O que é a eco-ansiedade?
É uma resposta emocional adaptativa à crise climática e à degradação ambiental. Traduz-se por preocupação, medo, raiva, tristeza ou culpa, sentimentos que flutuam entre extremos que, por um lado, podem levar ao envolvimento na causa climática ou, por outro, a emoções difíceis de gerir devido à sua intensidade.
Em todo o caso, não é preciso haver uma exposição direta a eventos extremos, como cheias, secas, incêndios, para sentir eco-ansiedade. Basta a simples perceção do fenómeno através da exposição contínua a informações e notícias transmitidas pela comunicação social.
Para Teresa Raquel Pereira, doutorada em Psicologia Aplicada, que coordenou o guia digital Teenager Climate Guide, que integra várias reflexões sobre a crise climática, a eco-ansiedade tem sido utilizada como termo chapéu para várias respostas emocionais. “É um termo associado maioritariamente à antecipação dos efeitos da crise climática e da degradação ambiental, mas pode surgir também após a exposição direta a um fenómeno extremo.”
Como se manifesta?
Através de emoções — sobretudo medo, raiva, culpa, frustração, desespero ou todas em simultâneo — que surgem em resposta a pensamentos ou informações sobre a crise climática e a degradação ambiental.
“Engloba também sentimentos de impotência, revolta com a inação, preocupação com o futuro. Poderá ter um efeito mobilizador e envolver os indivíduos em comportamentos pro ambientais.”
Na eco-ansiedade há uma maior preocupação e recorrente procura de informações sobre o tema com implicações nas rotinas diárias, nomeadamente alterações no sono ou no desempenho escolar e ou profissional. No entanto, também pode acontecer que pessoas que expressam preocupação relativamente às alterações climáticas, quando questionadas sobre o assunto, não se envolvam de uma forma que se torne prejudicial à vida diária.
A eco-ansiedade é uma doença mental?
Não. Não é uma condição clínica e não deve ser rotulada como doença mental, uma vez que se trata de uma resposta esperada face às ameaças ecológicas que o mundo enfrenta e que a humanidade não consegue controlar.
Isto gera quase um paradoxo, segundo Teresa Raquel Pereira, na medida em que, por um lado, não é um diagnóstico clínico, e se se falar nisso, “estigmatiza-se a população e desresponsabiliza-se sociedade”. Mas o facto de não ter um diagnóstico clínico não quer dizer que não seja real, porque é, de facto, e há cada vez mais situações que o confirmam.
A psicóloga e investigadora inglesa Caroline Hickman sugere inclusivamente que se possa pensar na eco-ansiedade como uma forma de eco-empatia, eco-compaixao ou eco-cuidado, uma vez que as emoções e sentimentos traduzem uma particular conexão, preocupação e cuidado com o planeta.
Quais os impactos na saúde mental?
São vários. Sabe-se que pessoas com problemas prévios de saúde mental se encontram entre os grupos mais vulneráveis à eco-ansiedade. E quando esta interfere significativamente na vida diária, recomenda-se acompanhamento psicológico.
Eis algumas consequências:
- Respostas emocionais: sofrimento emocional, frustração, luto, preocupações com o futuro;
- Alterações fisiológicas e psicológicas: problemas de sono, vulnerabilidade do sistema imunitário, diminuição do bem-estar e agravamento de condições de saúde mental prévias;
- Condições de saúde mental: ansiedade e depressão, stress pós-traumático, ideação suicida, abuso de substâncias;
- Diminuição do bem-estar por via da degradação das relações sociais, violência e desconexão dos sistemas de apoio social.
Como lidar então com essas emoções?
Em primeiro lugar, expressar o que se sente e procurar validar essas emoções junto de familiares e amigos ou através da escrita, pintura ou outras atividades artísticas (porque são atividades que criam foco, bem-estar e favorecem a regulação emocional).
O exercício físico, jogos, caminhadas e atividades em família ao ar livre promovem um vínculo afetivo com o lugar, intensificando o envolvimento ativo na proteção do meio ambiente. “Para pessoas com maior vinculação à natureza isto pode, no entanto, significar confrontação com ameaça e exacerbar o estado emocional”, alerta Teresa Raquel Pereira. Resulta para uns, não funciona para outros.
Conversar sobre o tema e alterar padrões de consumo informativo também pode ajudar. A família é sempre importante. “No dia a dia, os pais são também chamados a apoiar os jovens na gestão emocional, ouvindo, valorizando e apoiando e promovendo uma vez mais o envolvimento em ações que não só desenvolvam sentido de autoeficácia individual e coletiva, mas também contribuam efetivamente para a ação climática.”
Os professores também têm aqui um papel ao identificarem novas formas de tornar a ação climática relevante para os mais jovens, estimulando a componente afetiva, através de formas de expressão artística, por exemplo. Com crianças, é importante partir do conhecimento que já têm, fazer perguntas, mostrar disponibilidade para discutir, não usar linguagem e imagens alarmistas e falar de forma fundamentada.
“Devemos estar atentos, conhecer o fenómeno, saber que não é uma condição clínica, mas que pode interferir significativamente com a vida diária dos indivíduos, validar emoções, sublinhando o carácter de empatia e incentivar a ação”, defende a psicóloga.
É um fenómeno novo?
O termo “eco-ansiedade” ganhou força com a publicação de um relatório da Associação Americana de Psicologia em 2017, em que a é caraterizada como sendo um medo crónico da destruição ambiental.
A partir de 2018, particularmente com as intervenções públicas da ativista sueca Greta Thunberg, em que partilhava a sua ansiedade associada às alterações climáticas, o termo tornou-se mais popular e foi alvo de um maior número de estudos.
Afeta sobretudo os mais jovens?
Sim. É mais frequente em pessoas com maior consciência ecológica, jovens e pessoas que trabalhem em situação de maior exposição ao clima, como cientistas e agricultores, que estão mais expostos aos efeitos das alterações climáticas na saúde mental.
“Existe uma maior prevalência da eco-ansiedade entre as populações mais jovens”, diz a investigadora Teresa Raquel Vieira, até pelo seu envolvimento na luta climática que os expõe mais à perceção do fenómeno. Mas também, acrescenta, “a sentimentos de frustração face à constatação de que não estão a ser dados os passos necessários neste âmbito”, e ainda porque várias dimensões da sua vida presente e futura serão particularmente afetadas por uma maior exposição no tempo a este fenómeno.
Em 2021, um estudo publicado na revista científica The Lancet, envolvendo dez mil jovens dos 16 aos 25 anos, de dez países (incluindo Portugal), concluiu que cerca de 60% dos participantes se sentiam muito ou extremamente preocupados com as alterações climáticas e mais de 45% responderam que os seus sentimentos sobre as alterações climáticas lhes afetava negativamente a vida diária.