Um busto de Baco em mármore amarelecido pelo tempo, de sorriso sarcástico e dentes podres, está em cima do piano vertical na sala de Sérgio Godinho, em Lisboa. E tem uma história. Uma herança de família, este Baco é da autoria do escultor Teixeira Lopes (1866-1942) e apareceu uma vez numa sessão fotográfica que Godinho tinha feito a propósito de uma entrevista para um jornal, vivia o músico ainda em São Bento. Certo dia, um senhor abordou-o na rua e disse-lhe: “Sabe aquele busto que tem lá em casa? Quem serviu de modelo para o senhor Teixeira Lopes foi o meu avô!”
Esta é só uma das muitas histórias que a casa de Sérgio Godinho tem para contar: seja pelas pinturas e fotografias que tem nas paredes, tudo ofertas de amigos, à excepção de uma serigrafia numerada de Paula Rego, que comprou: seja pelos objetos que tem no chão, em prateleiras ou nas mesas. Há um foguetão vermelho e branco de quase meio metro de altura, o mesmo de Tintin, banda desenhada do belga Hergé (que Godinho adora) e que lhe foi trazido pela então deputada europeia Marisa Matias, de Bruxelas. Queria pagar-lho, devia ter sido caro, mas ela respondeu-lhe: “Já me pagou, com a banda sonora da minha vida”. Duas cadeiras africanas, frondosas, complementam o sofá e a mesa de apoio de pedra na metade do espaço, em L, votado à sala de estar.
Músico, poeta, escritor, argumentista, cineasta, ator, Sérgio Godinho é o protagonista da curta-metragem de terror Era uma Vez o Apocalipse de Tiago Pimentel, que se estreou no ano passado no MoteLx e ganhou no início de agosto mais um prémio, no Gen Con Film Festival, EUA, depois de ter arrecadado igualmente o prémio de melhor curta no mesmo país no Comic Con Independent Film Festival, em 2024. A sala de Sérgio Godinho é um bocadinho o espelho desta diversidade de experiências — de momentos, de lugares — que é a sua vida. Completa agora 80 anos.
Aos 20, partiu do Porto, de onde é natural, para conhecer mundo e fugir ao serviço militar obrigatório, em plena guerra de África. Foi primeiro para a Suíça estudar Psicologia, atravessou o Atlântico a bordo de um cruzeiro a trabalhar na cozinha, viveu intensamente o Maio de 68 em Paris, onde conviveu com José Mário Branco e começou a compor e a gravar canções, foi escolhido para o casting do musical hippie de contestação à guerra no Vietname Hair, viveu em comunas em Amesterdão e Vancouver.
Deu-se o 25 de Abril e regressou a Portugal. Mudou-se para Lisboa, onde ficou. Tem um rol de discos que fazem parte da iconografia da música contemporânea portuguesa, de Os Sobreviventes (1971, ‘Que força é essa’, ‘Maré alta’), Pré-Histórias (1972, ‘A noite passada’), À Queima-Roupa (1974, ‘Liberdade’), Pano-Cru (1978, ‘O primeiro dia’; ‘Balada da Rita’, tema principal da banda sonora do filme de Fonseca e Costa, Kilas, o Mau da Fita, do qual foi autor do argumento), Canto da Boca (1981, ‘Com um brilhozinho nos olhos’), Salão de Festas (1984, ‘Coro das velhas’), Os Amigos de Gaspar (1988, na memória colectiva da infância de toda uma geração), Aos Amores (1989) a Domingo no Mundo (1997) ou Mútuo Consentimento (2011). Cantou com muita gente: Caetano Veloso, Chico Buarque, Jorge Palma, José Mário Branco e Fausto (nomeadamente, no projecto Três Cantos), Clã, Camané, Ana Bacalhau, Márcia, Garota Não, Canto Nono — este dois últimos nomes teve-os como convidados nos concertos que deu no ano passado nos coliseus de Lisboa e do Porto, dois em cada sala.
Este concerto vai fazê-lo de novo este ano nos jardins do Palácio de Cristal, integrado na Feira do Livro do Porto, que decorre desde dia 22 de agosto e até 7 de Setembro, dia em que vai ser o homenageado do evento. Os 80 anos vão ser celebrados no Porto, que lhe vai atribuir também a Chave da Cidade, pelas mãos do presidente da câmara Rui Moreira. Depois da Feira do Livro de Lisboa, leva também à Feira do Livro do Porto a coleção de contos que acabou de lançar, Como Se Não Houvesse Amanhã (ed. Quetzal). Este é o segundo livro de contos que publica, além de três romances e dois livros de poesia.
Na meia dúzia de livros no chão da sala, encostados à prateleira onde não cabem mais volumes, está o livro que Rita Carmo fez com fotografias de Jorge Palma. Surge agora um livro semelhante com fotografias de Sérgio Godinho tiradas por Carmo, ela que é uma das fotógrafas de concertos mais conhecidas do país. A luz de final de tarde faz jus à fama de Lisboa. O sol a bater nas janelas do prédio da frente quase dispensa o uso de artifícios para serem tiradas fotografias a Godinho para este entrevista. Recusa ser fotografado ao piano. Não toca piano. Comprou-o porque era barato.
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Fez este mês 30 anos que a manifestação popular que se fez em frente ao Coliseu do Porto provocou a reversão do contrato de venda do edifício à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Um mês mais tarde, participou no concerto de angariação de fundos. Vai participar no concerto que vai decorrer no Coliseu para assinalar a data.
Vai ser no dia 30 de Outubro. Na altura, fui convidado e, claro, disse logo “sim”. Eu não vivia no Porto, senão tinha sido ainda mais ativo. O Pedro Abrunhosa fez aquela coisa espetacular de se algemar e ainda bem que o fez, chamou muito a atenção. Sou do Porto, embora não viva no Porto há muitos anos, tenho lá uma raiz, sobretudo nessas salas. Frequentei-as, quanto mais não fosse para ver circo… Mas não só. Vi lá a Françoise Hardy, os Shadows, vários. E conheci sobretudo o lado do palco, já lá atuei tantas vezes. Até no ano passado, quando fiz dois coliseus de Lisboa e dois coliseus do Porto, a propósito dos 50 anos do 25 de Abril.
Na entrevista que Miguel Guedes, diretor do Coliseu, deu ao jornal Público a propósito da efeméride, referia que a manifestação da altura foi muito espontânea, transversal a classes e idades. Dizia também ser um bom exemplo da força que o povo tem quando se une e que, nos dias de hoje, com as redes sociais e a polarização dos discursos, talvez as coisas já não se passem assim — à manifestação seria colada uma contra-manifestação. Concorda?
Não, acho que não haveria antagonismo nesse aspecto. Hoje haveria na mesma. Percebe-se também que ninguém gostou particularmente que o Império, em Lisboa, fosse ocupado pela IURD.
Em Lisboa não houve manifestação.
O Império estava fechado. Não tinha atividade. Talvez aquela sala lá de cima ainda tivesse cinema… Não sei, sou mau arquivista. Mas não era a mesma coisa. Por exemplo, quando o Rui Rio entregou o Rivoli ao La Féria, fiquei indignado. Aquilo era uma sala da minha infância, onde ouvi todo o género de música, inclusive música clássica. Fui o último a cantar lá antes das obras que fizeram. E fui o primeiro a cantar lá depois das obras. Era um teatro municipal com uma vocação. Era não perceber nada de cultura aquilo que o Rui Rio fez. O La Féria chegou-se à frente.
Fez o papel dele, não?
Não tenho nenhuma antipatia pelo La Féria. Mas no Coliseu o caso era mais grave. Era uma altura em que a IURD estava a tomar conta de salas importantes no país. E em países de expressão portuguesa, Angola, Moçambique. Eles tomaram conta de salas muito importantes. Era uma coisa que era preciso reverter. E aconteceu.
Não tem páginas pessoais nas redes sociais, só profissionais. Além da arte que pratica, dos discos e concertos aos livros e filmes, como é que se manifesta politicamente?
É evidente que eu podia estar a escrever todos os dias sobre Gaza, sobre aquele horror absoluto que está a acontecer. E ainda por cima com aquela ironia histórica, mas que é muito frequente, de a antiga vítima ser depois o carrasco, o ofensor. No momento em que falo, Portugal diz estar a preparar-se para, espero eu, reconhecer o Estado da Palestina, seguindo, aliás, outros países europeus, como a França. No entanto, o embaixador de Israel em Portugal diz que isso é dar uma vitória ao Hamas quando uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.
Ele afirma, inclusive, que não há fome em Gaza.
Quando até Trump diz que há fome em Gaza. Como é que se explica esta coisa tão descarada?
Será isso novo, na História?
Não é novo. O que há é muita comunicação, neste momento. Sabemos todos os dias o que está a acontecer. Claro que o nosso impulso a certa altura pode ser “epá, não vou ver mais isto porque não posso fazer nada”. Estou aqui em minha casa e não posso fazer nada contra isto. Claro que podemos assinar petições, podemos estar em manifestações. Podemos revoltar-nos publicamente e eu também acabo por ter alguns palcos. É evidente que falo disso. Mas é muito limitado aquilo que podemos fazer. Agora aquele tipo, o Netanyahu, é um criminoso que, ainda por cima, está a salvar a sua pele. Porque ele está acusado de várias coisas e enquanto estiver no poder… Esta fuga para a frente que ele está a fazer está a arrasar um povo.
Vivemos hoje em desalento?
Não sei, tenho uma energia vital muito grande. Não quero falar pelo meu povo, mas não sei se a palavra desalento será aquela que se aplica a toda a gente. Há gente que tem energia para fazer coisas no presente. Conheço muita gente, nomeadamente gente jovem, que vejo através dos meus filhos e de amigos deles, a fazer coisas interessantes. Não acho que esteja tudo perdido. Nem acho que sejamos um país sempre muito insuficiente, mesmo com este advento da extrema-direita que se infiltrou no poder e que tem a conivência mais ou menos expressa do governo atual. Aquela coisa do “não é não”, onde é que isso já vai? Porque dentro do PSD há facções. Há facções que entendem absolutamente que o Chega não é nenhum bicho-papão e que portanto é preciso colaborar com eles. Mas, por outro lado, o PSD diz que é o PS que se liga com o Chega. Mas isso são as manhas do poder e eu vivo um bocadinho afastado disso. Apesar de ser um observador atento. Nunca fiz parte de nenhum partido.
Mas liga-se a ideias.
Em termos de esquerda, sim. Um partido é uma coisa muito estranha, para mim. Embora tenha todo o respeito por pessoas que estão dentro de partidos. Até colaboro de vez em quando com partidos de esquerda, mas acho que é caso a caso. De facto, aquilo não está no meu ADN.
Está a falar da lógica dos aparelhos partidários?
Um aparelho é, de certo modo, uma forma de obediência, quer se queira, quer não. Ao longo dos anos, têm-me convidado para ser apoiante de uma lista. Também já fui convidado para ser da maçonaria. Nem pensar, esse tipo de obediências que implicam um favorecimento…
De poder invisível?
Não, é o favorecimento como dever. O dever de favorecer os irmãos. E isso seria impensável para mim. E há pessoas que respeito dentro das maçonarias, assim como respeito que queiram agora acabar com aquela divisão entre os sexos existente em certas lojas. Há a maçonaria feminina e as maçonarias masculinas, que é uma coisa que não faz o mínimo de sentido. Nem sequer me apetece muito falar da maçonaria.
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Disse numa entrevista que a chegada da extrema-direita não o surpreendeu. Porquê?
O que me surpreendia era que ainda não tivesse existido em Portugal, porque há fenómenos de contágio e a extrema-direita já estava na Europa, na América Latina e, agora, na América do Norte. Acho também que há ciclos, se bem que agora me tenha enganado. Pensei que nestas últimas eleições o Chega fosse descer, assim como muitos terão pensado, e isso não aconteceu.
Apesar de os outros partidos verem as suas intenções de voto baixarem por causa de escândalos, como foi o caso do Bloco de Esquerda, o Chega vê o número de votos crescer. A que acha que se deve este estado de exceção?
O Chega é um partido unipessoal. Agora há também a Rita Matias, mas é praticamente um partido unipessoal.
Isso chega para explicar?
Esta coisa do voto de protesto acho que já nem é só isso, sabe? Acho que responde a qualquer coisa que vem mais de fundo, de um certo lado do povo português. Isto é horrível de dizer, mas, de facto, somos muito seguidistas em relação a ideias simples — o populismo é isto. O povo português é, digamos, muito vulnerável e, muitas vezes, está pouco preparado. Ainda hoje temos algumas sequelas da mudança súbita que foi o 25 de Abril.
Foi assim tão súbita?
A mudança em si, sim. Foi mais ou menos bem gerida, mais ou menos mal gerida, mas era inevitável que assim acontecesse. Foi algo que veio, ainda por cima, na sequência de uma guerra colonial que fez com que muita gente se fosse embora.
Como foi o seu caso.
Como foi o meu caso. Fez com que outra gente fosse para a guerra, mesmo sem saber porque é que ia para a guerra. De repente, há uma mudança, que ainda por cima é provocada por militares. Não dos de patente mais alta, embora esses depois também tenham, de certo modo, aderido, nomeadamente por um período, como foi o caso do Spínola. Eu nessa altura voltei. Esses anos foram, por um lado, muito exaltantes porque aconteceram coisas, de facto, extraordinárias a nível da instalação da democracia. O grau de alfabetização que se conseguiu… Houve mudança em sistemas de ensino, em sistemas laborais, mas também houve muitos equívocos. A democracia hoje é uma realidade extremamente imperfeita e não deixamos de ser um povo muito desigual a nível de condições sociais, de justiça social. Quando canto a canção ‘Liberdade’, “a paz, o pão, habitação, saúde, educação”, digo sempre que se devia acrescentar a justiça, porque a justiça é algo que é ainda muito classista em Portugal. Tem muitas resistências a que deixe de o ser. Basta olhar a capa de um jornal e ver o número de despejos que continua a haver, o preço a que estão as casas, as rendas.
A propósito do centenário do nascimento de Mário Soares em 2024, António Campos disse que o antigo secretário-geral do partido tinha dúvidas quanto à cultura democrática dos portugueses. É também disso que está a falar?
Acho que o povo não estava preparado, é evidente. Percebe-se que há muitos vícios que vêm de longe. Nomeadamente, a desconfiança, a inveja. Não nos esqueçamos que a última palavra d’Os Lusíadas [de Camões] é “inveja”.
A identidade portuguesa de que falava Eduardo Lourenço, que oscila entre a profunda depressão de que tudo vai mal e a extrema euforia de que somos os melhores?
O Eduardo Lourenço sempre se referiu com grande acutilância a isso. Temos vícios de ter medo de falar, de dizer as coisas, que vêm, de facto, de trás, já desde que os judeus foram expulsos [em 1497]. Muitos deles converteram-se em cristãos novos, não podiam assumir a sua própria religião, a sua própria ideologia. E o fascismo o que causou foi essa rede de mesquinhez, de desconfianças, etc., que não se vai embora de um dia para o outro. O que Mário Soares terá dito, eu subscrevo. De certo modo, não estávamos preparados. Mas o caminho faz-se caminhando. Portanto, com muitos erros, o certo é que nós fomos solidificando o regime, que hoje não se põe em causa.
Não?
Parcialmente. O partido de extrema-direita põe isso em causa, paulatinamente, muitas vezes com a conivência do PSD. Agora há sempre as polémicas do dia, não é? Já perceberam que é de polémica em polémica que se fazem as parangonas dos jornais. É como diz o Bartoon [tira na última página do jornal Público, que está à mostra em cima da mesa de apoio da sala de estar], do Luís Afonso — uma pessoa deliciosa, um grande amigo: “— Qual é a polémica de hoje? — Amamentação. — Amamentação? — O pessoal vai a tudo.” O retrocesso de certas ideias que este governo vai propondo, como a lei da nacionalidade… E o Marcelo, que está em fim de mandato, está a espernear agora um bocado. Ele, no fim de contas, favoreceu este governo, não é?
Está a espernear para sair bem na fotografia?
Para sair bem na fotografia. Mas acho também que é sincero. Há uma qualquer ingenuidade nisso de acreditar que as coisas se vão passar bem e, depois, não se passam exatamente como ele estava à espera.
Voltando um bocadinho atrás, e apesar de já ter falado sobre isso muitas vezes, conte-nos sobre essa necessidade de sair do país aos 20 anos.
Foi um processo natural. E aqui temos que fazer um bocadinho de História. Sou do Porto, vivi no Porto até aos 20 anos, tive um ambiente familiar muito bom e muito estimulante, porque os meus pais eram pessoas cultas e compreensivas. Tínhamos uma relação muito boa. Fui sempre um miúdo curioso, estimulante e estimulado. A minha mãe tinha o curso superior de piano, o meu pai era industrial de têxteis. Foi ele quem trouxe o nylon para Portugal. Era uma pessoa muito culta, era um melómano. E eram ambos grandes leitores.
Essa curiosidade já vinha, portanto, de família.
O meu bisavô, Miguel Verdial, que era ator, foi quem leu a declaração do 31 de Janeiro, a primeira tentativa de implantação da República [em 1891, no Porto]. Havia também muita maçonaria por ali, a maçonaria não é só má. A minha avó discursou em jantares republicanos, era uma coisa que não era normal numa mulher, e tinha um programa de rádio em que lia poesia. Já havia rádios locais na altura, esta chamava-se Ideal Rádio. Eu ouvia sempre aquele programa, ela dizia poesia muito bem, de uma maneira não enfática, uma voz muito bem timbrada. Tinha realmente talento para dizer poesia. Ela tinha sido atriz num grupo chamado Clube dos Fenianos, que era muito considerado na altura. E eu sempre vivi nesse caldo. Quando começou o Teatro Experimental do Porto, dirigido pelo António Pedro, os meus pais fizeram-se sócios, eu ia com eles ver encenações históricas, desde Morte de um Caixeiro Viajante [de Arthur Miller] a Ratos e Homens, do Steinbeck. Quando parti de Portugal, não foi porque houvesse qualquer incompatibilidade com os meus pais. Era porque eu precisava muito de ter mundo. Precisava de viver autonomamente, precisava de viver on my own, de experimentar. Uns amigos meus estavam num curso de Psicologia em Genebra, e eu sempre tinha gostado de Psicologia. Fui para Genebra com o beneplácito dos meus pais. No início, o meu pai pagou tudo, depois teve umas crises financeiras e eu tornei-me trabalhador-estudante. Ao fim de dois anos, desencantei-me completamente com o curso de Psicologia, que era muito dirigido para as teorias de Piaget.
Foi inclusive seu professor.
Ele vinha dar uma aula de cátedra por semana. Era uma presença simbólica, nada mais. Eu tinha era sede de experiências. Vivi o Maio de 68, depois quando fui para Paris. Aí, fiz audições para o [musical] Hair e fui admitido no meio de 6 mil candidatos. No Hair, comecei a experimentar o que era estar num palco, estar na música, estar no teatro. Eu gostava já muito de teatro.
Desde criança. Com todo esse estímulo familiar para as artes e para a cultura, era uma criança que passava os dias com livros à frente ou era também físico? Ia jogar futebol para a rua?
Também ia jogar futebol, mas só tinha jeito para ser guarda-redes. Tinha reflexos rápidos. Gostava também muito de andar de bicicleta. Mas gostava sobretudo de jogar hóquei em patins. Vivia ao pé do pavilhão Infante de Sagres, que tem uma equipa histórica de hóquei em patins. Tinha patins e stick e íamos jogar para o ringue, à tarde. Eu patinava bem. O hóquei em patins era muito popular na altura. Sim, eu era muito físico também, nunca fui rato de biblioteca. Mas, ao mesmo tempo, recitava poesia.
E em peças de teatro na escola, participou?
Sim, ocasionalmente. Ainda estive três anos na Universidade do Porto [em Economia] e inscrevi-me logo no Teatro Universitário do Porto.
Já então o palco.
Completamente. Sempre tive esse ímpeto, esse gosto, que grassava também um bocado na família. A minha mãe representava em casa. Fazia versos com uma facilidade extraordinária, fazia-os sempre que iam amigos lá em casa.
Vem daí a veia…
Claro, também vem daí. Estas coisas são inatas, mas são também fruto de muitas leituras. O meu pai ficava desesperado porque o meu irmão mais novo não tinha lido um livro. Eu li O Crime do Padre Amaro com 13 anos. Os meus pais eram queirosianos ferozes. Havia um bocado aquela rivalidade do Eça e do Camilo, e eles eram da fação Eça. Nem sou dessas guerras, mas, embora reconheça que o Camilo é primoroso a escrever, sempre me interessei mais pelo Eça. Li tudo. Líamos também muita literatura estrangeira, traduzida. Nessa altura estava muito na moda o Somerset Maugham. Aconteceu uma coisa muito triste. Atrás do sofá favorito do meu pai, havia uma estante até ao topo da parede com os livros de que ele gostava mais. Um dia houve um incêndio com um fogão de sala e esses livros desapareceram todos.
Quais as primeiras coisas que começou a escrever? Algum diário em criança?Escrevia ficções, de vez em quando, quando era adolescente. Mas cansava-me muito.
É de pavio curto a criar.
O meu pai insistia muito comigo, “o que tu começas tens de acabar”. Talvez tenha sido isso que me levou também a escrever canções, sei lá… porque são coisas que têm princípio, meio e fim. Não consigo estar muitas horas a fazer a mesma coisa. Sou, de facto, de pavio curto.
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Na última década, tem uma produção notável em termos literários, 3 romances, 2 livros de poesia, dois de contos — um deles é o recém-editado Como Se Não Houvesse Amanhã.
Aí foi uma espécie de dique que se abriu. Assim como se abriu há muitos anos para as canções. Houve uma certa altura em que só conseguia escrever em francês. Quatro canções que estão no meu primeiro disco, Os Sobreviventes, tinham tido letra primeiro em francês. Até que se abriu esse dique do português, de perceber que me era natural escrever em português.
Em Paris.
Em Paris. Lá, eu tinha conhecido bem o Zé Mário Branco, o Luís Cília, embora este tenha sido só um amigo, não colaborei criativamente com ele. Mas com o Zé Mário começámos a trocar música e letras muito rapidamente. O Zé Mário estava já a compor, estava um bocadinho mais adiantado do que eu a nível criativo. Tínhamos, como é evidente, uma consciência em termos de ideias contra o regime. Nem eu nem o Zé Mário podíamos voltar a Portugal, a não ser recambiados diretamente para África. Nunca entrei, como o Zé Mário e muitos outros, em partidos políticos ou mini-partidos, partidos maoístas — havia uma fragmentação muito grande. Sempre fui um bocado freak.
Freak em que sentido? Hippie?
Nunca fui hippie. Embora o Hair falasse de hippies. Nunca fui hippie porque sou do Porto, sou mais do granito. Também gosto de flores. E do mar. Mas, para mim, a paisagem também são os elétricos. Aos seis anos já andava de elétrico sozinho, atravessava a cidade para ir visitar os meus avós. De qualquer maneira, era freak no sentido de desalinhado, no sentido de ter também experimentado várias drogas.
Como por exemplo?
Haxixe, evidentemente, e também LSD, que apareceu na altura — e que ainda por cima tinha um grau de pureza grande. De facto, abriram-me a cabeça de uma maneira que não posso negar.
Artisticamente?
Nunca quis valorizar muito isto, porque não são as drogas que me tornam numa pessoa criativa. Agora só bebo vinho, mas durante muitos anos bebi whiskey. Nunca foi de cair de caixão à cova e não acho que o álcool tenha sido muito criativo na minha vida.
Mas é desinibidor.
É evidente que uma conversa com os copos e tal é desinibidora, sim. No fim de contas, também estamos aqui a conversar, e isso é desinibidor. De manhã, por exemplo, não gosto muito de fazer entrevistas. Sou mais da tarde e da noite do que da manhã e do início da tarde. De manhã, é para fazer coisas que tenho de fazer, como ir às compras ou ir ao banco. Para criar, o ideal pode ser à tarde, se for a música, porque é uma coisa de várias artes, várias formas de expressão: é a própria música, é as palavras — é uma espécie de joalharia. À noite, é para escrever ficção narrativa. É o ideal. Gosto muito, pára tudo. Já não se passa nada, pode haver um fenómeno ou outro, mas… há outro silêncio. Mas não até às tantas.
Quanto à criação de música, compôs sempre primeiro a parte instrumental e escreveu depois as letras?
90% das vezes. Porque aí já a frase está a adaptar-se a uma cama musical. Daí todas as métricas… a cadência da frase é já musical.
Daí tantos versos de letras suas se terem tornado como que hinos?
Não sei se a palavra certa é hino…
Referia-me à possibilidade de haver pessoas a usar expressões como “A liberdade está a passar por aqui” sem saberem que é sua.
Como “Cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas”. Mas não é um hino.
São expressões idiomáticas.
São idiomáticas, são expressões do dia-a-dia, transformadas. Há canções de um teor mais social, como é o caso da ‘Liberdade’ — “a paz, o pão, habitação, saúde, educação”. Aí, digo que só há liberdade séria quando houver liberdade de mudar e decidir. Isto aplica-se a muitas coisas, mas pensemos em todos os casos de violência doméstica. O meu segundo romance, Estocolmo, fala da síndrome de Estocolmo, que eu eu inverti. Uma mulher de 40 anos seduz um rapaz e ele não consegue libertar-se daquilo. Está preso àquela mulher com o dobro da idade dele. Ela faz dele prisioneiro, mas há duas ou três vezes em que não fecha a porta à chave e ele não sai. Na violência doméstica, há um pequeno poder, e isto é um bocadinho cruel o que vou dizer, no facto de se desculpar o outro.
Porque existe esperança que o outro mude.
Claro que se acha sempre que vai mudar, mas tem-se esse pequeno poder.
Vai ser o homenageado desta edição da Feira do Livro do Porto.
Sim. Vai haver uma tília minha na Avenida das Tílias, que terá uma frase minha. Depois, vou dar também um espetáculo. E vai haver ainda o lançamento do livro Como Se Não Houvesse Amanhã. Provavelmente, vai ser projetado o filme Kilas, o Mau da Fita. Não sei quem é que disse que, a partir de uma certa idade, sofre-se muitas homenagens. Sofre-se. No ano passado, fui doutor honoris causa pela Universidade de Aveiro e este ano vou sê-lo também pela Universidade da Beira Interior. Eu, que nunca acabei um curso, agora sou doutorado.
Houve algum momento em que se tenha apercebido de que a finitude é uma realidade?
Faço 80 anos, não é? Sei que isto é uma abstração, 80 anos. Às vezes, sinto que tenho já a experiência adquirida de 80 anos e mesmo esta questão da mobilidade… ando aqui com um problema no tornozelo, não tenho a agilidade que tinha. Há coisas que se vão degradando. Felizmente, a cabeça, até ver, continua bastante boa. Faço os meus concertos, não leio as letras. Tenho-as todas aqui [aponta para a cabeça]. E isso é bom. É uma boa ginástica. Agora, olho para estes 80 anos e penso “já não falta assim tanto tempo como isso”.
Da vasta obra que tem, dos discos aos livros e aos filmes, sente que algum deles que não seria bem aceite se fosse hoje lançado, publicado ou estreado?
Não… Há canções que deixaram de fazer sentido. A canção ‘Os pontos nos iis’, que fala da Reforma Agrária, já não fará sentido cantá-la. No entanto, é uma boa canção. Mas é um excesso de nostalgia. A Reforma Agrária foi um projeto que houve a seguir ao 25 de Abril, de cooperativas.
Mas seria uma ideia para o futuro?
Não sou um missionário, nem faço futurologia. Não prego. As coisas têm o tempo que têm, viveram no tempo que viveram. A seguir ao 25 de Novembro, houve um movimento de uma nova direita, que veio a mais tarde a ser corporizado no semanário O Independente, na não passagem das canções na rádio. Isso foi bastante patente depois do 25 de Novembro. Mas, ao mesmo tempo, acho que havia também um qualquer respeito por mim. Eu, de certo modo, ajudei a abrir cabeças. Muitas cabeças dessa jovem direita reconheciam, apesar de tudo, a qualidade do meu trabalho. Diziam “alto lá, este tipo pode ser de esquerda e nós de direita, mas este tipo é bom”. Estás acima de ideologias.
Quanto ao 25 de Novembro, e ao Verão Quente [ambos em 1975], assistimos hoje a abordagens polarizadas sobre essas e outras datas.
Demoniza-se muito o Verão Quente de 75, o 25 de Novembro. Viu-se agora os partidos de direita a quererem dar-lhe uma importância que o próprio Vasco Lourenço veio dizer “calma, que não passa por aí”. Uma coisa é o 25 de Abril, outra coisa é…
Viveu esses momentos. Do que mais se lembra?
A minha memória é precisamente essa. É evidente que houve uma exacerbação a seguir ao Verão Quente, que levou ao gonçalvismo, etc. Essa exacerbação favoreceu uma reação, como quando se começaram a destruir as sedes do Partido Comunista. Foram muitas, sobretudo no Norte. Há agora uma exposição absolutamente espantosa. Já foi ver?
A que está em Almada sobre a revolução em 1974 e 1975, retratada por fotógrafos estrangeiros? Chama-se Venham Mais Cinco.
É uma exposição absolutamente espantosa. Tem uma fotografia do Sebastião Salgado, com os tipos a atirarem papéis para a rua… Aliás, as fotografias que estão lá do Sebastião Salgado são absolutamente espantosas. As de outros também — os franceses são extraordinários —, mas aquela luz… a preto e branco, muito contrastado…
Fê-lo voltar a ter as sensações da altura?
Aquilo é, obviamente, o retrato do que eu vivi. Os cantores nem estão ali representados. Fizemos muitos espetáculos na ocasião. Eu, o Zeca [Afonso], o Adriano [Correia de Oliveira], o Zé Mário [Branco], o Vitorino, o Fausto… Fizemos muitos espetáculos na ocasião, com uma grande satisfação, com grande convivência e cumplicidade. Mas, ao mesmo tempo, com uma grande insatisfação, pelas condições precárias em que trabalhávamos. Trabalhávamos à borla. Houve um tipo, que o Zeca admirava, o Camilo Mortágua, que disse “isto não pode ser assim”. O Camilo Mortágua era um organizador, um concretizador. O Zeca queixava-se muito, mas o Zeca ia a todas. Fazia de graça, mas queixava-se, “isto não são condições”, “um gajo qualquer dia…”. Uma vez vieram ter uns tipos com ele para lhe dar uns dinheiros e ele disse-lhes “eu tenho lá em casa uns filhos que não põem ovos”. O Zeca tinha um humor espantoso. O Camilo Mortágua fez uma coisa chamada Era Nova. Criou uma estrutura, com o Zeca, comigo, com o Vitorino, com o Fausto. A primeira ação que foi uma tournée, comigo e quatro músicos, chamada Sete Anos de Canções. Aconteceu sete anos depois do meu primeiro disco, Os Sobreviventes. O espetáculo percorreu vinte cidades, com condições. A aparelhagem hoje em dia seria considerada bastante primitiva. O subtítulo do espetáculo era Duas Horas de Espetáculo. E, pronto, isso lançou as bases para algo mais profissional e que pouca gente estava a fazer.
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Nunca sentiu vontade de voltar a sair do país?
Uma vez que voltei… Eu sentia-me bem. O 25 de Abril foi, como disse muito bem a Sophia [de Mello Breyner Andresen], “o dia inicial inteiro e limpo”. Mas depois, tudo é mais sujo. E eu vim para uma cidade que não conhecia. Tinha estado cá uma vez com os meus pais, em adolescente. Gosto de descobrir cidades. Tinha descoberto outras. Assim como gosto de voltar ao Porto. Alguém me perguntou se não seria natural eu voltar para o Porto. Nunca tinha pensado nisso.
E continua a não pensar?
Não. Disse “já fiz essa cadeira”. Vivi os 20 anos no Porto, gosto muito de lá voltar. Está feito.
Sente-se de Lisboa?
Não sei de onde sou. Sou do mundo. Sinto-me muito bem em Lisboa. Tenho os meus filhos cá… A minha filha mais velha nasceu em Vancouver, mas veio para cá com 10 meses. Tenho 3 filhos. A minha filha mais velha tem 3 filhos. Vivem em Lisboa.
É importante tê-los por perto?
Claro. Facilita a convivência. Mesmo quando eles estavam nos liceus, nas escolas, nunca estive longe. Eles não são da mesma mãe. Portanto, mantive sempre um perímetro em que era acessível a convivência. Sempre fui muito presente como pai. Fico muito contente porque eles são grandes, grandes amigos. Sabe muito bem. E também houve as mães, como é evidente. Houve e há.
Não se sente desencantado com o fenómeno da gentrificação?
Lisboa é uma cidade atraente. Acho natural que haja turistas. Se eu for a Roma, está cheio de turistas. E eu gosto de ir a Roma. Também fui turista em muitos sítios. Assim como fui emigrante. Portanto, quando se fala mal dos imigrantes… quer dizer, fomos e somos um país de emigrantes. Fui emigrante e tive de me adaptar a países diferentes. Aprendi muito com isso, aprendi línguas.
Lisboa é também uma personagem para si?
Tenho uma canção que se chama ‘Lisboa que amanhece’. Fala sobretudo da noite — e do fim da noite. As dádivas da noite são imensas, quando tudo pára, “O vento, enfim, parou/ Já mal vejo/ Por sobre o Tejo. E já tudo pode ser/ Tudo aquilo que parece/ Na Lisboa que amanhece”. É o fim da noite, que eu nem costumo viver muito. É curioso porque esta canção foi cantada numa coisa de voz e guitarra pelo Rui Veloso [natural do Porto]. E depois foi cantada n’O Irmão do Meio [álbum de 2003] por mim e pelo Caetano Veloso. Os dois Velosos são estranhos à cidade. Estranhos, mas ao mesmo tempo familiares. Com o Caetano, dei-lhe duas ou três músicas para escolher, mas sabia que ele ia escolher essa.
Porque é que sabia que ele ia escolher essa?
Porque acho que ele tem uma relação com Lisboa.
Tem dois livros de poesia. Como é que traça o limite entre os versos que dão em poemas e os versos que dão em letras de músicas?
Um é O Sangue por um Fio [ed. Assírio & Alvim, 2009] e é só poemas. E tenho também o Palavras São Imagens São Palavras [ed. Quetzal, 2021], com poemas que nasceram da imagem, de fotografias. Nas canções, há uma espécie de casamento misterioso que nem sei definir, mas há alguma coisa que é comum. Tenho muitos poemas que não estão publicados. São coisas dispersas e que algumas ainda mereciam ser buriladas.
Já lhe aconteceu resgatar alguns desses poemas, quando precisa?
É caso a caso. Aconteceu no Palavras São Imagens São Palavras.
O último livro que publicou, de contos, Como Se Não Houvesse Amanhã, são histórias de suicídio.
Tinha esse propósito de base: queria escrever sobre suicídios. São quinze contos que falam de suicídios, mas não quer dizer que sejam todos consumados. Há dois que não são. Não tenho nenhum ímpeto suicida. A morte e o dar-se à morte é, digamos, uma coisa que acho interessante dramaturgicamente. Acho que o ato é uma decisão muitas vezes solitária, muitas vezes inexplicável. Em muitos dos contos, não há nenhuma circunstância muito psicológica que o explique. N’O Estrangeiro, o livro do [Albert] Camus, ele mata, não sabe bem por que mata. Estava ao sol, era meio-dia, ele está ali e mata-o.
Tem um lado de absurdo.
Percebo esse absurdo. Há pessoas que têm um ímpeto. Há um conto em Como Se Não Houvesse Amanhã em que um homem e uma mulher brigam e ela sente que tem de se matar. Não há muita explicação para isso. Há mais que um conto em que pessoas sentem que têm que se matar. Há esse drive. É uma decisão que se pode dizer que é para a vida. Há também um conto em que a palavra suicídio é um bocado falsa, quase despropositada, porque, de facto, é o caso de uma mulher que morre com Alzheimer. Digo que é um suicídio do corpo. A cabeça e o corpo começam a desfuncionar. Acaba por ser um suicídio, no sentido em que nada rima com nada. Tudo começa na cabeça, começa com uma série de pequenos sinais em termos de orientação, que depois se propaga pelo corpo. Conheço vários casos. Às tantas, já estamos na cama, não nos conseguimos levantar, já não conhecemos ninguém. É nesse sentido que digo que é um suicídio. E o título do livro, Como se Não Houvesse Amanhã, está bem. Gosto deste título. Era o título de um conto. Só que eu não gostava muito desse conto.
E não entrou?
Matei-o. Suicidei-o. Achava que era um bocadinho forçado, não interessa agora estar a explicar. Não voava tão alto como os outros. É algo muito libertador. Já fiz isso com canções. Coisas com que não estou completamente satisfeito.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Não falámos de amor, tão central no seu trabalho. Consegue ser muito cerebral a exprimir sentimentos, nas letras das suas canções. Daí serem tão claras, tão poderosas.
Na ficção narrativa, há uma lógica. Nas canções, há também uma lógica qualquer que tem a ver com os conceitos, as dinâmicas, os encaixes. Há canções que são sobre um determinado tema, muito fixamente. ‘Fotos do fogo’ [Tinta Permanente, 1993] fala da guerra. Depois, há canções em que não sei bem qual é o tema. Também gosto disso. Em ‘Grão da mesma mó’ [Nação Valente, 2018], não sei bem qual é o tema. Fala da vida. Assim como ‘Espalhem a notícia’ [Canto da Boca, 1981]. Começou por ser uma canção que fala do ventre, mas, de repente, aparece uma criança. E o refrão é erótico: “Eu fui ao fim do mundo/ Eu vou ao fundo de mim/ Vou ao fundo do mar/ No corpo de uma mulher”. Não sei muito bem do que fala essa canção. Às vezes, é uma coisa mínima que desencadeia. ‘Espalhem a notícia’ veio da canção que Frank Sinatra canta que é “Start spreading the news”. Achei que era um bom começo. São mistérios. A criação é um bocado misteriosa. Muitas vezes, a gente não sabe como é que as ideias aparecem, como é que elas se corporizam.
O amor é sempre muito transversal na sua obra.
Até tenho um disco chamado Biografias do Amor [2001], que é uma compilação. Fala-se muito de amor.
O amor continua a ser algo de indefinido, para si, passadas oito décadas?
Melhor que o amor só mesmo… Tenho uma canção chamada ‘Melhor que o amor’ [Tinta Permanente, 1993]. É um conceito de tal maneira abrangente… O amor, o que é que é isso? Faço 80 anos e não consigo, nem quero, chegar a conclusões.