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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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"Por ele íamos a pé a Sevilha, a Gelsenkirchen, a Dublin e a Viena". 2 horas de espera para 12 minutos de emoção que "fizeram Lisboa tremer"

Depois do velório, dia do funeral de Jorge Nuno Pinto da Costa teve portas do Dragão abertas para a derradeira homenagem de 20 mil pessoas. Para alguns, a morte do "Rei" vai "revitalizar o portismo".

Nem parecia que era uma segunda-feira de manhã. Logo depois das 9h, as imediações da Igreja Paroquial de Santo António das Antas começaram a ficar repletas – elementos dos Super Dragões, adeptos, simpatizantes e curiosos aproximaram-se do lugar onde iria decorrer o funeral de Jorge Nuno Pinto da Costa e aguardaram várias horas para assistir à saída daquele que foi o presidente do FC Porto durante 42 anos.

Ao longo das duas horas seguintes e até às 11h, altura em que se deu o início da missa conduzida por D. Américo Aguiar, bispo de Setúbal e cabeça de lista do Conselho Superior na última candidatura de Pinto da Costa, chegaram inúmeras figuras que não quiseram perder a derradeira despedida: Luís Montenegro, Pedro Santana Lopes, Sérgio Conceição, Pepe, Deco, Fernando Gomes, Pedro Proença e muitos outros, com a equipa principal de futebol e vários plantéis das diversas modalidades do FC Porto a serem dos últimos a entrar na igreja antes do início da cerimónia.

Enquanto a multidão aguardava quase em silêncio no exterior da igreja, vivendo-se um ambiente de alguma solenidade até entre aqueles que não estavam a assistir à missa, surgiu a notícia mais aguardada do dia: o Estádio do Dragão iria mesmo abrir as portas para se despedir de Jorge Nuno Pinto da Costa. A ideia de que algo semelhante poderia acontecer apareceu ainda este sábado, com André Villas-Boas a garantir que estava disponível para abrir o estádio e a colocar a decisão totalmente do lado da família, que terá concordado com a proposta entre a última madrugada e esta manhã.

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Com a certeza de que a larga maioria da multidão não iria aperceber-se da novidade, a responsabilidade da disseminação da informação recaiu nos elementos dos Super Dragões – como, aliás, recaía quase tudo. Para além de terem gritado aos quatro ventos que o Estádio do Dragão estaria aberto, os membros da claque eram os claros organizadores tanto do velório como do funeral de Jorge Nuno Pinto da Costa, responsabilidade delegada pela família que fazia com que fossem as caras mais conhecidas do grupo a gerir entradas e saídas dos visitantes mais ilustres e das equipas, que órgãos de comunicação social poderiam estar presentes e em que zonas e até os momentos em que se fazia silêncio ou em que se cantava.

Com a missa a começar na igreja, largos grupos de pessoas optaram por não esperar pela saída da urna e desceram de imediato a Alameda das Antas com o objetivo de entrar no Dragão. Aí, as filas começaram a acumular-se minutos depois de a notícia ser oficial, mas não foi preciso esperar muito até que as portas abrissem para que a bancada Central Poente ficasse totalmente preenchida. Cerca de 20 mil pessoas de todas as idades – entre crianças que faltaram à escola, adultos que pediram folga aproveitando o luto municipal ou outros que anteciparam a hora de almoço – esperaram cerca de duas horas para se despedirem pela última vez de Jorge Nuno Pinto da Costa.

Uma viagem da Hungria para Portugal de quem ainda queria despedir-se em vida: o dia em que o FC Porto começou a dizer adeus a Pinto da Costa

Numa das primeiras filas da bancada, bem perto dos bancos de suplentes, o pai Modesto e o filho Sérgio estão lado a lado. Logo a seguir, a mãe Lurdes e o filho João também estão lado a lado. Os pares de familiares não se conheciam até esta segunda-feira, dia 17 de fevereiro, mas o facto de terem ficado ali bem perto originou o que ia acontecendo um pouco por todo o estádio: a troca de histórias, memórias e recordações do “homem”, o “nosso homem”, o “Rei”, Jorge Nuno Pinto da Costa.

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Os quatro concordam com a ideia de que o FC Porto é e será uma instituição democrática, logo, André Villas-Boas é o presidente por direito por ter vencido as eleições. Mas Sérgio lembra que não terá margem de erro para sempre. “Já chega de falar do que estava mal feito, foi por isso que foi eleito. Agora tem é de resolver, é essa a missão dele. Se não consegue, que dê o lugar a outro”, atira, provocando um sorriso tímido no pai. Já Lurdes, numa opinião pouco consensual, diz que o atual presidente deveria ter ido às cerimónias fúnebres.

“Houve coisas que ele disse agora nos últimos tempos que nunca teria dito. Houve ali marosca, estava muito debilitado e às pessoas à volta dele começaram a controlar o que dizia e como dizia”, defende a médica, que acha que há uns anos nunca Pinto da Costa teria dito que não queria André Villas-Boas ou qualquer outro elemento dos órgãos sociais do FC Porto no velório e no funeral.

Os minutos vão passando e não há sinal de que a urna esteja prestes a entrar. No Topo Sul do Estádio do Dragão, começam a surgir alguns elementos dos Super Dragões, que estendem tarjas e bandeiras para preparar a despedida. Na bancada, quase toda a gente tenta acompanhar as transmissões televisivas através do telemóvel, para perceber se a missa já terminou ou não, e muitas das conversas vão parar ao facto de nem Benfica nem Sporting terem deixado uma nota de pesar. “Depois não querem guerra”, atira Sérgio, que parece mais irritado com Frederico Varandas do que com Rui Costa.

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A espera, que se vai intensificando com o desaparecimento do sol e o frio, leva a troca de histórias. Sérgio lembra a lareira do primo que ainda está rachada depois de ter dado um soco com o golo de Costinha, contra o Manchester United e nos oitavos de final da Liga dos Campeões de 2004 que o FC Porto acabou por conquistar. João ainda não ultrapassou a mágoa pela não utilização de Vítor Baía, por parte de Luiz Felipe Scolari, no Euro-2004. Lurdes recorda o voo para Gelsenkirchen que foi desviado para Londres, devido a uma avaria, e a aterragem na “cidade mais feia que já visitou”, mas que se tornou a dona da melhor memória.

“Ele merecia este banho de multidão, este banho de povo. Os jogadores vão perceber o que é isto, os que chegaram há pouco tempo vão perceber o que é este clube, até o treinador. Se eu sinto que o meu portismo está revitalizado depois de hoje, imaginem eles. Vão perceber que por ele íamos a pé a Sevilha, a Gelsenkirchen, a Dublin, a Viena e aos outros sítios todos”, sublinha Sérgio, recordando as cidades em que o FC Porto conquistou competições europeias.

Já depois das 13h, ao fim de duas horas de espera, começa a ouvir-se o burburinho que permite perceber que a urna está a descer a Alameda das Antas. Ladeado por centenas de pessoas, que acompanharam a descida, o carro foi em marcha lenta até parar junto à entrada das garagens do Estádio do Dragão – destacando-se a presença de Pepe, que fez parte do percurso mesmo atrás do veículo e com uma mão colocada em cima de uma bandeira de Pinto da Costa que ali tinha sido estendida.

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Já com a equipa principal do FC Porto na tribuna presidencial, com Diogo Costa muito emocionado a ficar algumas filas atrás dos restantes colegas, Jorge Nuno Pinto da Costa entrou pela última vez no Estádio do Dragão. D. Américo Aguiar surgiu à frente da urna, que foi colocada quase no centro do terreno e perto de alguns dos troféus mais importantes conquistados durante a era do antigo presidente, entre Liga dos Campeões, Liga Europa, Supertaça Europeia, Primeira Liga, Taça de Portugal, Supertaça Cândido de Oliveira e Taça da Liga.

No Topo Sul, os Super Dragões soltaram potes de fumo que tornaram o Estádio do Dragão verdadeiramente azul. Seguiu-se um minuto de silêncio, um minuto de palmas e o hino do FC Porto, momento em que muitos dos adeptos que estavam nas bancadas não contiveram as lágrimas – incluindo Lurdes, que abriu os braços para cantar o verso “Ó campeão, o teu passado” enquanto pousava a cabeça no ombro do filho.

Ainda antes de a urna de Jorge Nuno Pinto da Costa ser levada até perto dos Super Dragões, para uma última homenagem da claque que esteve sempre ao lado do antigo presidente, surgiu a notícia de que um sismo tinha acabado de sacudir Lisboa durante os 12 minutos que a despedida durou. À saída do estádio, quando todos os presentes começaram a aperceber-se do que se tinha passado na capital, um grito único e singular deu origem à única gargalhada do dia: “Lisboa até treme, c******!”.

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