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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Uma viagem da Hungria para Portugal de quem ainda queria despedir-se em vida: o dia em que o FC Porto começou a dizer adeus a Pinto da Costa

Num dia marcado pela ausência de Villas-Boas do velório de Pinto da Costa, presidente visitou memorial no Dragão ao final da noite. E há quem tenha viajado de Budapeste para ainda se despedir em vida.

Era dia de jogo, é certo, mas não no Estádio do Dragão. A enchente azul que engoliu as imediações do recinto durante este domingo, porém, fazia parecer que o FC Porto jogava em casa. Milhares de pessoas povoaram o curto percurso entre a Igreja Paroquial de Santo António das Antas e o estádio, todas com o mesmo objetivo — prestar uma última homenagem a Jorge Nuno Pinto da Costa.

No topo da Alameda das Antas e junto à igreja, a multidão começou a concentrar-se ainda antes da hora de almoço, longe das 18h que marcavam o início do velório. A presença dos Super Dragões era notória e materializava-se através de várias tarjas que rodeavam todo o perímetro da igreja: os elementos da claque atuavam como uma espécie de organizadores da cerimónia, entre um controlo quase informal das bandeiras que entravam naquela na zona e o controlo mais formal que surgia junto da porta lateral, onde só acabou por entrar a comunicação social, a família e os visitantes mais ilustres.

A urna de Jorge Nuno Pinto da Costa chegou à Igreja Paroquial de Santo António das Antas já depois das 17h — carregada, entre outros, por Sandra Madureira, mulher de Fernando Madureira — e o momento acabou por proporcionar a primeira situação de maior emoção: entre muita pirotecnia e potes de fumo, ouviram-se cânticos de apoio ao antigo presidente do FC Porto e as bandeiras esvoaçaram, acabando por ser necessário que um elemento dos Super Dragões lembrasse que o velório só começava às 18h, já que muitas das pessoas presentes tentaram entrar desde logo.

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As portas abriram a horas e as filas pouco organizadas começaram a formar-se de forma mais clara. Os adeptos, apoiantes ou simpatizantes entravam pela porta principal da igreja, enquanto que a tal porta lateral era controlada por elementos da PSP e dos Super Dragões. Francisco J. Marques, Valentim Loureiro, Nuno Lobo, Jorge Mendes, Luís Castro, José Pedro Aguiar-Branco e Sérgio Conceição (este último com direito a escolta da própria claque) entraram todos por essa entrada secundária — com exceção clara para Pepe, que optou por entrar pela porta principal, sendo muito aplaudido por todos os presentes.

Descendo a Alameda das Antas, uns curtos cinco minutos a pé separavam a igreja do Estádio do Dragão. Praticamente todas as pessoas que se cruzavam pareciam vestidas e preparadas para assistir a um jogo do FC Porto: os cachecóis, as camisolas, os casacos e os gorros alusivos aos dragões eram uma constante, ainda que fosse possível ver muitos adeptos de gravata azul, numa recordação de que Pinto da Costa tinha precisamente pedido gravatas dessa cor e nunca negras.

No fim da Alameda, à direita, era possível ver a gigantesca tarja que foi colocada na fachada do Estádio do Dragão ainda durante a noite deste sábado — onde Pinto da Costa surge com uma coroa e que já tinha sido revelada dentro do estádio, na bancada, pouco depois de André Villas-Boas vencer as eleições do passado mês de abril. O verdadeiro memorial, porém, ficava mais à esquerda, na pouco inocente localização entre as portas 23 e 24 do estádio.

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Na porta 23, recordava-se que era esse o número de Campeonatos conquistados pelo FC Porto enquanto Pinto da Costa foi presidente. Na porta 24, recordava-se que era esse o número de horas diárias que Pinto da Costa dedicava ao clube. No meio, surgia uma tarja onde se lia “O Rei”, com as naturais homenagens espontâneas a ocuparem largos metros do chão. Centenas de cachecóis foram colocados em filas, praticamente todos com mensagens personalizadas e a repetição da expressão “Eterno Presidente”, acumulando-se também as camisolas, as velas, as bandeiras, os cartazes, as cartas e até as bolas de futebol.

Entretanto, com o relógio a passar já das 18h, o silêncio quase sepulcral que se vivia à volta do memorial deu lugar ao burburinho dos telemóveis. Afinal, no Algarve, tinha acabado de soar o apito inicial da visita do FC Porto ao Farense — e dificilmente existiria melhor homenagem a Jorge Nuno Pinto da Costa do que as dezenas de adeptos que ali mesmo, de pé e quase em cima dos cachecóis dispostos no chão, iam assistindo à transmissão do jogo através dos telemóveis.

Foi precisamente aí, junto às baias de proteção que entretanto foram colocadas pela segurança do Estádio do Dragão para impedir que as homenagens fossem pisadas, que encontrámos João Almas. À primeira vista, de casaco e cachecol do FC Porto, parecia apenas mais um dos milhares que este domingo quis despedir-se de Pinto da Costa. Quando olhámos duas vezes, porém, percebemos que a bandeira que quer deixar ali mesmo, entre a porta 23 e a porta 24, dizia “Budapeste”.

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A viver na capital da Hungria há cinco anos, sócio do FC Porto há 28, regressou a Portugal e ao Porto com o objetivo de se despedir de Jorge Nuno Pinto da Costa — mas em vida. “Cheguei há uns dias, quando percebi que o estado do presidente estava a ficar mais preocupante. A minha ideia era apenas conseguir entrar em contacto com ele para fazer uma última fotografia, porque tenho duas fotografias separadas por 15 anos entre si. Era esse o meu objetivo, ter uma fotografia atualizada. Infelizmente, não consegui… A vida é mesmo assim. Pelo menos estou aqui para fazer uma homenagem desta forma, ainda que muito modesta”, explicou João Almas ao Observador, indicando que ainda não tinha passado pelo velório.

O adepto do FC Porto detalhou que guarda “muito carinho” pela memória do antigo presidente e recordou a história que fez com que, ainda criança, desenvolvesse uma enorme admiração. “Tinha 11 anos quando vim ao Estádio das Antas pela primeira vez. O meu pai trouxe-me ao Porto e o senhor presidente estava a subir a rampa da antiga Bancada Maratona, fui atrás dele e pedi um autógrafo. Ele assinou e convidou-me para ir com ele ao gabinete, disse que tinha um presente para mim. Fui com ele, consegui uma fotografia lá no gabinete e um convite para ver um jogo do FC Porto, da Taça de Portugal, no camarote presidencial. Esse gesto marcou-me bastante”, lembrou João Almas, que sublinhou que a dimensão de Pinto da Costa se tornou nacional.

“Pinto da Costa fez do FC Porto o maior clube português. É a maior figura do dirigismo nacional. Acho que isso é indiscutível. Cristiano Ronaldo está para o futebol português enquanto jogador como Pinto da Costa está para o futebol português enquanto dirigente. Transformou o FC Porto num clube de outra dimensão a nível mundial. Expandiu o clube não só em Portugal como lá fora, a marca FC Porto tem uma dimensão mundial que não existia antes dele”, acrescentou o adepto, que não estava perto do Estádio do Dragão há cerca de um ano.

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Com o funeral de Jorge Nuno Pinto da Costa marcado para as 11h deste domingo, ainda não é certo se André Villas-Boas vai ou não marcar presença — já que, no livro de memórias que publicou nos últimos meses, o antigo presidente inclui o atual líder do FC Porto na lista de pessoas que não queria nas próprias cerimónias fúnebres. João Almas, que não tem problemas em revelar que votou em Pinto da Costa nas eleições de abril do ano passado, assumiu que é “uma questão complexa”, mas defendeu que os derradeiros desejos devem ser respeitados.

Os vários pedidos de Pinto da Costa para o funeral: a lista de quem o ex-presidente quer (e não quer) na despedida

“André Villas-Boas representa o FC Porto, é o presidente, a direção está lá porque foi votada. A minha opção era outra, mas somos um clube democrático e respeitamos as decisões da maioria. Mas há outra questão: o nosso rei, o meu rei, teve esse desejo de não ter determinadas pessoas no funeral. Penso que é necessário respeitar esse desejo. É complicado, eu compreendo que tem de estar alguém do plano institucional. Mas acho que é ainda mais importante respeitar a vontade de Pinto da Costa. Há que ser feita a sua vontade”, terminou.

Pouco depois de João Almas deixar bem expressa a sua opinião, André Villas-Boas garantiu: não iria ao velório nem ao funeral, salvo indicação contrária da família de Jorge Nuno Pinto da Costa, precisamente para respeitar um dos últimos desejos do antigo presidente. Ainda em Faro, depois de o FC Porto ter derrotado o Farense pela margem mínima com um golo de Francisco Moura, Villas-Boas clarificou que não ia contrariar a opção do antecessor.

“Tenho muito apreço por Pinto da Costa e pela sua palavra, portanto, não quero hostilizar nem o momento, que é solene, nem a sua família. Nem estar a ir contra a sua palavra, que foi direta e clara. Pretendo respeitá-la e assim será se o cortejo fúnebre se deslocar ao Estádio do Dragão. Havendo algum desejo da família, repensarei, mas foi uma palavra dita em vida e que tenciono respeitar”, explicou, reiterando a ideia de que a direção do FC Porto gostaria de que o cortejo fúnebre entrasse no Estádio do Dragão, mas entregando toda a responsabilidade da decisão à família.

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Ainda este domingo, já bem depois das 23h e na sequência do voo de Faro até ao Aeroporto Sá Carneiro, a equipa principal do FC Porto também passou pela Igreja Paroquial de Santo António das Antas — com direito a alguma indecisão inicial, já que Jorge Costa, ao contrário de André Villas-Boas, decidiu acompanhar os jogadores e a equipa técnica e a presença do antigo capitão dos dragões não era bem vista por todos os elementos dos Super Dragões ainda presentes junto à capela mortuária. António Tavares, presidente da Assembleia-Geral do FC Porto, liderou a comitiva, seguido de Martín Anselmi e dos capitães Diogo Costa, Stephen Eustáquio e Iván Marcano.

De seguida, o autocarro desceu a Alameda das Antas e entrou na garagem do Estádio do Dragão, com os jogadores e a equipa técnica — aqui já acompanhados por André Villas-Boas — a saírem junto à porta 24 para visitar o enorme memorial com centenas de homenagens. Cada um dos jogadores transportava um dos 2.585 troféus conquistados pelas várias modalidades do clube durante os 42 anos de liderança de Pinto da Costa, destacando-se o da Liga dos Campeões, que surgiu pelas mãos de Jorge Costa, capitão que o levantou em 2004 em Gelsenkirchen.

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