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Quando entrou em 2026, Portugal já tinha uma enorme reserva de água. Depois vieram as tempestades consecutivas, e destruidoras, de janeiro e fevereiro. Quando se fizeram as contas, o número parecia irreal: entre 1 de outubro de 2025, já depois da passagem da primeira tempestade da época (a Gabrielle, a 27 de setembro), e 28 de fevereiro de 2026, com a Kristin e as cinco tempestades que se lhe seguiram, caíram 924 mm de chuva por metro quadrado, 1,8 vezes mais do que o normal. Era o arranque do ano hidrológico mais chuvoso dos últimos 30 anos e o sexto com mais precipitação desde 1931.
Mas entre os 924 mm acumulados de outubro até fevereiro chegou-se a julho apenas com 0,8 mm. Apenas cinco meses depois. E o país entrou em seca meteorológica. O continente já tinha regiões nessa condição no final de maio. No final de julho passou a ter 100% do território: em 39,1% a seca era fraca, em 60,3% moderada e em 0,6% severa. Bastaram maio, junho e julho muito quentes e secos para os solos começarem a ficar sem qualquer humidade e a mostrarem como se desfazem sem água.
O que resistiu foram as albufeiras. Por isso, Portugal está em seca meteorológica, mas não em seca hidrológica. No fim do último mês de setembro ainda guardavam, no total, 72% da sua capacidade. É bastante. Mas no final de maio estavam, em conjunto, com 92%. Foi uma queda de 20 pontos percentuais. No entanto, demonstram como um inverno excecionalmente chuvoso acabou por proteger Portugal num verão extremamente quente. Porque há uma espécie de seca a três tempos. Depois de a chuva desaparecer, o solo responde ao fim de algumas semanas e os rios e albufeiras acabam por se tornar a reserva que pode durar mais tempo e aguentar os impactos. Se à seca meteorológica se juntar a seca hidrológica, aí sim, passaremos para um enorme problema.
Situação na Europa ainda é pior
O caso português é apenas um dos exemplos na Europa. O relatório publicado no início deste mês de outubro pela JRC/European Drought Observatory mostra uma situação crítica de seca, a meio de setembro, em grande parte das regiões europeias analisadas: França, Alemanha, Benelux, Alpes, Reino Unido e Irlanda. As causas são fáceis de entender e semelhantes às portuguesas: um défice prolongado de chuva, um calor muito fora do normal e associado a ondas de calor sucessivas desde maio (mais até do que em Portugal, que ficou à margem de algumas). Isso fez com que a humidade dos solos se evaporasse e com que os caudais dos grandes rios baixassem para níveis recorde, como foi o caso do Danúbio ou do Reno, com os consequentes impactos na agricultura, na indústria e nos transportes fluviais.
A Europa já vinha de 2025 com a menor humidade dos solos em 33 anos. 54% do continente estava em seca agrícola moderada ou extrema em maio. Este ano, grande parte da Europa está outra vez em seca. A Áustria e a Chéquia tiveram a primavera mais seca de sempre, desde 1857 e 1961, respetivamente. E chegaram ao verão em seca crítica, com os solos secos e os caudais dos grandes rios muito baixos. Depois de agosto e setembro, a classificação mantém-se como crítica em França, Benelux (Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo), Alemanha, Norte de Itália e toda a zona atravessada pelo Danúbio, que têm regiões com áreas em alerta máximo.
Em julho, na Europa Ocidental, os solos estavam bastante mais secos do que em julho de 2022. E 2022 foi o último ano de seca severa e generalizada na Europa. O Copernicus identifica nas últimas duas décadas uma tendência para cada vez menos humidade e mais seca nos solos. E tem dados para o confirmar: na série ERA5-Land, este já é o terceiro ano mais seco na Europa desde 1992, com o verão mais quente de sempre.
Os grandes rios, Danúbio e Reno, grandes vias fluviais de transporte de mercadorias, são exemplos da seca europeia. O Reno, por exemplo, chegou logo em agosto a um mínimo que, na grande seca de 2018, só tinha sido atingido no final de outubro. O antigo recorde mínimo era de 25 cm, em 22 de outubro de 2018. A 17 de agosto de 2026 já estava nos 5 cm.
Nos últimos 45 anos, entre 1980 e 2024, os investigadores concluíram também sobre o que leva a estas situações de seca. A época de calor seco extremo intensificou-se e expandiu-se em cerca de 50% das terras do planeta e a de calor húmido extremo em 48%. Na Europa Ocidental, onde Portugal se inclui (não há dados específicos sobre o nosso país, só sobre a região), a expansão é visível no início da época quente; a estação do calor extremo está a começar muito antes do período normal. Portanto, é possível associar as secas de 2026 a este cenário em que os extremos de calor saíram e se alargaram para além dos períodos historicamente comuns.
Portugal começou bem 2026 e tem reservas
O início de 2026 extraordinariamente chuvoso deixou barragens, albufeiras e rios portugueses cheios e muitos até a transbordar. Ao contrário da Europa, conseguiu manter essas grandes reservas devido à chuva do inverno. Até final de fevereiro havia um acumulado de 924 mm de precipitação, mais 411 mm do que o habitual. Só em fevereiro choveu 241,7 mm, 329% acima do normal, o que o tornou o fevereiro mais chuvoso em 47 anos, desde 1931. Nessa altura, em todos os concelhos, a água disponível no solo variava entre 60% e 100%. O Norte, Centro interior e Alto Alentejo tinham mesmo solos saturados. A situação sem seca manteve-se entre dezembro e maio: havia 0% do território em seca meteorológica.
Dois meses depois, a situação tinha-se invertido: 100% do território já estava em seca meteorológica no fim de julho. As grandes mudanças começaram logo na primavera. Ainda em fevereiro, depois em março (duas) e em abril houve ondas de calor. Seguiu-se a forte onda de maio, que não só foi muito extemporânea, como muito extrema. Além das temperaturas acima da média, começou a cair menos chuva. Março ficou 46% abaixo da precipitação normal, abril 62% e maio 27% abaixo. Depois, houve uma queda a pique: junho ficou 70% abaixo do normal e julho 92%. De março a julho, caíram 123,7 mm de água em cinco meses. Só em janeiro tinham caído 235 mm.
Como é normal, os solos responderam muito mais depressa que as grandes reservas de água. E voltamos sempre ao fim de fevereiro. Depois do comboio de tempestades havia entre 60% e 100% de água disponível nos solos em todos os concelhos do país. Mas em julho, concelhos do interior norte já tinham terrenos com menos de 10%. Os atuais 72% de capacidade conjunta das reservas das barragens e albufeiras não significam que não haja um problema de água. A Associação Portuguesa do Ambiente (APA) classificava no fim de setembro cinco bacias em seca hidrológica; Ribeiras do Oeste em seca extrema; o rio Lima em seca severa; o Mondego e o Vouga em seca moderada; e o Cávado em seca fraca. Com diferenças e assimetrias regionais. Se o Lima estava em 39% da capacidade, contra uma média histórica de setembro de 54%; o Mondego das cheias tinha 58%, contra 63%; o Vouga 65%, contra 70%. Enquanto o Mira tinha 91%, o Douro 85% e o Guadiana 78%.
O calor agravou obviamente a perda de água nos solos e nas reservas. Mas não é o único responsável pela perda de 20 pontos percentuais na descida da capacidade das albufeiras. Nem da seca dos terrenos. As temperaturas elevadas fazem com que exista mais evaporação de água, mais evapotranspiração da terra e das plantas; mais necessidade de rega e mais necessidade de água para muitos outros efeitos. E menos chuva reduz as reservas e os caudais porque é preciso continuar o abastecimento público, a produção hidroelétrica e a gestão de descargas.
Barragens cheias não significa não ter um problema de água
É da mais pura lógica dizer que um inverno com muita chuva aumenta as reservas hídricas. Este ano, Portugal ficou com as reservas quase no máximo, acima de 90%. Como é da mais pura lógica perceber que quanto mais cedo começarem as épocas de calor extremo — e quanto mais tempo durarem — mais rápido os solos secam. E este ano esse calor começou no fim de maio e intensificou-se em junho (quarto junho mais quente desde 1931), com uma temperatura média de 22,4 ºC, o equivalente a uma anomalia de +2,06 ºC, uma precipitação de 6,9 mm, 30% do normal, o que o tornou o 14.º junho mais seco desde 1931 e o sétimo mais seco desde 2000, com duas ondas de calor. Foi assim que o país entrou em seca meteorológica depois de seis meses sem ela. Seca que se agravou em julho (o sétimo julho mais quente desde 1931), com uma temperatura média de 24,04 ºC, 1,41 ºC acima do normal, e uma precipitação de apenas 0,8 mm, 8% abaixo do habitual. Foi o oitavo julho mais seco desde 1931 e o mais seco deste século. Em partes dos distritos de Castelo Branco, Santarém, Portalegre, Setúbal e Beja caiu menos de um quarto da precipitação habitual.
Os solos, a agricultura e os recursos hídricos estão sob constante evaporação. Portanto, a água com que se chega ao verão é obviamente importante. Mas depois conta quão cedo e com que intensidade o calor começa a consumir essa água. Os números deste ano mostram-no. Em fevereiro, os acumulados de chuva eram os maiores dos últimos 30 anos e as barragens tinham capacidade de 94%. Em julho, depois de precipitação muito abaixo do normal, e uma onda de calor absolutamente anormal, 100% do país já estava em seca. As barragens ainda mantinham reservas de 74%, que entretanto caíram para 72%, três quartos da capacidade total, mas ainda 7,4 pontos acima da média.
Num clima em que a estação do calor se alarga cada vez mais, é muito importante saber por quanto tempo a água guardada vai durar. Mas o indicador mais relevante deste ano de 2026 talvez não seja quanto baixaram as barragens, mas a velocidade a que os solos secaram a partir dos meses diluvianos que duraram até fevereiro.