Página 135, 45.º capítulo (“O meu funeral”) do livro “Azul até ao Fim” de Jorge Nuno Pinto da Costa.
“Parece mórbido que, ainda vivo, escreva sobre isso. Parece mas não é, pois a única certeza que temos desde que nascemos é um dia, mais tarde ou mais cedo, morrer. Por isso penso que o funeral não pode aparecer aos nossos entes queridos, repentina e inesperadamente, num momento em que todos ficam alterados e muitas vezes sem reação. Por isso, para que não tenham problemas a acrescentar à dor (que uns mais, outros menos, terão), deixo já tudo tratado, com as referências às minhas vontades.”
Foi desta forma que, no último livro que escreveu, e que coincidiu também com a última aparição pública que teve falando à imprensa, Pinto da Costa balizou aquilo que queria para o dia em que partisse. Tudo pensado ao pormenor, tudo idealizado com detalhe, tudo tratado sabendo que essa hora estava mais próxima.
Apenas numa página, o antigo presidente do FC Porto revelou que o caixão estava “tratado e pago”, que gostaria de ser cremado, que pretendia ver depois as cinzas lançadas na Azinheira ao lado da capelinha de Fátima numa cerimónia simples, que não queria qualquer sinal de luto ou preto mas sim tudo de azul, que a Missa de corpo presente fosse na Igreja de Santo António das Antas, que levaria por cima do caixão uma bandeira do FC Porto que tinha em casa e que seria depois entregue pela mulher ao amigo Marcos Polónia.
De seguida, mais uma página apenas para falar quem gostaria ou não de ver no funeral.
“Gostava de ter ao meu lado o António Henriques, o Pedro Pinho, o Quintanilha, o Fernando Póvoas, o Luís Gonçalves, o António Oliveira, o Hugo Santos, a Sandra Madureira, o Fernando Madureira, o Caetano e o Marcos Polónia. Quero que seja uma reunião de amigos e ninguém possa tirar o espírito positivo dela.
Mas porque tanto prejudicaram a paz nos meus últimos dias, não gostaria que lá estivesse alguém da atual direção do clube. Nenhum dos ex-jogadores que sempre estiveram comigo e me traíram (por exemplo, Helton, Maniche, Eduardo Luís, André, Sousa). Poderia acrescentar mais alguns nomes como Antero Henrique, Raul Costa, Joaquim Oliveira, Tiago Gouveia e Pedro Bragança mas não é preciso porque estou certo que não terão lata para lá ir. Nem as casas como a de Famalicão, Espinho e Marco de Canaveses quero que hipocritamente vão homenagear quem traíram.
Por fim, não gostaria de ter no meu funeral representantes dos canais televisivos (exceto a SIC) que sempre me ofenderam e trataram mal. Os jornais, que tiveram sempre a obsessão de me destruir (A Bola, Record, Correio da Manhã), se aparecerem será uma ofensa a todos os que me amaram. O povo anónimo que me amou será um conforto para a minha família e para os meus amigos. Os que lá iriam para se mostrarem (ex, Rui Moreira), que fiquem em casa a redigir mensagens cheias de amizade.”
Era este capítulo que abria dúvidas em relação às cerimónias fúnebres de Pinto da Costa em relação ao “atual” FC Porto. Que milhares e milhares de pessoas iriam deslocar-se ao Dragão e à Igreja das Antas, não havia dúvidas. Que muitos amigos que conviveram e trabalharam com o antigo líder marcariam presença, também não. E André Villas-Boas, presidente do clube e da SAD? Era aí que entroncava a dúvida.
Quando soube da notícia da morte de Pinto da Costa, André Villas-Boas reuniu todo o grupo que estava em estágio na Quinta do Lago, no Algarve, comunicou o que tinha acontecido provocando um momento pesado e de consternação para quem tinha privado com o antigo líder e decidiu arrancar de imediato para o Porto. Chegado à Invicta, deslocou-se ao Dragão, teve uma primeira reação no Porto Canal, já tinha tratado do artigo de opinião que saiu este domingo no Jogo e no JN e foi falando com dirigentes e funcionários do clube para saber o que podia ser feito em homenagem ao “Presidente dos Presidentes”. Foi nessas conversas que nasceu a ideia de abrir as portas do Estádio do Dragão para uma derradeira homenagem, o que permitira que mais adeptos marcassem presença e que todos os funcionários, incluindo atletas de todas as modalidades, tivessem outro espaço que a passagem da carrinha fúnebre à volta do recinto não daria.
A ideia continua dependente da aprovação ou não da família. A possibilidade de Villas-Boas comparecer no momento também. E foi o próprio presidente do FC Porto que se adiantou ainda no Algarve para esclarecer aquilo que sempre foi a sua ideia: respeitar a vontade de Pinto da Costa, não deixando de tomar posição como líder do clube sobre o legado que deixa, a não ser que do núcleo do ex-presidente viesse outro sinal. Assim, e para este domingo, aquilo que ficou definido era que toda a estrutura do futebol iria à Igreja das Antas e que depois André Villas-Boas, Direção e SAD juntar-se-ia ao grupo no memorial que entretanto foi formado junto ao Dragão. Já em relação ao funeral, qualquer mudança dependerá sempre da família.
“Os meus sinceros pêsames. A equipa vai prestar homenagem chegando ao Porto e amanhã [segunda-feira] também estará no funeral. Vamos ter todos muitas saudades, será para sempre o presidente dos presidentes. Traz muitas e boas memórias, não só de vitórias, mas de ironia, sagacidade, palavra e capacidade de fazer os portistas sonharem mais alto”, começou por referir antes da partida da comitiva para o Porto.
“O FC Porto disponibilizou o seu estádio. Gostávamos muito de ter Pinto da Costa connosco, evidentemente temos de respeitar a vontade da família. Temos estado em contacto no sentido de garantir que pelo menos os portistas se possam despedir uma última vez. Compreendendo o momento de dor para toda a nação portista, mas principalmente para a família. Queremos dar espaço à Joana e ao Alexandre para decidirem em conformidade e pensarem o que é melhor para o seu pai. Gostaríamos muito que o cortejo fúnebre passasse junto ao Dragão, mas vamos respeitar toda e qualquer decisão. Temos indicação da polícia que o carro irá descer a Alameda na direção do estádio. Gostávamos muito que entrasse e o presidente estivesse no estádio que construiu, tocando o hino do FC Porto nesse momento. É o máximo respeito que lhe podemos prestar”, explicou André Villas-Boas, antes de explicar a sua posição em relação ao funeral.
“É um momento um pouco sensível. Tenho muito apreço por Pinto da Costa e pela declaração que teve. Não quero hostilizar o momento solene a estar aqui a tentar ir contra a sua palavra. Foi uma palavra direta e clara, pretendo respeitá-la e assim será também se o cortejo fúnebre se deslocar ao Dragão. Repensarei se a família assim quiser, mas foi palavra dita ainda em vida e tenciono respeitá-la”, referiu.
“Pinto da Costa marca o portismo de muita gente, seguramente o meu. Não é só ironia e sagacidade, é toda uma cultura de vitória numa instituição, de adepto para adepto, de sócio para sócio. Algo que cresceu dentro de nós e moldou princípios e valores. O seu legado não são apenas vitórias e o património de títulos e obra que deixa no FC Porto. São princípios e valores que moldam o FC Porto e o nosso portismo”, completou o presidente dos azuis e brancos depois da vitória dos dragões frente ao Farense por 1-0.