Um ano e meio após vencerem o Festival da Canção com Deslocado, tema que transformou as suas vidas e os tornou num fenómeno internacional, os NAPA lançam o seu terceiro álbum de originais, Semitrópico. O quinteto concebeu um disco centrado na ilha da Madeira, de onde são naturais, conciliando o imaginário do arquipélago com as vivências pessoais de quem cresce longe de casa. Pelo meio, junta-se o tropicalismo brasileiro, país onde se fala a mesma língua e por vezes se canta a mesma canção, onde construíram pontes e descobriram pontos em comum.
O álbum foi produzido pelo carioca Lucas Nunes, músico dos Bala Desejo e produtor de Caetano Veloso nos últimos anos. Entre a Madeira, o Rio de Janeiro e Lisboa, ergueram-se 13 faixas de uma indie pop sofisticada, solar e luminosa, de sopros sublimes e arranjos orquestrais, inspirada pela música popular brasileira mas também pelas tradições sonoras da ilha atlântica.
Deslocado, canção com que representaram Portugal na Eurovisão — que se tornou single de quádrupla platina no país, dupla platina no Brasil e, ainda mais improvável, single de ouro na Indonésia —, que os levou a fazer dezenas de concertos e a esgotar os coliseus de Lisboa e Porto, profissionalizando-os de vez, foi adiando o processo do disco mas também permitiu que ele fosse construído com o tempo e os recursos que até então eram impensáveis para uma banda emergente. Os NAPA já não o são — e procuram agora confirmar que não são apenas um one hit wonder, que têm coisas a dizer e uma pop inventiva, com identidade, para apresentar ao mundo.
O fenómeno Deslocado permitiu um álbum ambicioso
Com a formação atual composta por Diogo Góis (baixo), Francisco Sousa (guitarra), João Rodrigues (bateria) e os irmãos Guilherme (voz e guitarra) e Lourenço Gomes (teclas), os NAPA nasceram no já distante ano de 2013 enquanto Men On The Couch, nome que se manteve até se estrearem em disco com Senso Comum, em 2019. Quatro anos depois, deixavam o inglês para trás, agarravam-se com todas as forças ao português e também por isso trocavam de nome para NAPA. Foi quando lançaram o segundo álbum, Logo Se Vê, que teve uma maior expressão e os levou a realizar a primeira digressão nacional.
O crescimento destes madeirenses radicados em Lisboa desde os 18 anos foi gradual, mas entrou em velocidade supersónica a partir do momento em que ganharam o Festival da Canção em 2025. Deslocado, um tema em que o vocalista e letrista Guilherme Gomes canta sobre “a dor e a saudade” de estar longe de casa, de quem não se revê na selva de cimento e no ritmo frenético de Lisboa, foi o grande trunfo.
A banda até já tinha tentado participar no concurso televisivo organizado pela RTP no ano anterior, com Lento (faixa que permaneceu na gaveta e que agora vê a luz do dia, fazendo parte do alinhamento do novo disco), mas não podia imaginar que a presença no Festival da Canção fosse tão determinante para a sua história.
Com a vitória em Portugal e a consequente participação na Eurovisão (onde ficaram em 21.º lugar), Deslocado correu o mundo. Tornou-se viral no TikTok, onde existem quase seis milhões de vídeos publicados que usam a canção, e um ano e meio depois não há sinais de abrandamento. “Graças aos deuses do algoritmo, a música continua com uma tracção absurda”, comenta Guilherme Gomes, acrescentando que o tema soma cerca de 100 mil reproduções no Spotify por dia. Ao todo, somados os números das diferentes plataformas digitais, são mais de 220 milhões de streams. “Foi uma junção de fatores e de sorte. Foi o Festival da Canção, depois a Eurovisão, o instrumental e a mensagem, que foi traduzida em muitas línguas. Apanhou mesmo o comboio do algoritmo no momento certo e viajou sozinha, nós nem fizemos grandes esforços para que isto acontecesse.”
As histórias relacionadas com o impacto da canção sucedem-se e continuam a surpreender os cinco músicos. “Há umas semanas um amigo nosso estava a andar de táxi no Japão e a Deslocado começou a dar na rádio”, conta o guitarrista Francisco Sousa. “Um primo meu também esteve num restaurante no Japão e um dos empregados tinha a Deslocado na playlist do espaço”, acrescenta o baixista Diogo Góis. “Ele disse que era meu primo e eles ficaram: ‘como assim?’”
Várias das canções de Semitrópico já existiam antes de os NAPA se tornarem um fenómeno. “Só que aconteceu o Festival da Canção e os nossos planos mudaram todos”, explica Guilherme Gomes. “Passámos quase um ano de volta daquela canção — felizmente, porque ganhámos o festival, fomos à Eurovisão e isso trouxe-nos muitos concertos — então o disco foi-se transformando.”
Através de André Santos, músico e produtor madeirense que estava a trabalhar com António Zambujo quando o alentejano esteve no Rio de Janeiro a gravar com Caetano Veloso, estabeleceram a ponte com Lucas Nunes, que aceitou prontamente produzir o terceiro disco dos NAPA. “De repente o sonho tornou-se realidade e melhorou muito o álbum e a nossa vida”, diz Francisco Sousa.
Estiveram 10 dias em estúdio no Brasil, onde trabalharam com diferentes instrumentistas e arranjadores, e depois levaram Lucas Nunes para Portugal durante outros tantos dias, sendo que pelo meio também gravaram com a Orquestra Clássica da Madeira. “Foi um luxo que nos demos porque não é propriamente barato, mas foi um investimento para que a nossa música chegasse a um patamar novo”, acrescenta o guitarrista. “Colocámos as fichas todas neste álbum pois tínhamos confiança nas canções que tínhamos feito e tínhamos mais tempo, mais fundos, para fazer uma coisa mesmo a sério. Não queríamos perder a oportunidade”, aponta Guilherme Gomes.
Uma ilha semitropical enquanto musa criativa
Uma parte essencial do processo foi perceber que desejavam escrever (e compor) sobre a Madeira. Não sobre a ilha em particular, o “pedaço de rocha no meio do oceano”, como descreve João Rodrigues, mas sobre as suas experiências com a Madeira — no fundo, as memórias de juventude, as vivências no sítio a que chamam casa mas que já não é a morada fiscal que aparece nos documentos. “Todas as canções são à volta da nossa experiência de crescer”, diz o baterista. “E essa experiência está invariavelmente ligada à Madeira.”
Deslocado confirmara que o público “conecta-se com aquilo que é verdadeiro”. “O [cineasta] Martin Scorsese disse que ‘o mais pessoal é o mais criativo’ e as nossas experiências ao crescer na Madeira moldaram-nos fortemente”, afirma Guilherme Gomes. “No início, sermos madeirenses foi um entrave porque era difícil chegar às pessoas no continente. Não as conhecíamos: os donos dos clubes, das editoras, as pessoas da indústria. Antes também estávamos noutra fase, não queríamos olhar tanto para trás, estávamos focados no momento, mas uma pessoa cresce e vai percebendo as coisas maravilhosas que aquela ilha nos deu. É realmente preciso ver a ilha de fora para conseguir falar sobre ela”, acrescenta o vocalista, parafraseando o escritor José Saramago.
Os NAPA agarraram-se à aura tropical da Madeira, aos maracujás e bananas, às temperaturas amenas durante todo o ano, à boémia presente na vivência da ilha, regada pela poncha ou pela nikita. “Há uma tropicalidade que nos influencia, na cultura e no modo de estar na ilha, que não estava refletida e representada na música feita lá. O Semitrópico surge dessa necessidade. E todos os microclimas da ilha podem ser associados aos diferentes tons das canções.” A delicada Quem Me Dera, uma colaboração com a artista espanhola Sílvia Pérez Cruz, lembra o norte, mais húmido e fresco; a nostálgica Quinta Calaça é certamente mais sul, quente e ensolarada. Os sopros, frequentes ao longo do disco, evocam uma imagem soalheira de uma ilha de clima subtropical mais perto da costa de África do que da Europa.
Em Vasse Lá Lem, que encerra o disco, carregam o sotaque madeirense e os regionalismos, incorporam instrumentos tradicionais como as braguinhas, pequenas guitarras acústicas que deram origem ao ukulele havaiano; e os brinquinhos, instrumentos de percussão usados nas danças folclóricas. “Mas também há um twist porque a canção é muito inspirada no bluegrass americano. Não é propriamente uma música tradicional madeirense, é uma mistura de várias coisas que se transformam numa coisa nova”, diz Guilherme Gomes. “O objetivo era pegar nesses instrumentos tradicionais e dar-lhes uma roupagem mais pop, mais rock, mais fresca e explorá-los num contexto em que não são tão utilizados. Trazê-los para uma música feita hoje na Madeira, ou naquilo que pode ser uma música madeirense”, acrescenta Francisco Sousa. “Talvez seja o início de algo maior que possa acontecer no futuro, através dos artistas que lá fazem música”, deixa no ar o vocalista.
Foi esta sensação (semi)tropical que os aproximou naturalmente do Brasil. Fãs de longa data da herança musical brasileira, foram-se apercebendo daquilo que tinham em comum com o maior país lusófono. “Há pouco tempo, no verão, estivemos na Madeira com o [músico brasileiro] Zé Ibarra e ele disse: ‘isto é o sítio em Portugal que mais me faz lembrar de casa’. Fomos chegando a essas conclusões ao longo do tempo”, relata Guilherme Gomes. “A música tropical do Brasil já está feita — e de uma forma ótima”, acrescenta o irmão Lourenço. “Não queríamos imitar, queríamos ir beber daquilo que achávamos que tínhamos em comum, além da música que já tínhamos feito antes e daquilo com que nos identificamos. Essa junção resultou neste álbum.”
Da Madeira para o mundo
O desafio passa agora por converter todos aqueles que gostam de Deslocado mas não conhecem propriamente a obra dos NAPA a gostarem da banda e das suas canções como um todo. “Somos nós quase a provar que não somos one hit wonders, que temos algo além disto. É um desafio grande, mas é bom, e ao vivo tentamos passar uma energia forte e genuína e vamos contagiando as pessoas. Era pior se não estivesse ninguém a ouvir, se estivéssemos a procurar um público. É bom ter esta alavanca e é tentar fazer o melhor possível deste desafio”, defende Francisco Sousa. “A Deslocado tornou isto possível. Agora o trabalho é evoluir e fazer com que as pessoas fiquem para ouvir o resto.”
No ano passado, além dos concertos em Portugal, tiveram a oportunidade de tocar em Londres (Reino Unido), Dublin (Irlanda) e Madrid (Espanha). O público era misto: portugueses emigrados (e Deslocado ressoa particularmente junto da diáspora) mas também muitos locais. “Foi incrível, públicos muito fervorosos”, recorda Guilherme Gomes.
Agora, preparam-se para uma digressão europeia que vai passar por espaços como a Sala Changó, em Madrid (8 de novembro); Sala Apolo, em Barcelona (9 de novembro); La Maroquinerie, em Paris (11 de novembro); Village Underground, em Londres (13 de novembro); Melkweg, em Amesterdão (15 de novembro); Knust, em Hamburgo (16 de novembro); Lido, em Berlim (17 de novembro); Werk 2, em Leipzig (19 de novembro); Das Bett, em Frankfurt (22 de novembro); Papiersaal, em Zurique (23 de novembro); e pelo Circolo Arci Bellezza, em Milão (25 de novembro); datas que provam a dimensão internacional que os NAPA conseguiram alcançar e que é um feito raro na história da música em Portugal. Também já foram anunciados na edição do próximo ano do Primavera Sound Barcelona.
“Antes desta transformação toda, era algo completamente impensável para nós”, comenta Francisco Sousa. “Só fazer uma tour em Portugal já era… uau! Só por alugarmos uma carrinha e irmos ao Porto tocar já ficávamos em êxtase. Porque antes íamos de autocarro, usávamos a bateria de cada sítio. E isto não foi assim há tanto tempo, foi há menos de três anos”, conta. “Quando imaginamos uma carreira na música, as bandas gigantes que sempre ouvimos, pensamos numa tour de carrinha ou autocarro… Parece que é algo que só acontece nos documentários ou nos filmes, como o Almost Famous. Isso ser uma realidade para nós é algo que vai ficar para sempre nas nossas cabeças e na nossa história.”
Tal como ninguém poderia prever o sucesso avassalador de Deslocado, também ninguém consegue adivinhar o que o futuro reserva para os NAPA. Certo é que a globalização digital permitiu a comunicação com todo o planeta em tempo real e, embora seja extremamente difícil construir um êxito global, até porque os fatores são múltiplos e exista sempre um elevado grau de imprevisibilidade, é mais possível do que nunca para uma banda portuguesa oriunda de uma ilha no meio do oceano que não chega aos 270 mil habitantes. “É certamente mais fácil chegar ao mundo”, remata João Rodrigues. “Se fosse nos anos 80 e a Deslocado fosse um single em vinil, dificilmente seria single de ouro na Indonésia. Havendo esta oportunidade, cabe-nos aproveitá-la e levar o nosso trabalho ao máximo de pessoas possível.”