É um dos postais mais usados para “vender” Lisboa lá fora. Ainda em janeiro deste ano, na Feira Internacional de Turismo de Madrid, o stand reservado ao Turismo de Lisboa tentava captar atenções com a imagem de um dos veículos amarelos que sobem as colinas da capital, “e se não estou em erro era este”, diz ao Observador Carla Salsinha, presidente da Entidade Regional de Turismo de Lisboa (ERT-RL). “Temos vários quando vamos lá fora e um deles é este”. “Este” é o Elevador da Glória, um “postal” da cidade que na tarde desta quinta-feira se transformou no cenário de um acidente trágico. No setor do turismo, a preocupação inicial rapidamente se transformou na crença de que o impacto na atração de visitantes será limitado. Já em relação aos elevadores e elétricos da capital, dizem os responsáveis, poderá existir alguma desconfiança.
“Não acredito que quem tinha viagem marcada para cá vá mudar ou deixe de vir”, afirma Carla Costa Reis, empresária no setor do alojamento local, onde a reação ao acidente foi imediata. Pouco depois de terem sido transmitidas as primeiras imagens do acidente, Carla Costa Reis, uma das fundadoras da Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP), apelou aos mais de 80 mil membros do grupo Alojamento Local – Esclarecimentos, que administra, que enviassem uma mensagem aos seus hóspedes. “Foi logo. Para garantir que eles estavam bem e também para eles saberem que há alguém que se preocupa e que, caso tivesse acontecido alguma coisa, saberem que nos disponibilizávamos para ajudar”.
Não foi o caso, “felizmente”, conta Carla Costa Reis ao Observador. “Não tenho conhecimento de colegas que estivessem a alojar alguém que tenha sido afetado. Embora a probabilidade seja elevada, se o AL representa metade dos alojamentos…”. De vários hóspedes, recebeu fotografias “a dizer que estavam a passar ali quando aconteceu”, ou mensagens a perguntar se havia constrangimentos no trânsito. Também se multiplicaram os contactos de antigos hóspedes que só queriam saber “se está tudo bem”.
A responsável também contactou “de imediato” a plataforma AirBnB, conta, “para lhes dizer que têm o dever moral de mandar uma mensagem a todos os hóspedes com uma reserva atual em Lisboa”.
▲ O setor do turismo acredita que o acidente no Elevador da Glória terá um impacto limitado no turismo.
AFP via Getty Images
A ALEP enviou, igualmente, aos seus associados um apelo semelhante. Contactado pelo Observador, o presidente da associação, Eduardo Miranda, não quis fazer mais comentários sobre o possível impacto do acidente para o setor, por considerar não ser ainda “o momento apropriado”.
Setor sem cancelamentos, só “solidariedade”
Na hotelaria tradicional, a perspetiva não é muito diferente. Não há registo de cancelamentos de reservas para Lisboa nem sequer de contactos “no sentido de perceber se existem riscos”, adianta Fernando Garrido, presidente da Associação dos Diretores de Hotéis de Portugal (ADHP). O responsável conta que recebeu, sim, várias mensagens de congéneres europeus “a demonstrar solidariedade”.
Quanto à possível alteração da perceção dos turistas em relação a Lisboa, numa altura em que as imagens do ascensor desfeito correm o mundo, Fernando Garrido defende que “tratando-se de um acidente, o impacto é mais ténue” nas pessoas e possíveis visitantes. “Embora seja preciso perceber se há aqui contornos de falta de cuidado na manutenção destes equipamentos”, salienta.
Para o responsável, “a boa resposta das entidades de segurança e de emergência médica é de enaltecer”, o que também pode contribuir para que Portugal continue a ser percecionado como um país seguro. “Houve outro tipo de incidentes noutras cidades e noutros países que tiveram um impacto grande por terem sido forças terceiras a criar esses incidentes”, destaca. Mas neste caso, “trata-se de situação isolada e compreendida pelo cliente internacional que se tratou de um acidente”, sublinha, lembrando o acidente com um autocarro na Madeira, em 2019, no qual morreram 29 pessoas, a maior parte turistas, e que não teve impacto no turismo da região.
Será “mais produtivo perceber rapidamente se houve ou não negligência” do que, por exemplo, apostar no reforço da promoção de Lisboa e de Portugal como um destino seguro. Ainda assim, acredita Carla Salsinha, é “provável” que isso aconteça. Numa cidade que recebe anualmente mais de cinco milhões de turistas estrangeiros, segundo números do INE de 2024, e que tem na taxa turística uma fonte de financiamento cada vez mais relevante (quase 50 milhões de euros em 2024), vai ser preciso passar mensagens de “confiança” e a “tranquilidade”.
“Há uma preocupação, estamos a falar de Lisboa, que é considerada uma cidade segura, e onde sempre tivemos muita segurança nos nossos equipamentos, museus, salas de espetáculos, transportes…”, diz a responsável da ERT-RL.
“Eu acredito que os turistas percebem que foi alguma falha que vai ser resolvida e que podem continuar a visitar a cidade com toda a tranquilidade e segurança. Mas temos de fazer essa transmissão de confiança e tranquilidade”. O plural, para Carla Salsinha, aplica-se à Câmara de Lisboa, à Carris, à polícia e aos vários agentes do setor do turismo. “Temos de transmitir aos turistas que o que aconteceu não é algo que os deva preocupar”. Para que isto aconteça, é preciso que seja feito um “inquérito com celeridade e total transparência”. Os resultados da investigação “vão fazer toda a diferença”.
Elétricos vazios. “Os turistas não sabem a diferença”
Admitindo “alguma apreensão numa primeira fase, nomeadamente para quem está a chegar agora a Lisboa”, Carla Salsinha crê que esta vai ter reflexo “em particular nos equipamentos” semelhantes ao elevador da Glória, como os ascensores do Lavra, da Graça e da Bica, o elevador de Santa Justa mas também os elétricos, como o popular e concorrido 28, “que são a imagem de marca da cidade e um dos produtos que mais promovemos”.
Carla Costa Reis conta que testemunhou isso mesmo essa manhã no Chiado. “O que se vê hoje é que os elétricos amarelos estão vazios. Os turistas não sabem a diferença entre um funicular e um elétrico. Há muita gente que tem a sua atividade económica suportada pela imagem do elétrico, que tem o seu apartamento com uma varanda para o elétrico… Aqui vai haver impacto, porque deixou de ser um ativo para passar a ser um azar. Se é um símbolo da cidade, é também um símbolo desta tristeza toda”.
A especialista, que elogia a iniciativa de Carlos Moedas de parar temporariamente os restantes ascensores da cidade, acredita que nos próximos tempos “quem trabalha em turismo vai ter de ser muito inteligente para perceber como dar a volta”, e defende que a aposta deve ser na “promoção da segurança do destino e em muita transparência sobre o que está a ser feito”. “Como operadora do setor, espero que o foco não seja encontrar um bode expiatório, que nunca ajuda a resolver nada e só impede que as verdadeiras causas sejam procuradas. E que não se caia na tentação de fazer aproveitamento político, uma vez que estamos a um mês das eleições”, conclui.
Por todo o setor, a mensagem que se quer passar é de esperança. “Infelizmente, acidentes, naturais e outros, em locais e cidades turísticas e outras, acontecem em qualquer parte do mundo”, diz Cristina Siza Vieira, vice-presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal, numa declaração escrita enviada ao Observador. “É preciso serenidade para avaliar as causas, agir com rigor e celeridade e comunicar com rigor e transparência. Portugal é e continua a ser um destino seguro, moderno e com as melhores práticas. A confiança dos visitantes em Lisboa e em Portugal não será, por isso, abalada”, acredita. “E os profissionais do turismo português, e os lisboetas, são pessoas resilientes e acolhedoras que saberão, também agora, responder com responsabilidade e esperança”. Para que o “amarelo” volte a ser um postal.