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©Lionel Balteiro / Mínima Ideia

©Lionel Balteiro / Mínima Ideia

Pedro Abrunhosa ou a entrega por "Inteiro", 20 anos depois

Os 20 anos sobre "Viagens" dão o mote à nova digressão de Pedro Abrunhosa, uma viagem ao passado com olhos no futuro. "Não Posso Mais" marcou o início. Duas décadas depois, ele ainda pode tudo.

Em 1994, quando os CD ainda eram um bem precioso e o top de vendas português era ocupado por nomes como Mariah Carey, Michael Bolton e Bon Jovi, Pedro Abrunhosa embarcou numa viagem chamada Viagens. Num só disco, os portugueses encontraram funk, rock, jazz, rythm&blues, sexo, palavrões. E gostaram. Gostaram tanto, que fizeram dele um dos discos mais vendidos do ano, com tripla platina.

Pedro Abrunhosa não gosta de olhar para trás. Mas os 20 anos passados sobre canções como “Não Posso Mais”, “Socorro” e “É Preciso Ter Calma” levaram-no a reeditar o disco, em novembro do ano passado. Esta quinta-feira arranca em Portugal a digressão “Inteiro”, com três concertos esgotados no Coliseu do Porto, e onde o músico e compositor vai recordar toda a sua discografia. A 7 de fevereiro é a vez do MEO Arena, depois seguem-se Pinhel e Guimarães. O Observador falou com Pedro Abrunhosa sobre os concertos, sobre o disco que marcou os últimos 20 anos da música portuguesa, mas também sobre o estado do país, as eleições gregas e o Porto pós Rui Rio.

Vai dar três concertos seguidos no Coliseu do Porto. A última vez que um fenómeno como este em português aconteceu foi com a febre do regresso dos Ornatos Violeta, em 2012. Como é que se chega até aqui?

Acho que se chega, em primeiro lugar, com repertório, com a construção de repertório ao longo dos anos, em discos, que é reconhecido pelo público e que o público toma como seu. A geração que foi apanhada pelo Viagens, há 20 anos, tem agora mais de 30 anos. Esses vão ver [o concerto]. Muitos passaram aos irmãos mais novos, aos filhos, também. Há ali um abarcar geracional. Cada um dos sete discos marcou à sua maneira.

“Inteiro” é um espetáculo apresentado como sendo “sobre o passado, sobre o presente e sobre o futuro”. Traduzindo: o que é que o público vai poder ver? Viagens de uma ponta à outra, finalmente?

É mais um espetáculo sobre o futuro, por paradoxal que possa parecer, mas é uma vista do passado para o futuro. Nos concertos eu vou abandonando algumas canções, os ‘mega mega êxitos’, mas substituo por outras porque faço outras. É quase como na psicoterapia: “Ok, acabou o amor, mas vamos lá então avançar”. Nem sei sequer se é uma substituição. Mas o público não fica defraudado porque sai uma música e entra uma nova. O público gosta de ouvir músicas novas, eu noto nas reações ao longo destes anos todos de palco. Claro que as músicas consagradas têm um certo peso, mas se o espetáculo não tem músicas novas, contemporâneas, há uma certa nostalgia no espetáculo. E os meus espetáculos não são nostálgicos, eles não vivem do passado, vivem do presente e do futuro. Eu agora vou é revisitar outra vez essas canções, mas com uma visão contemporânea, vou retocá-las.

Tinha ideia de que não gostava de voltar ao passado, por isso evitava centrar os concertos em sucessos do passado. Porque é que decidiu fazer esta retrospetiva?

Eu não gosto mesmo de voltar ao passado, não gosto de ficar sentado a olhar para aquilo que fiz. Eu uso para mim próprio, para justificar esse desapego do passado, a imagem dos escritores de quem gosto. Por exemplo, eu não estou a ver o Lobo Antunes a ir ler os livros passados e a discorrer agora sobre Os Cus de Judas [livro lançado em 1979], ou sobre o Memória de Elefante. Não estou a ver, não é? Também não estou a ver a Lídia Jorge a fazer isso com A Costa dos Murmúrios. Portanto, o que a mim me interessa é que aquilo aconteceu, está lá, está publicado e participou na existência cultural e identitária do país, mas a partir daí é olhar para a frente. Claro que não me posso esquecer que os fiz, porque ao contrário dos escritores que não fazem digressões, eu tenho de as fazer.

"Há músicas do 'Viagens' que eu nunca mais ouvi. Não ouço os meus discos. Se eu os ouço durante três anos em estúdio, para que é que os vou ouvir depois de saírem?".

O espetáculo que está em cima do palco tem uma grande componente de futuro e eu quase sempre faço músicas no palco que ainda não foram gravadas e que depois acabo por gravá-las. Depois é uma percentagem de 20% de olhar para trás. Mas remetendo para a primeira pergunta, o que faz o espetáculo é o repertório. As pessoas gostam de se envolver, mais do que isso, precisam de sentir pertença, sentir a sua dor, a sua revolta, a sua tristeza, a sua alegria e celebração debaixo de um guarda-chuva metafórico que é a música.

Concretamente, o que é que preparou para “Íntimo”?

Estamos em ensaios exaustivos há três semanas, fizemos uma primeira apresentação em Paris [no Olympia, a 16 de janeiro] que foi quase um ensaio geral, embora não tivéssemos lá toda a gente. E depois fomos ao Luxemburgo. O que se vai passar em primeiro lugar é um ensaio com 20 músicos em palco e participação especial de Camané, um grande amigo e uma voz que dispensa qualquer apresentação. Vamos ter uma secção rítmica fortíssima que são os Comité Caviar, reforçada por uma secção de sopros igualmente forte, que eu já não uso há muito tempo, desde o Viagens que só uso pontualmente, portanto o espetáculo vai ter essa componente funk/soul e eu para isso preciso dos sopros, há esse in memoriam do Viagens. O espetáculo vai ter muita força, por isso é que se chama “Inteiro”. Depois tem quatro vozes femininas que sustentam a minha voz em alturas emblemáticas e que dão uma cor muito curiosa, nunca tinha utilizado tantas vozes.

"O espetáculo vai ter essa componente funk / soul e eu para isso preciso dos sopros, há esse 'in memoriam' do Viagens'".

Visualmente, também é muito interessante, remete para um universo rythm&blues. E depois tem o Mário Barreiros, que foi meu colega, produtor e guitarrista do Viagens, o Edgar Caramelo, que foi o saxofonista do Viagens, não tem o Maceo Parker [saxofonista de James Brown], infelizmente não pode por incompatibilidade de datas, está nos Estados Unidos com uma digressão fulgurante e não pode mesmo. O espetáculo vai ser uma celebração. Vai ter momentos muito íntimos, comigo sozinho em palco, vai ter momentos com 20 músicos em palco, e essa dicotomia está lá.

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“Viagens” foi reeditado em novembro de 2014. ©D.R.

Como é que olha para o Viagens 20 anos depois? Naquela altura tinha noção do impacto que ia causar?

O Viagens, como todos os discos, deu-me muito trabalho. E quando se está dentro de um trabalho durante muito tempo, é como um cientista que está dentro de uma investigação. Ele sabe que está perto da revelação porque está muito por dentro do processo, porque se levanta todos os dias às sete da manhã para apanhar o metro, para ir para o laboratório, pegar nas lamelas… Aquela rotina do dia-a-dia, como é a minha rotina com a música, retira alguma magia ao resultado final. Na realidade, esse cientista acaba por descobrir uma cura, para ele aquilo é natural porque esteve a trabalhar todos os dias, de manhã à noite, mas para as pessoas ele descobriu de repente. Portanto, quando o Viagens aparece e é tripla platina, o mundo fica mais surpreendido do que eu, mas isso também faz com que eu não leve muito a sério, não empolo muito esses fatores de sucesso, porque senão dava demasiada importância a isso. Obviamente que é muito importante e gosto, mas eu relativizo o sucesso. Assim, posso voltar ao laboratório e pegar nas lamelas com a mesma humildade e inocência com que o fazia em 1991 e 1992. Para mim, cada novo disco é um Viagens, é uma descoberta. Há músicas do Viagens que eu nunca mais ouvi. De vez em quando ouço algumas, quando passam na rádio, mas eu não ouço os meus discos. Se eu os ouço durante três anos em estúdio, para que é que os vou ouvir depois de saírem?

Nestes últimos 20 anos mudou muita coisa, não só país mas na própria música.

Bom, o país evoluiu nalgumas formas. Dialeticamente tudo muda, a Europa mudou, o mundo mudou, sobretudo nestes últimos quatro anos houve uma mudança muito rápida de paradigmas. No paradigma artístico, a música mudou do físico para o digital. Isso é uma mudança arrasadora na indústria musical, mas não no sentido negativo. Muda o sítio onde as pessoas ouvem música, ou seja, mudou o formato. É como quando se inventou o fonograma com a manivela, “ah, lá se foi a vida dos músicos, agora põe-se um fonograma no palco e pronto, vão todos para o desemprego”. Não, pelo contrário. Há sempre uma visão apocalítica, é o fim dos tempos. Não. A tecnologia anda à frente, obviamente, e as pessoas andam atrás, pelo que ainda nos estamos a habituar à mudança de paradigma. Para músicos como eu, que fazem o seu repertório, fazem as canções com letra e música, produzem, compõem, vão para cima do palco e tocam as músicas, no fundo estamos completamente salvaguardados, seja qual for o formato em que a música existe. Porque o público está-se a marimbar para o formato em que vai ouvir a música, o público quer ouvir e compete-me a mim, enquanto produtor de música, dar ao público o que ele quer. Temos um canal de Youtube que tem mais de 30 milhões de visualizações, nas redes sociais temos mais de meio milhão de seguidores. Adaptamo-nos ao novo paradigma.

E no país?

Em termos sociais, o país também mudou muito e comprovou, quanto a mim, que fez más escolhas em termos da elite política que escolheu para liderar. São 20 anos sobre o Viagens, mas são 40 anos sobre o 25 de Abril, e ao longo destes quase 41 anos aquilo que fica é a construção de uma esperança no período pós-revolucionário, e que está na Constituição. A Constituição diz claramente que os princípios básicos da população, que contribuem para a sua qualidade de vida, são o acesso à saúde, ao ensino e aos bens culturais, e que por isso devem ser tendencialmente gratuitos. Este sonho da Constituição de 1976, e que foi sendo revisto, surge nessa altura.

"O que eu vejo nos últimos 20 anos é uma degradação da qualidade de vida dos portugueses".

Agora, fazendo o balanço, reparamos que o discurso da elite tem sido um discurso falacioso. Falam no povo e no bem-estar do povo, mas o que se nota é que tem havido uma falência da esperança, através da aplicação do jargão das políticas neoliberais que diz, basicamente, que o Estado não tem qualquer papel ativo na vida dos cidadãos nem na vida empresarial do país, o Estado limita-se a ser um mero intermediário entre os privados e o público. Isso abre portas a uma clientela imensa e ao fim da democracia, uma vez que o Estado, o Governo, é meramente gestor, quase como um intermediário dos empresários. “Quem é que dá mais por este hospital? Quem dá mais pelas escolas e financia-se depois aquela rede privada?”. Estamos a ironizar mas isto tem um efeito perverso, porque morrem pessoas nas urgências quando não deviam, há pessoas com fome num país da Europa no século XXI, o que é um atentado civilizacional, isto de haver mais de um milhão de pessoas em Portugal a viver abaixo do limiar da pobreza, o número de desempregados é assustador, a emigração está ao nível dos anos 50 quando o país vivia numa ditadura. Alienam-se os bens fundamentais, desinveste-se na saúde e na educação, a justiça é cada vez mais uma justiça para ricos.

Acha que é a falência do Estado Social?

Hoje [a entrevista foi realizada a 27 de janeiro] saíram os resultados das provas dos professores e estes são cada vez mais humilhados… Há uma tentativa de destruir o serviço público, já para não falar da privatização da EDP, dos CTT, da TAP, que espero que não aconteça, da REN, da PT. Foram negócios péssimos para o país e isso está a ver-se agora, que levaram a que os centros de decisão desses negócios tenham sido levados daqui para fora. Assiste-se a uma perda de setores estratégicos que levam ao empobrecimento do país e ao enriquecimento dos tais compradores que o Governo tem.

O que eu vejo nos últimos 20 anos é uma degradação da qualidade de vida dos portugueses, ainda que tenha havido investimento, foi errado e em estruturas erradas, nomeadamente no betão, que não cria riqueza. Havia algumas autoestradas que era fundamental construir, mas faltou a reindustrialização do país. Houve uma centralização em Lisboa e Vale do Tejo e uma desertificação do interior que hoje em dia é fatal. Canalizou-se o investimento para setores que eram claramente de interesses privados. Este discurso balofo de que estamos aqui para servir os interesses do povo é uma mentira. Estão aqui para servir os seus próprios interesses, quer da elite, quer da banca, e com isto arrastaram Portugal para a zona do lixo. É preciso assacar responsabilidades. O Estado só é mau gestor se quem lá estiver for mau gestor ou fizer de propósito para provocar falências e levar a privatizações. Se os políticos fossem responsabilizados criminal e judicialmente pelas famosas derrapagens que havia há 10, 15, 20 anos… Esse dinheiro foi para algum lado. E quem vai pagar tudo isso vamos ser nós. É um karma que o povo português não pediu.

"Quer melhor poder do que este de ter três Coliseus esgotados e passar esperança às pessoas com a minha música? Esse poder [executivo] não quero para nada".

Era a isto que se referia quando escolheu começar o texto de apresentação dos espetáculos que aí vêm com “Nestes escuros tempos que atravessamos”?

Sim, estes são os tempos escuros que atravessamos. As pessoas estão cansadas de ser vigarizadas, intrujadas. Pior do que isso, o balão de esperança que foi construído no 25 de Abril está a esvaziar-se. E houve muita gente a lutar e a sacrificar-se para ter um país melhor. Vivemos tempos tristes e cinzentos. Mas há uma luz que se pode mandar, uma luz apaziguadora. A arte é isso, é apaziguadora social. Muitos dos concertos que eu faço pelo país fora, e não só, esses concertos contactam-me com a realidade. As pessoas vão aos concertos exorcizar, expulsar a dor social. E portanto os concertos são muito benéficos para a espiritualidade do país. Mas não é musica de intervenção, não se confunda porque eu não acredito nisso. É arte, e a arte não intervém, ilumina.

Ouvindo-o falar quase que vislumbro um programa de quem gostava de fazer alguma coisa, politicamente. Não considera entrar na política?

Quer melhor poder do que este de ter três Coliseus esgotados e passar esperança às pessoas com a minha música?

Mas não é um poder decisório.

Esse poder não quero para nada, gostava de ver um poder executivo profundamente honesto, desinteressado de si próprio e interessado nos outros. Um poder de bondade, essa coisa tão aproveitada pelo discurso político que é a bondade, o altruísmo. Isso está desaparecido. Acredito que há muita gente que quer cargos públicos, que é genuinamente boa, como o criador do Sistema Nacional de Saúde, António Arnaut. Pessoas de vários quadrantes dedicadas à causa, que têm contactos humanos profundos, porque não podemos ser governados por técnicos. Temos de ser governados por pessoas que gostem de pessoas.

Daí a minha pergunta.

Eu sou demasiado independente e quero continuar a ser. E também já se percebeu que esta força que tem a minha palavra através da canção é em si um poder, um contrapoder se quiser também. Não tenho nenhuma ambição de poder executivo. Nenhuma, nenhuma, nenhuma.

Como vê o resultado das eleições gregas?

Os gregos, eu não sei o que é que eles querem, mas sei o que é que eles não querem, que é continuar esta mentira. Esta mentira universal da dívida. Vá perguntar ao Lehman Brothers se já não têm que chegue. Ainda por cima a capitalização da banca alemã dá-se através dos juros da dívida que os países do sul pagaram. Fomos uma espécie de airbag, se quiser, da Europa e sobretudo da Alemanha. A nossa riqueza está toda a ir para o banco alemão, e quem fala do BCE fala do Deutsche Bank. Portanto é natural que as pessoas digam: “já chega, não queremos mais isto, queremos experimentar outra coisa”. Agora, vamos lá ver o que é que o Syriza faz. Não subscrevo muito do que eles dizem mas vamos ver o que é que fazem. Portugal também continua a ter excelentes pessoas, acredito muito na capacidade política e humana do António Costa, e acho que a insatisfação pode e deve ser canalizada para os partidos tradicionais. Se há canalização do voto contra políticas de austeridade, nós temos partidos que representam isso. O António Costa tem-no dito, o Partido Comunista tem-no dito e o Bloco de Esquerda também. É escusado inventar mais partidos, começam a ser demais e depois é complicado.

Pedro AbrunhosaAlbum Contramão 2013Fotografias:© LionelBalteiro/MínimaIdeia © Lionel Balteiro / Mínima Ideia

© Lionel Balteiro / Mínima Ideia

E o Pedro Abrunhosa que fez o Viagens, é o mesmo de agora? Em 20 anos, o que é que mudou?

Para isso tinha de me deitar no sofá do psiquiatra [risos]. Muita experiência, muita serenidade também. Eu edito o primeiro disco aos 33 anos, já não era nenhuma criança, nessa altura já tinha muita experiência de estrada. Agora tenho mais. Continuo a viver para dentro, não frequento grandes festas nem salões, nem a corte, nem revistas, vivo na minha vida interior. Não gosto de falar da minha vida pessoal, nunca falei, mas mudou a maneira como vejo música. Aprendi com os meus mestres, como o Jorge Peixinho, e com os meus pais, a ter curiosidade, permanência da curiosidade, viver e ouvir coisas novas, ler poesia, ensaios, ver bons filmes, não perder tempo o tempo com trivialidades. O tempo é um bem precioso. É fundamental que às dez da noite, quando chegamos a casa, que não percamos muito tempo em redes sociais a jogar aqueles jogos, quando à minha volta tenho o Alcorão ou a Bíblia ou Tolstói para ler. Essa curiosidade, eu acho que aumentou.

O que é que gosta de ouvir?

Por defeito, e porque venho dessa área [estudou no Conservatório de Música do Porto] ouço muita música clássica, tenho em casa a TV ligada no Mezzo. Tenho descoberto muita coisa, mas sempre fui um mahleriano, a harmonia mahleriana sempre me fascinou. Estudei Mahler, a escola alemã, Wagner, a escola de final do século XIX, início do século XX. Ouço muito jazz, na pop vou descobrindo o que me mostram, gosto muito do Ryan Adams – não confundir com o Bryan Adams – gosto muito da Lucinda Williams, é um autêntico Johnny Cash em mulher, eu gosto de cantautores, que escrevem e cantam a sua própria música. Em Portugal, continuo a gostar dos mesmos, como o Sérgio Godinho, Tiago Bettencourt, Jorge Palma, gosto das pessoas que têm essa qualidade na escrita das músicas e que não se esforçam por ser modernos, mas que são contemporâneos, o que são duas coisas diferentes.

"Eu não gosto de futebol, portanto não percebia a expressão " jogar em casa". Mas os campos não são todos iguais? Não, não são. O relvado do palco de casa é diferente, agora percebo".

Atuar no Coliseu da sua cidade, um coliseu ao qual se chegou a algemar no passado, é especial?

Sim, há uma certa emocionalidade nisso e o público ajuda, porque é a minha cidade. É tocar em casa. Eu não gosto de futebol, portanto não percebia a expressão “jogar em casa”. Mas não é tudo igual? Os campos não são todos iguais? Não, não são. O relvado do palco de casa é diferente, agora percebo. Porque passamos ali à porta todos os dias, foi ali que vi o “Apocalypse Now” quando saiu, em technicolor, com o Coliseu cheio. Vi ali “O Padrinho”, vi também o Leonard Bernstein e o Herbert von Karajan, vi o “Palhaço Popov”, o famoso palhaço russo dos anos 70, portanto eu vi tudo ali. E, de repente, eu estou ali também.

O Rivoli foi agora “devolvido à cidade”, como se tem dito. Como vê o Porto pós Rui Rio e com Rui Moreira?

Qualquer coisa que seja pós esse ex-presidente eu vejo bem, para pior era impossível. Acho que o Rui Moreira está a fazer um excelente trabalho, não tenho nada a apontar. Na área cultural, então, a oferta que há agora no Porto é impressionante. E a abertura, o pluralismo. O Rui Moreira e o Paulo Cunha e Silva, que é o vereador [da cultura da Câmara Municipal do Porto] são pessoas com visão de futuro, agregadoras, inteligentes e cultas. São tudo menos medíocres, que era o problema do ex-presidente, coitado. Não era má pessoa, mas era limitado.

Voltando aos concertos, vai sair um DVD destes espetáculos?

Vai sair do concerto do MEO Arena. Sem data, sai quando estiver pronto.

O que é que atualmente o levaria a algemar-se novamente?

Eu já estou algemado aos portugueses. Ao padecimento e ao sofrimento dos portugueses. Mas também estou algemado ao futuro, não sou de baixar os braços porque é preciso agir. Estou algemado aos meus compromissos e aos meus ideais.

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