, e não sem que, de novo, se levantasse a polémica sobre se os penalties eram um elemento estranho ao jogo ou, pelo contrário, a mais descarnada exibição da sua essência, cumpria-se o seu formidável destino. E ficavam todos os McCrum posteriores a lamentar para a eternidade nunca o bisavô Willie ter reclamado royalties da invenção.

Robert McCrum é um jogador experiente que conduz, com segurança, a narrativa ao longo das décadas e dos diferentes planos: o da história do futebol, o da história da família, que, afinal, nunca antes ou depois se voltaria a cruzar com a do pontapé da marca dos 11 metros, e o da história da Irlanda do Norte. É necessária a colaboração e boa-vontade do leitor para ver algo mais do que algumas analogias vagas a segurar os paralelos que o autor insiste em estabelecer entre política, azares da vida e pontapés na bola, mas nada que não se faça em nome do bom espírito de equipa. Afinal, Willie deixou uma missão espinhosa ao bisneto, que tudo faz, e bem, por explorar a razão de um terço de todos os penáltis serem desperdiçados, uma aberração estatística quando olhadas as condições de sucesso ou insucesso à partida, só explicável à luz do que mais importa em qualquer drama: o fator humano.

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▲ A incredulidade de Maradona, quando em 1990, contra a Jugoslávia, num jogo do Campeonato do Mundo, rematou contra a defesa do guarda-redes Ivkovic

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É o que o criador talvez nunca tenha compreendido totalmente o alcance da sua própria criação. Nunca se referiu aos fatores “extra-futebol”, nunca deixou uma nota sobre questões psicológicas, condicionantes do ambiente envolvente, pressão ou expectativa, a importância desempenhada pelo medo de falhar ou, pelo contrário, a certeza absoluta de que se vai ser feliz. Não. Apenas algumas instruções quanto à receita estritamente mecânica para o êxito: “Coloque a bola numa posição de maneira que o dedo grande do pé acerte num ponto ligeiramente abaixo da parte mais larga”, “Não olhe para os postes, ao invés mantenha os olhos na bola”, “A linha do remate deve fazer uma bissectriz no ângulo formado pela bola e ambos os postes” (tudo citações da página 75). Irra, Willie. A bissectriz? Really?

Mas onde O Penálti vai ao poste é quando decide escolher como herói, santo e solitário cavaleiro no clímax da narrativa, Gareth Southgate. Gareth-bocejo-Southgate, que falhou um penálti decisivo para Inglaterra nas meias-finais do Euro 1996 e teria depois, enquanto selecionador nacional, procurado, segundo Robert McCrum, redimir Inglaterra do seu complexo, com um longo e público trabalho psicológico junto dos jogadores e da própria nação. Só que não.

Em todo o caso, dizemos nós, são 150 páginas de um jogo bonito, bem jogado, um jogo aberto ao qual o leitor acrescenta, facilmente, a memória dos seus próprios penáltis, dos seus fracassos, dos seus santos e heróis. O mais provável é acabar a dar por ele, serão fora, a descobrir nos confins dessa espantosa internet vídeos dos desempates por penáltis que achava que já só existiam nas memórias mais recônditas da sua vida. Foi o que aconteceu ao cronista (Veloso, caramba. Que pontapezinho de m**** foi aquele?).

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